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Conferências do Estoril: “Conseguimos, num mundo que se fecha, criar um espaço de tolerância que é raro noutros países”

Daniel Traça, diretor da Nova School of Business and Economics

No rescaldo de mais uma edição das Conferências do Estoril, Daniel Traça, diretor da Escola de Economia e Gestão da Universidade Nova (que é simultaneamente parceira e coprodutora do evento) falou com o Expresso sobre a importância das conferências para Portugal e para o mundo, bem como o papel e capacidade dos jovens para mudar o mundo

O futuro está nas mãos dos jovens. A frase, repetida das mais variadas formas por diferentes pessoas na 5ª edição das Conferências do Estoril (que esta semana decorreu no Centro de Congressos do Estoril, subordinada ao tema “Migrações Globais”), mostra fé nas gerações mais novas na procura de soluções para o futuro do mundo. É também esta uma das missões das Conferências do Estoril, que arrancaram no dia 29 de maio com a Youth Summit, destinando assim um dia inteiro à juventude, com 103 oradores entre os quais estiveram cinco prémios Nobel, o comissário europeu Carlos Moedas e Farida Khalaf, a jovem yazidi que conseguiu fugir ao Daesh e escreveu o livro “A Rapariga que Derrotou o Estado Islâmico”.

O Expresso falou com Daniel Traça, diretor da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), que é simultaneamente parceira académica e coprodutora das Conferências do Estoril, sobre as principais mensagens e expectativas que pairaram sobre os jovens nesta edição. E sobre os desafios que estes terão pela frente na procura de soluções para um mundo melhor. “Estas conferências têm tudo a ver com dinamizar os jovens e encontrar um espaço em que eles consigam pensar os grandes problemas do mundo”, disse.

Como parceira académica e coprodutora das Conferências do Estoril, qual foi o papel da Nova SBE?
Temos uma parceria com a câmara de Cascais, que nos levou a participar não só como parceiros das conferências (dentro de uma rede de escolas envolvidas), mas também a assumir alguma liderança na coordenação e gestão do conhecimento que um evento deste tipo envolve. Estas conferências têm tudo a ver com dinamizar os jovens e encontrar um espaço em que eles consigam pensar os grandes problemas do mundo e a Nova SBE pode ajudar a transformar cada vez mais este espaço num espaço para os jovens, sobretudo internacionais. A nossa colaboração foi sobretudo essa: ajudar a organização a dinamizar as conferências para que elas fossem um espaço de diálogo no sentido de tentar encontrar, para o futuro, soluções. Dialogar significa falar, mas sobretudo ouvir. Ouvir quem lá estava, ouvir os jovens, ouvir soluções. Não sei se encontrámos todas as respostas nestes dias, mas certamente quem lá foi saiu a pensar de forma diferente sobre o que é preciso fazer para encontrar essas soluções.

Mas saíram algumas conclusões e recomendações destes dias?
Obviamente que, em três dias, não conseguimos sair dali com um plano de ação concreto. Mas saímos com o que cada um propõe e que para ele ou ela faz sentido. Este é um espaço que junta pessoas diferentes, de todo o tipo de religiões ou formações, o que gera uma grande partilha e debate. E os jovens que lá estavam sentiam-se incrivelmente motivados: foram os mais ativos a colocar questões. E isso é extraordinário. Chegam ali e veem todas aquelas pessoas, na maioria mais velhas que eles, a falar, mas sabem que os problemas os afetam diretamente. E quando voltam para casa vão falar de uma forma diferente da que falariam se não tivessem estado nestas conferências. É este o espaço que as Conferências do Estoril criam e que, francamente, considero ser fundamental para Portugal. Nós conseguimos, num contexto em que o mundo se fecha e em que uns não falam com os outros, criar um espaço de tolerância e de confiança que começa a ser raro noutros países do mundo.

Com o tema deste ano, “Migrações Globais”, que mensagem se quis passar aos jovens e ao público em geral?
Que mensagem é que eu ouvi? Ouvi sobretudo uma mensagem de tolerância ativa. E a tolerância ativa é a necessidade de, ao reconhecermos que os assuntos são difíceis, percebermos que não podemos ceder aos nossos instintos mais básicos. Esta noção é muito importante para os jovens. É importante que estes percebam que, ao longo da História, foi nos momentos em que fomos ativamente ao encontro desta tolerância que conseguimos encontrar soluções.

No fundo, passa por rejeitar receios que hoje surgem em relação, por exemplo, às migrações e aos refugiados.
Exatamente. O ponto fundamental aqui é reconhecer que em situações de insegurança tendemos a refugiarmo-nos nas nossas tribos, a fecharmo-nos aos estrangeiros, porque assim nos sentimos seguros. Mas a História mostra-nos que, quando reagimos desta maneira, o progresso económico e científico anda para trás. E para ultrapassarmos isso devemos atuar a dois níveis: individualmente e ao nível das lideranças. Individualmente, temos de ter consciência que há muito mais que nos liga nas nossas semelhanças do que nas nossas diferenças. Já as lideranças têm o dever de explicar às populações a realidade histórica, na qual os movimentos de migrações têm sido uma das principais forças do progresso económico, científico e de segurança. Sem migrações não haveria Estados Unidos, nem a Alemanha de hoje, nem a França de hoje, nem muitos países asiáticos de hoje, como Singapura. E muitos dos avanços científicos norte-americanos fazem-se com estrangeiros que vão viver para os Estados Unidos.

Daniel Traça, diretor da Nova SBE

Daniel Traça, diretor da Nova SBE

Nuno Botelho

Nas conferências foi comum colocar-se esta responsabilidade nos mais novos: muitos sublinharam que o futuro está nas mãos dos jovens. De que forma estes podem ser solução para problemas concretos como o das migrações globais?
Há duas razões pelas quais eu acho que eles são grande parte da solução. Em primeiro lugar, os jovens de hoje são muito mais globais que nós somos. Quando estes jovens, que são todos diferentes, se juntam têm uma propensão para a partilha e para interagirem uns com os outros que as gerações mais velhas não têm. E isso é fantástico. Basta ver como os jovens hoje votam – em Inglaterra, no 'Brexit'; nos Estados Unidos, nas eleições presidenciais – para se perceber que o que atualmente se está a viver é uma dicotomia entre os mais velhos (que regressam a estes instintos mais básicos e mais protecionistas) e os jovens, que querem o mundo e querem essa abertura.

Porque também nasceram em sociedades mais abertas...
Nasceram em sociedade mais abertas, na Europa todos fizeram intercâmbio, têm Facebook, têm amigos por todo o mundo, jogam online com pessoas que estão em países diferentes... São uma geração que tem, de facto, um outlook muito mais global e aberto do que a minha geração. A segunda dimensão pela qual acho que os jovens são interessantes para o futuro é o facto de serem muito mais criativos e ativos a resolver problemas do que nós éramos. Eu sou de uma geração que ficava à espera que a liderança ou as elites tomassem conta dos problemas. Mas os jovens de hoje – e isso vê-se com toda esta dinâmica de empreendedorismo social, de novas empresas criadas, de ideias – sentem-se responsáveis e querem trazer soluções. Vi isso nas conferências. Pessoas como o Pedro Espírito Santo vinham às conferências há anos e agora já são oradores, que procuram e propõem soluções. Por isso é que, cada vez mais, as Conferências do Estoril são importantes. Porque, quando voltam para casa, estes jovens vão agir. Vão criar soluções. Se trabalharmos com os jovens – nas Conferências do Estoril ou noutros locais –, o futuro vai ser bom: vai ser positivo, humano e com soluções. Mas nós, a geração mais velha, temos de assegurar que não os bloqueamos, que lhes damos espaço para potenciarem essa energia, criatividade e vontade de se unirem. Porque, se os fecharmos, corremos o risco de os desmotivarmos e de transformar toda essa energia num marasmo.

Os jovens enfrentam algumas dificuldades em conciliar esta responsabilidade com a precariedade em que vivem. Quando se refere a bloqueios que a geração mais velha pode impor à mais nova também está a referir-se a isso?
Sim, também. O mundo hoje tem muitos problemas que enfraquecem a capacidade dos jovens darem resposta a isto. As questões da precariedade, e outras, debilitam a sua capacidade de resposta. O importante é, quando vemos um problema destes, não só reconhecê-lo, mas também perceber que muitas das soluções poderão vir dos próprios jovens. Eu não tenho uma solução direta para o problema da precariedade – é um problema difícil que não se resolve com uma caneta –, mas há que desafiar e, sobretudo, estimular os jovens mais criativos a trazerem novas soluções. Porque eu acho que questões como a da precariedade estão relacionadas com a incapacidade que nós, mais velhos, temos tido de ajustar a nossa sociedade aos desafios do tempo moderno. É preciso pensar nos problemas de uma forma mais aberta.

Qual o papel da ciência, tecnologia e ensino nesta missão que queremos que os jovens tenham no mundo?
Essa é uma pergunta que, se me der liberdade, fico aqui duas horas a responder-lhe. Como não temos duas horas, digo-lhe apenas: acho que são absolutamente fundamentais. As universidades em Portugal têm de se repensar de uma forma (eu diria até) profunda, porque esse é um enorme desafio para nós, escolas. A maioria dos jovens que vão fazer a diferença vão passar pelas universidades. A atitude que eles tenham perante o mundo, as competências, a capacidade de trabalharem com os outros e o conhecimento da história vai ser adquirido no espaço das universidades. E nós, universidades, temos de aceitar, liderar e responder a este desafio: o de utilizar o nosso espaço (um local seguro intelectualmente, de abertura, de diálogo, de atitude de criação de mudança) para criar espaços mais futuristas do que a nossa tradição ensina. A universidade tem de ser o espaço onde já não se pensa o presente, trabalha-se com os jovens para pensar dez anos para a frente.

O Nobel da Paz Rajendra Pachuari pediu à plateia isso mesmo: que se formem grupos nas universidades para pensar os problemas do mundo. O que já existe em Portugal? Ainda deixamos essa tarefa para os professores ou já envolvemos mais os alunos?
Depende. Há universidades que envolvem mais, outras menos. Mas a tendência é cada vez mais nesse sentido. Acredito que o futuro passa por darmos espaço para, em vez de só ensinarmos, nos focarmos na aprendizagem dos alunos. Uma aprendizagem que se faz com professores, mas também entre eles, com aquilo que criam. Uma das experiências que temos feito na Nova passa por isso: os alunos criam, por exemplo, um clube para pensar o que significa ser hoje uma mulher no mundo dos negócios. Temos mais de 30 clubes como este. E nos clubes não são só os professores que ensinam. Professores, alunos, antigos alunos, empresas que partilham a sua experiência, empreendedores, ONG’s trabalham em conjunto num espaço em que se desafia os jovens a pensarem não só o presente, mas também o futuro. Este é um desafio enorme ao qual as universidades têm de responder.