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Sociedade

O suborno absurdo

Ilustração Freepik

Pedro Miguel Oliveira

Pedro Miguel Oliveira

Exame Informática

Jornalista

Tal como qualquer outro pai, também já recorri à facilidade da recompensa para conseguir que os meus filhos cumpram um qualquer intuito. Sim, a mais comum é a tarefa hercúlea de os convencer que o peixe cozido é um manjar dos deuses. Tão bom que, se o comerem todo, vão ter direito a gelado de chocolate. Não há aqui grande ciência. É só a questão de recompensar uma tarefa concluída com sucesso. Claro que qualquer nutricionista vai reclamar destas táticas “rasteiras”. Afinal, o ideal é que as crianças comam o peixe sem terem o estímulo do chocolate – boa sorte, com isso!

Segundo contava o “The Washington Post” da passada sexta-feira, a diretora de uma escola americana pegou no mesmo “esquema da recompensa” para desafiar as crianças a não usarem dispositivos eletrónicos durante o verão. Calma, a senhora não perdeu completamente o juízo. O desafio de Diana Smith, a tal diretora, é que eles não os utilizem em todas as terças-feiras até ao regresso às aulas. Leu bem: é do final de junho até ao início de setembro. E quanto vai a senhora pagar aos meninos por estes 11 dias de abstinência eletrónica? 100 dólares a cada (cerca de 90 euros). Sendo que a escola tem 160 crianças elegíveis para esta recompensa, a diretora da escola pode ter de desembolsar 16 mil dólares – o número de crianças, os dias e o dinheiro… as contas… estão no artigo já citado.

E como é que se prova que os meninos se mantiveram castos durante os tais 11 dias? O “regulamento” dita que no regresso à escola a criança tenha de vir acompanhada de uma carta assinada por dois adultos (maiores de 21 anos, entenda-se) a atestar do afastamento eletrónico.

Vamos por partes. Entendo o desespero da diretora da escola. Afinal, ela é testemunha do alheamento que, principalmente, a tecnologia (e o smartphone, é o grande “corruptor” porque, diz a professora, é «ubíquo”) está a provocar nas crianças e nos jovens (a escola gerida por Diana Smith tem miúdos do 5º ao 12º ano). Ver, diariamente, centenas de crianças de pescoço tombado em direção a um pequeno ecrã deve despertar em Diana Smith os sentimentos mais primitivos. Tirar à força os terminais resulta no contexto da sala de aula, mas é mais complicado de executar no recreio, à hora do almoço ou no caminho de casa para escolha (e vice-versa).

«I don’t like when teachers bribe their students with food, so I am breaking my own rules,» diz Diana ao Washington Post e avança que «Eles precisam de ajuda neste caso». Por isso, toca de quebrar as regras e mandar dinheiro para cima dos miúdos.

A diretora da escola acredita que apenas 50 alunos (quase um terço do universo disponível) vão conseguir concretizar a missão que parece impossível. Mas será mesmo assim tão impossível? O desafio implica vários elementos que fazem parte de um ecossistema grande e complexo. Nele cabem os amigos, a escola (e todos os seus intervenientes) e, essencialmente, a família. Em todos, a tecnologia tem um papel. É ferramenta de comunicação com os amigos (com tudo de bom e de menos bom que isso implica); é ferramenta de estudo; é porta para

entretenimento; pode ser garante de um almoço calmo, para os pais, num qualquer restaurante ou um canal de comunicação direto para saber onde estão os miúdos a todo o momento («liga-me quando chegares!»).

O que me interessa explicar é que o problema existente nas escolas com a utilização do smartphone começa, claro, em casa. Os pais devem erguer o escudo das regras para tudo, incluindo, claro, os dispositivos eletrónicos e as tecnologias disponibilizadas aos seus educandos. E a própria tecnologia criou sistemas para o seu controlo. É fácil, no computador ou no telefone despoletar políticas que só permitem a utilização dos equipamentos durante determinado período. O Windows inclui, o Android também e, claro, o iOS. Estes controlos vedam o acesso a apps, por exemplo. Na Exame Informática já o explicámos. Pode ler AQUI.

Os menos “infoincluídos” podem sempre recorrer à tática mais evidente de todas: o poder supremo da parentalidade. Ou seja: «Dá-me o telefone, devolvo-to amanhã!». Simples, certo. Quer dizer, parece-me simples. Aliás, cabe aos encarregados de educação dar o exemplo. Se é daqueles pais que tem os miúdos no carro e aproveita a paragem nos semáforos para ver o e-mail ou o Facebook… então, o problema também está em si. Aliás, se reage ao sinal das notificações como o cão de Pavlov ao toque da campainha… então o problema continua em si.

Não vale a pena recompensar financeiramente os miúdos para promover a não utilização do telefone, do computador ou da Internet. É uma grande parvoíce. Educar crianças hoje implica, obrigatoriamente, saber lidar com a tecnologia e com a sua omnipresença. Um trabalho para o qual a escola deve contribuir, mas do qual os pais não devem excluir-se.

A Diana Smith, deixo um conselho: agarre nos 4500 euros que iria gastar a pagar aos 50 miúdos e invista numa viagem ou em qualquer outro subterfúgio que contribua para combater o stress. Em setembro, recomeçam as aulas e ela vai deparar-se com duas realidades: o número de smartphones não diminuiu e a sua intensidade de utilização também não.