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Lisboa inventa receita contra desperdício alimentar

“Vai onde sobra, leva onde faz falta”, é o lema da Rede Alimentar em Lisboa

Foto Nuno Fox

Em dois anos, foi metido de pé, e deixado com pernas para andar, um plano engenhoso e simples para desviar do lixo a comida que mata a fome a muita gente

Foram quase cinco milhões de refeições entregues em 2016 em Lisboa a quem delas precisa, comida que de outra forma teria ido parar ao lixo. O número é tão esmagador que faz perder a noção da escala — e é o ser humano que está no final da cadeia.

Ao longo dos 365 dias do ano, aquele valor dá uma média de 13.595 refeições/dia. Se por acaso os destinatários dos almoços e jantares foram sempre os mesmos ao longo dos 12 meses, então foram pelo menos cerca de 6.800 os lisboetas que beneficiaram do Plano Municipal de Combate ao Desperdício Alimentar.

Mas, na realidade, são mais os beneficiários. Por um lado, na diversidade de situações existentes (as refeições são levadas para casa ou são consumidas em instituições) há pessoas que almoçam e jantam, e outras que apenas tomam uma refeição (por norma o jantar). Por outro lado, como nem sempre é possível distribuir a comida sete dias por semana, fazendo as contas apenas aos dias úteis então a média de refeições diárias passa para cerca de 19 mil.

A receita que permite matar a fome a largas camadas da população começou a ser colocada em marcha há três anos, quando iniciou funções o Comissariado Municipal de Combate ao Desperdício Alimentar. O segredo passa por desviar do lixo as sobras de restaurantes e cafés e encaminhar essa comida em bom estado para quem passa fome.

Feito o rastreio dos fornecedores e das entidades com carências alimentares, chegou a vez da entrada em cena de uma rede de voluntários, que diariamente percorrem as 114 entidades que combatem o desperdício alimentar em Lisboa, distribuídas pelas 24 freguesias da cidade.

Uma ideia partilhada por todos

O Comissariado de Combate ao Desperdício Alimentar nasceu de uma proposta inicial do vereador do CDS na Câmara de Lisboa, João Gonçalves Pereira. A iniciativa imediatamente colheu apoios dentro da maioria socialista, tendo sido subscrita também pelo vereador João Afonso, que tem o pelouro dos Direitos Sociais. Quando do primeiro passo na tramitação municipal (em 2014, ainda a crise assumia outros contornos), teve o voto favorável de todos os partidos, apoio unânime que se manteve ao longo de todo o processo.

O trabalho do Comissariado chegou ao fim nesta segunda-feira, depois de a máquina estar estado no terreno durante dois anos. A experiência ganhou raízes, passando a rede solidária partir de agora a ser integrada na orgânica da autarquia, nos Direitos Sociais. Ao mesmo tempo, vê crescer novos ramos (brevemente haverá uma linha telefónica a funcionar no quadro da Câmara, tanto para aceitar voluntários como para pedir o encaminhamento de refeições).

Por fim, fica uma flor à vista de todos: a FAO (organismo das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) já considerou Lisboa como um exemplo no combater ao desperdício. Corolário deste reconhecimento, irá realizar-se a 26 de junho, na Fundação Cidade de Lisboa, ao Campo Grande, uma conferência internacional, subordinada ao tema “Segurança Alimentar e Estratégias Nutricionais”.

“Eram várias as entidades que nem sequer se conheciam”

No dia em que cessa funções como Comissário de Combate ao Desperdício Alimentar de Lisboa, João Gonçalves Pereira faz um balanço do trabalho e conta como foi necessário juntar as pontas soltas — algumas das quais quase se tocavam, mas só faltava o quase.

João Gonçalves Pereira, o Comissário do Combate ao Desperdício Alimentar em Lisboa que agora cessa funções

João Gonçalves Pereira, o Comissário do Combate ao Desperdício Alimentar em Lisboa que agora cessa funções

José Carlos Carvalho

Nos últimos 12 meses, foram desviadas do destino natural, que seria o lixo, e distribuídas em Lisboa quase cinco milhões de refeições. Esse número deve-se exclusivamente à ação do Comissariado? Ou já existia uma rede, com resultados bem mais inferiores, e o Comissariado maximizou a capacidade de oferta?
O papel do Comissariado foi criar uma identidade, capaz de procurar uma cobertura geográfica mais abrangente e de estabelecer com todas as entidades objetivos comuns (Plano Municipal de Combate ao Desperdício Alimentar) e posteriormente agregar estas instituições num projeto único. A título de exemplo, eram várias as entidades que nem sequer se conheciam, apesar de operarem no mesmo território e outras tantas que operavam a medo com receio da ASAE. A ponte com a ASAE foi um resultado do Comissariado. O Comissariado maximizou a oferta, mas também a cobertura e as sinergias.

O Comissariado extingue-se. Isso significa que a carência alimentar existente em Lisboa desapareceu?
A extinção do Comissariado significa apenas a sua transição de uma resposta pontual para uma resposta estruturada,no âmbito do Departamento dos Direitos Sociais da Câmara de Lisboa. A fome nunca se extingue e a resposta também não. No entanto, como qualquer outro comissariado, teve um objetivo — criação de uma rede alimentar solidária onde existiam respostas avulsas — entretanto cumprido. É esta rede que agora integra as respostas da Câmara.

Qual o principal legado do Comissariado?
Uma Rede Alimentar solidária que abrange toda a Cidade e que envolve uma diversidade de parceiros de todos os setores (empresas, Instituições Particulares de Solidariedade Social, Organizações Não Governamentais, confissões religiosas, associações, etc...), bem como uma maior tomada de consciência de toda a sociedade civil para esta dupla problemática: fome e desperdício.

As entidades que antes mandavam comida para o lixo já interiorizaram novos comportamentos? Quais?
Sobretudo a capacidade de entregarem, sem receio de quebra da higiene e segurança alimentar, os alimentos ou refeições a uma rede de instituições devidamente preparadas e formadas. Agora, é muito importante reduzir as cerca de 324.000 toneladas de alimentos que são desperdício doméstico em Portugal. E aqui temos um longo trabalho a fazer em duas dimensões: uma alteração de hábitos e comportamentos dos portugueses; e por outro lado um trabalho permanente de sensibilização, principalmente junto dos mais jovens.

A recolha de refeições era feita por voluntários... Como se assegura agora este elo da cadeia?
Do mesmo modo, com recurso aos mesmos voluntários e a outros tantos a disponibilizar pelo Banco de Voluntariado da Câmara de Lisboa.