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Homo Sapiens: parece que afinal somos mais velhos do que pensávamos

Reconstrução dos fósseis agora encontrados em Marrocos

HANDOUT/ Reuters

Fósseis com 300 mil anos, agora revelados, mostram que os primeiros Homo Sapiens tinham rostos já muito semelhantes aos nossos, embora os cérebros fossem substancialmente diferentes. Fisicamente, seriam mais robustos e musculados

É frequente a ciência reescrever a história. Desta vez, obriga uma espécie inteira a olhar-se ao espelho. Afinal, há quantos anos cá andamos? Os fósseis mais antigos de Homo Sapiens, encontrados na Etiópia, faziam-nos recuar 195 mil anos, idade possível e aceite pela comunidade científica para a espécie humana. Mas a ciência é profícua em novas descobertas e, esta quarta-feira num artigo publicado pela revista “Nature”, um grupo de paleoantropólogos alemão, anunciou ter encontrado em Jebel Irhoud, Marrocos, ossadas com 300 mil anos. Assim, abrem-se novas perspetivas sobre a história da evolução humana. E parece que afinal somos mais velhos do que pensávamos.

“A minha reação foi um enorme ‘wow’. Esperávamos que os fósseis fossem mais antigos, mas não tanto”, contou o paleoantropólogo Jean-Jacques Hublin, investigador do Departamento de Antropologia Evolutiva do conceituado Instituto Max Planck, na cidade alemã de Leipzig, citado pelo jornal britânico “The Guardian”. “Dá-nos uma ideia completamente diferente da evolução da espécie. Vai muito mais atrás no tempo, mas é também um processo diferente daquele que pensávamos. Parece que a espécie humana já estava presente no continente africano há 300 mil anos. Se existiu um Jardim do Éden, poderá ter sido do tamanho de um continente”, acrescentou.

Os fósseis agora revelados mostram igualmente que os primeiros Homo Sapiens tinham rostos já muito similares aos nossos, ainda que os seus cérebros fossem substancialmente diferentes. Fisicamente, os homens seriam mais robustos e musculados do que atualmente.

“O rosto da espécie que encontramos poderia ser o rosto de alguém que poderíamos encontrar no metro em Londres”, exemplificou o investigador.

A descoberta vem também refutar a ideia de que o Homo Sapiens teria evoluído e surgido de forma mais localizada, numa região mais restrita da África Oriental, encarada como o berço da humanidade. O desenvolvimento do homem moderno, numa primeira fase, parece ter ocorrido, assim, um pouco por todo o continente africano. Afinal ainda “antes da dispersão para fora de África, houve uma dispersão dentro de África”, referiu o investigador.

Até à data, os fósseis mais antigos tinham sido encontrados na Etiópia. Em 2003, os investigadores encontraram, na localidade de Herto, um crânio com 154 mil ou 160 mil anos, de acordo com as estimativas. Num outro ponto do país, na região de Omo-Kibish, foram achados dois crânios parciais, datados de há 195 mil anos. Essa era, até esta recente descoberta em Marrocos, a idade comummente estipulada no “bilhete de identidade” da humanidade tal como a conhecemos.

Os primeiros vestígios em Jebel Irhoud foram encontrados em 1961, tendo sido, numa primeira fase, estimado que tivessem 40 mil anos. Na década de 80, Jacques Hublin não acreditou que os números estivessem corretos e voltou a investigar os fósseis.

As escavações, que agora levaram à descoberta dos novos fósseis, arrancaram em 2004 e prolongaram-se até ao ano passado. Foi uma mina a cerca de 100 quilómetros a oeste da cidade de Marraquexe. Conseguiram recuperar parte de um crânio, um maxilar, dentes e ossos dos membros inferiores e superiores de três adultos, um jovem e uma criança com cerca de oito anos. Além das ossadas do homo sapiens, foi encontrado no mesmo local ferramentas afiadas de pedra, vários ossos de animais e vestígios de carvão.

“Quando encontrámos o crânio e o maxilar foi muito emocionante. São apenas fossei, mas já foram humanos e rapidamente nos ligámos aquelas pessoas que viveram e morreram ali há 300 mil anos”, recordou Jacques Hublin.

Esta quinta-feira será publicado, novamente na revista “Nature”, o segundo artigo relacionado com estas descobertas nas minas de Jebel Irhoud, que estará mais focado nas ferramentas e utensílios encontrados.