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Bezos: o (verdadeiro) dono disto tudo

De criança prodígio a pioneiro do comércio eletrónico, a história do visionário brilhante e arrojado que criou na internet a maior loja do mundo e está a caminho de se tornar o homem mais rico do planeta. O próximo desafio: democratizar o acesso ao Espaço

Sebastien Micke/Contour/Getty Images

O milionário Jeff Bezos, de 53 anos, tem por estes dias boas razões para soltar a sua famosa gargalhada, um rugido gutural descrito como “uma mistura entre um elefante marinho em acasalamento e uma ferramenta elétrica”. Quando o sino se fez ouvir no passado dia 2 na sessão de encerramento da Bolsa de Valores de Nova Iorque, a Amazon, que ele criou há 23 anos, escrevia mais uma página dourada da sua história: pela primeira vez, as suas ações fechavam o dia acima dos 1000 dólares (cerca de 900 euros). Para alguns analistas, o gigante do comércio eletrónico parece estar a viver a sua própria bolha: só em 2017, o valor dos títulos cresceu mais de 40%; nos últimos dois anos, quase triplicou. Com esta valorização galopante, é uma das mais fortes candidatas a se tornar nos próximos anos a primeira trillion dollar company (ou seja, com um valor de mercado de, pelo menos, um milhão de milhões de dólares).

Se as ações continuarem a valorizar a este ritmo, Bezos — que detém 17% do capital da Amazon — será o homem mais rico do mundo dentro de poucos dias. Há dois anos, ele ainda aparecia no 15º lugar da lista da “Forbes”, entalado entre Michael Bloomberg e Mark Zuckerberg, com uma fortuna de 31 mil milhões de euros. Agora, supera os 75 mil milhões, tendo enriquecido 18 mil milhões só este ano. Bill Gates, o fundador da Microsoft, que liderou esta lista em 18 dos últimos 23 anos, está agora a uns “escassos” 3,5 mil milhões de euros de distância. Parece muito, mas foi quanto Bezos ganhou nos últimos dias. O empresário, conhecido pelo seu feitio obsessivo e implacável, bem pode sorrir.

Bezos fez fortuna transformando uma livraria online num império onde hoje se pode comprar praticamente tudo, ao mesmo tempo que ajudava a tornar o comércio eletrónico mais seguro e democrático. A Amazon é hoje a quarta empresa mais valiosa do mundo (mais de 420 mil milhões de euros), só atrás da Apple, da Alphabet e da Microsoft. Em 2016, faturou mais de 120 mil milhões de euros e teve 3,8 mil milhões de lucro. Mais de quatro em cada 10 dólares gastos pelos americanos na internet foram-no no site criado por Bezos.

Na sede da empresa, em Seattle, a capital do grunge e a cidade onde nasceu Bill Gates, o empresário está já a preparar novas formas de expandir o seu império. No rés do chão do edifício, numa área com 1800 metros quadrados, está a ser criada “a loja mais avançada do mundo”. Ali, os clientes não precisam de esperar para pagar. Graças a tecnologias semelhantes às usadas nos carros autónomos — como sensores que detetam os produtos que são retirados das prateleiras —, só têm de se registar na app Amazon Go, fazer as compras e partir sem passar pela caixa, sendo a fatura enviada para a sua conta mal saem da loja. Mais simples, rápido e cómodo era difícil.

Para já, a loja é ainda um protótipo que está a ser testado por funcionários da empresa, mas quando abrir ao público irá juntar-se a uma série de livrarias que a Amazon instalou nos últimos dois anos em algumas cidades dos Estados Unidos (a última das quais em Nova Iorque, no final de maio). Apesar de o gigante do comércio eletrónico nunca ter explicado a estratégia por detrás da expansão do seu vasto império às lojas físicas — e que, especula-se, poderá abranger também o mercado das farmácias —, vários analistas acreditam que o objetivo é conseguir uma fatia maior do bolo em negócios que têm maior dificuldade em descolar online, como o da comida.

O projeto é um bom exemplo — mais um — do quão progressista e arrojado é o pensamento de Jeff Bezos, que se afirma cada vez mais como o grande disruptor tecnológico dos EUA, em áreas tão díspares como o retalho, os jornais ou a exploração espacial. Numa altura em que tantos apostam no comércio digital, ele ousa explorar novos caminhos. Há 22 anos, quando quis criar a maior livraria do mundo na internet, fez a mesma aposta “estúpida e audaz” (as palavras são dele): disponibilizou um milhão de livros, mais do triplo do que o senso comum aconselharia, o que foi vital para que a notoriedade da empresa crescesse rapidamente — os leitores foram passando palavra que era ali que estavam as obras que não se conseguiam encontrar em mais lado nenhum.

Hoje, a Amazon é cada vez mais uma presença diária na vida de milhões de pessoas, que nela encontram quase tudo o que se possa imaginar: entre os cerca de 200 milhões de produtos há mais de 36 milhões de livros, mas também discos, filmes, produtos de beleza, eletrónica, ferramentas, peças para automóveis, mobiliário, preservativos e até almofadas em forma de salmão ou perucas afro para cães. Publica os seus próprios livros, produz filmes e séries (este ano deverá gastar em TV mais do dobro do canal por cabo HBO, responsável por êxitos como “A Guerra dos Tronos) e tem marcas próprias de roupa (sete), pilhas, toalhetes para bebés e dezenas de outros produtos, incluindo colunas inteligentes ligadas a um assistente virtual ativado por voz, o Echo, que, por exemplo, controla lâmpadas e termóstatos e lê as últimas notícias.

Um miúdo sobredotado

Embora o fundador da Amazon não tenha o mesmo perfil mediático (raramente dá entrevistas) e não receba a mesma devota admiração que outros barões da tecnologia (não há filmes sobre a sua ascensão ao poder, como os que foram feito sobre Steve Jobs ou sobre Zuckerberg e o Facebook), não falta um argumento digno de um blockbuster à história de Jeffrey Preston Jorgensen, o seu nome de batismo. Começou a ser escrita ao 12º dia do ano de 1964, em Albuquerque, a cidade mais povoada do Novo México. A mãe, Jacklyn Gise, teve-o duas semanas depois de fazer 17 anos, quando ainda estava no liceu, e casou-se grávida com o pai biológico dele, Ted Jorgenson, um artista circense. O matrimónio só durou 17 meses porque Ted bebia em demasia, acabando por desaparecer da vida do filho quando este tinha apenas três anos. Pouco depois, Jacklyn casou-se com Miguel (“Mike”) Bezos, um emigrante cubano que teve uma carreira bem sucedida como engenheiro petrolífero na Exxon, e que adotou Jeff após o matrimónio. Só aos 10 anos é que o rapaz soube que Mike não era o seu pai biológico.

Jeff demonstrou muito cedo uma inteligência invulgar. “Era sempre o primeiro a levantar a mão sempre que os professores faziam alguma pergunta”, conta ao Expresso o amigo de infância Mike Copenhaver. Por isso, quando tinha 8 anos, a mãe convenceu os responsáveis da Escola Básica de River Oaks, na parte ocidental da baixa de Houston, a meia hora de carro da sua casa, a aceitarem o filho num inovador programa para alunos sobredotados, o Vanguard. Joy A. Liuzza, então diretora da escola, recorda-o como um rapaz “pequeno em estatura mas grande no cérebro”. “Era muito inteligente, sempre curioso e interessado na aprendizagem. Toda a gente gostava muito dele.”

Como era um dos alunos que vivia mais longe da escola, acordava cedo e saía para as aulas às sete da manhã. A um quarteirão de casa apanhava o autocarro público e não o escolar porque “era mais divertido e assim podia fazer das suas pelo caminho”, revela Liuzza, agora aposentada. Outras vezes, a mãe levava-o e ao vizinho Mike até à escola. “Ela conduzia uma velha carrinha, que foi mais tarde o primeiro carro dele. Muitas vezes, depois de nos ir buscar à escola, parava para nos comprar gelado”, conta Copenhaver, hoje um agente imobiliário em Houston.

Na escola, Jeff era “muito interessado pelos computadores”. A Básica de River Oaks era das poucas que tinha um na época e os alunos mais geek não perdiam uma oportunidade de o usar. “Eu e ele estávamos entre os que achávamos que aquilo era a coisa mais cool da escola”, conta Harvin Moore, um antigo colega, que agora lidera um fundo de investimento. “Éramos completamente fascinados pelo computador. Portávamo-nos bem para o podermos usar o máximo de tempo possível. Aprendemos a escrever código e adorávamos pôr o computador a fazer e a dizer muitas coisas divertidas.”

Moore recorda “a confiança e a criatividade” do antigo colega e a gargalhada dele, que se tornaria célebre. “Tinha um riso sonoro, feliz, que fazia com que nos quiséssemos rir também. Mas era também um riso muito palerma. Ele ainda se ri dessa forma engraçada!”

Em Miami, para onde a família Bezos foi viver a seguir, o agora líder da Amazon já dava mostras de estar preparado para altos voos. “Todos os professores sabiam que ele era especial e que iria chegar muito longe”, revela Cullon Bullock, um veterano professor de ciências do Liceu Palmetto, onde o adolescente concluiu os estudos, em 1982, antes de entrar na Universidade de Princeton. “Era brilhante e mostrava-o quando jogávamos xadrez. Mas não ganhava sempre”, conta Rudolf Werner, pai da então namorada de Bezos e hoje professor emérito na Universidade de Miami. “Ele e a Ursula eram muito inteligentes. Ela terminou o liceu um ano antes dele e foi a aluna com as melhores notas da escola. E ele teve as melhores notas no ano seguinte.”

A exploração espacial — hoje uma das apostas do empresário — era já então um dos seus temas favoritos. Werner recorda as suas conversa sobre “a necessidade da Humanidade estabelecer colónias extraterrestres para preservar a raça humana”. Quando acabou o liceu, depois de no verão anterior ter trabalhado num McDonald’s (odiou a experiência), juntou-se à namorada e criou um campo de férias educativo para alunos do 5º e do 6º anos. O Dream Institute (O Instituto dos Sonhos) foi o seu primeiro negócio: cada um dos seis inscritos no curso de 10 dias pagou 150 dólares.

Bezos bem pode sorrir: a sua Amazon já é a quarta empresa mais valiosa do mundo e ele está a caminho de se tornar o homem mais rico do planeta

Bezos bem pode sorrir: a sua Amazon já é a quarta empresa mais valiosa do mundo e ele está a caminho de se tornar o homem mais rico do planeta

Sebastien Micke/Contour/Getty Images

Génio de Wall Street

Depois de se licenciar em engenharia elétrica e em ciência da computação, Bezos foi trabalhar para Wall Street. Passou por várias empresas e, em poucos anos, tornou-se um dos mais jovens vice-presidentes da D. E. Shaw & Co. (DESCO), que geria um fundo de investimento e ganhara fama por contratar cientistas e matemáticos. Ele impressionara todos com o seu intelecto sagaz e uma feroz determinação — mantinha um saco-cama no escritório e um colchão de espuma no parapeito da janela, caso precisasse de dormir no trabalho. Pensava sempre de modo analítico, mesmo nos aspetos mais sociais: começou a frequentar aulas de dança de salão por considerar que isso aumentaria a sua exposição ao sexo feminino e, mais tarde, admitiu que pensava em formas de aumentar o seu “fluxo de mulheres”, uma analogia com “fluxo de negócios”, um termo financeiro que define o número de novas oportunidades às quais um banqueiro consegue aceder. Procurava uma mulher “engenhosa”, capaz de o “libertar de uma prisão do Terceiro Mundo”, e acabaria por conhecer na DESCO a futura esposa, MacKenzie Tuttle, que se licenciara em Inglês em Princeton e trabalhava na empresa como assistente administrativa. Casaram-se em 1993 e têm três filhos biológicos e uma filha adotada na China.

A ideia da “maior livraria da Terra” começou a ser desenvolvida em 1994 no quadragésimo andar de um arranha-céus nova-iorquino. Fascinado com o facto de a internet estar a crescer 2300% por ano, Bezos discutiu com o seu patrão, David Shaw, a possibilidade de criar na web uma “loja de tudo”, que pudesse servir de intermediário entre clientes e fabricantes. Porém, rapidamente concluiu que, pelo menos no início, a ideia seria inviável, pelo que o melhor seria focar-se só numa categoria de bens: os livros.

Bezos deixou então o emprego em Wall Street e fixou-se com MacKenzie em Seattle, em parte devido à reputação da cidade como centro tecnológico, mas não só: “O facto de o estado de Washington ter uma densidade populacional relativamente reduzida (em comparação com a da Califórnia, Nova Iorque ou Texas) representava uma vantagem fiscal, pois, assim, a Amazon só teria de cobrar imposto estatal sobre as vendas a uma percentagem reduzida de clientes”, explica Brad Stone, autor do livro “A Maior Loja do Mundo”, o melhor retrato até à data do gigante tecnológico e do seu líder.

A empresa começou na garagem da casa do casal, em Bellevue, na periferia de Seattle. Inicialmente, foi registada como Cadabra Inc, para evocar a magia de criar algo novo, mas o nome acabaria por ser abandonado porque, ao telefone, algumas pessoas confundiam-no com Cadáver. Bezos afeiçoou-se depois a outra designação, Relentless (implacável), um adjetivo que acabou por se colar ao seu feitio. Ainda hoje, quem escrever relentless.com na barra de endereço de um browser é reencaminhado para o site da Amazon.

O jovem empresário decidiu-se pelo atual nome depois de pegar num dicionário e começar a procurar palavras começadas por A. Teve uma epifania quando chegou à palavra Amazon: o maior rio da Terra (Amazonas), a maior livraria do mundo. O novo domínio foi registado a 1 de novembro de 1994. MacKenzie, uma romancista em início de carreira, tornou-se a primeira contabilista. Para construir o site, o jovem empreendedor convidou um veterano programador, Shel Kaphan, que aceitou um ordenado que era metade daquele que recebia na Kaleida Labs, uma joint-venture entre a IBM e a Apple para desenvolver uma plataforma de software multimédia. “Agradou-me imediatamente a ideia de fazer uma livraria na web”, conta Kaphan, que foi a primeira contratação da empresa e que Bezos chegou a descrever como a pessoa mais importante da história da Amazon. “Parecia-me um plano de negócios relativamente simples e com uma base de clientes óbvia.”

Kaphan viu nele alguém “muito esperto, afável e focado”, e com os contactos necessários para conseguir financiar eficazmente o projeto. Inicialmente, Bezos usou 10 mil dólares das suas finanças e, nos 16 meses seguintes, recorreu a 84 mil em empréstimos sem juros. Também pediu 100 mil aos pais, explicando-lhes que havia 70 por cento de probabilidades de a empresa falhar e não recuperarem o dinheiro.

Na primavera de 1995, Kaphan e um colega tinham conseguido terminar a primeira versão da página da Amazon, onde havia um logótipo concebido de forma algo amadora — um enorme A sobre um fundo azulado, com a imagem de um rio a serpentear — e a promessa de “um milhão de títulos a preços constantemente baixos”. Ele e Bezos enviaram então hiperligações da página a diversos amigos e familiares. John Wainwright, um antigo colega na Kaleida Labs, tornar-se-ia, sem o saber, o primeiro cliente. Anos mais tarde, a Amazon batizaria um dos seus edifícios em Seattle em sua honra.

“É sempre muito agradável fazer parte da história, por mais acidental que tenha sido”, admite Wainwright, atual vice-presidente da empresa de tecnologia Kollective, que ainda guarda o livro que comprou há mais de duas décadas. “Na altura estava feliz por poder ajudar o Shel. Só soube que tinha sido o primeiro cliente anos mais tarde.”

O negócio era ainda tão pequeno que, sempre que alguém fazia uma compra, ouvia-se o som de uma campainha nos computadores e os funcionários juntavam-se para ver se conheciam o comprador. Mas isso mudou muito depressa: tiveram de desligá-la ao fim de duas semanas porque não parava de tocar. Quatro anos depois, o número de clientes já superava os 13 milhões. Aproveitando a euforia em torno das empresas tecnológicas no final dos anos 90, Bezos alargou a oferta da Amazon à venda de música, filmes, artigos eletrónicos e brinquedos. A empresa sobreviveu ao rebentar da bolha do sector, em 2000 e 2001, e, indiferente ao ceticismo de muitos, expandiu-se a seguir à venda de programas informáticos, joalharia, vestuário, acessórios, artigos desportivos, peças de automóvel e muitos outros produtos. De uma livraria virtual transformou-se no retalhista de topo da internet e a principal plataforma para outros vendedores comercializarem os seus artigos — praticamente metade do que é vendido no site pertence a terceiros.

Redefiniu-se também como uma empresa tecnológica, disponibilizando, através da Amazon Web Services, serviços de computação em nuvem a clientes como o Instagram, o Netflix, a NASA, a CIA e até, durante algum tempo, a WikiLeaks. Entrou ainda no mercado dos dispositivos digitais, como o tablet Kindle Fire, concebido para ser um passaporte rápido para a coleção rica e crescente de conteúdos digitais da empresa — quase metade das suas receitas vem da venda de livros, música, programas de TV e filmes.

“Bezos é o mais impressionante e bem sucedido CEO dos nossos dias. Espanta-me constantemente a forma como ele reinventou a Amazon ao longo dos anos. Era uma livraria, depois um retalhista, depois uma empresa de computação, depois um fabricante de dispositivos digitais, e agora uma combinação de tudo isto mais uma empresa que está a indicar o caminho na inteligência artificial”, afirma Brad Stone, editor executivo na Bloomberg e antigo repórter do “New York Times”. “A Amazon já não é mais a loja de tudo, mas a empresa de tudo.”

Missionário ou mercenário?

Uma das chaves do sucesso da Amazon é a sua permanente obsessão com os clientes. “Inovamos começando pelo cliente e trabalhando ao contrário”, explicou Bezos à “Fortune”. Por exemplo, o empresário não olha a meios para oferecer o melhor negócio possível, garante Stone. Seja através da criação de um software que procura o preço mais baixo disponível na concorrência e o iguala automaticamente; seja usando subterfúgios para evitar pagar impostos sobre as vendas (só a partir de abril deste ano a multinacional passou a fazê-lo em todos os estados dos EUA); ou pressionando editores e fabricantes para espremerem as suas margens.

Para poder reduzir constantemente os preços que pratica, a empresa é também “incrivelmente frugal”, diz John Rossman, um antigo executivo. Enquanto concorrentes do Silicon Valley, como a Google, são conhecidas pelos mimos que oferecem aos trabalhadores (como comida grátis ou ginásio), os funcionários da Amazon pagam as refeições e ainda um valor pelo estacionamento nas instalações em South Lake Union. A multinacional não se destaca em termos de regalias e prémios de desempenho, embora tenha evoluído um pouco desde a década de 1990, quando Bezos — que vai para o escritório num velho Honda Accord de 1996, muitas vezes conduzido pela esposa — recusou oferecer passes de autocarro, porque não queria que os trabalhadores se sentissem pressionados a sair a uma hora razoável. Hoje, eles recebem um passe para o sistema de transportes públicos de Seattle.

 O mais que provável futuro homem mais rico do mundo quando tinha 10 anos (ao centro, atrás da placa, de calças azuis), 
na Escola Básica de River Oaks

O mais que provável futuro homem mais rico do mundo quando tinha 10 anos (ao centro, atrás da placa, de calças azuis), 
na Escola Básica de River Oaks

Cortesia escola básica de river oaks

A obsessão com os preços faz também com que a empresa opere com margens de lucro incrivelmente baixas (2%), para assim conseguir conquistar uma maior quota de mercado. A Apple, por exemplo, tem margens 10 vezes superiores: mais de 20%. “Há duas formas de construir uma empresa bem sucedida. Uma é trabalhar muito para convencer os clientes a pagar margens de lucro elevadas. A outra é trabalhar muito para poder oferecer-lhe margens baixas. Ambas funcionam. Nós estamos no segundo campo: somos a única empresa de tecnologia a funcionar com margens pequenas. Preferimos ter uma base de clientes muito vasta e margens baixas do que uma base de clientes muito curta e margens mais elevadas”, explicou o empresário à revista “Wired”.

Ao mesmo tempo, Bezos foi resistindo à pressão dos investidores para maximizar os dividendos, insistindo numa orientação a longo prazo para a empresa — os primeiros lucros só chegaram ao 10º ano de atividade. “Se tudo o que faz tem de resultar em três anos, então estás a competir com muitas pessoas. Mas se estás disposto a investir num horizonte a sete anos, então competes com uma fração dessas pessoas, porque muito poucas empresas estão dispostas a isso. Na Amazon, queremos plantar as sementes, deixá-las crescer. Somos teimosos na visão e flexíveis nos detalhes.”

Uma cultura de gladiadores

Para concretizar a sua visão, Bezos trabalha 65 horas por semana, viaja pouco e está constantemente ligado ao escritório. Nas reuniões, baniu as apresentações em Powerpoint, exigindo a todos narrativas de seis páginas, uma abordagem que diz fomentar o pensamento crítico. “Frases completas são difíceis de escrever. Têm verbos. Não é possível escrever um memorando de seis páginas, com uma narrativa estruturada, e não ter um pensamento claro.”

Superinteligente, focado no sucesso e obcecado com o detalhe, exige o mesmo nível a todos os que o rodeiam. Brad Stone descreve-o como uma pessoa charmosa e genuinamente bondosa, mas também com um temperamento implacável e um estilo de gestão demasiado duro e, por vezes, desumano. O autor diz que os funcionários vivem aterrorizados com as célebres “explosões” do seu líder — que incluem frases como “Porque estás a desperdiçar a minha vida?” e “És preguiçoso ou simplesmente incompetente?” — e com a possibilidade de serem despedidos.

Este ambiente agressivo e de intimidação foi posto a nu também numa reportagem do “New York Times” em 2015, que descreve a vida na empresa como pouco mais agradável do que num gulag soviético. Segundo o artigo, muitos funcionários são apanhados a chorar no local de trabalho. Queixam-se de serem encorajados a trabalhar demasiadas horas, a cumprir objetivos “insensatamente altos”, a confrontar colegas e a enviar feedback secreto aos chefes destes.

Bezos defendeu-se num e-mail enviado aos trabalhadores, onde acusa a reportagem de pintar “um ambiente de trabalho sem alma e distópico, onde não há lugar para a diversão e onde não se ouve nenhum riso”. “Não me reconheço nesta Amazon e espero muito que vocês também não. Não penso que uma empresa que adote a abordagem descrita pudesse sobreviver, quanto mais prosperar, no altamente competitivo mercado de trabalho da tecnologia.”

Apesar de muitos funcionários descreverem o que consideram ser “uma cultura de gladiadores”, vários outros admitem que o período que passaram na empresa foi o mais recompensador das suas carreiras. Uma vasta lista de executivos que saíram ao longo dos anos acabaram por regressar, um fenómeno descrito internamente por “bumerangue”. O milionário empresário insiste mesmo que esta cultura intensa é uma força, não uma fraqueza. Apesar disso, desde que foi publicada a reportagem, a multinacional já introduziu alguns benefícios, como um melhor programa de licença parental.

“Há aspetos da cultura da Amazon que acho profundamente desagradáveis: as suas práticas laborais, a destruição cruel de comerciantes mais pequenos, a adoração da disrupção criativa a qualquer custo — mas é difícil não ficar impressionado. O Jeff é incrivelmente inteligente e há uma qualidade implacável na sua inteligência”, diz James Marcus, empregado nº 55 da empresa. Jornalista e escritor, foi contratado em 1996 para escolher os livros que deviam aparecer na homepage e escrever pequenas resenhas dessas obras. Ficou cinco anos e recorda Bezos como uma “pessoa divertida e animada, que fazia perguntas invulgares” e que foi sempre “acessível e humano”, mesmo depois de se ter tornado multimilionário e um herói do empreendedorismo. “Ninguém gere uma empresa daquele tamanho sem se comportar às vezes como um imbecil. Raios, ninguém gere sequer uma banca de cachorros-quentes sem se comportar às vezes como um imbecil.”

Ellen Ratajak, uma das primeiras programadoras da empresa, reconhece que o empresário “tem pouca paciência para pessoas que ele acha que apresentam ideias estúpidas ou que estão mal preparadas” nas suas apresentações. “Nunca achei que ele fosse produtivo quando criticava alguém ferozmente.” Apesar desta crítica, a antiga diretora de IT da empresa assume ter “uma enorme admiração e carinho” pelo antigo patrão. “Sempre foi uma pessoa com princípios e carinhosa. Muitos dos que fizemos parte do início da Amazon tínhamos vários valores em comum com ele: nunca estávamos satisfeitos, estávamos sempre à procura de formas de inovar, de fazer crescer o negócio e de sermos mais eficientes.”

Com a cabeça na Lua

O extraordinário sucesso da Amazon permitiu ao empresário investir noutras áreas, como o seu sonho de exploração do espaço, um fascínio que tem desde os cinco anos, quando viu Neil Armstrong pisar a Lua. Em 2000, fundou a Blue Origin, que ambiciona tornar o turismo espacial mais acessível. “Se queremos realmente que qualquer pessoa possa ir ao espaço, temos de aumentar a segurança e baixar o custo. Essa é a missão da Blue Origin e estou superapaixonado por ela”, explica. Depois de muitos anos de avanços e recuos, a empresa parece finalmente pronta a descolar: espera transportar os primeiros turistas no próximo ano.

O milionário admitiu recentemente que vende cerca de mil milhões de dólares em ações da Amazon por ano para financiar este projeto, onde concorre com empresasários como Elon Musk e Richard Branson. Uma das suas propostas é retirar toda a indústria pesada da Terra e levá-la para o espaço. “Precisamos de proteger o planeta e a forma de o fazer é irmos para o espaço. A energia aqui é limitada”, disse no ano passado durante uma conferência, onde falou da sua paixão pela ficção científica. Bezos teve mesmo uma curta aparição no filme “Star Trek Beyond”, causando sensação quando apareceu nas filmagens com nove guarda-costas e três limusinas — a Amazon gasta quase 1,5 milhões de euros por ano em segurança pessoal para ele e para a sua família.

Em 2013, investiu também na comunicação social, comprando o prestigiado mas em declínio “Washington Post”, por 250 milhões de dólares (mais de 220 milhões de euros), depois do negócio lhe ter sido proposto pelo anterior dono, Dan Graham. Bezos — que com 10 anos se deitava no chão da casa do avô a ver as audiências do caso Watergate, que celebrizou o “Post” — não regateou o preço. Para Dan Kennedy, professor da Northeastern University e autor de um relatório sobre a nova era do diário, o negócio não foi “um projeto de vaidade ou um investimento de prestígio” para o milionário. O seu objetivo é “tornar o jornal financeiramente saudável, de forma a poder sustentar um jornalismo de qualidade”. Algo que não demorou a conseguir: depois de anos a acumular prejuízos, a publicação conseguiu chegar aos lucros em 2016. Isto apesar de, entre outros investimentos, ter decidido reforçar a redação, que passou de 560 profissionais para mais de 700, estimando-se que possa chegar aos 750 ou 760 este ano.

Ao mesmo tempo, conseguiu transformar-se num jornal verdadeiramente nacional, capaz de rivalizar com o “New York Times”. “Bezos trouxe ao ‘Post’ uma mentalidade tecnológica e focada no consumidor”, destaca Kennedy. O diário operou uma verdadeira revolução digital, oferecendo muito mais conteúdos no seu site (cerca de 1200 artigos por dia), aumentando a velocidade de acesso, e criando novas apps e produtos digitais. Como consequência, os pageviews mensais mais do que triplicaram.

Na Escola Básica de River Oaks, numa época distante, o jovem Bezos era já um competidor feroz. Apesar do corpo franzino, era o lançador e uma das estrelas da sua equipa de basebol da Little League, eliminando pacientemente os adversários com lançamentos certeiros. Hoje, na vida empresarial, ele é o batedor sempre à procura do próximo home run. Por vezes, falha com estrondo, como quando, em 2014, tentou lançar o Fire Phone para concorrer com o iPhone. Mas os insucessos momentâneos não lhe travam a determinação. Ele volta a pegar no taco e a tentar de novo, sabendo que as possibilidades são ilimitadas. “No basebol, independentemente do quão bem batemos na bola, o máximo de pontos que podemos conseguir são quatro. Nos negócios, quando nos superamos, podemos marcar mil pontos”, escreveu há um ano numa carta aos acionistas da Amazon.
Na próxima tacada, Bezos — que em março testou, com sucesso, a primeira entrega pública com um drone — espera fazer a bola subir até ao espaço. Se alguém o pode conseguir é ele.