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O 10 de Junho é ‘filho’ da República

A historiadora Maria Isabel João é autora do livro “Memória e Império — Comemorações em Portugal (1880–1960)”.

António Pedro Ferreira

As celebrações do 10 de Junho sobreviveram a três regimes políticos. Quase que poderemos dizer quatro, já que esta data — muito acarinhada pelos republicanos — foi evocada pela primeira vez em 1880, no reinado de D. Luís. Se quiser saber a história até aos nossos dias leia a entrevista com a investigadora Maria Isabel João

Um ano antes do golpe que instituiu a ditadura militar em 1926, a I República declarou que a “Festa de Portugal se celebrará no dia 10 de Junho de cada ano”. O Estado Novo manteve a data como Festa de Portugal, elevando-a à condição de feriado nacional em 1929.

O título de Dia de Portugal só surgiria décadas depois. E, apesar de ninguém saber se o poeta Luís Vaz de Camões morreu mesmo neste dia, a democracia continuou a celebrar o 10 de Junho como data da identidade nacional. Uma originalidade portuguesa que é praticamente “caso único” no mundo, segundo a professora Maria Isabel João, autora do livro “Memória e Império — Comemorações em Portugal (1880–1960)”. A historiadora lembra que a “maioria esmagadora dos países do mundo escolhe uma data que se relaciona com a fundação do Estado ou do regime político vigente”.

Como é que esta data consegue resistir a três regimes políticos como símbolo da identidade nacional?
Porque está identificada com a figura de Camões, que é o símbolo da nação desde o século XIX. É uma figura que emerge no contexto da mitologia nacional criada pelos românticos e que se transforma num símbolo da nação. O [historiador] Oliveira Martins diz que Camões é o epónimo de Portugal. E o [republicano] Teófilo Braga, num dos seus textos, diz que, se dissermos que somos portugueses no estrangeiro, ninguém nos identifica. Mas, se dissermos que somos da pátria de Camões, já nos identificam.

A I República acarinha o dia por causa de Camões?
Sim, porque na altura das comemorações do tricentenário da morte de Camões, em 1880, os republicanos, e nomeadamente Teófilo Braga, que tinha importado as conceções positivistas de Auguste Comte para Portugal, entendia que era importante substituir os símbolos religiosos por laicos. Camões surge como um símbolo laico.

Podemos dizer que Teófilo é o ‘pai‘ do Dia de Camões?
Ele é o pai da ideia da comemoração do III centenário da morte de Camões, que cria as bases para que o 10 de Junho pudesse vir a ser feriado nacional. Falou-se nisso na época, mas nunca foi feriado no período da monarquia. Teófilo empenhou-se muito, como estudioso de literatura, a estudar Camões e a obra dele, e também como mentor das comemorações do III centenário, bem como na promoção da figura de Camões como símbolo nacional. Este acontecimento adquiriu uma enorme importância, porque houve uma grande mobilização da imprensa da época, que contribuiu para que ficasse na memória.

A imprensa foi determinante para a consagração e interiorização da figura de Camões como símbolo nacional?
Teófilo Braga apareceu na imprensa [com artigos] a defender o centenário. Os republicanos impuseram um modelo de celebrações importado da França e da Revolução Francesa, o que fez com que os monárquicos e a própria Corte tivessem hesitado no modelo das comemorações sem desconfiarem da figura de Camões. A ideia de que na época iria haver uma procissão cívica no 10 de Junho era uma apropriação de rituais religiosos que foram [assim] laicizados. As comemorações mobilizaram Câmaras de todo o país, associações... E houve um grande cortejo, que partiu da Praça do Comércio e foi depor flores na estátua de Camões, que contribuiu para a afirmação dos republicanos como força política, embora o próprio rei tenha presenciado as comemorações.

A partir de 1911, o 10 de Junho passa a ser feriado municipal de Lisboa...
O regime republicano homenageou a data, tornando o dia feriado na capital. Ao longo dos anos, as comemorações do dia 10 de junho foram variando consoante as circunstâncias políticas. Em 1917, a data foi celebrada como Dia dos Aliados, porque a I Guerra Mundial mobilizava a atenção de todos. E em 1924, quando se celebrou o IV centenário do nascimento de Camões, o 10 de Junho foi a data escolhida. A imprensa da época utilizava a expressão Festa da Raça para as comemorações camonianas, e o sentido do termo ‘raça’ era vago e identificava-se com o próprio povo português. A celebração durou seis dias e teve repercussão no estrangeiro, em especial em Espanha.

É o Estado Novo que batiza a data como Dia de Portugal?
Sim, mas só em 1952. Entre 1925 e 1952, o 10 de Junho foi designado como Festa de Portugal. E só passou a ser celebrado como feriado nacional em 1929.

As pessoas precisam de símbolos. É isso que explica que o 10 de Junho tenha sobrevivido à queda da ditadura como símbolo da identidade nacional?
Exatamente, a questão simbólica é muito importante, mas isso [também] revela o quanto o 10 de Junho estava enraizado na consciência nacional. Em 1974, realizou-se uma manifestação de solidariedade com as Forças Armadas; no fim, colocaram flores na estátua de Camões [em Lisboa]. E em 1977, depois de Ramalho Eanes ter sido eleito, a data passou a Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas. No ano seguinte começou a ser celebrado como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas [designação que mantém].

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