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“Eram 14 horas quando...”: cronologia de um incêndio que deflagrou como tragédia

MIGUEL A. LOPES

É já a pior tragédia em Portugal nas últimas décadas. Um incêndio deflagrou ontem ao princípio da tarde em Escalos Fundeiros, em Pedrógrão Grande, e desde então não tem parado de destruir vidas, floresta e casas. O balanço ainda provisório indica 61 mortos e o Governo decretou três dias de luto nacional. Há 16 anos, em Entre-os-Rios, morreram 59 pessoas na sequência do colapso da ponte Hintze Ribeiro.

Sábado

Eram 14h00: O incêndio deflagra em Escalos Fundeiros, concelho de Pedrógão Grande, no norte do distrito de Leiria. Nas horas seguintes, alastra-se aos municípios vizinhos de Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, alimentado pelas altas temperaturas, vento forte, baixa humidade e trovoadas secas

19h00: O IC8, entre o nó da zona industrial de Pedrógão Grande e o nó do Outão, é cortado ao trânsito. Mas não as estradas nacionais à volta. Chegam os primeiros relatos de pânico. A eletricidade vai abaixo em várias freguesias de Pedrógão Grande, há habitações em risco na vila e toda a zona fica envolta em fumo. Às 19h30 era como se fosse noite, relatam os habitantes. A manutenção das altas temperaturas e o vento forte fazem temer o pior. No terreno, 180 bombeiros, dois meios aéreos e 52 viaturas combatem as chamas.

21h30: A agência Lusa noticia o desaparecimento de um bombeiro, o ferimento de outros quatro e de vários civis. Várias aldeias ficam cercadas pelas chamas. “É impossível acudirmos a todas as aldeias. Estamos a todo o custo a ver se nos chegam bombeiros de Lisboa”, relatava o presidente da câmara municipal do Pedrógão Grandes, Valdemar Alves. O secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, vai a caminho do concelho. Na região começa-se a temer o pior.

23h45: A tragédia começa a ganhar dimensão. O secretário de Estado Jorge Gomes confirma a morte de pelo menos 19 civis. Quase todos morreram carbonizados dentro dos carros em que seguiam, na EN 236, que liga Figueiró a Castanheira de Pera. Outros morreram por inalação de fumos. O incêndio, então com quatro frentes ativas, propagou-se “de forma que não tem explicação nenhuma”, descreve.

PAULO CUNHA

Domingo

00h35: “É seguramente a maior tragédia” em Portugal nos últimos anos, declara António Costa à chegada à Autoridade Nacional da Proteção Civil.

00h40: Marcelo Rebelo de Sousa chega a Pedrógão Grande. Emocionado, abraça o secretário de Estado Jorge Gomes, diz que se está a viver uma situação “ímpar” e garante que se “fez o máximo que se podia ter feito”. Pede “ânimo” para o combate que vai continuar por longas horas e entra para uma carrinha onde se improvisa um centro de operações.

Paulo Cunha

01h30: Jorge Gomes anuncia que foi decretado o plano de emergência distrital.

2h40: O primeiro-ministro anuncia o aumento do número de vítimas mortais a 24.

3h00: Na freguesia de Avelar, em Ansião, concentram-se pessoas que fugiram das suas casas sob a ameaça das chamas. Avelar foi poupada pelo fogo e é montada aí um centro de apoio com alimentação e alojamento.

4h: O secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, informa que o incêndio de Pedrógão Grande se alastrou aos concelhos de Figueiró dos Vinhos e de Castanheira de Pêra, também no distrito de Leiria. Confirmava a existência de 25 mortos e pelo menos 11 feridos.

5h: O Governo declara estado de contingência ativa, explicitando que isso torna possível o acesso a mais meios e a "outras possibilidades para tudo o que se vier a desenrolar a partir daqui." E, a partir daqui, a tragédia só viria a aumentar.

7h: O número de vítimas mortais ascende para 39. Duas horas depois, o novo balanço dava conta de 43 mortos.

10h: São já 57 as vidas ceifadas pelo incêndio, segundo Jorge Gomes. O responsável revela também que dos 59 feridos, 18 foram tranposrtados para hospitais de Lisboa, Coimbra e Porto. E que, destes, cinco - quatro bombeiros e uma criança - estão em estado grave. No terreno estavam, como ainda estão, cerca de 800 operacionais apoiados por 244 viaturas.

10h10: O diretor da Polícia Judiciaria, Almeida Rodrigues, afasta qualquer indício de origem criminosa do incêndio e diz que este foi causado por uma trovoada seca. "Tudo aponta claramente para causas naturais, inclusivamente encontramos a árvore que foi atingida por um raio".

10h30: Começa a ser uma certeza: este é o fogo mais violento e mortífero de sempre em Portugal. Chega a ajuda espanhola, e sabe-se que os três aviões disponibilizadosm pela França ao abrigo do programa da Proteção Civil da União Europeia estão a caminho.

11h: O incêndio mantém quatro frentes ativas, das quais duas especialmente fortes, e uma neblina densa impede os aviões de prestar apoio efetivo. E, não havendo localidades em risco iminente, as condições climatéricas - ventos fortes e índices baixos de humidade - tornam a situação imprevisível. Entretanto, um centro de acolhimento e auxílio aos familiares das vítimas e aos desalojados é instalado na Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande.

11h05 A seleção portuguesa de futebol anuncia que vai jogar hoje frente ao México com fumos negros e que vai ser efetuado um minuto de silêncio antes do encontro da Taça das Confederações.

12h15: O número de mortos aumenta para 58 e, uma hora depois, volta a subir: são agora 61.

13h30: O Governo decreta três dias de luto nacional.