Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Afinal pode ou não cheirar-se o manjerico? Diga adeus a este e outros 24 mitos

Muitas das coisas em que acreditamos estão longe de estarem comprovadas. Conheça a verdade por trás destas crenças. Este artigo foi publicado originalmente na revista de 25 de junho de 2011

Cheirar diretamente o manjerico pode matá-lo?

Cheirar diretamente o manjerico pode matá-lo?

Ana Baião

Não devemos ler às escuras para não 'estragar' a vista, asseguram mães de todo o mundo. Só usamos dez por cento do nosso cérebro, lemos tantas vezes na imprensa. Se raparmos os pelos, vão crescer mais fortes e mais depressa, ouvimos repetir até à exaustão. Por cada cabelo branco que se arranca nascem dois, assegura a crença popular. Todos os dias ouvimos e lemos coisas sobre o nosso corpo, a nossa saúde e as nossas vidas que não correspondem à verdade. Mitos que correm de boca em boca, atravessam gerações, enchem-nos as caixas do correio eletrónico e invadem o imaginário coletivo. Nas linhas seguintes, despeça-se de 25 desses mitos.

1- Não se pode cheirar o manjerico

Esqueça a tradição popular. Não é verdade que cheirar diretamente a planta possa matá-la e que, por isso, deve primeiro afagá-la com a mão e depois sentir o odor da palma da mão. O mito pode ter nascido da facilidade com que os manjericos morrem, embora haja quem avance com explicações mais curiosas. É que a planta dá-se mal com a proximidade do álcool e do alho, pelo que alguns hálitos podem ter fortalecido a crença.

2- Usamos apenas dez por cento do nosso cérebro

A ideia de que usamos apenas dez por cento do nosso cérebro nasceu há mais de um século e perdura até aos dias de hoje. Não se sabe ao certo como surgiu omito (há quem o atribua a Albert Einstein, o que não corresponde à verdade), mas a falácia tem sido desmontada pelos especialistas. Recorrendo à imagiologia cerebral, várias investigações têm demonstrado que nenhuma área do cérebro está completamente adormecida e que há funções fundamentais ativas em quase todas as zonas.

3- Cabelo e unhas continuam a crescer depois da morte

Apesar de várias vezes representada na literatura e no cinema, a crença de que o cabelo e as unhas continuam a crescer depois da morte não tem fundamento. Os estudos sobre o crescimento celular demonstram que uma pessoa tem de estar viva para que o cabelo e as unhas possam continuar a crescer, uma vez que este fenómeno depende de um complexo conjunto de hormonas que, naturalmente, deixam de estar disponíveis após a morte. O mito, porém, tem uma base real. É que, depois da morte, o corpo fica desidratado, e a pele seca e encolhe. É esta retração em torno do cabelo e das unhas que faz com que estes pareçam maiores, o que não passa, afinal, de uma ilusão de ótica.

4- Se rapar o pelo, ele crescerá mais forte e mais depressa

A preocupação assalta mulheres e cada vez mais homens na hora de se livrarem dos pelos mais inestéticos: se os raparem, não irão crescer mais fortes e mais depressa? A suspeita parece confirmada pelo senso comum, mas os estudos desmentem-no. Rapar remove a porção morta do pelo e não a viva, que se encontra sob a pele e é responsável pelo seu crescimento. Desta forma, não vai provocar o aparecimento de novos pelos nem engrossar os que já existem. Se assim fosse, estaria encontrada a solução para 'reflorestar' a cabeça dos mais carecas.

5- As preocupações causam cabelos brancos

Quantas vezes não ouvimos dizer que a culpa dos cabelos brancos de alguém é das suas preocupações com o trabalho, a saúde ou a família? A verdade é que as células responsáveis pela pigmentação são programadas geneticamente para deixarem de produzir o pigmento do cabelo a partir de uma certa idade, um processo que não é influenciado por um maior ou menor stresse na nossa vida. É igualmente um mito que por cada cabelo branco que se arranque nasçam dois. Cada cabelo cresce a partir de um folículo próprio, pelo que arrancar um não vai fazer com que nasçam dois no mesmo folículo.

6- Ler com pouca luz dá cabo da vista

dr

O aviso é repetido por pais de todo o mundo: "Não leias às escuras, que faz mal aos olhos!" Mas terá o receio realmente fundamento? A maioria dos oftalmologistas assegura que não. Ainda que a falta de luz torne difícil focar a vista e possa diminuir a frequência do piscar de olhos - o que torna a visão mais desconfortável, porque os olhos ficam secos -, não existem provas de que ler com pouca luz danifique a visão. Os efeitos da fadiga ocular são temporários, sendo pouco provável que possam provocar danos permanentes.

7- Pôr manteiga nas queimaduras

Esqueça tudo o que possa ter ouvido sobre utilizar manteiga para acalmar uma queimadura: é mesmo uma das piores coisas que pode fazer. Além de conservar o calor, o que pode agravar a queimadura, a manteiga intensifica a dor e dificulta a ação do médico em determinar a gravidade da situação. Além disso, é um campo fértil para a proliferação de bactérias, o que pode infetar a ferida. Igualmente proibido é o recurso ao gelo. A melhor solução é aplicar água fria.

8- O tempo frio e húmido provoca constipações...

Já todos o ouvimos: "Apanhei aquela constipação chata porque estava demasiado frio." Verdade? Nem por isso. Não se apanha uma constipação por andar ao frio, sair de casa sem guarda-chuva ou com o cabelo molhado em tempo frio. Os responsáveis são vários tipos de vírus, e o contágio produz-se através do contacto com as secreções respiratórias das pessoas infetadas e também pela inalação de minúsculas gotas de saliva contaminadas e suspensas no ar produzidas por alguém constipado quando espirra, tosse ou mesmo fala. Uma boa forma de uma pessoa se constipar é, muitas vezes, apertar a mão a alguém infetado e, em seguida, tocar na cara.

9- ...e a vitamina C previne-as

Ainda que o recurso à vitamina C para aliviar constipações tenha sido até recomendado pelo duplo vencedor do Prémio Nobel (Química e Paz) Linus Pauling, os benefícios estão longe de estar comprovados. Os estudos mais recentes demonstram que uma dose suplementar diária de vitamina C não produz efeitos relevantes na prevenção das constipações ou na redução da duração ou da gravidade das mesmas, a não ser nos casos de pessoas expostas a curtos períodos de stresse físico ou condições climatéricas extremas (como correr uma maratona ou subir o Evereste).

10- Acordar um sonâmbulo pode matá-lo

Muitas pessoas temem que acordar um sonâmbulo possa provocar-lhe um ataque cardíaco ou danos cerebrais, mas o receio não tem razão de ser. Ainda que conduzir um sonâmbulo para a cama sem o acordar seja a melhor estratégia - acordá-lo pode confundi-lo e assustá-lo, e muitos sonâmbulos podem até tornar-se violentos em consequência disso -, nenhum sonâmbulo morreu até hoje por ter sido acordado enquanto andava pela casa. Se vir um sonâmbulo em perigo e não conseguir conduzi-lo para a cama, não deve hesitar em despertá-lo, porque ele, como não tem consciência dos movimentos que faz, poderá magoar-se.

DR

11- Comer chocolate provoca acne

Ainda que muitas pessoas estejam convencidas de que comer certos alimentos, como o chocolate, favorece o aparecimento de borbulhas, esta hipótese foi há muito colocada de parte pelos cientistas. São a hereditariedade e, até certo ponto, os cuidados de higiene com a pele que determinam a predisposição à doença. É a obstrução dos poros com gordura ou bactérias que leva ao surgimento das borbulhas. Em muitas pessoas, estas agravam-se com o aumento da produção hormonal - durante a adolescência, a gravidez ou a menopausa -, mas não surgem nem pioram devido à alimentação.

12- Não se pode tomar banho depois de comer

Já todos o ouvimos: depois de comer, é preciso esperar uma, duas ou mesmo três horas - se se tratar de uma refeição mais pesada - para tomar banho. O perigo existe quando a situação é aliada a alguma atividade que requeira esforço, como nadar, mas um simples banho ou duche com a água a temperaturas amenas não representa um risco acrescido de congestão. São de evitar, porém, banhos ou duches demasiado prolongados ou com água demasiado quente. É que, dessa forma, o organismo mobiliza parte do sangue para ajudar a resfriar o corpo, o que pode interferir com a digestão, já que esta requer o auxílio de boa parte do sangue do nosso corpo. Se esse sangue for desviado para outras tarefas, poderá provocar uma digestão mais lenta e, como tal, algum desconforto.

13- Os antibióticos reduzem a eficácia da pílula

Quem usa a pílula contracetiva já deve ter ouvido o aviso: a eficácia desta será menor se, ao mesmo tempo, estiver a tomar um antibiótico. Contudo, os dados científicos não confirmam o receio. Não existe na literatura médica nada que comprove que os antibióticos comuns reduzam a eficácia da pílula. Alguns estudos sugerem que um antibiótico normalmente usado contra a tuberculose, a rifampicina, pode tornar menos eficaz a pílula, mas nenhuma das mulheres participantes na investigação ficou grávida por tomar o contracetivo com o antibiótico.

DR

14- Precisamos de beber oito copos de água por dia

Já o lemos e ouvimos em todo o lado: para manter a boa forma e a saúde, é preciso beber pelo menos oito copos de água (um litro e meio) por dia. Toda a gente conhece esta recomendação, mas trata-se, quanto muito, de uma meia verdade. Não existe na literatura médica qualquer estudo que sustente esta recomendação. Muita da água que o nosso organismo necessita está nos alimentos - as frutas e os legumes, por exemplo, são boas fontes de água - e nos outros líquidos que ingerimos. Mas convém não exagerar: é preciso beber com moderação. Em excesso, a água pode resultar numa intoxicação e, em casos extremos, até levar à morte. O melhor é deixar-se levar pela sede.

15- Os antitranspirantes provocam cancro da mama

O boato circulou por email há uns anos: o uso de antitranspirantes nas axilas poderia provocar cancro da mama. O alerta não tem, porém, qualquer fundamento científico. Todos os estudos realizados não encontraram qualquer associação entre o uso de desodorizantes ou antitranspirantes e o cancro da mama. Outros mitos frequentemente associados ao cancro da mama também não correspondem à verdade: não é a doença que mais mata entre as mulheres (as doenças do coração são o principal vilão) nem sequer é o cancro mais mortífero entre as mulheres.

16- Não se pode comer muitos ovos

Apesar da má fama que ganharam nos últimos anos pelo facto de conterem níveis de colesterol mais elevados do que outros alimentos, os ovos são uma importante fonte de proteínas. É falso que não devamos comer mais de dois ou três por semana, pois o aumento do 'mau' colesterol (LDL) depende da alimentação no seu conjunto (nomeadamente do excesso de gorduras saturadas), do tabaco, do stresse e de fatores genéticos. É, por isso, possível comer vários se se limitar a ingestão do colesterol proveniente de outras fontes, nomeadamente as carnes gordas, e se se abdicar dos fritos.

17- O café descafeinado não tem cafeína

Ao contrário do que muita gente possa pensar, o descafeinado não é isento de cafeína. Uma chávena pequena de café tem cerca de 150 mg de cafeína, e um descafeinado, dependendo da marca e do lote, ainda pode ter entre 8 e 30 mg. É isso que explica que algumas pessoas com maior sensibilidade à cafeína tenham, por exemplo, dificuldade em adormecer quando abusam do descafeinado.

18- A comida integral é mais saudável

Ao contrário do que o rótulo possa sugerir, algumas bolachas, biscoitos e pães integrais têm (para potenciar o sabor) mais gorduras trans, que não só aumentam os níveis de colesterol LDL (o 'mau') e de triglicéridos no sangue como baixam os níveis de colesterol HDL (o 'bom', devido ao seu papel protetor das artérias), além de terem efeitos nefastos nas membranas celulares e no sistema imunitário. O excesso de fibras presentes nos produtos integrais pode ainda diminuir a capacidade de o intestino absorver as vitaminas.

19- Não se pode engravidar durante o período

Engravidar durante o período é muito pouco provável, mas não é impossível. Em certos casos - quando os períodos estão no limite mínimo do normal (três dias) ou quando não ocorrem em ciclos regulares -, há uma possibilidade maior de a mulher ovular (e, desta forma, poder engravidar) quando o período ainda decorre. Geralmente, uma mulher ovula cerca de duas semanas antes do período, sendo essa a altura ideal para engravidar, mas outras ovulam mais próximo da menstruação, e não é impossível que um ovo fertilizado consiga sobreviver durante o período. Além disso, um espermatozoide pode permanecer durante uma semana no corpo de uma mulher, pelo que, mesmo tendo entrado durante o período, pode ainda sobreviver após o final deste. Se existir também um óvulo, a possibilidade de engravidar é real.

dr

20- Comer laranja à noite faz mal

"A laranja de manhã é ouro, à tarde prata e à noite mata." O velho ditado popular, transmitido de geração em geração, perpetuou a ideia de que consumir laranjas à noite é perigoso, mas não há nada na literatura científica que o confirme. "Fisiologicamente falando, não faz qualquer sentido pretender que a altura do dia em que se come laranjas influencia o seu efeito sobre o organismo", garante António Vaz Carneiro, do Centro de Medicina Baseada na Evidência da Faculdade de Medicina de Lisboa.

21- É possível influenciar o sexo do bebé...

Esqueça todos os mitos urbanos que ouviu sobre aumentar a possibilidade de ter um filho rapaz, incluindo aquele que sugere que as hipóteses são maiores se engravidar a meio do ciclo menstrual. O sexo do bebé é determinado apenas pelo espermatozoide que vence a corrida para fertilizar o óvulo: se tiver um cromossoma Y, o bebé será rapaz; se tiver um cromossoma X, será menina.

22- ...e prevê-lo sem ajuda de um médico

Adivinhar o sexo do bebé é, muitas vezes, o passatempo favorito entre pais, familiares, amigos e até perfeitos desconhecidos. E todos parecem ter um método pretensamente infalível. A barriga é redonda ou bicuda? Está subida ou descaída? O feto mexe-se muito ou pouco? Há até quem sugira avaliar o ritmo cardíaco do bebé ou mesmo analisar a urina da grávida. A verdade posta a nu pela ciência é que não existe um método infalível para prever o sexo de um bebé. Mas não desanime: tem sempre 50 por cento de probabilidades de adivinhar.

23- Dormir com os pais é seguro para o bebé

Pensar que pelo facto de um bebé dormir na cama dos pais está mais seguro é uma crença perigosa. Ainda que alguns estudos sugiram que dormir com os pais possa melhorar os padrões de sono da criança e evitar a Síndrome da Morta Súbita Infantil, dormir numa cama de adulto pode ser fatal para a criança. O bebé pode enrolar-se nos lençóis soltos e sufocar. As notícias confirmam-no: todos os anos morrem bebés por dormirem com os pais. Segundo um estudo publicado nos EUA, as crianças com menos de 11 meses que dormem com os pais correm um risco 20 vezes maior de sufocarem, comparadas com as crianças que dormem em berços próprios.

24- O açúcar torna os miúdos hiperativos

Ainda que muitos pais culpem os doces pela energia exibida pelos filhos na hora de irem para a cama, a verdade é que o açúcar não torna as crianças hiperativas. Foram feitos vários estudos recorrendo a diversas dietas com diferentes teores de açúcar nos alimentos das crianças e nenhum dos trabalhos encontrou diferenças de comportamento entre as crianças que tinham consumido açúcar e as que não o tinham feito.

25- As vacinas infantis causam autismo

Apesar dos receios de muitos pais, a ciência não comprova nenhuma ligação entre as vacinas e o autismo. O mito nasceu em 1998, quando o jornal médico "The Lancet" publicou um artigo que seguia uma dúzia de crianças com regressões de desenvolvimento e sintomas gastrointestinais. Nove das crianças eram autistas, e em oito desses casos os pais acreditavam que os sintomas se tinham desenvolvido depois de os seus filhos terem recebido as vacinas do sarampo, da rubéola ou da papeira. Mesmo não se tratando de um estudo científico na verdadeira aceção da palavra, e até com provas esmagadoras contra essa associação, o artigo foi suficiente para lançar o receio até aos dias de hoje. Dez dos doze autores do estudo retrataram-se pelo trabalho. Um não pôde ser contactado. O outro, orientador do estudo, foi investigado por violação de ética e conflito de interesses na realização do referido trabalho..

FONTES: "Diga Adeus aos Mitos", de Aaron E. Carroll e Rachel C. Vreeman, Guerra e Paz; "Mitos da Medicina Que Nos Podem Matar", de Nancy L. Snyderman, Editorial Presença; "O Quebra-Mitos", newsletter da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo; www.alimentacaosaudavel.net