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Daniel Kelemen: “A obsessão com a austeridade foi um erro”

antónio pedro ferreira

O especialista em assuntos europeus defende que o ‘Brexit’ não representa uma ameaça para a União Europeia. Em Portugal, para participar numa conferência da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre as constituições liberais durante a crise financeira, o professor da Universidade Rutgers, nos EUA, considera que a maior ameaça à Europa vem da Hungria

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Fenómenos como o ‘Brexit’ ou a eleição de Trump significam que estamos a assistir ao fim das democracias liberais?
Não acredito, mas acho que é um momento de crise. Havia muitas preocupações para 2017, com uma série de eleições: primeiro na Áustria, depois na Holanda e a seguir em França. Havia a ideia de que o ‘Brexit’ e Trump eram um sinal de que vinha aí uma onda populista. Contudo, isso não se concretizou. Nem penso que vá acontecer. 
O centro político segurou as ameaças.

Mas o populismo não desapareceu.
Há uma tendência para exagerar e achar que é um fenómeno que sobressaiu com a crise e se vai instalar na Europa. Vejo mais como uma tendência global, acentuada com a crise económica e com a crise das migrações. Não vejo as democracias europeias em risco de serem tomadas por partidos populistas. Mas é verdade que são forças que vão continuar na política, e estão a fazer pressão pelos seus temas.

São uma pressão para os partidos do centro?
E são os partidos de centro-direita que podem combatê-los. Nos países europeus, onde esses partidos populistas tomaram o poder e controlam o país, como a Hungria e a Polónia, primeiro vê-se que é um perigo para os seus próprios Estados de direito. E depois vemo-los a tentar pressionar as instituições europeias. Viktor Orbán [primeiro-ministro da Hungria] não quer só controlar o seu país, quer espalhar as suas ideias e influenciar a União Europeia (UE).

A manutenção no poder de líderes populistas não é também uma responsabilidade da UE?
Sim. E é, particularmente, evidente na Hungria em que Orbán está há anos no poder. Quando houve pressão do Parlamento Europeu, em 2012, e mesmo agora, a liderança do Partido Popular Europeu tentou protegê-lo, porque ele é um membro do grupo e eles precisam do voto dele. Quando temos forças de extrema-direita, se o centro-direita traçar uma linha firme, o sistema consegue resistir. Mas muitas vezes — e a história mostra isso — os partidos do centro precisaram dos votos daqueles partidos. 
E pensam que, afinal, podem tolerá-los e liderar com eles. É importante traçar uma linha e dizer quais são os valores principais da UE, dizer o que é aceitável e o que é inaceitável. E sancionar regimes que vão nessa direção. O mesmo também se pode aplicar à extrema esquerda, se tivéssemos um regime como o de Hugo Chávez, mas não é esse o problema da UE. Na Europa de hoje, a ameaça às democracias liberais vem da extrema-direita.

Como podem as democracias europeias continuar a aceitar as violações de Viktor Orbán ao Estado de direito?
Penso muito nessa questão. Como pode isto acontecer numa zona democrática como é a UE? Se olharmos para uniões federais ou quasi federais em que se pode enquadrar a UE, é bastante comum existirem estados nessas uniões que são autocracias, ainda que a federação esteja comprometida com a democracia. Nos EUA houve totalitarismo nos estados do sul. Muitas pessoas querem ver a UE a democratizar, mas temos de nos lembrar que há um lado feio na politica. Os partidos colocam os seus interesses acima dos princípios, isso tem acontecido na situação húngara.

Os eleitores votam hoje mais em partidos ou movimentos alternativos como o Syriza, na Grécia, ou o En Marche!, em França. Os partidos tradicionais estão condenados?
Os partidos convencionais, de centro-esquerda e centro-direita, estão em crise em muitos países europeus. Nas últimas décadas, assistimos a um declínio na sua expressão de voto. Isto ficou muito visível nas eleições francesas, em que nenhum dos candidatos da segunda volta vinha de um partido tradicional. Os partidos tradicionais não estão a responder ao que os eleitores querem, em termos de crescimento económico e de emprego. Durante a crise da zona euro, os partidos do centro-esquerda e do centro-direita estavam a passar a mesma mensagem aos eleitores: a austeridade não tem alternativa. Disseram-lhes que não havia escolha e que os eleitores tinham de aceitar isso. E os eleitores não gostam de não ter escolha. Então, eventualmente, alguém lhes promete uma escolha, que até pode ser uma miragem, mas pelo menos oferece uma escolha.

Houve uma obsessão com a austeridade?
Em termos da resposta à crise da zona euro, a obsessão com a austeridade foi um erro. Isso não quer dizer que um país como a Grécia pudesse continuar a gastar como gastava, mas houve um ênfase com a austeridade em vez de se procurar outras respostas. Parte do que aconteceu foi uma resposta estratégica dos principais países da UE. Se a Grécia tivesse entrado em default, os bancos dos principais países da UE, França e Alemanha, teriam sido afetados. Parte do cálculo politico de Merkel e de Sarkozy foi pensar que era melhor, politicamente, resgatar os países do sul para eles pagarem aos bancos. Assim, eram os ‘preguiçosos’ do sul os culpados. Em vez de admitirem que deviam ter supervisionado os bancos e evitado estes empréstimos de risco. A eleição de Macron vai diminuir a pressão com a austeridade, e vamos ter políticas mais inovadoras para fortalecer a UE.

O ‘Brexit’ terá piores efeitos para a UE do que a crise da zona euro?
É a crise que tem mais atenção nos media, mas para mim é a menor das crises. Aliás, está em quarto ou quinto lugar, é uma crise maior para o Reino Unido. É sempre pior quando damos um tiro no pé. Houve medo de que fosse uma crise profunda porque poderia ter um efeito dominó. Nunca foi algo em que acreditasse, e agora é muito claro que não está a acontecer. Os 27 estão bastante unidos na resposta. A UE está a sofrer múltiplas crises que se ligam e se intensificam. Penso que a pior é o que se passa na Hungria e na Polónia, aquilo a que chamamos crise do Estado de direito. Essa crise, em termos de valores, afeta os princípios em que se fundamenta a UE. A crise dos refugiados também foi muito grave, por causa da perda de vidas e do sofrimento e porque alimentou o populismo, mas a do Estado de direito é a pior.

E o que deve a Europa esperar de Donald Trump?
Se a investigação sobre ele se intensificar, se for pressionado pelo FBI, ou se, em 2018, os democratas recuperarem o Congresso, não ficaria chocado de o ver com políticas internacionais mais agressivas. Ou mesmo vê-lo começar uma guerra em algum lado para desviar as atenções. Sobre a NATO já o ouvimos dizer coisas diferentes, é difícil perceber em que direção vai. Se fosse um líder europeu estaria preocupado com a sua política externa. Os EUA comandados por Trump não vão promover a democracia. E isso prejudica a UE.

Muitos dos que votam em Trump, no ‘Brexit’ ou em Le Pen são os esquecidos da globalização, os que já não têm nada a perder. É uma derrota do capitalismo?
Não. O capitalismo, no seu melhor, consiste em gerar riqueza e crescimento. A maneira como isso é redistribuído e reinvestido é uma decisão dos políticos. Creio que os políticos estão a falhar mais do que o capitalismo. Esperamos demasiado se pensarmos que o capitalismo vai gerar riqueza, crescimento e fazer com que ninguém fique para trás. Se virmos de uma perspetiva global, o capitalismo tem sido positivo. Mas isto não responde ao trabalhador europeu ou americano que viu o seu trabalho ser deslocalizado ou automatizado. Cabe aos governos fazer escolhas políticas para atender a estas pessoas.