Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Jantar com colher de prata

Tiago Miranda

Chamam-lhes “jantares guerrilha”, porque ninguém sabe onde serão a não ser de véspera - e podem ter ‘dress codes’ ou decorações arrojadas, de acordo com o tema escolhido. Os jantares ‘Silverspoon’ voltaram a Portugal para celebrar os Santos Populares, sob o mote "Made in Portugal".

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotojornalista

Quinta-feira, 19h30. O local é o antigo Santiago Alquimista, em Alfama - que é também uma velha fundição. À entrada, um oleiro sentado no torno fabrica vasilhas, ao vivo, luzes a incidir sobre ele. No ar, ecoam os sons da guitarra portuguesa de João Lima, numa roupagem moderna e urbana. Pelas várias salas do espaço, cinco dezenas de pessoas bebericam espumante nacional, enquanto convivem descontraídamente. Em vários recantos, há azulejos, peças de barro vermelho, cadeiras em cortiça, objetos cujo denominador comum é serem 100% portugueses, de design, material e autoria.

O oleiro Nuno Batalha fez vários objetos em barro vermelho ao vivo, no início da iniciativa Silver.Spoon

O oleiro Nuno Batalha fez vários objetos em barro vermelho ao vivo, no início da iniciativa Silver.Spoon

Tiago Miranda

"Made in Portugal" foi o tema escolhido para este jantar da Silver.Spoon, empresa que se define por fazer "guerrilla dining" (jantares de guerrilha), "experiências de gastronomia únicas" e irrepetíveis, subordinadas a um tema (mais ou menos consensual), e cujo local só se conhece na véspera do acontecimento. Tiffany Ng, a chinesa que fundou a Silver.Spoon em 2009, em Copenhaga, caracteriza os eventos que organiza como "exclusivos, mas não elitistas" (o jantar, das 19h30 às 23h30, custava €105 por pessoa). "A ideia é criar impacto", explicou ela ao Expresso, até porque "a qualidade sobrepõe-se à quantidade". É esse fator, e o espaço físico escolhido (que nunca é o mesmo), que definem o número de comensais. Naquela noite, foram 55 a sentar-se à mesa, mas até sábado, Tiffany espera cerca de 170 pessoas, distribuídas por três jantares. A conversa à mesa, e a mistura de pessoas, constituí uma das grandes riquezas do evento, considera.

A banda sonora da noite ficou a cargo de João Lima, com a sua guitarra portuguesa em versão moderna

A banda sonora da noite ficou a cargo de João Lima, com a sua guitarra portuguesa em versão moderna

Tiago Miranda

Tiffany conta que veio pela primeira vez a Portugal em 2010 - e apaixonou-se de tal modo que não descansou enquanto não arranjou maneira de voltar. De então para cá, vive entre Londres, Copenhaga e Lisboa, onde passa cerca de 4 meses por ano. "Neste momento, a procura pelo destino Portugal é três vezes mais elevada do que nos restantes países da Europa", avança. A curiosidade dos estrangeiros gerou uma oportunidade de negócio - mas Tiffany teme que alguns dos "segredos bem guardados" se percam. Questiona: "Até que ponto se deve sacrificar a alma de uma cidade?" A partir dessa reflexão, chegou ao tema daquela noite: "Made in Portugal". Para ela, este era o momento certo para voltar às raízes de Portugal (a olaria, o vidro, a cortiça, o azulejo...), e convocar os novos 'designers' a trabalhar com estas tradições.

Duas grandes mesas corridas sentaram 55 pessoas, numa das salas principais da antiga fundição, em Alfama

Duas grandes mesas corridas sentaram 55 pessoas, numa das salas principais da antiga fundição, em Alfama

Tiago Miranda

Um pouco do mundo à mesa


Chegada a hora do jantar, passamos para outra sala, espaçosa. Ao fundo, encontram-se os dois chefs - Shay Ola, britânico, e Rui Rebelo, português - responsáveis pela ementa da noite. Duas grandes mesas corridas acolhem os 55 comensais, que são "forçados" a conviver entre si. Essa acaba por ser uma das maiores mais-valias da noite. À minha frente senta-se Anna, uma jornalista de viagens nova-iorquina que elegeu Portugal para viver há quatro meses; ao meu lado está um casal de arquitetos, composto por uma brasileira (Gabriela Nunes) e um franco-português (Filipe Lourenço), que há 2 anos trocaram Paris por Portugal; do outro lado está um 'video-artist'. Na mesa em frente, um casal chinês está sentado ao lado de um casal francês - Oriane Leon-Dufour e Vincent Chicha, que saberei mais tarde, são os novos proprietários daquele espaço, que se chama agora "Sus-pen-so". (Vincent tinha uma empresa de eventos, luz e som em Paris, sendo também dj).
Ricardo trabalha com Tiffany desde 2015 - ocupa-se das redes sociais. Explica que o público dos jantares Silver.Spoon se situa normalmente "entre os 30 e os 50 anos", que é "muito heterogéneo", e que estes eventos "únicos, que não se repetem" suscitam o interesse das pessoas. Foi por uma rede social, justamente (o Facebook) que Gabriela e Filipe souberam que este jantar iria acontecer. "Por ser efémero, nómada, e especial", acharam que valia a pena a experiência.

Os chefs empratam os vários elementos de uma ementa 100% nacional

Os chefs empratam os vários elementos de uma ementa 100% nacional

Tiago Miranda

Toda a ementa (três entradas, dois pratos e uma sobremesa) é 100% nacional, bebidas incluídas (exceção feita à estrella Damm). Servidas em folhas de couve do universo de Bordallo Pinheiro, sucedem-se ostras, atum dos Açores, polvo de Aljezur com batata-doce, sardinhas com broa. A banda sonora do jantar é 'performance' em direto. A guitarra portuguesa que João Lima dedilha mescla-se com as sonoridades que o dj, ao lado, introduz. A batida e o toque indiano dão uma roupagem moderna a este som tão português.

À mesa de Jamie Oliver

Na sala da entrada, o oleiro Nuno Batalha prepara-se para voltar para casa. Depois de criar vários potes, vasilhas e outros itens em barro vermelho, está cumprida a sua função. Com olaria na aldeia da Achada, em Mafra, herdou do pai este gosto e profissão. Triste com aquilo que considera ser um mister em desaparecimento - "Não tenho dúvidas de que estas artes vão desaparecer", confidencia - , não se pode dizer que a vida lhe corra mal. Entre outros clientes, nacionais e internacionais, conta com alguns ilustres - é ele quem fornece, há 9 anos, várias peças para alguns dos restaurantes de Jamie Oliver em Londres, os "Jamie's Italian". Vende "milhares de peças por ano, todas feitas à mão", conta, de frigideiras de barro a outros utensílios. E garante: "Não há nada melhor que o barro vermelho para trazer a comida para a mesa ainda a borbulhar".

O último prato do jantar servido, os comensais são convidados a mudar de sala para desfrutarem da sobremesa. Esta terá sido, porventura, a melhor surpresa gastronómica da noite. A ementa prometia, enigmática, "Cortiça, Vidro, Ar". Em vários cestos, lá estavam, efetivamente, pedaços de cortiça, de vidro partido. Ao lado, havia cereais ("cortiça"), uma placa caramelizada de rebuçado, para partir com um martelo ("vidro"), e um sifão com espuma de vinho do Porto e pera ("ar") para encimar a sobremesa. Uma brincadeira saborosa e conceptualmente interessante. E assim se fechou o serão, pelas 23h30, com chave de ouro. Ou melhor dizendo, com colher de prata.