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Paul Symington : “Estamos a fazer cada vez melhores vinhos”

Fernando Veludo/NFactos

O consumo de vinhos fortificados no mundo está em queda e o futuro do Porto passa pelas categorias especiais. Quem o diz é O presidente da Symington Family Estates, um homem que olha para o negócio dos vinhos a longo prazo, sem a pressão de lucros imediatos

Entrevista Margarida Cardoso, Fotografia Fernando Veludo/NFactos

Fornecedor da Casa Real inglesa, Paul Symington tem visto o seu grupo acumular prémios internacionais ao longo dos anos. Quarta-feira, vai falar de vinhos fortificados na Wine Summit Cascais’17.

Temos o Porto, o Madeira, o Moscatel. Somo o país dos vinhos fortificados? Alguém rivaliza connosco?
O Xerez, de Espanha, também é muito grande, ou foi. A verdade é que o consumo de vinhos fortificados no mundo está em queda e isso é válido para Portugal, para Espanha e para outros países como Itália, com o seu Marsala. Em 20 anos, as vendas de Xerez passaram de 1,6 milhões de caixas de nove litros, para menos de quatro milhões. O Madeira caiu de 420 mil para 370 mil caixas e, no caso do Porto, a descida foi de 10 milhões para 8,6 milhões.

Isto acontece porquê?
O vinho generoso está numa fase de adaptação a novos hábitos de consumo e só tem duas alternativas: encontra o seu caminho ou morre. No caso do vinho do Porto, temos conseguido uma maior adaptação à nova realidade do mercado e do mundo porque as boas empresas do sector estão a fazer o seu trabalho. Mas em quase 40 anos de carreira vi 80% das empresas de vinho do Porto mudarem de mãos apesar de sermos considerados um sector supertradicional, em que nada muda.

No caso do vinho do Porto, o que está a ser feito para ultrapassar a quebra de consumo com sucesso?
Apostamos nas categorias especiais para crescermos em valor apesar do volume cair. Em sete anos, as vendas de vinho do Porto caíram 7,5% em volume e aumentaram 7,1% em valor (377 milhões de euros). Depois, é preciso ser criativo, investir em marketing, ter coragem para inovar e ir apresentando novidade sem negar a tradição. Uma das coisa que fizemos na Symington foi engarrafar tawnies em vidro branco já há 10 anos. É um vinho lindíssimo que estava escondido numa garrafa escura. Agora, o grande desafio é fazer as autoridades entenderem o que se passa. Os políticos veem o vinho do Porto como uma joia imutável, mas há regras centenárias não servem ao século XXI.

Não é preciso pensar nos consumidores jovens?
Precisamente. O crescimento em valor nos últimos anos tem uma base importante nos tawnies velhos que podem ser servidos frescos, em ambiente informal. Queremos posicionar o vinho do Porto como um produto de topo, mas não um produto de elites. É um vinho para todos e para todos os dias. Beber um cálice enquanto vemos um filme em casa, por exemplo, é maravilhoso.

Há cada cada vez mais eventos à volta do vinho. O consumidor está mais exigente e interessado no mundo dos vinhos?
Claramente. O consumidor quer informação, quer conhecer a história e a origem dos produtos, valoriza a sustentabilidade. É por isso, também, que consideramos o investimento em vinhas próprias fundamental na nossa estratégia. Na Symington, compramos 12 quintas desde 2006. Temos hoje mais de mil hectares de vinha no Douro, mais 43 ha no Alentejo. Somos o maior proprietário de vinhas do país e um dos maiores na Europa porque acreditamos que a qualidade e a credibilidade dos nossos vinhos é feita na vinha.

A qualidade dos vinhos portugueses tem vindo a melhorar?
Estamos a fazer cada vez melhores vinhos, sim. A qualidade dos brancos e tintos das diferentes regiões nunca esteve tão alta. A UTAD (Universidade de Trás os Montes e Alto Douro) está a criar uma nova geração de enólogos que tem feito uma revolução em Portugal. Mas os outros países também fazem o seu caminho. E, no caso do Douro DOC (vinho com denominação de origem controlada), temos problemas para resolver porque as uvas são vendidas abaixo do custo. Basta comparar com o Alentejo, por exemplo: o custo para implementar uma vinha é superior, o rendimento é inferior e o preço na prateleira dos vinhos líderes de venda das duas regiões é idêntico.

Como explica isso?
Nas uvas destinadas a vinho do Porto, com benefício, o lavrador é pago acima dos custos, mas vende as outras uvas a preços irrisórios. Isto é grave porque com a quebra de consumo dos vinhos generosos, a quantidade de benefício definida anualmente para o vinho do Porto vai diminuir. Aí, o preço das uvas para o vinho DOC vai subir e o consumidor vai estranhar. Estamos a construir um negócio excelente, mas com uma estratégia errada, baseado num custo de uvas demasiado baixo.

Um bom vinho é mais ciência, enologia, terroir ou clima?
O terroir vem em primeiro lugar. O grande passo no Douro e noutras regiões do país foi sobrepor um bom enólogo a um bom terroir. Mas o enólogo tem de ser humilde, respeitar a terra, ser paciente. Fazer um bom vinho é uma maratona. Comprámos o Vesúvio em 1989 e o nosso primeiro grande vinho do Porto lá é de 1994. Demorou quatro anos a perceber verdadeiramente a quinta.

Ser uma empresa familiar, como a Symington, é uma mais-valia?
Permite olhar a longo prazo, sem a pressão de lucros imediatos. Investimos em quintas em plena crise porque olhamos sempre 10 anos para a frente. Estamos a trabalhar para nós, para os nossos filhos e netos. Espero ver os meus netos a trabalhar na empresa. Serão já a sexta geração.

Um conselho útil para quem vai comprar uma garrafa de vinho?
Não deve escolher apenas uma garrafa porque é a mais barata. Nesse caso está a pagar mais impostos, vidro, cartão, do que o vinho propriamente dito. É um falso negócio, em especial em países como o Reino Unido, onde 80% do preço pago por uma garrafa barata é IVA e imposto de álcool.