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“O famoso desenho de um indivíduo parecido com um macaco a evoluir para um humano moderno é tudo menos exato”

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A investigação caiu no mundo científico como uma bomba: há 300 mil anos, mais 100 mil do que se esperava, já o homo sapiens era parecido connosco (e se calhar habitava o continente africano inteiro, e não o “jardim do Éden” de que se fala há décadas). Cientistas que participaram na descoberta e outros especialistas explicaram ao Expresso a importância dos novos achados

Algures no meio de Marrocos, numa montanha isolada com vista para a cordilheira do Atlas, há uma gruta de calcário cujo teto foi destruído durante uma operação mineira. É naquele lugar isolado a 100 quilómetros de Marraquexe, direção oeste, que pode encontrar-se um dos maiores segredos da evolução humana, e uma revelação que promete mudar o que pensávamos saber sobre as origens da nossa espécie.

Foi ali, em Jebel Irhoud, que se descobriram na década de 1960 alguns ossos fossilizados, na altura atribuídos a neandertais com uma idade calculada em aproximadamente 40 mil anos. Agora, mais de 50 anos passados, voltou a ser ali que se descobriram novos restos dos primeiros humanos modernos, por uma equipa de investigadores que está em êxtase: arriscam que os primeiros humanos modernos, da espécie homo sapiens, podem ter surgido há cerca de 300 mil anos.

O local das escavações em Jebel Irhoud

O local das escavações em Jebel Irhoud

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Para compreender porque é que isto é importante, é preciso perceber primeiro o que é que a comunidade científica tinha concluído até agora sobre as origens do homo sapiens. Como se conta nos dois estudos da equipa de investigadores publicada esta semana na revista “Nature”, atualmente pensava-se que os restos de humanos modernos mais antigos tinham sido encontrados na Etiópia, nas regiões de Omo Kibish e Herto, e que datavam de há 195 mil anos, o que colocaria a origem da nossa espécie há 200 mil anos, numa espécie de “jardim do Éden” situado no este de África.

Uma história diferente no espaço e no tempo

As novas descobertas não vêm apenas contrariar a idade dos nossos antecessores: para além de defenderem que temos pelo menos mais 100 mil anos de História do que pensávamos, estes investigadores acreditam que o local da descoberta prova que por esta altura os primeiros homo sapiens podiam já estar espalhados pelo continente africano, tornando a história da nossa evolução diferente no espaço e no tempo.

O paleontólogo francês Jean-Jacques Hublin apontando para os restos do crâneo humano encontrado em Jebel Irhoud

O paleontólogo francês Jean-Jacques Hublin apontando para os restos do crâneo humano encontrado em Jebel Irhoud

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“As nossas descobertas sugerem que há cerca de 300 mil anos o homo sapiens se dispersou pelo continente africano, e nós sugerimos que a nossa evolução depois dessa altura provavelmente aconteceu a uma escala pan-africana”, explica ao Expresso Shannon Mc Pherron, um dos responsáveis pelas descobertas de Jebel Irhoud e investigador no Instituto Max Planck para Antropologia Evolucionária, em Leipzig, Alemanha. “Mostrámos que o noroeste africano faz parte da história das nossas origens desde o princípio, e isto tem provavelmente a ver com os periódicos ‘eventos verdes’ no Sara, quando o Sara se abria a animais da savana e os caçadores iam lá caçá-los. Um destes eventos aconteceu há 330 mil anos e encaixa com o que encontrámos em Marrocos”.

Fóssil da primeira mandíbula quase completa descoberta em Marrocos

Fóssil da primeira mandíbula quase completa descoberta em Marrocos

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Os restos fossilizados encontrados em Jebel Irhoud, em escavações que já duravam pelo menos desde 2004 (e que contaram com a intervenção de uma investigadora portuguesa, Vera Aldeia, na descoberta dos primeiros restos), incluem parte de um crânio, um maxilar, e restos de dentes pertencentes a três adultos, um jovem e uma criança de cerca de oito anos. E são também esses restos que permitem, mais uma vez, contrariar o que se pensava sobre a evolução humana, surgindo a tese de que esta terá sido mais lenta do que se pensava, com os primeiros humanos modernos a terem uma face bastante semelhante à nossa (um dos membros da equipa garantia mesmo ao “The Guardian” que seria possível confundir um dos rostos que encontraram em Marrocos com “um rosto que se encontraria hoje no metro de Londres”).

“Mostrámos que primeiro foi a face que se tornou moderna e que depois disso a evolução aconteceu sobretudo com mudanças à volta dos ossos que rodeiam o cérebro”, confirma o investigador. No estudo, os especialistas explicam que a diferença mais significativa nos restos encontrados foi mesmo a forma do crânio, mais alongada do que a dos humanos atuais, mas com faces muito diferentes das maiores e mais robustas dos neandertais e com uma mandíbula típica do homem moderno.

Para além dos restos humanos, os investigadores encontraram ainda vários artefactos que dizem ter servido para fortalecer ainda mais estas novas teses. Perto dos ossos estavam ferramentas de pedra, restos de carvão (provavelmente de fogueiras) e ossos de gazela. Estas fogueiras terão sido um dos pontos-chave para conseguir determinar a data de origem das peças, que os investigadores dizem coincidir com a dos restos humanos e serem provenientes de um local a 50 quilómetros dali, o que pode indicar que os espécimenes andariam a caçar e à procura de comida.

Algumas das ferramentas de pedra

Algumas das ferramentas de pedra

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“As ferramentas de pedra em Irhoud são da idade média da pedra, e este tipo de ferramentas são conhecidas também no resto de África”, explica Shannon McPherron. “Para determinar a idade destes restos usamos um método chamada termoluminescência. Este método mede o tempo que passou desde que um artefacto de pedra foi aquecido pela última vez. As pessoas que ali viveram no passado faziam fogueiras que acidentalmente aqueciam ferramentas que estavam no chão”.

O resultado dos testes determinou que as ferramentas serão datadas de há 280 mil a 350 mil anos, e que os dentes humanos encontrados terão 290 mil anos de idade. Também membro da equipa de Jebel Irhoud, Rennaud Joannes-Boyau, investigador na Australian National University, em Canberra, explica ao Expresso como se fizeram esses testes. “A termoluminescência foi aplicada a artefactos de pedra. Técnicas conhecidas como a “coupled uranium-series” e a “electron spin resonance” foram aplicadas aos restos fossilizados diretamente, o que nos deu uma idade direta para uma das mandíbulas encontradas em Jeber Irhoud. Tanto a data do maxilar como o das ferramentas de pedra apontam para uma idade de 300 mil anos”.

O êxtase da equipa e as dúvidas dos outros

Se a equipa responsável pelos estudos publicados na “Nature” se mostra segura da importância das novas descobertas, alguns especialistas pedem moderação quando se fala destes resultados. Ao “The Guardian”, Lee Berger, investigador cuja equipa descobriu recentemente um parente arcaico dos humanos de hoje em Joanesburgo, diz que embora a descoberta seja motivo para entusiasmo, a ideia de que todo o continente africano esteve envolvido na evolução dos humanos modernos pode ser exagerada. “Eles pegaram em dois pontos [onde se recolheram fósseis] e não desenharam uma linha entre eles, mas um mapa gigante de África”, explica.

Ao Expresso, Graeme Barker, especialista em arqueologia da Universidade de Cambridge que não esteve envolvido nos estudos, assegura que as escavações de Jebel Irhoud produziram resultados “muito entusiasmantes e significativos”, apoiando a ideia de que a origem do homem moderno será “provavelmente” situada em todo o continente africano. “As descobertas estenderam a cronologia da nossa espécie, redesenharam o mapa e abriram questões inteiramente novas sobre a nossa história mais antiga”.

Para os especialistas, a descoberta traça novos caminhos para a ciência e “uma perspetiva inteiramente nova” sobre a origem da nossa espécie. “Mais do que nunca, como humanos, a nossa complexa viagem evolucionária para terminarmos como a única espécie humana sobrevivente parece tudo menos linear. O famoso desenho de uma evolução linear e simplista, de um indivíduo parecido com um macaco a evoluir para um humano moderno é tudo menos exato”, conclui Rennaud Joannes-Boyau.