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Peseiro e a casa às costas: “Tenho um pombal e adoro corridas de touros e de cavalos”

José Peseiro, licenciado em Educação Fisica, com mestrado em Desporto, foi professor universitário depois de ser um jogador de futebol pouco reconhecido, mas é como treinador que se sente realizado. Amante confesso de todos os desportos, tem um pombal, é aficionado das touradas (a semana passada esteve em Madrid a assistir a quatro corridas) e anda derretido com a neta. Homem de família, tem o filho a trabalhar com ele desde o Egito (faz parte do gabinete de observação e scouting dos clubes por onde tem passado) e lamenta estar há tanto tempo fora de Portugal, o país que, para ele, continua a ser o melhor de todos. Desde 2003 até agora, além dos portugueses Sporting, FC Porto e Sp. Braga, treinou o Al Hilal, Panathinaikos, a seleção da Arábia Saudita, o Al Wahda, Al-Ahly e esta época o Al Sharjah. Este é o segundo episódio de “A Casa às Costas”

Começou a carreira de treinador no União de Santarém, depois foi para o Montemor, seguiu-se o Clube Oriental de Lisboa. Começou cedo com a casa às costas.
Nessa altura, vivi sempre com a família em Santarém.

A primeira saída do continente foi para a ilha da Madeira, onde foi treinar o Nacional. Levou a família?
Sim. A Fátima, a minha mulher, trabalhava como secretária de vendas na Nissan, em Santarém. Foi uma decisão conjunta. Eu tinha sonhos de chegar à I Liga, tinha essa ambição. Não tinha sido um jogador reconhecido, tinha apostado numa carreira universitária, por isso o máximo que joguei foi na II divisão. O projeto do Nacional apareceu, pareceu-me ser capaz de levar à I Divisão, e decidimos arriscar e mudar a nossa vida. Fomos para a Madeira com os filhos. O Vitor Hugo tinha 15 anos e a Susana, 7.

Foi complicada a mudança? Assinou por quanto tempo?
Assinei só por um ano. Houve um risco, porque passados uns meses podíamos estar de volta. Mas era uma janela de oportunidade. Apesar de ser uma equpia que estava na II Divisão B. Tivemos de subir à Divisão de Honra e só depois à I. Partilhámos o risco, eu e a minha mulher, porque se as coisas não corressem bem ela já não podia voltar ao emprego que tinha. Não foi fácil.

Nessa época, além de treinador era também professor na Escola Superior de Desporto de Rio Maior. Deixou de dar aulas?
Não. Tinha essa segurança se algo corresse mal, porque ainda me mantive como professor durante uns anos. Acumulava e dava oito horas de aulas à segunda-feira, dia de descanso no clube. Se jogássemos no continente ficava, se não, apanhava o avião no domingo à noite e regressava segunda.

Quem escolheu a casa para viverem na Madeira, e nos outros sítios por onde passou?
Os clubes têm sempre alguém que apoia nessas escolhas e nesse trabalho logístico. Mas, felizmente, a minha mulher tem disponibilidade e uma grande capacidade para gerir tudo isso. Foi sempre ela que escolheu, montou e desmontou as casas. E já mudámos 12 a 16 vezes pelo menos.

Os seus filhos adaptaram-se sempre bem?
É evidente que os miúdos criam amizades e há sempre algum problema. Sentimos algumas dificuldades deles na adaptação, não só ao espaço físico, mas ao espaço das amizades, que tinham e deixaram para trás. Podemos dizer que é muito bom para eles correr mundo e relacionarem-se com outras culturas, com outras exigências e com outro tipo de vida, aprender linguas e perceber que Portugal e os portugueses são melhores do que aquilo que dizemos que somos. Mas os laços de amizade de anos que podem substanciar alguma autoestima eles não os tiveram, e de vez em quando queixam-se que amigos, amigos daqueles de anos e anos, não os têm.

Eles estiveram sempre com vocês?
Sim. Excepto quando fomos para a Arábia Saudita, dado que a escola lá não é a mesma coisa. E, nessa altura, ficaram em Portugal, com familiares. A minha mulher nessa altura ia e vinha com muita frequência, mas passava mais tempo comigo na Arábia do que cá. Já em Espanha e Roménia estivemos sempre todos juntos. Na Grécia, também.

Mas nesta última ida para o Emirados eles já não foram, estão crescidos.
O Vitor Hugo é meu adjunto já há algum tempo. A Susana não foi porque acabou o curso e tem estado em Portugal. Mas sempre que pode vai ter connosco passar umas temporadas.

No último ano de treinador no Nacional foi convidado por Carlos Queiroz para ir como adjunto dele para o Real Madrid. Era uma realidade muito diferente?
Claro, não fomos treinar qualquer equipa. Eu não estava habituado a um clube de elite, o melhor clube do mundo na minha opinião. Quando vamos para o Real, que era algo de enorme, a adaptação para mim foi mais complicada do que se calhar para a minha família.

Porquê?
Nunca tinha tinha estado num balneário de um Sporting, Benfica ou FCP, se calhar para quem tivesse passado por esses clubes seria mais fácil. Não estou a dizer que foi difícil, porque tinha o Queiroz que foi meu professor universitário. Não há uma grande diferença relativamente aquilo que são os hábitos e costumes entre portugueses e espanhóis, embora eles comam mais tarde, façam a sesta; a comida é um pouco diferente, mas a disparidade não é grande. Há é um contexto psicoemocional muito stressante.

Como assim?
Se alguém se queixa em Portugal da pressão da imprensa, então não faz ideia do que é estar no Real Madrid. Ainda a semana passada visitei Madrid e, falando com os jogadores portugueses que lá estão, eles diziam, estar aqui um ano é como estar quatro ou cinco anos num clube português, ao nível do desgaste. O desgaste é tremendo, a imprensa é agressiva, incisiva, não olha a nada. Faz parte dos países latinos. Se o futebol é um espectáculo, para nós mais do que um espectáculo é um estado de alma, emocional. Ou estamos muito bem ou estamos muito mal.

Mas gostou de estar em Madrid ou não?
Gostamos muito. Acho que em qualquer pais onde estivemos gostámos sempre.

Mesmo na Arábia Saudita?
Sim, mesmo aí, em que estávamos condicionados a um espaço, em que a minha mulher não podia conduzir, em que tinha de andar com a abaia e o cabelo coberto. Tinhamos uma vida normal no nosso gueto, onde viviam só ocidentais. Mesmo aí há coisas que recordamos com saudade. Também encontrei coisas boas no Egipto. É evidente que as diferenças são imensas e tremendas, relativamente às características inerentes da vida social, cultural e religiosa. Há países que estão num estágio de desenvolvimento diferente do nosso; infelizmente, os ocidentais, europeus e americanos, querem que os outros países andem à mesma velocidade, às vezes criando problemas, porque é como querer que um miúdo que ainda não anda já comece a correr.

E a experiência nos Emirados Árabes Unidos como tem sido?
Muito diferente da Arábia. Os Emirados é o país mais ocidentalizado do golfo. Por exemplo, na Arábia vivem 32 milhões de habitantes e é capaz de haver 5 milhões de não sauditas a trabalhar. Tudo o que é trabalho de técnico superior é feito mais por europeus, e a mão de obra é feita mais por asiáticos. Já nos Emirados vivem 9 milhões de habitantes e só pouco mais de um milhão são locais.

José Peseiro com a mulher Fátima, no Egipto

José Peseiro com a mulher Fátima, no Egipto

Alguma vez sentiram medo na Arábia Saudita?
Houve momentos...por exemplo, quando lá cheguei fui para um “compound” (condominio ocidental na Arábia). Tinha acontecido há pouco tempo um incidente que até deu origem ao filme “The Kigdom” (o Reino) e havia uma obsessão tremenda pela segurança. Só para entrar no nosso condominio nós tinhamos de passar por duas portas de segurança, por um desvio tipo serpentina, onde havia lagartas com pregos para o caso de acelerarmos, mais portas tremendas. Tudo nos parece tão exagerado que acaba por nos criar algum receio. “Será que estamos aqui bem?” Mas acabamos por nos habituar.

A sua mulher nunca teve problemas?
Não, somos muito avisados. Ela sabia que não devia apanhar táxi na rua, nem andar sozinha. Não há uma vida de rua nestes países por causa das suas condições climatéricas. Se estava num centro comercial, e não tinha o cabelo coberto, a polícia religiosa podia começar a gritar para elas cobrirem o cabelo, mas dirigindo-se sempre aos homens nunca a elas. Nos Emirados não se vê nada disso.

E na Grécia como foi a experiência?
Era uma vida boa. Sentíamos a simpatia e a dedicação das pessoas, a vontade que tinham em agradar. Também por ser treinador de futebol, porque na verdade nós temos o privilégio de ser emigrantes especiais, não só pelo nosso retorno financeiro, mas também pela popularidade. No Egipto por exemplo, onde estive seis meses, nunca vi uma coisa assim. Não podia ir a lado nenhum. Já não é o autógrafo, mas as fotos e o video. Eu gosto muito de visitar as igrejas, monumentos e espaços históricos dos países para perceber o que aquelas pessoas são. Quando tentei ir às pirâmides, não tive hipótese de vê-las com algum descanso porque as pessoas assim que me viam, vinham 30 ou 40 atrás.

É muito cansativo?
Sim, mas não podemos nunca, acho eu, voltar as costas. Se há mediatismo tem a ver com a paixão que o futebol acarreta. Se algum português descobrisse a vacina de cura para o cancro continuava a ser menos conhecido do que o Jorge Jesus, o Rui Vitória ou o Nuno Espirito Santo. É uma loucura.

Onde é que se sentiu mais reconhecido?
É difícil dizer. Mas mais popular foi no Egipto. Na minha apresentação estavam 30 mil adeptos a ver o treino. Na Arábia qualquer elemento da sociedade conhece os treinadores ou jogadores, mas no Emirados já não, porque é um tipo de sociedade em que as pessoas estão e não estão. Além de que a grande paixão lá são os cavalos, o falcão e o camelo.

José Peseiro com um falcão, no Dubai

José Peseiro com um falcão, no Dubai

E os seus filhos, tem ideia de qual o país que recordam com mais carinho?
Não tenho a certeza mas acho que a minha filha gostou muito de estar em Espanha, na escola. Na maior parte dos colégios em Espanha é obrigatório o uso de farda, se calhar para não diferenciar as classes e isso era giro. Ela também gostava muito da escola inglesa da Roménia.

Visitaram muito os paises por onde passaram?
Tentamos sempre perceber onde estamos. Por isso vamos aos sítios. Fizemos idas ao deserto, comemos à mão o borrego como eles fazem, fomos ver as corridas de cavalo, fomos aos mercados, mesquitas, aos locais mais emblemáticos. Tentamos sempre perceber o que se passa à nossa volta, para interagirmos e adaptarmos mais facilmente.

À conta da sua profissão consegui dar mundo aos seus filhos. Eles reconhecem isso?
Sim. Os dois têm uma grande facilidade para línguas. E gostam. A Susana sabe espanhol, grego, romeno e inglês.

A sua mulher nunca se cansou? Nunca pediu para vir embora?
Ela gosta mais de estar fora do que cá dentro.

Porquê?
Se calhar porque lá fora sentimos menos as coisas más, não percebemos tanto as notícias, não ouvimos os comentários. Em Portugal não conseguimos separar a vida familiar da vida profissional. É impossível porque abrimos um jornal ou vemos televisão e está lá tudo. Até porque treinei cá clubes que estão em cima, com popularidade, com sócios, e com exigência (e ainda bem). Lá fora nem sequer percebemos os programas, que estão em árabe.

Com quem fazem vida social nesses países?
Sobretudo com os outros elementos da equipa técnica. Somos quase uma família. Até porque nesses países não há o Natal por exemplo; o Natal é só nosso, assim como a Passagem de Ano. Nos Emirados conhecemos também outros portugueses e temos relações com eles. O Hugo Viana também lá estava. E já existe um pólo de portugueses nos Emirados.

Qual foi a experiência menos boa?
A Roménia foi o país onde talvez nos sentimos menos bem. Houve uma serie de circunstâncias. O clube passava por grandes dificuldades, não pagava, e criou-nos alguns problemas. É talvez o país de que sinto menos saudades.

A sua mulher adaptou-se bem ao facto de ter deixado de trabalhar?
Sim, dedicou-se muito a gerir as coisas da casa. É muito fácil para mim mudar-me porque quando é preciso desmontar a casa, ela desmonta, e quando é preciso montar, ela monta. Eu não me envolvo muito, nem me preocupo. É ela que faz tudo, que organiza, que vai buscar as caixas, que despacha as coisas, seja de avião, de barco.

Dessa passagem por tantos países diferentes ficou-vos algum hábito novo?
O problema é estabelecer rotinas quando são muito diferentes de país para país. Mas o Natal e Ano Novo são sempre passados com a equipa técnica. Quando não há bacalhau, levamos daqui. Quando estávamos na Arábia Saudita levávamos a carne de porco para fazermos o cozido à portuguesa. Depois, viajar é uma coisa que se torna banal. Se no início achávamos que voar durante sete horas é muito, nesta altura já não é nada porque já fizemos tantas vezes.

A família Peseiro em Abu Dhabi, no Grande Prémio de F1

A família Peseiro em Abu Dhabi, no Grande Prémio de F1

Do que têm mais saudades de Portugal?
Temos um país extraordinário. Somos muito críticos e mauzinhos quando avaliamos o nosso país. Não vivi em Inglaterra ou na Alemanha, mas tendo em conta aqueles onde vivi, o nosso é melhor, não tenho dúvidas. Juntando tudo, aquilo que nós temos é melhor.

Então se pudesse vinha treinar para Portugal?
Disse sempre que venho para cá se for para clubes que tenham grandes objetivos; não os tendo, estou lá fora. Até porque ganho mais fora...

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Arábia Saudita, quando treinei a seleção nacional.

Voltando às saudades de Portugal...
Tenho saudades das amizades. No fundo desde 1999 que ando quase sempre fora. Nos últimos 23 anos anos estive apenas quatro anos em Portugal.

O que se ganha e perde?
Ganha-se a capacidade de se perceber outros mundos, de perceber que há diferenças e velocidades diferentes. Depois sentimos que o nosso país em questões prático operacionais é melhor do que imaginamos. A Grécia tem condições de apoio à saúde muito piores que as nossas. Os nossos hospitais são cinco estrelas comparados com os deles, assim como a nossa rede viária é melhor que a inglesa. A nossa educação, a nossa cultura, a nossa forma de estar, somos muito melhores do que pensamos. O sol, a comida… Nós temos a melhor comida do mundo, não há hipótese. Temos diversidade e qualidade, já passei por muitos países, em mais de 100, e não há comida melhor do que a nossa. A nossa simpatia... não há um povo que se disponha a falar qualquer língua, para os outros nos perceberem, como nós fazemos. Aqui ao lado, por exemplo, quem chega é que tem de falar a língua deles. Também somos um país mais culto e mais educado do que pensamos. Não escarramos para a rua como vi fazerem noutros países. Crescemos muito nisso. Nos Emirados por exemplo, os locais bebem um sumo e atiram o pacote para a rua, comem uma sandes e atiram os papéis para a rua. Faz impressão.

Ou seja, gostava de poder vir para cá.
Eu preferia estar em Portugal a treinar, claro, para estar com a família. O meu pai faleceu há cinco anos e tenho noção de que perdi muitos anos, uns 14 ou 15, da vida dele, precisamente por estar tanto tempo fora. E estou a perder também da minha mãe Silvéria. Por outro lado, tenho uma sociedade com os meus irmãos, a Augusta, o Carlos, a Helena e o Luís e a minha mãe, uma cadeia de restaurantes “O Farnel”, em Coruche, Alcochete e Lisboa, e sei que há um sacrifício pessoal dos meus irmãos para estar no nosso negócio, que é de todos. E há os amigos que me enchem e preenchem; também tenho saudades deles. Mas sou treinador de futebol porque gosto de futebol, não é só porque gosto de ganhar dinheiro. Por acaso a minha atividade dá-me dinheiro e dá-me popularidade, mas eu não vim para aqui por popularidade ou dinheiro, mas porque adoro esta modalidade.

Tem algum hóbi que não dispense, esteja onde estiver?
Além de gostar muito de futebol, como profissional, gosto muito de ver futebol como simpatizante, como fã. Em mundiais e europeus, vou com a minha mulher e ao mesmo tempo que aproveitamos para viajar e conhecer, vou ver essas competições. Sou doido por desporto, gosto de tudo, de desportos motorizados, coletivos, individuais. Gosto de cavalos. Na Arábia e nos Emirados tudo o que é corrida de cavalos que possa ir ver, eu vou ver. Sempre que estou na Europa vou ver corridas de touros a Portugal ou a Espanha. Gostava de jogar ténis, mas por causa de uma lesão num braço já não posso jogar ténis. Tenho pombos.

É columbófilo?
Sim, sou. quando era miúdo o primeiro vencimento que ganhei do futebol foi para fazer um pombal. Nos últimos 25 anos não tive pombos, mas finalmente o ano passado eu, o meu irmão Carlos e o meu amigo José Manuel, fizemos um pombal num terreno dos meus pais. É a expensas minhas mas são eles que cuidam daquilo. Por onde tenho passado gosto sempre de ver chegada de pombos. Na Madeira ia ver chegada de pombos, na Roménia também.

O José Torres também era columbófilo...
E o Chalana, assim como o Justino, que é o treinador adjunto de guarda redes do Fernando Santos. Há mais gente. É uma doença boa.

O Sp. Braga foi o último clube que Peseiro treinou em Portugal

O Sp. Braga foi o último clube que Peseiro treinou em Portugal

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O seu nome é Peseiro ou Péseiro?
É Peseiro, embora lá fora digam Péseiro. Aliás tenho uma história gira relacionada com o meu nome. Quando fui para Madrid o Makelelé andava em litígio com o clube. Foi no início da época, porque queria mais dinheiro. O Florentino Perez, e mal, não quis melhorar o vencimento dele e havia notícias de que ele se embora, porque o Chelsea dava-lhe mais dinheiro. Contra a nossa vontade, porque o Queiroz gostava dele, ele estava para ir embora. Então o primeiro treino que fazemos em Madrid é aberto ao público e quando estamos todos a correr, começam a gritar das bancadas "pesetero, pesetero" e eu pensei: “Mas estão a chamar-me peseteiro porquê? Eu sou Peseiro”. Comentei com o homem da comunicação de Madrid que me disse que eles estavam a gritar “pesetero”, que é uma pessoa que gosta muito de dinheiro". Mas eu não ganho assim tanto!?. Ele riu-se e disse-me que eles estavam a chamar “pesetero” ao Makekele e não a mim.

Esteve sempre em casas, nunca viveu longos períodos em hotel?
No segundo ano, na Arábia Saudita, estivemos em hotel porque a minha mulher vinha muito a Portugal para acompanhar a Susana, que ficou a estudar no Porto. Mas de resto foi sempre em casas.

Prefere casa a hotel?
Sim. Embora tenha um inconveniente: é que neste momento a bagagem é cada vez maior, por causa das coisas que fomos comprando aqui e ali ao longo destes anos. Não temos o hábito de vender as coisas em segunda mão, por isso a quantidade de coisas que tenho é grande. Ainda por cima, a minha mulher gosta que as casas onde estamos tenham um estado de alma que nos prenda, que nos seduza, um cunho pessoal e acabamos por gastar mais do que o plafond que os clubes nos dão para montar casa.

Qual foi a melhor casa onde já esteve?
Quando estive no Al Whada, em Abu Dhabi. Era uma casa fantástica perto da praia e do campo de golfe. Na Roménia também tinha uma casa muito boa, com piscina. Neste momento também vivo num apartamento enorme, num 37.º andar, com uma vista tremenda. O problema é quando toca o alarme...

São muitos degraus para descer...
É o pavor. Num 37ª andar pensamos: “Como é, vamos embora já, ou não?” Este ano já tivemos uma história dessas. Ao fim de um mês de estarmos no apartamento começa a tocar o alarme para abandonarmos as casas. E digo para a minha mulher: “Vou lá abaixo ver se isto é mesmo real ou não”. E fui, mas não levei telemóvel. Quando cheguei ao hall e vi que não era nada de especial, foi um falso alarme, em vez de ir para cima fiquei descontraído, na conversa. Quando cheguei lá acima, já ela tinha metido os valores principais, os relógios, o ouro, dinheiro, os contratos, em sacos e estava pronta para ir para baixo. Zangada porque estava farta de ligar e o telemovel estava lá em cima e ela sem saber se o prédio estava a arder ou não.

Tem mais histórias que possa partilhar?
Tantas. Por exemplo, na Madeira é hábito toda a gente largar fogo, no final de ano. Ou seja, todas as famílias compram fogo de artificio já preparado para largar, seja na rua ou das suas casas. É um ritual, para se ter sorte e felicidade. Logo no primeiro ano em que lá estivemos, fui comprar fogo e, da varanda da casa, juntamente com a família, os adjuntos e seus familiares, lá lancei algum fogo. Às tantas peguei num dos tubos de onde deviam sair bolas de fogo, e em vez de virar para a rua virei para casa. Eram seis bolas, e foram três seguidas para dentro de casa. apanharam todos um susto, desatou tudo a saltar, as paredes ficaram sujas, mas lá consegui virar aquilo e deitar o resto para fora. Volta não volta gozam todos comigo por causa disso.

Tem alguma história das arabias?
Eu gostava muito de ir às corridas de cavalo e numa das corridas um irmão do rei, que tem um dos melhores cavalos do mundo, disse-me que me oferecia um potro irmão do que tinha ganho a prova, se eu fosse ao mundial. Infelizmente, não fui. O dinheiro que um cavalo daqueles vale… Também tenho uma engraçada na Grécia.

Conte.
Os gregos são pessoas muito curiosas, simpáticas e gostam de falar. Tal como os egípcios não falam outra língua senão árabe, mas querem tirar fotografias connosco. Na Grécia, eles gostam de falar. É o único sítio por onde passei onde eles param para perguntar porque é que meti aquele jogador e não outro. Gostam de discutir futebol. É uma coisa louca. Param na rua para comentar connosco e temos de aceder. Às vezes queríamos ir à praia descansados e era complicado. Uma vez, eu e o meu adjunto, o Eduardinho, pagamos para ir a uma praia. Quando lá chegamos, aquilo era só a cultura do corpo. Eles e elas, era músculos por todo o lado, todos fit, nós sentimo-nos tão mal que ficamos o tempo todo dentro de água. Quando saimos de dentro de agua viemos embora. Escolhemos muito mal a praia (risos).

Já agora: e da Roménia, algum episódio?
Estivemos vários meses sem receber dinheiro, eu e a minha equipa técnica, e às tantas entramos em litígio. O clube suspendeu-me. Despedem-me num dia, vão jogar um jogo passados dois dias; perdem, entretanto eu volto à equipa porque sabia que tinham de me pagar indemnização grande. Quando voltei, tinha um papel na minha secretária que era uma espécie de menu de serviços, do género: partir um braço custa X; partir um dedo é X; partir uma perna, X. Queriam pressionar-me, como quem diz “põe-te a pau que podemos mandar fazer um destes servicinhos”. Fiquei um bocado nervoso, telefonei ao embaixador e ele diz: “Mister, não faça caso, é só garganta, é normal aqui” (risos).