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“Estou aqui preso. Tenho os meus pais mortos em casa, em Castanheira de Pera, mas não consigo chegar lá”

PAULO CUNHA/LUSA

Dezenas de pessoas desesperam com as estradas cortadas. Querem saber dos familiares e amigos

As cadeiras na bancada do Avelarense são azuis, como o céu que não se vê, e amarelas, da cor do fogo que tudo destruiu. Estão vazias, apesar da vista privilegiada para a encosta da serra, de onde sobem nuvens negras de fumo. Os helicópteros andam de um lado para o outro: vão carregados de água, voltam sem carga. Há pouco passaram dois aviões, carros de bombeiros…Mas ninguém quer saber. A grande preocupação de quem está em Avelar é sair depressa, mal abram as estradas. Os que aqui moram, ajudam como podem.

Por baixo da bancada, numa sala onde se chega por um corredor estreito, dezenas de pessoas almoçaram, tomaram pequeno-almoço, dormiram. Muitos chegaram aqui ontem à noite, fugindo como conseguiram do fogo que avançou a toda a velocidade e destruindo o que encontrou pelo caminho. As histórias perdem-se nas lágrimas de quem as conta, incapaz de descrever tudo, ou de recordar até ao fim. Perto do estádio, a meia dúzia metros, está o inútil cruzamento. “Tenho de sair daqui. Preciso de saber dos meus familiares”, desabafa um homem. “Não fico aqui. Não posso, nem que tenha de ir a pé”, garante a mulher dele.

Em sentido contrário, caminhando pela berma até ao IC8 lá em baixo, à procura de respostas, vai um homem que chegou às dez da manhã. “Estou aqui preso. Tenho os meus pais mortos em casa, em Castanheira de Pera… Já me confirmaram, mas não consigo chegar lá”. Os tipos que estão parados juntos aos pinos de sinalização, guardas improvisados por uma tarde olham uns para os outros. “Ouça”, dizem-lhe, “tente ir ali perguntar. O que sei é que eles podem deixar passar, mas é um risco que o senhor corre. O túnel de São Simão está cheio de fumo e não vale a pena arriscar. O homem desce, hesitante, à procura de uma solução.

Paulo Lourenço, de Lisboa, aproveitou o fim de semana para vir à terra. Está no Penim Bar, uma espécie de ponto de encontro improvisado em Avelar. Paulo não larga o telemóvel há várias horas. Mostra uma mensagem desesperada de uns amigos ingleses, que precisam de ajuda para encontrar uma mulher de 60 anos. Moram perto de Alge, freguesia de Campelos, concelho de Figueiró dos Vinhos. É mais um prisioneiro de Avelar. “Há duas frentes de fogo, e uma já cortou a entrada da aldeia. Temos lá primos e já conseguimos falar com eles. O fogo está a vir do lado de Vila Nova, Miranda do Corvo. As pessoas estão muito preocupados”, garante Paulo. Em Alge moram cerca de 30 pessoas.

Na estrada para Figueiró dos Vinhos, pelo meio da serra e a fugir ao IC8, fica Ribeira de Alge - uma terra que desde esta manhã é de sentido único. Daniel Silva fez várias viagens até à frente de fogo, transportando alimentos e água para os bombeiros, durante a manhã. A mãe chama-o para almoçar, mas ele não consegue deixar de olhar para o vídeo que fez esta manhã. “Veja ali o fogo”, diz. Chamas e fumo escondem a estrada e a cor é a mesma que se vê no alto da serra. “Para Figueiró já não dá. Se for para sair daqui temos de ir para Avelar”, explica. “Vamos ver. Se o vento virar vamos mesmo ter de ir embora”. A estrada que terão de tomar acaba em Avelar. Passando por cima do IC8, viram à direita e está ali o Penim. Paulo Lourenço voltou com três garrafas de água fresca para a família. Uma das suas primas agradece. Depois suspira. “O que mais desespera é a impotência”, diz Cristina Matos.

Lá fora só se vê fumo e a tarde parece menos dias do que noite. E a noite foi a mais trágica de sempre.