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Mar português (como damos cartas na moda de praia)

Chega o verão, e com ele os dias na praia. Nos últimos anos, várias marcas nacionais nasceram para dar à época estival tons ainda mais bonitos

O que seria dos portugueses sem mar? Para uma grande fatia dos que povoam este “jardim à beira-mar plantado” — com 943 km de costa (só no continente) e 451 praias com classificação de ‘excelente’ — o destino de férias perfeito inclui areia, mar e sol. Mais de metade dos portugueses prefere gozar os seus dias de descanso indo a banhos. Sendo um país de praia, onde o sol brilha seis meses por ano, seria expectável que houvesse muitas marcas nacionais a disputar o mercado de fatos de banho e biquínis, toalhas e chinelos de praia. Porém, isso só aconteceu de 2012 para cá. Agora, existe uma miríade de propostas, quase todas nascidas da iniciativa de jovens, que vieram revolucionar o mercado da moda de praia.

A coleção de 2017 da Papua inspirou-se em África, nos tons terra, nos safaris e no estilo colonial

A coleção de 2017 da Papua inspirou-se em África, nos tons terra, nos safaris e no estilo colonial

Para Mariana Cunha, gestora de 30 anos, o novo negócio começou “como uma brincadeira”. Uma viagem a três ao Norte de África, com a irmã e o primo, aguçou-lhes a curiosidade para umas toalhas que lá se usavam – e a que os árabes chamavam fouta (lê-se “fu-tah”). “Eram muito leves (cerca de 300 gramas), 100% em algodão.” A partir daquele momento, as toalhas vindas de Portugal ficaram no fundo da mala, e quando regressaram da viagem, trouxeram com eles o conceito. No primeiro ano, produziram 300 unidades na Tunísia, toalhas de 2 metros por 1, com 15 padrões diferentes, que venderam a €25. Face à receção das Futahs, como lhes chamaram, as irmãs Cunha perceberam que estavam perante uma oportunidade de negócio. Despediram-se dos empregos, e dedicaram-se de corpo e alma. Agora, produzem 30 mil unidades, Portugal continua a ser o mercado principal, mas a exportação tem ganho espaço. “Brasil, Austrália, EUA, Angola, Espanha, Líbano e Suíça” foram alguns dos países que se renderam às Futahs. “Simplicidade e leveza” são conceitos-chave para a marca. Ou não fosse o seu slogan “All you need is freedom” (Só precisas de liberdade).

Os biquínis sofisticados e originais da Bohemian Swimwear

Os biquínis sofisticados e originais da Bohemian Swimwear

Foi também através das viagens — e da liberdade — que Erica Bettencourt criou a sua marca de biquínis, a Bohemian Swimwear, também em 2013. Surfista desde os 15 anos, “passava a vida de biquíni. Até de inverno, “tinha-o sempre vestido por baixo da roupa, para ir para o mar depois das aulas”, conta. Somou-se a isso, mais tarde, um emprego de assistente de bordo na TAP. Numa vida passada a viajar, Erica habituou-se a comprar os seus biquínis no estrangeiro, fosse na Austrália, no Brasil ou nos EUA. Até que, depois de trazer dezenas de encomendas para as amigas, pensou: porque não fazer uma coleção em Portugal? Foi o início da Bohemian Swimwear, coleção de biquínis, triquínis e fatos de banho de formatos originais, com muita cor e padrões, e uma filosofia “descontraída e boémia”. Das 1000 unidades produzidas em 2013, no seu atelier, com a ajuda de costureiras, a Bohemian passou a 10 mil unidades, feitas numa fábrica do grande Porto, em 2017.

Na Summer Factory, uma família inteira pode vestir-se com uma linha de fatos de banho a condizer, para todos os elementos — mesmo que sejam apontamentos

Na Summer Factory, uma família inteira pode vestir-se com uma linha de fatos de banho a condizer, para todos os elementos — mesmo que sejam apontamentos

Erica continua a beber inspiração nas suas viagens: “Nada como estar numa praia da Austrália ou do Panamá para perceber o que está na moda.” O seu público são essencialmente as “mulheres adultas, dos 19 aos 35 anos, que gostam de moda, de ter uma peça diferente e de coisas sofisticadas”. Também os criadores da Papua, linha de biquínis femininos criada por Marta Santos e Nuno Leitão, em 2012, se inspirou no exotismo dos destinos de férias longínquos para dar nome à sua marca. “Há seis anos, percebemos que havia uma grande lacuna no swimwear nacional. E sempre quisemos criar algo nosso.” Então, avançaram para uma pequena produção, de 1500 unidades que voou, entre junho e agosto, só com o passa-palavra. No ano seguinte, o casal deu outra solidez ao negócio. Iniciaram confeção própria em Leiria, criaram um site, e um conceito para cada coleção. Todo o design dos biquínis é de Marta e Nuno, e cada coleção conta 15 modelos diferentes (que chegam aos 40, com as variações de cores). Este ano, estão lançadas 2500 peças, e no mês de junho, a loja física abre no Príncipe Real.

A Futah apostou na leveza das suas toalhas (300 gramas), e em padrões diferentes

A Futah apostou na leveza das suas toalhas (300 gramas), e em padrões diferentes

No bairro de Campo de Ourique, Ana Costa encontrou o poiso ideal para a sua linha “familiar”. A economista foi buscar inspiração à sua família e à experiência de mãe para criar a Summer Factory. Depois de ter o terceiro filho, equacionou dedicar-se “a um projeto mais pessoal, na área da moda”. Foi assim que nasceu a Summer Factory, que tem como filosofia vender peças para toda a família. Pai, mãe e filhos podem entrar naquela loja e sair com fatos de banho a condizer, seja no padrão do tecido que se reproduz num bolso do fato de banho do pai, ou nas alças traçadas do biquíni da mãe, igual ao da(s) filha(s). Ana veste “famílias inteiras”, mas admite que “as teenagers” aderiram em força, e que “mães e filhas” adoram ter peças iguais. Atualmente, esta marca 100% portuguesa produz 5000 unidades por ano.

Porque é que uma toalha 
tem de ser um retângulo?

Um olhar sobre o areal foi quanto bastou a Frederico Cardoso para ter uma ideia. Mestre em design gráfico, o jovem de 29 anos olhou para a praia, em 2012, e percebeu que “a oferta de toalhas era muito fraca”. “Quer em termos de branding, quer em termos de imagem”, a variedade era pobre. Decidiu então criar “um produto completamente distinto, redesenhando a toalha retangular”. Surgiu assim a Vertty, marcada por triângulos e ângulos irregulares, “marcadamente urbana”, caracteriza Frederico. A juntar a esta inovação veio a função: ter uma toalha mais leve. O material escolhido, ketten, seca mais depressa. E “um bolso resistente à água” foi colocado no centro da toalha. Em seis meses, a Vertty vendeu para 50 países. Oito mil toalhas voaram num sopro. A comunicação, integralmente feita em inglês, ajudou. Hoje em dia, Portugal representa metade das vendas, mas EUA, Austrália e Suíça vêm logo a seguir. No ano passado, a Vertty lançou também uma coleção de biquínis, sem costuras, cortados a laser, na mesma linha geométrica, e este ano, vai lançar a coleção para homem.

As toalhas triangulares da Vertty são um sucesso de vendas

As toalhas triangulares da Vertty são um sucesso de vendas

As Portuguesas são chinelos feitos com base de cortiça

As Portuguesas são chinelos feitos com base de cortiça

Foi também a partir de uma lacuna no mercado, a escassez de “soluções ecofriendly”, que o arquiteto Pedro Abrantes lançou, em 2016, as Portuguesas, chinelos de praia com sola em cortiça. O conforto do calçado e o facto de evitar a transpiração, ao invés das flip-flops tradicionais, são as grandes mais-valias deste produto, que vendeu “milhares de pares”. Nascido de uma parceria com a Amorim, a maior corticeira nacional, estes chinelos, que vão na quarta coleção, têm “a portugalidade no seu DNA”, explica Pedro. Se tudo corresse bem, em vez de Havaianas, passaremos a andar de Portuguesas nos pés, a estender-nos em Futahs e Verttys, biquínis lusitanos no corpo. E assim regressamos ao mar português.