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Fui! Volto daqui a um ano

GRAFISMO SOBRE FOTO DE DIOGO PINTO

Há jovens que largam os estudos e vão à descoberta de si próprios e do mundo. O gap year, uma espécie de licença sabática do quotidiano, é uma saída da zona de conforto e um confronto com a realidade e a distância. Um caminho mais rápido para a autonomia e maioridade

Há gestos simples que fazem a diferença. Como aquele momento em que Beatriz Mesquita, 17 anos, com uma crise de asma, entrou na farmácia e pediu os medicamentos. Foi aí que percebeu que já não era criança, era uma jovem no início da idade adulta, a saber tratar de si própria sozinha. A mais de oito mil quilómetros de casa, a estudante portuguesa sentiu, pela primeira vez, a mudança que o gap year, uma espécie de ano sabático, lhe provocara. “Se estivesse em Portugal, tinha sido a minha mãe a tratar de tudo. Foi bom perceber que podia ser eu a fazê-lo”, conta, via Facetime, desde a casa da família que a acolheu em Pleasanton, no Texas, para completar o 12º ano.

Trocou o conforto, a segurança e o mimo da família por um ano de estudo no estrangeiro, sem garantia de equivalência em Portugal, que no fundo está a funcionar como um empurrão para a idade adulta e lhe enriquece o currículo. Os efeitos do gap year sentem-se na maturidade, no amadurecimento, no crescimento. Quem o faz — e são cada vez mais os jovens portugueses a experimentar — sente que foi um rito de passagem. Um ano de pausa que pode servir para fazer formação, voluntariado ou viajar à aventura. E se tradicionalmente era algo que acontecia no fim do secundário e antes da faculdade, agora acontece também durante o 12º ano e entre o fim da licenciatura e do mestrado. “A seguir ao 25 de Abril, chegou-se a pensar fazer um ano de pausa entre o secundário e a faculdade, mas a ideia não foi para a frente. E acabou por se fazer o 12º ano, que não existia. Faz muita falta uma pausa. A formação dos alunos é muito escola e está muito fechada nos seus parâmetros. Os jovens não têm consciência do que sabem, aprendem a gerir expectativas”, diz Lucília Salgado, ex-presidente do Conselho Pedagógico da Escola Superior de Educação de Coimbra e membro da Associação Portuguesa para a Cultura e Educação Permanente.

Beatriz chegará à maioridade legal — os 18 anos — em vantagem. Já morou sozinha, já teve de tomar decisões importantes, já foi responsável por um orçamento, já dependeu apenas de si. Uma vantagem que se verá quando for para a faculdade, nas entrevistas para o primeiro emprego e quando voltar a morar sozinha. É como se todas estas etapas, que marcam transições importantes na vida, acontecessem de uma só vez. E ela tem noção desse crescimento. Sabe que é hoje mais desinibida, mais decidida, procura com mais facilidade fazer amigos e não tem medo de dizer o que quer ou o que não quer. Tem a prova deste crescimento em simples gestos. Coisas que agora lhe são fáceis, mas que se estivesse em Portugal precisaria de mais uns anos para assimilar. Como a gestão que faz do dinheiro da mesada, gastos em saídas e idas ao cinema, com cuidado para não ter de pedir um extra aos pais. Ou quando tem de tratar das inscrições nas disciplinas com o principal (o diretor) da escola. Ou quando perde o medo de ir falar com outras pessoas. “Dantes, alguma coisa ligava sempre aos meus pais. Aqui vivo por mim própria, fora o transporte — para ir para fora da cidade — e a alimentação, é como se estivesse a viver sozinha.” A mãe queria mensagens todos os dias, o pai sempre a incentivou a conjugar o verbo ir. Terminar o ensino secundário no estrangeiro não era um sonho desde pequena, mas hoje move-se numa cidade tão diferente da sua como se sempre lá tivesse vivido.

“Sair da zona de conforto é uma grande experiência — de vida e no currículo — com ou sem curso”, defende António Valadas, CEO da Multi Way, uma empresa que se dedica a encontrar experiências no estrangeiro para jovens que querem mudar a rotina por um ano. Foi numa brochura deles, durante uma feira de emprego na escola, que Beatriz conheceu o conceito e quis experimentar. Outro pequeno gesto que a levou a uma cidade com menos de nove mil habitantes. E que a fez trocar o Colégio São João de Brito pela escola secundária pública da cidade. “Ficamos com uma família que nos escolhe através de uma carta que enviamos.” Uma típica família texana escolheu-a em julho do ano passado, no mês seguinte receberam-na à maneira do Texas e dos cowboys. “Abriram um cofre para me mostrar umas 40 armas. Vão ao supermercado com a arma à cintura e havia uma no meu quarto.”

Descoberta. Beatriz Mesquita, está a descobrir que consegue viver sozinha, gerir um orçamento e que é capaz de ser muito mais desinibida

Descoberta. Beatriz Mesquita, está a descobrir que consegue viver sozinha, gerir um orçamento e que é capaz de ser muito mais desinibida

Em Pleasanton, não há metro, não há autocarro, não há centros comerciais, só se pode beber álcool depois dos 21 anos e as saídas limitam-se ao cinema e a jantar fora. As aulas funcionam por créditos e, numa mesma sala, misturam-se alunos de vários anos do preparatório e secundário. O almoço na cantina é tal e qual como se vê nos filmes, os alunos sentam-se por grupos, há o dos atletas de futebol, o dos populares e o dos do clube de matemática. Beatriz costuma sentar-se com as colegas do voleibol, uma modalidade à qual se juntou quando chegou. “Estou a crescer como se estivesse dentro de um filme americano.”

Crescimento, autonomia e independência são três palavras-chave associadas ao gap year. “Hoje em dia existe uma enorme confusão entre autonomia e independência. O que se passa hoje nas famílias é que os jovens conciliam autonomia — fazem as suas escolhas individualmente — com dependência. Não dispõem de meios próprios e dependem dos seus pais para subsistirem”, alerta a socióloga Sílvia Portugal. Para esta especialista em família, criar filhos independentes implica dar-lhes possibilidade de fazerem escolhas, mas também de terem oportunidades para serem independentes. Só assim poderão ser responsáveis por conduzir as suas vidas em função das escolhas e das capacidades.

Os pais de André Gomes, 21 anos, nunca pensaram que o filho podia meter a mochila às costas e ir explorar o mundo. Mas quando a oportunidade surgiu, deixaram-no decidir. E ele escolheu o gap year mal terminou o 12º ano e garantiu a entrada no primeiro ano da Faculdade de Belas Artes do Porto. Num evento na sua escola secundária, em Arouca, conheceu a Associação Gap Year Portugal (AGYP), uma organização criada há quatro anos para impulsionar o ano pausa, promovendo concursos e bolsas que financiem a viagem.

“Não tinha viajado muito e foi isso que me atraiu.” Foram nove meses a conhecer a Ásia e a fazer voluntariado, em locais recônditos, onde nunca imaginou algum dia estar. Começou por fazer um mês e meio na Índia, onde esteve dez dias num retiro budista, a seguir trabalhou numa comunidade orgânica no Sri Lanka, onde “comia com as mãos e fazia compostos naturais”. Voltou à Índia para mais um mês e meio a explorar o país, de onde partiu para mais trabalho de voluntariado no Nepal. Terminou a viagem no Irão, a descobrir que muito daquilo que achamos que é o mundo baseia-se em preconceitos e em visões distorcidas. “Foi o choque mais positivo. Não é que não haja coisas más, como o desrespeito pelos direitos das mulheres, mas também há uma falsa propaganda. Os iranianos são supercultos, abertos e hospitaleiros.” Esta parte da viagem coincidiu com o Ramadão e, por isso, acabou por também ele fazer parte desse momento religioso. “Muitos comem durante o Ramadão, mas fazem-nos discretamente. Em muitos restaurantes, que estão fechados, juntam-se grupos de homens para comer na cozinha.” À noite, ia ter à mesquita e jantava com as pessoas que ia conhecendo, muitas delas não falavam inglês. E foi aí, também, através de pequenos gestos, que percebeu que estava diferente. Naquele momento em que entra na mesquita e dá o passo de abordar a pessoa do lado. “A viagem ajudou muito a descobrir-me. Hoje, vejo que faz parte do meu conhecimento. Aprendi a desbloquear, a ser menos introvertido, a ter mais iniciativa.”

Está mais corajoso. Cada momento foi uma aprendizagem. Um ciclo em que se abriu à descoberta. E no qual aproveitou ainda para praticar os traços de desenho, que haveria mais tarde de dar origem a uma exposição. Os dez dias no retiro em Dharamsala, a terra onde vive o Dalai Lama, fizeram-no conhecer um monge budista que trabalhava na casa do líder espiritual tibetano. Voltaria a encontrá-lo no Nepal. “Deu-me um fio com um símbolo do Dalai Lama que tinha sido o próprio líder do Tibete a dar-lhe. E depois deu-me outros três, para os meus pais e para o meu irmão.”

Um pequeno gesto que o fez descobrir uma realidade que não sonhava, sequer, existir. Tal como quando — no outro lado do globo e num contexto totalmente diferente — Beatriz foi a um rodeo com a sua família americana. Até aí, nunca tinha ouvido música country, típica do sul dos EUA e deste tipo de eventos. “Adorei, foi uma experiência incrível.” Depois disso, passou a ter Sam Hunt, conhecido cantor de country, na sua playlist. Provavelmente, a maioria dos colegas do São João de Brito não vão perceber este novo gosto musical. Em jeito de resposta antecipada, ela aplica uma expressão que é comum na sua escola. “Como há muitos mexicanos, eles costumam dizer: esquece, white people don’t know.” Uma expressão que se pode adaptar para resumir o gap year. Só quem o faz o consegue compreender.

Descoberta. André, descobriu, pela Ásia, que havia um mundo muito diferente do que um primeiro olhar deixa ver

Descoberta. André, descobriu, pela Ásia, que havia um mundo muito diferente do que um primeiro olhar deixa ver

Por muito que contem aos amigos e à família, nada se consegue equiparar a ver com os próprios olhos. André conhecia as descrições sobre a pobreza na Índia, tinha lido os números que falam em 100 milhões, tinha visto e lido reportagens. Porém, tudo foi diferente quando viu. “É o choque de estar a ver aquilo que se vê na televisão. Vemos o quanto somos pequenos.”

Esta viagem — inclua formação, voluntariado ou apenas conhecer novos países — é mais do que uma saída da zona de conforto. É o confronto com a realidade. Heloísa Dias está a finalizar o seu gap year, feito entre a licenciatura e o mestrado. Reconhece que ganhou autonomia, independência, experiências, mas percebeu que a maneira como olhamos o mundo vai determinar a maneira como o definimos. “Uma coisa que me marcou foi perceber que por todos os lugares que passei, havia inúmeras coisas para apreciar, fosse isso paisagem, gastronomia ou pessoas. E, se quisesse encarar dessa forma, havia também outras tantas coisas para repudiar — violência ou pobreza, por exemplo. Descobri que cada lugar, cada cultura vai ter uma riqueza e um encanto especial para ser admirado, ainda que possa não ir ao encontro dos gostos de toda a gente”, conta através do Brasil, onde está a acabar a viagem. Foi assim que percebeu que a felicidade pode significar coisas completamente diferentes para pessoas diferentes. Começou pelo Brasil, foi para a Colômbia, Equador e Peru, onde trabalhou como voluntária, seguiu-se a Bolívia e o Chile. Terminou voltando à casa de partida.

Vantagem para o currículo

O mundo que estes jovens ganham vale por uma média de 20. Mesmo no currículo. “Muitos recrutadores, quando têm à frente um aluno que fez um gap year e tem uma média mais baixa e outro que não fez, mas tem uma média alta, não hesitam em escolher o aluno que foi para fora, o que arriscou”, frisa António Valadas.

Apesar desta vantagem, o que os jovens procuram é uma experiência que lhes permita conhecer o mundo e conhecer-se a si próprios. O resto vem por acréscimo. Pelo menos, é com esse espírito que António Vaz Pato, 17 anos, aluno de mérito com direito a bolsa nos Salesianos de Lisboa, vai embarcar daqui a menos de dois meses. Primeiro, são três semanas de interrail pela Europa, seguem-se dois meses de voluntariado numa quinta na Noruega, ação que conta repetir durante o mês seguinte em Madagáscar. A seguir, fará uma viagem pela América Central e terminará com mais trabalho voluntário na Indonésia. “Procuro um ano cheio de experiências. Prefiro não me focar na viagem e focar-me noutras coisas, para poder tirar partido um pouco de tudo. Quero trabalhar em voluntariado, viajar, conhecer o mundo.” António está à espera de saber se consegue uma bolsa — promovida pela AGYP — para o ajudar na viagem, mas não dependerá dela.

A pensar nos custos deste ano sabático, a AGYP procurou parceiros para estabelecer bolsas que permitam aos jovens partir à descoberta do mundo, independentemente das suas capacidades financeiras. À partida, o gap year parece uma oportunidade demasiado cara para as bolsas de todas as famílias. O de Beatriz custa à volta de nove mil euros, sem incluir o dinheiro de bolso e a viagem. Antes da partida, a Multi Way prepara a habituação à experiência com um curso de preparação e três fins de semana para pais, novos e ex-alunos. António Valadas garante que não são só estudantes de escolas privadas, nem só da zona da Grande Lisboa, a ir fazer o 12º ano fora. As famílias que acolhem os estudantes — sem receberem qualquer tipo de pagamento — fazem-no também pela experiência e, dizem as regras, devem tratar os jovens que chegam como membros da família.

Gonçalo Azevedo Silva, o fundador da AGYP e também ele um gapper, defende que o ano sabático deve “ser barato e que no limite pode ser feito por qualquer pessoa”. Se for feito a viajar pela Ásia, e em alojamentos baratos, os valores baixam consideravelmente. Foi por isso que André Gomes escolheu aquele continente, chegou a dormir numa tela de chão por menos de um euro por dia. “E nos hostels havia sempre jovens com quem metia conversa. Era aí que definia os sítios que ia visitar e o que ia fazer.” Muitos jovens acabam por juntar dinheiro a trabalhar no verão para assegurarem o mealheiro do ano sabático. E se a experiência está repleta de vantagens, não é garantido que todas as pessoas se adaptem. Pode sempre existir quem não consiga ultrapassar os desafios. Como em tudo na vida, há sempre quem não se adapte.

Descoberta. As aventuras de Maria culminaram em workshops de cozinha para jovens que vão estudar para fora e que não sabem fazer nada na cozinha

Descoberta. As aventuras de Maria culminaram em workshops de cozinha para jovens que vão estudar para fora e que não sabem fazer nada na cozinha

No ano passado, o Ministério da Educação anunciou um protocolo para ajudar à promoção do conceito nas escolas, o que pode levar a que o conceito se espalhe. “Muitos alunos não sabem bem o que escolher, precisam de parar um pouco para pensar”, sublinha Gonçalo Azevedo Silva. É por isso que, além da promoção, dicas e sugestões, a AGYP promove também um programa que permite a alunos indecisos experimentar um máximo de três faculdades, durante duas semanas, antes de fazer a escolha decisiva. “Afinal, 20% dos estudantes arrepende-se mais tarde”, frisa Gonçalo.

Nos casos em que há dúvidas sobre o futuro, a pausa sabática funciona como momento de testes e reflexão. Beatriz sabe que gostava de voltar ao EUA para uma licenciatura, mas não tem a certeza de qual será. Estes meses estão a abrir-lhe mais portas para o futuro. Para a sua realização pessoal. Parar e pensar são atitudes que parecem simples, mas que fazem a diferença. “Seria saudável que os alunos tivessem esta oportunidade antes do Erasmus, aí já é um pouco mais tarde. Porque quando saem de casa têm de aprender a fazer a comida, a gerir o dinheiro. Aprendem mais. As atuais formas de aprendizagem assentam na reprodução e promovem o saber efémero. Daí que muitos alunos esqueçam a matéria depois do exame”, sublinha Lúcia Salgado.

Mas este salto na vida e saída da zona de conforto para os jovens é um momento de confronto para os pais. “Poupam-nos a muitos problemas. Por exemplo, tive muitos alunos que não sabiam gerir o dinheiro. Não tinham noção de que tinham de ganhar dinheiro e geri-lo. Faltam aprendizagens do quotidiano”, continua a professora.

Normalmente, os pais sentem um choque inicial, afinal antecipa-se o momento em que chega a hora de deixar o ninho. A mãe de Beatriz começou por dizer que não, a mãe de André ficou em choque e a mãe de António está com o coração apertado e o gap year de ainda não começou. “Há um lado de mim que diz que sim, ainda para mais quando ele tem notas tão boas. Há outro lado que me deixa preocupada. Mas, depois, o António diz-me: Mãe, tu não me vais tirar mundo. E eu digo-lhe: não, eu vou-te dar todo o mundo”, conta Cristina Ovídeo.

Depois do gap year, António pretende recomeçar os estudos no Imperial College, em Inglaterra. Esperam a Cristina uns anos longe do filho. “Em Portugal, a separação dos filhos das suas famílias de origem não é algo “socialmente natural”. De um modo geral, os filhos vivem próximo dos pais, em grande parte porque precisam dos seus apoios para subsistirem. É bom não esquecer que fomos durante muito tempo um país de emigração e que o afastamento familiar não é uma novidade. A novidade é o facto de hoje a mobilidade se encontrar em classes economicamente mais favorecidas do que anteriormente”, lembra Sílvia Portugal.

Estudar no estrangeiro é uma oportunidade para alargar horizontes, conhecer novas realidades sociais e culturais, e enriquecer o currículo. Ninguém quer impedir um filho de ficar melhor preparado para os desafios. Com base nesta ideia, Marta Gonzaga propôs à filha Maria pararem os seus quotidianos e irem viver um ano para o estrangeiro. “Há vários anos que tinha este sonho de viver pelo menos um ano fora de Portugal com a minha filha, só não sabia onde e quando. Falávamos várias vezes disso e ela insistia nesse assunto de tempos a tempos. Os anos passaram e fui a Singapura tirar um curso intensivo de empreendedorismo social. Quando voltei disse-lhe que iríamos viver na Ásia durante uns tempos. Bali ficou no nosso mapa desde essa altura.” Cinco anos mais tarde, Maria, de 16,estava desanimada no liceu e não quis adiar mais a viagem. Venderam a casa e foram fazer o 11º ano na Ásia. “Inicialmente, tínhamos muitos planos para as aulas, mas os livros levaram muito tempo a chegar e com os meses a passar deixámo-nos de preocupar com isso. Estávamos a viver demasiadas coisas entusiasmantes e únicas para ‘perdermos tempo’ com isso. Estas oportunidades não acontecem sempre e a escola que estávamos a ter com a vida nova que levávamos era bem mais rica e importante”, conta a mãe. Para Maria, a viagem reforçou a ideia do que queria ser chefe de cozinha. Terminou sozinha em Edimburgo a fazer formação. E pode até ser que uma carreira tenha nascido da viagem. Maria tem recebido convites para dar workshops e aulas para adolescentes que vão estudar para fora e que não sabem fazer nada no fogão. Em breve terá um canal no YouTube.

Meltdowns da solidão

Durante a viagem, partilharam todas as peripécias num blogue (“A Rua Alegre”). O mesmo faz Heloísa no site “Hello from the otherside”. Costuma publicar sempre às segundas-feiras à noite, sobre as aventuras do destino e os momentos de reflexão que a viagem a solo lhe provoca. Como friozinho na barriga antes de embarcar na próxima etapa. Também André foi mostrando o seu gap year à família e aos amigos em direto, através de uma página no Facebook. Sinal dos tempos. E uma forma mais fácil (e barata) de matar saudades da vida que continua em Portugal. E uma forma de os pais estarem por perto. “Os novos meios de comunicação reduzem as distâncias e permitem que o afastamento físico seja vivido de uma forma menos sofrida. Mas permitem também formas de controlo sistemático e continuado, podendo vir a perturbar os ganhos de autonomia e independência que os jovens têm em estudar e trabalhar longe das suas famílias”, frisa Sílvia Portugal.

Talvez os blogues e as páginas no Facebook sejam também uma forma de enganar a solidão que este ano sabático provoca. “É natural haver dias em que estamos mais em baixo, mas foi algo que não me ocupou muito tempo”, conta André. Já para Beatriz, “é um momento em que vês os teus verdadeiros amigos, há aqueles que nem te mandam uma mensagem enquanto cá estás”. São, novamente, os gestos simples que fazem a diferença.

A vida nos EUA é diferente de tudo o que estão as suas amigas a viver em Portugal. “Não tem nada a ver com Portugal.” Ela já experimentou o prom, o rodeo drive, o spring break, o lunch na cantina, mas falhou várias festas de aniversário de 18 anos. Há também momentos difíceis neste percurso. Um deles, foi quando percebeu que ia ter de pedir para trocar de família. A relação não resultou com as primeiras pessoas que a receberam, mas ela também não queria “ser pobre e mal agradecida”. Pensou, falou com a professora de matemática — que adora — e pediu-lhe um conselho. Ouviu-a, tomou coragem e fez a chamada a pedir a mudança. “Antes de ter vindo não teria tido coragem. Estava sempre bem com tudo, era incapaz de dizer que não.” Ajudou também ter Mia, uma amiga que está a terminar o 12º ano no Arizona, por perto. “Vim sem expectativas. Vieram mais oito colegas do São João de Brito e eu fui a última a ser colocada. Ter a minha amiga no Arizona é uma ajuda nos meltdowns.” São pouco mais de mil quilómetros de distância entre os dois estados, e uma hora de diferença, mas é a segurança de saber que há alguém no mesmo país a ter a mesma experiência. Para poder ligar naqueles dias que correm menos bem. Como o da Passagem de Ano, curiosamente, mais difícil do que o Natal. “Lembrei-me dos meus amigos e da família.” A aventura está quase no fim e as saudades e desafios vão sendo superados. “Ainda me lembro de chegar, dormir por causa do jet lag, e ir direta para a escola no dia seguinte. Parecia enorme... Hoje, já acho pequena.”

Com a mesma convicção com que Beatriz sabe que está mais madura, também Heloísa sabe que terminará o gap year mais tolerante. “A convivência com pessoas de realidades tão diferentes — umas mais cosmopolitas, outras realmente tradicionais — permitiu que tenha uma mente mais aberta e uma visão mais ampla. E isso também fez com hoje seja mais tolerante a diferenças culturais e diferenças nas escolhas de vida.” E dá hoje mais valor ao que ao longo da vida sempre tomou como garantia, como a proximidade da família e dos amigos.

Para Beatriz, de tudo o que está a ganhar, orgulha-se das relações com a família em Portugal. Está mais próxima da irmã do meio, de 16 anos, com quem sempre andou um pouco às turras, talvez pela proximidade de idade. E emociona-se, orgulhosa, dos progressos da irmã mais nova, de 7 anos, na escola primária. “Sou como se fosse mãe dela, custa-me a distância e por isso não falo muito com ela. Vejo que está a crescer, já não é uma menina. E estou mais próxima da minha irmã do meio. Estou muito orgulhosa desta relação que estamos a construir.” A irmã do meio procura-a quando precisa de falar sobre algum problema. A mais nova está a aprender a ler e faz questão de o mostrar sempre que falam. Por vezes, são os pequenos gestos que deixam as marcas mais profundas.