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O Maestro

d.r.

Antes de mais há a voz. A voragem contida naquela urgência de reclamar os ventos. Aquele desejo imenso de agarrar a história e as histórias pelos desalmados cornos da verdade e da mentira. Aquele sentimento profundo derramado em cada palavra, em cada sílaba, em cada nota. Aquele saber estar como se o ontem fosse o hoje contido no futuro que há de vir, fazem de Patxi Andión um companheiro indispensável nesta caminhada feita de angústias, de interrogações, de perplexidades, de amores feitos e desfeitos, de alegrias partilhadas à volta de um copo, de uma conversa, de uma roda de amigos.

Não deverá haver cantor algum originário das Espanhas com tanta e tão continuada ligação ao Portugal que somos ou fomos construindo. Patxi desenvolveu um carinho único por um país que, não sendo o seu, quase lhe pertence, tamanho é o sentido de pertença que nele próprio se divisa.

Há uma paixão recíproca. Paixão antiga. Paixão feita de palavras trazidas pelos ventos soprados por Patxi. Palavras depositadas bem fundo na memória de quantos ainda hoje acorrem aos seus concertos para encherem salas de norte a sul do país. E não haverá outro cantor originário do país vizinho a consegui-lo de um modo tão intenso, tão apaixonado, perante um público tão carente de ouvir o tantas vezes ouvido.

d.r.

Patxi não parou no tempo. Construiu belíssimas canções há trinta, vinte anos, dez anos. Não as renega. Continuam a fazer parte do seu património. Preenchem ainda espaços do seu reportório. Porém, num homem tão descaradamente sequioso de vida. Tão despudoradamente carente de acariciar tudo quanto respeite ao sentimento humano, sejam revoltas ou paixões, sejam desejos ou indignações, não poderia esperar-se que se quedasse com a serena contemplação do já feito.

Há em Patxi essa permanente inquietação que o faz olhar com um sorriso quase paternal o riquíssimo passado musical construído ao longo de décadas. Sem se perder nunca num contentamento autocontemplativo que o faria deixar-se ficar na sombra de si próprio.

Interessa-lhe a luminosidade libertada pela aventura do novo. Importa-lhe trabalhar novas palavras, novas sonoridades, novos ambientes musicais, novos questionamentos. Porque outro é o tempo. Porque outro é o homem que pensa, compõe e canta com uma voz feita de uma rouquidão única o que tanto nos encanta.

Foi sempre assim. Já o era em 1970, quando de fascismos se vivia ainda em Portugal e Espanha, e Patxi Andión por cá começou a aparecer. Um dos primeiros locais de peregrinação foi a Pinacoteca, uma discoteca então existente na Rua de Camões, no Porto, onde participou na emissão de um programa de rádio. Esteve também no programa “Zip-Zip” e esse terá sido o grande momento de descoberta dos portugueses de uma nova voz.

Atuou pela primeira vez em Portugal no dia 24 de março de 1974, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Sempre que podia, voltava. Mas não podia sempre, mesmo que sua fosse a vontade de voltar. A PIDE não gostava de Patxi Andión. E no contexto do universo político e ideológico da polícia política existiam todas as razões para não gostar do que dizia e cantava este homem de origens bascas.

d.r.

Não é que as suas canções contivessem uma mensagem obviamente subversiva ou revolucionária. Porventura seria mais perigoso ainda. Porque mais importante do que o literalmente dito, era o implicitamente dito. E, aí, Patxi, que em maio de 1970 foi a capa do nº 5 da mítica revista “Mundo da Canção”, editada no Porto por Adelino Tavares, era e é tremendo. Não por acaso, a PIDE expulsou-o mais do que uma vez de Portugal.

Não importa. Nunca lhe importou. Do que ele gostava mesmo era dos portugueses, tão rendidos a canções como “Una, dos y três”, “Amor Primero”, “20 Aniversário – Palabras”. Esta, então, é uma constante na memória de quem o revisita.

Assim aconteceu na passada segunda-feira na Casa da Música. Patxi trazia Zeca Afonso no coração. E trazia vários amigos para celebrar Zeca. Entre eles João Afonso, José Barros, Carlos Alberto Moniz e ainda o seu filho, Iñigo Andión, 25 anos, e que, tal como o pai, já canta em português.

d.r.

Com a colaboração preciosa de Dani Garcia ao piano, e também Guilhermo McGill (bateria/percussão) e Josemi Garzón (contrabaixo), souberam derramar naquele palco uma comovente viagem pelo mundo de Zeca, através de canções como “Verdes são os campos”, “Traz outro amigo também”, “No comboio descendente”, “Canção de embalar”, “Venham mais cinco” ou o apoteótico “O que faz falta”.

Foi como que um intervalo de ouro numa atuação toda ela feita de emoções. Como o acentuou Patxi, não se tratava de apenas recordar ou homenagear Zeca Afonso, com quem chegou a ter um projeto de disco em conjunto, nunca concretizado. Cada um deles musicaria cinco poetas do país do outro. O que ali se viveu foi, antes de mais, a glória de canções tornadas património de todos, pela eternidade nelas contida.

A plateia vibrou. Mas na plateia passeavam-se muitas nostalgias. A cada passo surgia uma voz ao fundo a pedir uma canção. “20 anos”. “Nos pasaran la cuenta”. Ou “El Maestro”.

Patxi Andión acabou por integrar no alinhamento do concerto várias das canções tão esperadas. Ficou por corresponder o insistente pedido para que cantasse “El Maestro”. Não era necessário. Com o passar dos anos. Com a segurança adquirida. Com a imponente presença em palco cada vez mais solidificada, Patxi é ele próprio, aos 70 anos, o verdadeiro e grande maestro.