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Maçonaria: em busca da influência perdida

antónio pedro ferreira

Nos templos há cada vez menos políticos influentes e a esfera de intervenção da maçonaria diminuiu. Os “irmãos” estão preocupados e têm estratégias para recuperar o poder. Mas permanecem os rituais, os códigos secretos, as teias de negócios e o peso maçónico em áreas como as autarquias e os serviços secretos

Numa pequena sala do 2º andar do Palácio do Grande Oriente Lusitano, no Bairro Alto, em Lisboa, está guardado um caixão verdadeiro, em madeira escura, preto e revestido a papel. Está ali, encostado à parede e é usado nas sessões do Grande Oriente Lusitano (GOL) onde os “irmãos” que passam ao núcleo mais importante fazem um juramento de lealdade e recebem o título de “mestre”. De fato, gravata e avental, mas sem as luvas habituais, o maçom é colocado num caixão com um pano preto por cima e durante o ritual fica a perceber porque é que é importante guardar segredo e nunca cometer traição. Em tempos, estiveram ali deitados homens que ocuparam os lugares mais importantes do país, como o antigo presidente da Assembleia da República, António de Almeida Santos, ministros e secretários de Estado, como António Vitorino e Vitalino Canas, do PS, Rui Gomes da Silva, do PSD, ou o antigo presidente do Tribunal Constitucional, Luís Nunes de Almeida. Nos últimos anos, muitos dos maçons com influência política deixaram de aparecer — como Jorge Coelho e Miguel Relvas — outros optaram por não dar a cara. E, contrariando uma certa tradição maçónica, nem sequer o socialista que assumiu a presidência da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, nem o líder parlamentar do partido, Carlos César, são maçons. O açoriano foi, aliás, alvo de uma tentativa de recrutamento por parte de outra obediência maçónica e concorrente do GOL, a Grande Loja Legal de Portugal (GLLP), onde o seu filho Francisco César foi iniciado, mas nunca aderiu.

A perda de peso político é tema de preocupação nos corredores do Grande Oriente Lusitano, onde no dia 3 e 4 de junho se disputam eleições para grão-mestre. E, por isso, os três candidatos apostam em estratégias de reconquista do poder e de notoriedade. O atual líder e ex-presidente da Galilei, Fernando Lima, quer lançar uma unidade de cuidados continuados, num terreno em Chelas doado à maçonaria para recuperar o prestígio da instituição; o economista Daniel Madeira de Castro diz ser urgente mudar a má imagem que a obediência tem na sociedade; e o professor universitário José Adelino Maltez garante que vai colocar de novo o GOL na esfera de influência do país, estabelecer relações com o Estado e pedir audiências formais ao primeiro-ministro e a partidos políticos.

“Adelino da Palma Carlos foi indicado pelo GOL ao Presidente Spínola”, nota Adelino Maltez, recordando o peso que a maçonaria tinha nos bastidores das nomeações políticas, no caso da do primeiro-ministro do primeiro governo provisório depois do 25 de Abril — época em que os maçons voltaram a ter poder depois de terem estado na clandestinidade entre 1935 e 1974. Para muitos, é essa a situação atual da maçonaria. “Ainda existe a mentalidade da clandestinidade”, diz o urologista Joshua Ruah, de 76 anos, que foi iniciado na maçonaria em 1986, noutra obediência, a Grande Loja Regular de Portugal, e depois, há 18 anos, passou para o GOL, onde se tornou membro da Universalis, a mais poderosa loja maçónica. Esta, em vários dos últimos governos, conseguiu ter entre os seus elementos um elo de ligação forte ao primeiro-ministro, como sucedeu no último governo socialista de José Sócrates com o maçom e então espião e quadro do Serviço de Informação e Segurança (SIS), José Manuel Gouveia Almeida Ribeiro, escolhido para seu secretário de Estado-adjunto.

Influência. “Apesar de termos perdido poder enquanto grupo coletivo, há ainda maçons espalhados por todo o país, pelos partidos, pelas empresas, pelas autarquias”, garante um elemento antigo da obediência

Influência. “Apesar de termos perdido poder enquanto grupo coletivo, há ainda maçons espalhados por todo o país, pelos partidos, pelas empresas, pelas autarquias”, garante um elemento antigo da obediência

antónio pedro ferreira

Hoje, a Universalis continua ativa — dois dos candidatos a grão-mestre são seus membros (Fernando Lima e Adelino Maltez). E o líder (que na linguagem maçónica se chama “venerável”) é Marcelo Feio, um psiquiatra do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, unidade onde o poder maçónico é grande e onde, durante anos, a Faculdade de Medicina de Lisboa foi dirigida por José Fernandes e Fernandes, outro maçom da Universalis. A loja, assim como o próprio GOL, está, porém, dividida entre os que querem manter a discrição e o secretismo intacto e os que defendem uma maior intervenção em algumas questões do país e não aceitam que hoje não sejam reconhecidos por primeiros-ministros, Presidentes da República e outras entidades. “Dantes, o GOL era convidado de forma discreta e informal para estar presente em certos eventos institucionais”, diz um maçom do GOL. Além disso, todos ainda se lembram dos tempos da Primeira República, em que Afonso Costa, quando era ministro da Justiça, apresentou numa loja maçónica as bases da Lei da Separação das Igrejas e do Estado. E o próprio António Arnaut não esquece o dia de abril de 1978 em que foi a uma reunião secreta da sua loja revelar o decreto que veio a criar o Serviço Nacional de Saúde, antes de assinar o despacho ministerial.

Os códigos secretos

O socialista Álvaro Beleza, de 58 anos, da Loja Ocidente do GOL, também admite a queda do peso político. “A maçonaria não tem a influência que já teve. Perdeu muito e basta ver que, na Primeira República, 80% dos partidos eram construídos por maçons”, diz, recordando os tempos em que na sede do PSD (foi da JSD e só mudou para o PS em 1985), sentado no chão do edifício do partido na Duque de Loulé, em Lisboa, em 1975, ouviu Emídio Guerreiro falar pela “primeira vez a sério da maçonaria”. Álvaro Beleza, que só veio a entrar no GOL mais tarde, em 2005, nota também que hoje o PS, que desde sempre esteve ligado ao GOL, “tem menos maçons”. A começar pelo atual Governo, onde o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, apesar de ter sido iniciado no GOL, há muito que deixou de frequentar as reuniões, tendo-se afastado. O mesmo fez José Apolinário, secretário de Estado das Pescas, que chegou a pertencer à Loja Futuro do GOL.

João Soares, que foi ministro da Cultura de António Costa, era dos poucos governantes que ainda mantinham ligações à obediência. E, apesar de não ser frequentador assíduo das sessões maçónicas, decidiu participar na atual campanha para as eleições do próximo fim de semana. Para apoiar Adelino Maltez, filmou um vídeo onde, ao som da música de Zeca Afonso, conta que foi iniciado em 1964 — mas enganou-se na data, pois só entrou na década seguinte. Explica que integra a Loja Simpatia e União e desvenda que dentro da organização secreta usa o nome “Thomas More”, o filósofo inglês.

Todos os maçons têm um nome simbólico que escolhem no dia em que são iniciados. Nesse momento, passam por um ritual e conhecem também alguns segredos — como as palavras e os sinais que servem para se conseguirem reconhecer uns aos outros no mundo exterior. É nessa altura que são avisados que, através de um simples aperto de mão, podem informar alguém de que são maçons: basta fazer uma pressão com o polegar no espaço entre a segunda e a terceira falange do outro. Além disso, são-lhes reveladas algumas palavras, como “Boaz”, um termo bíblico que serve de senha aos “aprendizes”, os maçons mais recentes. Depois, os “irmãos” vão descobrindo mais códigos secretos à medida que sobem de estatuto dentro da organização. Além dos que entram, há mais dois graus: os “companheiros”, que estão num nível intermédio, e os “mestres”, os mais importantes. Só estes têm certos poderes, como participar num universo paralelo de reuniões, chamadas de altos graus, onde os rituais são mais intensos e esotéricos e onde se pagam quotas elevadas.

Entrar numa das lojas ‘normais’ do GOL custa em média 250 euros de joia e todos os meses tem de se pagar uma quota de 22,5 euros. Segundo dados do GOL neste momento, existem 2200 maçons, 100 lojas e 30 templos por todo o país. “Há dificuldade em recrutar pessoas jovens”, diz um elemento do GOL, garantindo que a crise e a “ideia errada” que há da maçonaria têm prejudicado as adesões. A última loja a abrir, há pouco mais de um mês, foi em Cabo Verde. Chama-se Luís Cândido e é a primeira loja do GOL nos PALOP. Uma das novas apostas é agora recrutar nestes países. Tal como fez a GLLP, que conta com lojas em Angola, Timor, Guiné e Cabo Verde, onde têm sido iniciados alguns “irmãos” com destaque político.

Apesar do afastamento de muitos poderosos, há ainda políticos, antigos ministros e assessores que circulam pelas salas do palácio do GOL no Bairro Alto, onde funcionam sete templos. É o caso de Rui Pereira, antigo ministro da Administração Interna, que é dado como um dos futuros grão-mestres da obediência; Vasco Franco, antigo ministro da Proteção Civil; Fernando Marques da Costa, ex-assessor de Jorge Sampaio e atual mandatário da campanha interna de Fernando Lima; ou Abel Pinheiro, antigo tesoureiro do CDS. Os dois últimos pertencem ainda hoje à Loja Convergência, que nos anos em que António Guterres foi primeiro-ministro era conhecida como “o gabinete” por incluir vários elementos do Executivo.

Também a GLLP, hoje liderada pelo socialista Júlio Meirinhos, sofreu o mesmo afastamento de alguns membros que ocupam cargos públicos, em especial desde a polémica que envolveu a Loja Mozart, que reunia espiões, empresários e políticos. Criada em 2006 por nove maçons, entre eles o ex-espião Jorge Silva Carvalho, integrou pouco depois Nuno Vasconcellos, então patrão da Ongoing que recrutou vários “irmãos” maçónicos para a sua empresa. Aos empresários e homens das secretas juntaram-se depois nas reuniões da Mozart, e já na fase final do governo de José Sócrates, vários políticos, nomeadamente do PSD, como Luís Montenegro, líder parlamentar, Miguel Santos, deputado, e Marco António Costa, vice-presidente do partido. Mas o escândalo que em 2011 atingiu a loja acabou por afastar muitos da maçonaria, que temiam consequências na carreira política. Desde esses tempos que Luís Montenegro deixou de ser visto nas sessões.

Hoje, a Mozart ainda sobrevive, mas entre os seus membros já não há políticos de destaque e, daquela época de poder, apenas o advogado Rogério Tavares continua a participar regularmente nas reuniões. A GLLP, segundo dados internos, tem agora 128 lojas — a última aberta em 18 de março passado, em Lisboa — e prepara-se para abrir mais duas. Mas é raro entrarem figuras de grande destaque da sociedade. Para muitos, a solução do problema passa por limpar a imagem da maçonaria, intervir publicamente nas questões mais relevantes do país e tentar mostrar o que a associação fez ao longo dos séculos. “A maçonaria foi a mãe das democracias. Napoleão, Giuseppe Garibaldi e Winston Churchill foram todos maçons”, sublinha Álvaro Beleza. Para Joshua Ruah, parte da solução está igualmente em abrir-se à sociedade para mostrar o papel que os maçons tiveram em Portugal, como na conquista do direito de voto da mulher ou mesmo na generalização do ensino primário. “A maçonaria tem mesmo de mudar ou continuamos a ser considerados um bando de malandros”.

Negócios e ‘operação Marquês’

São muito os casos descobertos que revelam as teias de negócios, as troca de favores e as ligações perigosas que existem no interior da maçonaria. Isso mesmo ficou a descoberto num encontro entre maçons no dia 5 de maio, no Porto, num debate de ideias entre os três candidatos e que colocou a ‘Operação Marquês’, Ricardo Salgado e a ‘Lava-Jato’ no meio do GOL. Durante o evento, na plateia, um “irmão” apoiante de Adelino Maltez começou bem alto a recordar as notícias sobre os inquéritos a Ricardo Salgado, onde este terá contado aos investigadores que foi Fernando Lima quem lhe sugeriu o advogado Abrantes Serra. Os investigadores suspeitam de que o sócio no escritório de advogados e “irmão” maçónico de Fernando Lima na Loja Universalis será o intermediário de pagamentos feitos pelo BES a José Dirceu, o político brasileiro detido no caso ‘Lava-Jato’.

Fernando Lima, irritado, não perdeu tempo: lembrou que não havia nenhuma suspeita contra ele e revelou a todos que, uns tempos antes de José Dirceu ter sido preso, Adelino Maltez lhe pediu que o apresentasse ao brasileiro, o que veio a acontecer num jantar em Cascais com um grupo de cerca de 15 pessoas, algumas do GOL.

Foi também numa guerra de maçons que se descobriu que a maior proprietária privada de imóveis em Lisboa, a Associação Inválidos do Comércio, uma IPSS, era controlada pela maçonaria. Com um património de 70 milhões de euros e mais de 150 imóveis na cidade, o poder maçónico tornou-se evidente quando dois maçons que faziam parte da direção acusaram de má gestão Damião Vozone, o “irmão” da Loja Madrugada, que dirigia a instituição. Eles foram expulsos da IPSS em 2014 e o caso acabou em tribunal. Recentemente, por ordem do Tribunal da Relação de Lisboa, foram reintegrados. Os dois grupos disputam agora a liderança da instituição — havendo uma terceira lista composta por vários elementos ligados ao PCP. Hoje à tarde decorrem as eleições.

Poder nas secretas e autarquias

“Apesar de termos perdido poder enquanto grupo coletivo, há ainda maçons espalhados por todo o lado e por todo o país, pelos partidos, pelas empresas, pelas autarquias”, garante um elemento antigo da obediência. Os serviços secretos, a área da segurança e as autarquias são círculos onde a maçonaria ainda consegue manter alguma influência. A direção do Serviço de Informação e Segurança (SIS) foi entregue a Adélio Neiva da Cruz, um homem do GOL, da Loja Europa Jean Monnet. Apesar de Passos Coelho, o então primeiro-ministro que o nomeou, ter dito que não queria um maçom no cargo, acabou por aceitá-lo.

Rui Pereira, antigo ministro da Administração Interna e maçom do GOL, quando saiu da presidência do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), em 2016, conseguiu que a liderança ficasse nas mãos de um “irmão” da mesma obediência, António Nunes, o ex-diretor da ASAE, que pertence à Loja Universalis. E para presidente do conselho consultivo deste observatório foi escolhido António Rebelo de Sousa, irmão do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e simpatizante da GLLP. As duas obediências têm mantido um pacto ao longo dos anos, segundo o qual uma e outra de forma alternativa vão assumindo a liderança do OSCOT, tendo anteriormente cabido esse papel a José Manuel Anes, antigo grão-mestre da GLLP, que se afastou da maçonaria e que durante o escândalo da Loja Mozart acusou Silva Carvalho — de quem foi padrinho maçónico — de ter usado a organização para um projeto de poder pessoal.

O meio autarca é também um dos que contam com mais maçons, que se espalham pelas várias lojas do GOL. Como Paulo Vistas, candidato à Câmara Municipal de Oeiras, Carlos Carreiras, presidente da Câmara Municipal de Cascais, ou Manuel Machado, autarca de Coimbra e líder da Associação Nacional de Municípios Portugueses. Também é nas autarquias que a GLLP ainda mantém algum poder real.

Isaltino Morais é hoje um membro ativo da Loja Mercúrio dessa obediência. Entrou em 2005, convidado por José Moreno, antigo assessor de Manuela Ferreira Leite e ex-grão-mestre da GLLP. Neste momento, está a elaborar as listas para a candidatura à Câmara Municipal de Oeiras, mas assegura que ser maçom “não é critério”. No entanto, garante que, quando esteve preso, entre abril de 2013 e junho de 2014, sentiu a solidariedade maçónica, tendo recebido a visita de muitos “irmãos”. “Nas lojas há aliás um ‘irmão’, a quem chamamos ‘hospitaleiro’, que trata dos doentes e presos”, explica ao Expresso Isaltino Morais, que ao longo dos anos recrutou várias pessoas para a maçonaria, tendo sido o padrinho de José Cassanda, o presidente do governo regional da ilha do Príncipe, em São Tomé e Príncipe, que foi iniciado na Loja Mercúrio.

Caveiras, ampulhetas, sal, 
mercúrio e enxofre

Para alguém entrar na maçonaria tem de ser proposto numa loja. Há sempre um maçom que se assume como o padrinho e faz uma petição para o novo membro. No GOL há um documento de três páginas onde consta o nome do candidato e onde este tem de responder a algumas perguntas — se está arrependido de algo que fez na vida ou se já foi alvo de algum processo, mesmo que arquivado — e tem de indicar os nomes dos amigos e dos inimigos. As folhas são colocadas num envelope onde se escreve “Reservado ao Altar” e inicia-se assim o processo de admissão. Pelo meio, através de maçons previamente escolhidos, são realizadas investigações à vida do candidato, antes de o caso ser decidido nas reuniões maçónicas. A votação secreta é, em regra, feita pelo sistema de “bola branca, bola preta”. Depois de aprovado, o maçom é chamado para ser iniciado.

Herança. A necessidade de mudar e reconquistar a influência é um dos temas de conversa dos maçons, que, sempre que entram no palácio do GOL, se deparam com os sucessos e figuras do passado

Herança. A necessidade de mudar e reconquistar a influência é um dos temas de conversa dos maçons, que, sempre que entram no palácio do GOL, se deparam com os sucessos e figuras do passado

antónio pedro ferreira

Tudo começa numa das duas salas de reflexão que existem no palácio do GOL, junto aos templos, no 2º piso. São dois cubículos, negros, onde ficam sentados à espera, rodeados por uma vela acesa, pão, água, uma caveira, uma ampulheta e três recipientes com mercúrio, enxofre e sal, materiais que os maçons usam como símbolos. Em tempos, colocavam-se ali tíbias reais que vinham das valas dos cemitérios. E as caveiras usadas também eram crânios de seres humanos. Hoje em dia, as tíbias deixaram de ser utilizadas e as caveiras passaram a ser de plástico. Ao fim de algum tempo, pode ser uma ou mais horas, o candidato é levado para um dos templos. Aí, despem-lhe uma parte da camisa, ficando nu na zona do coração, arregaçam-lhe as calças da perna direita e descalçam-lhe o pé esquerdo. Uma corda é-lhe colocada à volta do pescoço e põem-lhe uma venda nos olhos. O líder do grupo coloca-lhe uma espada junto ao peito e faz-lhe perguntas, enquanto lhe vai explicando que a espada serve “para castigar o perjúrio” e é “o símbolo do remorso que rasgará o seu coração se se tornar traidor à fraternidade em que pretende ser admitido”.

Germano de Sousa, antigo bastonário da Ordem dos Médicos, de 74 anos, foi iniciado em 1978, num dos templos do GOL. O facto de uns anos antes, em 1967, quando acabou o curso de Medicina, ter sido, recorda, perseguido pela PIDE, a polícia política do Estado Novo, fê-lo depois mais tarde “dar valor aos princípios” da maçonaria. “Quando acabei o curso não me deixavam entrar nos hospitais para fazer o estágio”, conta, explicando que para ele a maçonaria tem “um papel fundamental” nas épocas em que estão em causa valores como a liberdade. Hoje, na Loja Lusitânia de São João, tenta tornar-se “um homem melhor”, explica. Nas reuniões, garante, debatem ideias. “Dentro dos templos nunca discutimos religião ou política. Mas falamos de temas atuais”, acrescenta. Este ano, Germano de Sousa apresentou numa sessão maçónica a sua posição crítica sobre a eutanásia. Nas lojas, além de seguirem rituais, os maçons discutem ideias através do que chamam pranchas — trabalhos que os ajudam a subir de grau e a promover debates internos.

Na loja do GOL liderada por Mário Jorge, clínico de 62 anos que preside à Federação Nacional dos Médicos, discutiu-se recentemente o tema da inteligência artificial. O dirigente sindical entrou para a maçonaria, para a Loja Ocidente, no início do ano 2000, depois de sair do PCP, partido que proíbe que os seus membros sejam maçons. “Mas conheço pessoas do PCP e do Bloco que são do GOL”, avisa. Hoje, Mário Jorge, um dos sindicalistas que lideraram a última greve dos médicos, é o venerável da Loja Salvador Allende do GOL e garante que há um papel atual a desempenhar pela maçonaria. “Quando na Europa se assiste à ascensão de forças políticas fascistas, a maçonaria torna-se ainda mais importante”, diz, recordando que, nas eleições francesas, o Grande Oriente de França fez um comunicado a apelar ao voto em Emmanuel Macron para ajudar a derrubar Marine Le Pen.

Mário Jorge é ainda um dos homens que têm entre mãos o projeto da unidade de cuidados continuados do GOL que o atual grão-mestre quer criar. O processo está, no entanto, em stand-by, depois de ter originado uma batalha dentro da obediência. Fernando Lima queria vender alguns imóveis que integravam o espólio do Internato de São João, uma IPSS controlada pelo GOL e que detém dez propriedades: um edifício, na Travessa do Loureiro, que valerá 1.700.000 euros, mais cinco prédios de habitação e quatro terrenos. Mas alguns maçons contestaram a ideia e o processo parou. “Mas esse projeto era bom até para desmistificar a campanha antimaçónica que existe em Portugal, pois apresentávamos obra feita”, alega Mário Jorge, que é um frequentador assíduo das sessões da sua loja.

Aventais, música clássica e jantares

Os maçons costumam reunir-se nas lojas de 15 em 15 dias. Durante os encontros e os rituais é comum ouvirem música clássica enquanto vai soando o som das marteladas do malhete, o martelo de madeira usado pelos líderes que comandam o grupo. Em todas, há velas acesas e os maçons estão de fato escuro e camisa branca lisa com gravata ou laço preto. Alguns vestem antes um balandrau preto, uma espécie de toga. Todos têm obrigatoriamente de usar aventais. Os dos aprendizes são brancos com a aba levantada; os dos companheiros são iguais mas com a aba deitada; já os dos mestres têm três rosetas. O verso deve ser forrado a negro e com uma caveira estampada a branco. Em todas as reuniões passa um saco preto, a que chamam “tronco da viúva”, onde podem colocar ou retirar dinheiro, caso algum precise. As leis internas do GOL revelam o nível de entreajuda que tem de existir, ao definir que, quando for necessário, os membros têm de “tomar sob sua proteção, por adoção, filhos menores de maçons dos quadros da obediência”.

No palácio maçónico em Lisboa, as reuniões são por norma às 19h30 ou às 21h30. Costumam jantar sempre juntos, alguns antes, outros depois. Durante as refeições, que são conhecidas entre eles por “ágapes”, os maçons usam uma linguagem codificada: os copos são “canhões”, os pratos “telhas”, as colheres “trolhas” e os garfos “tridentes”. O vinho branco é chamado “pólvora forte branca” e o tinto “pólvora forte vermelha”.

Muitas das estratégias de atuação são definidas à mesa, em encontros fora dos templos. Há grupos que se reúnem regularmente em restaurantes com objetivos concretos. Neste momento, há um grupo de maçons e ex-maçons que se costuma reunir na Cervejaria Trindade, ou em hotéis como o Ritz, para debater o que se passa na política portuguesa. Intitulam-se illuminati, e nos últimos tempos o PSD e a sucessão de Pedro Passos Coelho têm sido temas recorrentes. É também num restaurante, mas no Clube Militar Naval, que se reúnem 70 mestres maçons do GOL e da GLLP. Fazem parte do “Clube 50”, um grupo de elite maçónico que promove almoços e debates. Um dos últimos teve a participação do histórico socialista Edmundo Pedro, um combatente do salazarismo, de 98 anos.

O grupo é agora dirigido pelo advogado José da Mota Veiga, que atualmente é vice-grão-mestre da GLLP. Mota Veiga, que entrou na maçonaria quando era deputado do PSD, diz que o clube permite uma “lógica de criação de amizade que é boa” e explica que Portugal vai receber em setembro a reunião de todos os “Clubes 50” do mundo. Foi este grupo que esteve envolvido em polémica depois de o seu então líder, João Correia, maçom do GOL da Loja Rosado Correia (em homenagem ao pai, antigo grão-mestre e ministro do Equipamento Social entre 1983 e 1985) ter sido preso. Foi acusado de ter montado um esquema para favorecer amigos na atribuição de obras nas esquadras da PSP uma vez que era diretor-geral do Ministério da Administração Interna. Hoje o clube está tranquilo, garante Mota Veiga, que na sua obediência também assistiu recentemente à saída de vários maçons que decidiram acompanhar três maçons expulsos.

Um deles, Paulo Cardoso, de 47 anos, que entrou na maçonaria quando tinha apenas 21 anos e estava na JSD, criou a 3 de julho de 2016 uma nova obediência, a Grande Loja Unida de Portugal. “Estamos a lançar a nova maçonaria em Portugal. Diferente das outras, pois é aberta à sociedade”, garante o maçom. A organização tem sede no meio do bairro do Beato e garante que vai apostar numa imagem diferente, dando-se a conhecer e prestando serviço à comunidade. Para começar a marcar a diferença, no próximo dia 9 de junho, vão “oferecer”, numa parceria com a junta de freguesia, um espetáculo no Convento do Beato aos habitantes do bairro, que em troca têm de levar um livro para doar aos serviços da junta. O protagonista do espetáculo será Fernando Pereira, um dos maçons que integram esta nova obediência.

As maçonarias mais tradicionais, como o GOL, costumam antes promover conferências. Uma das mais ativas era a Loja Europa Jean Monnet, do gestor Paulo Nora, que chegou a levar António Mexia a uma conferência dentro do próprio palácio do GOL. Mas muitos maçons não gostaram que andassem “profanos” junto aos templos onde se reúnem e hoje as iniciativas são mais pacíficas e realizam-se longe dos locais de sessões maçónicas. “Continuamos a promover conferências, mas não no palácio”, confirma o gestor, cuja loja que lidera organizou no ano passado uma conferência sobre a Europa e a ameaça terrorista.

Apesar de todos os receios sobre a atual situação, o historiador e candidato a vice-grão-mestre António Ventura, autor de livros sobre os maçons, garante que a maçonaria — que teve a primeira loja no país em 1927 — “não está na clandestinidade”, como muitos temem. “Discrição é diferente de clandestinidade” diz, notando que a intervenção ativa que os maçons tiveram na Revolução Liberal, em 1820, na implantação da República, em 1910, e no fim do Estado Novo, em 1974, foi através de membros da maçonaria e não da instituição em si: “Foram maçons que o fizeram e não a maçonaria”.

A verdade é que hoje a necessidade de mudar e reconquistar a influência é um dos temas de conversa dos maçons, que, sempre que entram no palácio do GOL, se deparam com os sucessos do passado. No museu maçónico, situado por baixo das salas onde se reúnem, estão símbolos do poder que já tiveram: ali está o malhete em prata que pertenceu ao general Gomes Freire de Andrade e o avental de Gago Coutinho.