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Alunos do Brasil e da China enchem escolas internacionais

O Saint Dominic’s foi criado em 1965 para receber os filhos dos trabalhadores norte-americanos que estavam a construir a atual Ponte 25 de Abril. Hoje tem alunos de 44 nacionalidades

Nuno Botelho

Aumento da oferta para alunos estrangeiros é visto pelo Governo como prioritário para atrair mais empresas

A visita de Madonna ao Liceu Francês para se informar sobre as condições de inscrição das filhas naquele colégio de Lisboa foi notícia no mês passado. Mas, longe das objetivas dos fotógrafos e das câmaras de televisão, milhares de outros estrangeiros têm igualmente procurado nos últimos anos uma das escolas internacionais existentes em Portugal para matricular os seus filhos, gerando um crescimento sem precedentes da frequência destas instituições, onde o ensino é ministrado noutras línguas e as habilitações e o diploma podem ser reconhecidos noutras partes do mundo. O aumento da oferta é agora visto pelo Governo como uma prioridade para atrair mais empresas estrangeiras.

“Temos trabalhado com o Ministério da Educação e com as instituições que representam estes colégios com o objetivo de alargar a oferta, através de um aumento de vagas nos já existentes ou da criação de novas escolas internacionais. É um fator importantíssimo para atrair mais empresas estrangeiras para Portugal”, revela Bernardo Trindade, presidente da Portugal In, a estrutura de missão criada pelo Governo para captação de investimento estrangeiro.

O crescente interesse de Portugal lá fora, que se tem refletido num aumento do número de residentes de outras nacionalidades, tem feito esgotar as vagas nas escolas internacionais, avolumando as listas de espera. Algumas já têm, por isso, planos de alargamento para os próximos anos, como é o caso do Liceu Francês Charles Lepierre, em Lisboa, que lançou em março um concurso para a expansão das suas instalações na zona das Amoreiras, incluindo 2200 m2 de construção nova.

No caso do colégio St. Peter’s School, em Palmela, as obras para a construção de mais um edifício com 2800 m2 começam já na próxima semana para responder ao “grande aumento da procura”. O objetivo é ter os trabalhos terminados em setembro, para permitir a criação de mais 12 turmas.

“A procura está a subir de forma surpreendente. De há seis meses para cá houve uma grande vaga de brasileiros. Só nos últimos 15 dias recebemos 42 contactos de famílias interessadas em matricular os filhos. Também a comunidade chinesa, que teve um grande aumento há uns anos e que tinha estagnado nos últimos dois, está novamente a crescer muito”, diz a diretora da escola, Isabel Simão. Tudo somado, 25% dos 1200 alunos que frequentam o colégio do pré-escolar ao 12º ano têm nacionalidade estrangeira. Há três anos eram apenas 10%.

Nas diferentes escolas internacionais, a procura tem aumentado não apenas em quantidade, mas também no número de nacionalidades representadas. Na Carlucci American International School of Lisbon (Sintra), por exemplo, estudam crianças e jovens de 45 proveniências e os portugueses passaram a estar em minoria (40%). Entre os estrangeiros, o destaque vai naturalmente para os norte-americanos, mas também, e cada vez mais, para chineses e brasileiros, que estão a aumentar em todas as escolas internacionais.

“Muitos pais mudaram-se para cá porque a sua empresa abriu em Portugal. Mas está também a tornar-se cada vez mais comum a procura por pessoas que trabalham através da internet, que não precisam de estar fixos em nenhum lugar ou que só vão ao escritório uma vez por mês. Podem escolher um país onde gostem de ficar”, conta Blannie Curtis, diretora da escola americana, sublinhando que a segurança é um dos fatores mais valorizados quando optam por Portugal — o 3º país mais pacífico do mundo, só atrás da Islândia e da Nova Zelândia, segundo o Global Peace Index.

Propinas de milhares de euros

O clima é outra das atrações, assim como o custo de vida, mais barato em Lisboa do que na maioria das capitais europeias. “O valor das propinas é muito competitivo em relação às outras escolas americanas espalhadas pelo mundo”, adianta a responsável.

Para um estrangeiro até pode ser que as mensalidades das escolas internacionais em Portugal sejam “competitivas”, mas não estão seguramente ao alcance da maioria dos portugueses. No secundário, estudar num destes colégios pode custar entre €14 mil e €22 mil por ano.

No St. Julian’s School, em Carcavelos, só a jóia de inscrição custa €3500. Ainda assim, a procura triplicou desde 2013 e a lista de espera chega a ultrapassar os 400 alunos. Além de brasileiros e chineses — fenómeno também relatado pela Escola Alemã de Lisboa — o colégio tem registado um aumento de candidaturas de famílias oriundas dos Estados Unidos, Reino Unido e Holanda.

O Saint Dominic’s International School, no concelho de Cascais, é uma das mais antigas escolas internacionais em Portugal. Abriu em 1965 para acolher os filhos dos trabalhadores da empresa norte-americana contratada para construir a ponte 25 de abril. Hoje é frequentado por 660 alunos, 70% dos quais estrangeiros de 44 nacionalidades, sobretudo chineses e angolanos.

“O número de estrangeiros inscritos mais do que duplicou nos últimos cinco anos, com um claro aumento desde o ano passado”, descreve, por seu turno, Catarina Beck, da Park Internacional School, que abrirá no próximo ano letivo mais um colégio (o sexto). O ensino bilingue e o currículo internacional são, numa primeira fase, o que leva os pais a fazerem a opção por estes estabelecimentos de ensino, mas valorizam cada vez mais a inovação do modelo pedagógico, diz.

A Norte, o cenário é o mesmo. O CLIP — The Oporto International School abriu no início deste ano uma nova ala para poder acolher mais alunos. Nos últimos quatro anos, o número de inscrições cresceu 44%. Dos 195 novos estudantes que entraram este ano letivo, quase metade veio de outros países.

“A escola tem funcionado como elemento estrutural para a opção de mudança para o Porto de muitas famílias internacionais, em alternativa a Lisboa ou a outras cidades europeias. Muitas vêm diretamente do aeroporto visitar a escola para assegurar que há qualidade do ensino e só depois tomam a decisão de aceitar as ofertas profissionais”, conta Francisco Marques, administrador do CLIP.

Já no Liceu Francês Internacional do Porto a procura tem sido tanta que as instalações, ampliadas há apenas quatro anos, estão novamente no limite da capacidade e não é possível receber mais nenhum aluno. Na Invicta, como em Lisboa, a comunidade francesa está a crescer e a proporção de estudantes estrangeiros no liceu duplicou desde 2013: são agora 40%.

Na estrutura de missão Portugal In pretende-se garantir que não é nem a falta de lugares no sistema nem de informação acessível que afastará a instalação de qualquer projeto ou intenção de mudança. No fundo, confirma Rodrigo Queiroz e Melo, presidente da Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo e que já se reuniu com Bernardo Trindade, trata-se de juntar a oferta educativa em Portugal ao leque de mais-valias apresentadas pelo país para atrair mais empresas.