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Almaraz: Central nuclear dá primeiros passos para renovar licença após 2020

antónio pedro ferreira

Ministro do Ambiente português diz que "Espanha não tomará qualquer decisão enquanto não concluir o seu plano de energia e clima em 2018". Donos de Almaraz preparam pedido de renovação por tempo indeterminado

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Os donos da Central Nuclear de Almaraz - Endesa, Iberdrola e Gás Natural Fenosa - deram esta quarta-feira os primeiros passos para abrirem a porta ao prolongamento da vida da Central Nuclear de Almaraz, para lá de 8 de junho de 2020. A notícia foi avançada pela agência noticiosa espanhola Europa Press que, citando o responsável pelas relações institucionais da Central de Almaraz, Aniceto González, esclarece que o pedido oficial de renovação da licença pode seguir até 2019.

"Não foi apresentado nenhum pedido formal de prolongamento da Central de Almaraz", reage o ministro do Ambiente português, em declarações ao Expresso. João Matos Fernandes considera que este pedido "significa que os donos da central nuclear decidiram não desistir desta central" e argumenta que "Espanha não tomará qualquer decisão enquanto não concluir o seu plano de energia e clima em 2018 e decidir qual o mix energético que pretende fazer".

Matos Fernandes afirma-se convicto de que "as renovações de licenças de centrais nucleares estão suspensas pelo Conselho de Segurança Nuclear até à aprovação desse plano de Energia e Clima", que todos os Estados membros têm de apresentar no próximo ano.

Esta notícia surge uma semana depois da Cimeira Ibérica de cuja agenda não constou Almaraz. Questionado pelo Expresso sobre esta ausência, Matos Fernandes diz que "não havia nada em concreto a discutir sobre Almaraz".

"O processo arrancou nas barbas do Governo português", afirma deputado do BE

O deputado do Bloco de Esquerda Pedro Soares ironiza: "O processo arrancou nas barbas do Governo português, uma semana depois da Cimeira do Clima, e sob uma inaudita complacência dos responsáveis portugueses que dizem aguardar 'um plano espanhol de energia e clima". Segundo o também presidente da Comissão Parlamentar de Ambiente, "as autoridades espanholas vão empatando, enquanto o plano nuclear vai avançando e tornando-se facto consumado". O bloquista aponta o dedo ao Governo português: "Está rendido e não esboça sequer um gesto de desagrado, apesar da orientação parlamentar unânime sobre a matéria".

Questionado pelo Expresso sobre se está esperançado de que o Governo espanhol não renove a licença a Almaraz, já que diz que Portugal não pode impor nada a Espanha, Matos Fernandes recusa utilizar a palavra "esperançado". E prefere relembrar o que já disse anteriormente: "Quem toma esta decisão é o Governo de Espanha. Portugal fez uma aposta nas renováveis e quer muito que outros países no contexto europeu façam um caminho em tudo semelhante". E considera que "para Portugal é claro que Espanha deu a si própria um momento de reflexão em torno da política energética que quer fazer no contexto deste plano de clima e energia e isso é sem dúvida uma boa notícia". Além de que, acrescenta, "o tempo corre aqui a desfavor do nuclear por razões políticas e de opinião pública e por razões económico-financeiras".

A mais velha central nuclear no ativo em Espanha completa 40 anos em 2020. A legislação espanhola obriga a que os pedidos de renovação sejam iniciados três anos antes de expirar o prazo da licença, que no caso da Almaraz termina a 8 de junho de 2020. Os documentos agora enviados para o Ministério da Indústria e Energia serão reencaminhados para o Conselho de Segurança Nuclear, cujo parecer será posteriormente enviado para o Governo, para este dar a palavra final.

António Eloy, dirigente do Movimento Ibérico Antinuclear, não se mostra surpreendido com estes desenvolvimentos que, em seu entender "nos próximos dois anos seguirão um procedimento de ping pong". O ativista lembra que "algo muito grave pode ocorrer se prolongarem a vida de uma central velha e com um historial de incidentes como é a de Almaraz, que é o maior risco para a segurança do nosso país".

Contra o prolongamento da vida da Central de Almaraz e "todas as demais" ecoarão as palavras de ordem na manifestação ibérica marcada para o próximo sábado, em Madrid. De Portugal os organizadores estimam que partirão quatro centenas de manifestantes que se juntarão aos milhares oriundos de Espanha. A ação de protesto conta com a presença de ambientalistas nacionais e também com representantes de partidos políticos do BE, Verdes e PAN.

  • Carla Tomás

    No Expresso desde 1995, passou por diversas secções do jornal, do Desporto ao Internacional. Actualmente dedica-se sobretudo a temas de ambiente e conservação da natureza na Sociedade. Licenciou-se em Sociologia, pela Universidade Nova de Lisboa. O gosto pela profissão começou na Gazeta das Caldas, mal as máquinas de escrever foram substituídas por computadores.