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Sociedade

“É possível aumentar a longevidade além dos 120 anos”

LUCILIA MONTEIRO

João Relvas, especialista do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, diz que a sociedade terá de mudar perante o aumento da longevidade

A esperança de vida continua a subir em Portugal. Na última década, os homens ganharam mais três anos de vida e as mulheres dois (ver dados em baixo), segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística na semana passada. Para o conjunto da população portuguesa, a esperança de vida chegou aos 80,62 anos. Viver até aos 100 é cada vez mais provável e João Relvas, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S) da Universidade do Porto, acredita mesmo que a longevidade pode ultrapassar os 120. Para que isto seja uma boa notícia, a sociedade tem de mudar.

Até que idade é possível aumentar a esperança de vida?
Há países onde a esperança de vida já chegou quase aos 90 anos e o crescimento não dá sinais de estar a desacelerar. Mas teoricamente os organismos humanos têm um tempo de vida máximo que se calculava ser de cerca de 120 anos. Praticamente não há casos de pessoas que tenham vivido além disso.

É esse o limite da viabilidade biológica do organismo?
Com os avanços da medicina e das condições de vida é possível que essa idade possa ser de facto ultrapassada. A medicina de regeneração, o transplante de órgãos e outras tecnologias em saúde que ainda não existem mas que aparecerão nos próximos 10 ou 15 anos vão conseguir resolver muitos dos problemas associados ao envelhecimento, como as doenças neurodegenerativas ou o cancro. Mas é preciso ter em mente que a população mais velha estará sempre exposta a mais doenças.

Um conceituado cientista britânico na área da gerontologia, Aubrey de Grey, diz que a primeira pessoa a chegar aos 150 anos já nasceu. Acredita?
Ele esteve recentemente em Portugal para dar uma conferência a convite do I3S e tem, de facto, uma visão muito interessante. Do ponto de vista técnico, chegar a essa idade não é uma impossibilidade. Com manipulação genética, é possível aumentar de facto a longevidade para lá dos 120 anos. Já se conseguiu mais do que triplicar a longevidade de animais de laboratório, como os ratos ou a mosca, através da alteração de alguns genes. Mas o que vai aumentar significativamente não é tanto o patamar dos 120 anos, mas o número de pessoas que vão chegar lá.

Segundo um estudo do Instituto de Estatísticas do Reino Unido, um terço dos bebés nascidos agora chegará aos 100 anos. Acha plausível?
Sim. É essa a realidade. Não é ficção científica. No Japão e nos EUA, por exemplo, os dados também apontam nesse sentido. Mas o mais importante é viver uma vida longa com qualidade.

Aos 65 anos, os portugueses só têm cerca de seis anos a mais de vida saudável...
É sobretudo aí que é possível evoluir muito. Nessa estatística Portugal está um pouco deficitário em relação a outros países, nomeadamente do Norte da Europa. Tem de haver um reforço de campanhas para o exercício físico, o envelhecimento ativo, etc.

Vamos ter de trabalhar durante mais tempo?
Se as pessoas mais velhas não trabalharem e viverem das pensões, isso cria uma pressão brutal sobre as gerações mais novas para os suportarem. E isso vai estourar com qualquer sistema de saúde e de proteção social. Por isso, é crítico que se envelheça com qualidade. E o trabalho tem de mudar.

De que forma?
Não podemos parar de trabalhar aos 65 se vivermos com saúde até aos 90. Não vamos estar 25 anos em casa, sem fazer nada. Até do ponto de vista psicológico o trabalho é fundamental. A saúde mental passa também por manter um dia a dia estimulante. O que acontece agora é que, muitas vezes, a pessoa reforma-se, vai para casa e fica completamente isolada. Mas é claro que tem de ser um trabalho menos intenso, por exemplo em regime de part-time entre os 65 e os 75 anos.

O que mais o preocupa nesta questão do envelhecimento?
A questão da equidade. O aumento da esperança de vida é uma tendência mundial, mas o fosso entre os países ditos desenvolvidos e os países pobres é brutal. Em alguns países africanos não vai além dos 55 anos, o que é quase medieval. E esse fosso vai aumentar ainda mais porque são os países ricos que têm possibilidade de pagar essas terapêuticas aos seus cidadãos.

HOMENS VS. MULHERES

77,6 anos é a esperança de vida dos homens portugueses.
A diminuição de causas de mortes externas que atingiam mais os homens, como os acidentes de viação, permitiram-lhes ganhar mais três anos na última década

83,3 anos é quanto as portuguesas podem esperar viver.
Continuam a ter maior esperança de vida, nomeadamente porque se preocupam mais com a saúde, mas a diferença está a diminuir. Na última década, ganharam mais dois anos