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O prazer de ficar KO

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Há quem se inscreva nos ginásios para dar e levar murros e pontapés. 
Os desportos de combate 
já não são um exclusivo do submundo desportivo nem uma prática de autodefesa. As modelos da Victoria’s Secret praticam-nos e com eles as calorias ganham asas

Solta-se a ligadura num gesto brusco. Agarra-se pela pega e começa a enrolar-se entre os dedos com sabedoria e regras próprias. Depois de se garantir que os dedos e as articulações estão bem protegidos, calça-se a luva. A mise-en-scène é grande e digna do espetáculo que se segue. “Traz o açúcar que é provável que haja um desmaio depois do treino.” Pode não ser a frase motivacional mais usada nos ginásios, mas foi a primeira que se ouviu quando nos sentámos na bicicleta do ginásio 1Fight, em Lisboa.

Como o nome indica, trata-se mesmo de um ginásio onde em primeiro lugar estão as lutas (e claro que com elas vêm os benefícios de as praticar). O fitness é de modas, e antes do verão são várias as pessoas que aparecem. Duram o mesmo tempo dos dias longos e dos banhos de mar, mas com os desportos de luta não tem sido assim. Longe vão os tempos em que estes eram um exclusivo dos clubes escuros e dos homens musculados. Hoje, vão muito além disso.

Os desportos de luta não têm só um efeito no corpo, são também uma ajuda na gestão 
do stresse. Funcionam como exercício 
de autossuperação

Os desportos de luta não têm só um efeito no corpo, são também uma ajuda na gestão 
do stresse. Funcionam como exercício 
de autossuperação

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Pedro Kol — homem das lutas que se sagrou campeão nacional, europeu e mundial de kickboxing — percebeu há dois anos que, em Portugal, esta modalidade estava ou “em ginásios mal localizados com condições miseráveis”, ou onde “não ensinavam bem a arte”. Abriu então a Academia Kolmachine, no centro de Lisboa, e tudo mudou. É ali que “ensina a lutar como se ensina qualquer campeão”. Mais tarde, no ringue, o Expresso percebe que as frases de Pedro — que é conhecido como “esparguete assassino” — não eram apenas marketing. “Baixa as asas para manteres o equilíbrio”, aconselhou. “Se fosse um combate já tinhas ido às cordas”, avisou. Dicas ouvidas num frente a frente que opunha um campeão a uma jornalista, numa altura em que um grupo de mulheres tinha a aula Kol’s Angels. O nome não será coincidência. É que algumas modelos da Victoria’s Secret têm sido verdadeiras embaixadoras do boxe e do kickboxing.

Adriana Lima, Josephine Skriver, Joan Smalls, Devon Windsor e Elsa Hosk são alguns dos anjos que têm partilhado as vantagens destes treinos de alta intensidade. Dizem que os murros e pontapés as deixam tonificadas e com força para carregar asas em lingerie pela passerelle fora. E as comuns mortais, sem asas, veem-nas em casa através das redes sociais e seguem-lhes os passos. Pedro Kol assume que 98% dos inscritos na sua academia estão ali com o objetivo de manter a forma. E André Silva, diretor técnico do 1Fight, também fala no cardio e na tonificação que podem ser feitas num espaço que alberga “um mundo do treino”.

Nos ginásios mais comerciais, os murros e pontapés já são conhecidos do público há muitos anos. O bodycombat é um dos preferidos de quem usa as aulas para ajudar ao treino. Vitor Procópio, do Fitness Hut, desvaloriza que seja por si que a sua aula, de segunda-feira, ao final do dia, está sempre cheia. Mas a energia do professor, que começou a praticar a modalidade por ser uma paixão de aluno, cativa muito. Vai brincando e ao longo das aulas, nas raras vezes em que se engana na coreografia, dá o corpo às balas. “Eu faço mais flexões no final”, promete. E cumpre. A paixão pela cultura asiática faz com que vá explicando alguns pormenores de artes marciais, quase transportando os alunos para um imaginário que é muito seu.

O barulho da luva

Nestas três vertentes, mais do que estar em forma é preciso ter bons ouvidos. Parece estranho, mas é verdade. Tanto André Silva como Pedro Kol delongam-se nas vantagens dos desportos a vários níveis. Mas um que é instantâneo para quem pratica é a sensação de evolução. O barulho da luva ao embater no saco é o reflexo de um murro bem ou mal dado. E por mais iniciante que se seja, é fácil perceber o que mudar até se dar o soco perfeito. Mas não é só do lado da perícia que se veem vantagens. Do lado da gestão do stresse também há resultados. É um exercício de autossuperação que também ajuda a esquecer os problemas do dia a dia. Nas aulas de bodycombat, é ligeiramente diferente — não há sacos, mesmo que haja quem use ligaduras ou luvas de ginásio — mas o essencial mantém-se. Trata-se mais uma vez do som, com a música a comandar os passos, o ritmo e a intensidade.

Depois de um treino de cerca de 15 minutos no 1Fight, a sensação é a mesma de quem acabou de correr dez quilómetros. O sangue dá cor à cara e as dores começam quando ainda se está ofegante, contudo, há a idiossincrasia de querer voltar a olhar para o saco de frente e enfrentá-lo. E, segundo André Silva, isto é “muito libertador”.

Este tipo de treino funcional, que vai misturando as artes marciais com as lutas, faz parte das duas vidas de Pedro Kol. A vida de atleta profissional e a outra do miúdo que adora a arte e que se transformou no adulto que a respeita. Esta paixão e respeito são passados desde o momento em que explica os primeiros passos. Tudo ali tem uma razão de ser. O pé com que se ataca, o punho com que se protege a cara, a forma como se desvia do atacante tentando manter a vantagem. Tudo é transmitido por Kol, com o brilho nos olhos do miúdo que via os filmes de Bruce Lee. E não há desculpas. Seja uma jornalista que vai fazer uma experiência, seja quem for. E depois de dois pontapés mal dados, que não são subtraídos ao número total de exercícios, quando se dá um bem a sensação de prazer é incomparável. Tudo está estudado na cabeça de Pedro Kol, mas ao mesmo tempo tudo parece simples e espontâneo. E se a paixão acontece à primeira vista, o equilíbrio e a estabilidade de quem pratica melhoram passados poucos treinos.

Se aqui se segue a lógica da defesa e do ataque, nas aulas de bodycombat segue-se a coreografia. “O bodycombat é uma marca”, explica Vítor Procópio, o analista de um laboratório químico que há oito anos decidiu fazer a formação para se tornar professor. Desde os anos 70, que a Les Mills — grupo que cria alguns dos mais populares treinos de fitness — trouxe ao público este treino “aeróbico cardiovascular”. E hoje continua atual por ser “uma modalidade que vai evoluindo”. No final de uma aula de uma hora, a música é trocada pelo arfar dos alunos. E mesmo aqueles que fazem piadas e o desafiam acabam por remeter-se ao silêncio dos sorrisos. A caixa torácica já não tem capacidade para lançar piadas.

Todos os desportos prometem ser mais divertidos do que o que era anteriormente praticado. Todas as modelos fazem diferentes atividades que lhes dão diferentes corpos. Os homens musculados que varrem adversários na pista, já o fazem há muitos anos. Porquê, então, esta vontade? Este número de ginásios de lutas a abrir pelo mundo inteiro que conquistam os instagrams das “musas do fitness”? A resposta é aquela que a maioria que se inscreve num ginásio quer ouvir: tonificação, perda de peso e ganho de força. E os resultados são rápidos e visíveis. Nem que se tenha que medir nos litros de suor que no final molham os cabelos e encharcam as camisolas. Mas pode-se medir em perda calórica. Numa aula de uma hora de bodycombat perdem-se 545 calorias. Já na prática do boxe ou kickboxing, numa intensidade média alta, as calorias que ficam para trás podem ir até às 800. E isto é muito convidativo, seja antes do verão ou antes de um desfile. Os anjos de Victoria’s Secret reconhecem-lhe a tonificação de áreas impossíveis de esconder em lingerie reduzida. Os técnicos, no geral, falam da forma rápida com que o abdómen seca. Isto é, a perda da camada adiposa e o aparecimento de abdominais definidos que a maioria dos homens e mulheres procuram avidamente. E, claro, o prazer e a adrenalina de se sentir capaz de se defender e de ouvir o som do embate da luva melhorar de murro em murro.

Com o treino acabado, não há as merecidas palmas, há o obrigatório. Kol explica: juntam-se as mãos à frente do peito e faz-se uma pequena vénia ao adversário enquanto se diz: “Oss.” Um cumprimento com esse nome que mostra o respeito pelo adversário.

MORADAS

1Fight
Avenida da Republica, 42, Lisboa
Tel. 967 277 799
Entre €20 e €65

Kolmachine
Avenida João Crisóstomo, 51 A, Lisboa
Tel. 213 140 524
Entre €40 e €95

Virgin Active Porto
C.C. La Vie Porto Baixa, Rua Fernandes Tomás, 506 — 3º Piso, Porto
Tel. 223 402 060
A partir de €50,99

Fluvial Kickboxing
Rua de Aleixo da Mota, Porto
Tel. 916 452 684
Preços sob consulta