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Texto de Fernando Branco

Fernando Branco, Prof. IST, Membro Honorário da Academia de História 

DISUSSÃO DO ARTIGO “CRISTÓVÃO COLÓN: PORTUGUÊS, NATURAL DE CUBA, AGENTE SECRETO DE D. JOÃO II?” de Luís Filipe F. R. Thomaz

O Dr. Luís Filipe F. R. Thomaz (LT) publicou recentemente nos anais de “História de Além-Mar” um artigo intitulado “Cristóvão Colón: português, natural de Cuba, agente secreto de D. João II?”. Neste artigo o autor, além de contestar algumas das hipóteses surgidas ao longo do séc. XX sobre uma eventual origem portuguesa do Almirante das Índias, defende a hipótese genovesa da sua origem, ou seja que este, antes de ser o conhecido navegador, foi um tecelão genovês, chamado Cristoforo Colombo, com registos de vida documentados na cidade de Génova.

A defesa desta hipótese, segundo o autor, baseia-se no princípio por ele enunciado de que “A história faz‑se com documentos”. Infelizmente LT apresenta apenas documentos que defendem a sua hipótese, não referindo muitos outros, também conhecidos, e que aparentemente põem em causa as suas conclusões.

Com o presente documento procura-se suscitar a discussão científica das principais conclusões de LT, com base nas referências por ele apresentadas, mas às quais foram juntos diversos outros documentos que apontam para a impossibilidade de o Almirante ter sido um tecelão genovês chamado Cristoforo Colombo.

A discussão é feita, ponto a ponto, recordando as principais afirmações feitas por LT, no referido artigo, que se analisam de seguida tendo em conta outros documentos existentes.

1. A data do nascimento

LT: “…se se ignora a data exacta do seu nascimento — que, segundo documentos que firmou e em que deixou exarada a sua idade, se deu entre 25 de Agosto e 31 de Outubro de 1451”.

Discussão: O autor defende a data de nascimento do tecelão genovês Cristoforo Colombo no ano de 1451, com base no ato notarial de 31 de Outubro de 1470 (em que tinha 19 anos) e no documento Asseretto de Agosto de 1479 (em que tinha 27 anos). As idades do Colombo genovês, segundo estes documentos conduzem efectivamente ao ano de nascimento de 1451-52.

LT no entanto omite diversos documentos deixados pelo próprio Almirante (ver Historia do Almirante de Hernando Colon7) que também permitem estimar a sua data de nascimento, tais como:

"Muy altos Reyes: De muy pequeña edad entré en la mar navegando, y lo he continuado hasta hoy; la misma arte inclina, a quien la prosigue, a desear saber los secretos deste mundo; ya pasan de cuarenta anos que yo soy en este uso” (carta de 1501; cap.IV)

“…y más adelante, afirma que empezó a navegar de catorce años, y que siempre siguió el mar” (cap.IV)

Ora uma simples conta de subtrair (1501-40-14), referente a estes dois documentos, permite ver que a data de nascimento do Almirante terá de ser anterior a 1447, ou seja uma data incompatível com a do nascimento do Colombo genovês. Tal mostra tratar-se de duas pessoas diferentes, inviabilizando a teoria genovesa. Note-se que além das duas referências citadas há diversas outras, escritas pelo Almirante, que levam a localizar o seu nascimento entre 1442 e 47, tais como:

“……Veintitrés años he andado por el mar "sin salir de él por tiempo que deba descontarse; vi todo el Levante, y todo el Poniente que se cree por navegar hacia el Septentrión, esto es, Inglaterra, y he navegado a Guinea” (Diário de bordo de 21/12/92),

“….Despues que yo vine a servir que son siete años agora, a viente de Enero de 1493”. (Diário de bordo de 14/1/93),

“...poco me han aprovechado veinte años de servicio que yo he servido con tantos trabajos y peligros”. (carta de 1503, 4ª viagem5),

“...siete anõs estive io en su Real Corte, que a cuantos se fablo de esta empresa, todos aúna dixeram que era burla…” (carta de 1503, 4ª viagem5),

“…y teniendo todos mis fijos en su Real Corte? Yo vine á servir de veinte ocho años, y agora no tengo cabello en mi persona que no sea cano ….” (carta de 1503, 4ª viagem5),

2. Os documentos de suporte do Cristoforo Colombo genovês

LT: “Cristóvão Colombo genovês é uma figura histórica, cuja existência é atestada por documentos de insofismável autenticidade, dos quais os mais antigos datam de 1470.

- Ato notarial de Génova, 22 de setembro de 1470, pelo qual Domenico Colombo e seus filhos Cristoforo e Girolamo del Porto, prometem pagar a Giovanni Agostino Goano o que for arbitrado por sentença.

- Sentença arbitral de 28 de setembro de 1470, condenando‑os ao pagamento de 35 libras;

- Ato notarial de 31 de outubro de 1470, pelo qual Cristóvão Colombo, de 19 anos de idade, autorizado por seu pai Domenico Colombo, se declara devedor de 48 libras genovesas a Pietro Ballesio, que lhe fornecera vinho.

Seja como for, tudo leva a crer que já não estivesse em Savona com a família em 1473, pois não assina com os pais e os irmãos o ato notarial de 7 de agosto desse ano que acima mencionámos”.

Discussão: Concorda-se com LT que “Cristoforo Colombo Genovês é uma figura histórica, cuja existência é atestada por documentos de insofismável autenticidade”, apenas há o problema de nenhum destes documentos estabelecer uma relação entre o Cristóvão Colombo genovês, tecelão, e o Almirante das Índias. Nota-se que estes documentos só provam que existiu um tecelão genovês que se chamava Cristoforo Colombo e, não provam nada sobre a hipótese de ele ser o Almirante Genovês. Infelizmente o autor não cita dois documentos existentes em Génova que são muito importantes para a caracterização da vida do tecelão (H. Harisse8):

- Savona 20 Mar 1472: “Christophoro de Columbo, laneiro de Janua (Génova)”;

- Savona 26 Ago. 1472: “Domenicus Columbus, lanerius, habitator Saonae (Savona), et Christophorus, eius filius”;

Estes dois documentos mostram que em 1472, ou seja com 21 anos de idade, o Colombo Genovês ainda era tecelão em Itália. Veja-se agora a compatibilização deste facto com os seguintes outros textos referentes ao Almirante (H. Colon7):

“…y más adelante, afirma que empezó a navegar de catorce años, y que sempre siguió el mar” (cap.IV)

E ainda o facto também narrado por H. Colon7:

“que el Rey Reynel, que Dios tiene, me envió a Túnez, para prender la galeaza Fernandina, y estando ya sobre la isla de Sant Pedro, en Cerdeña, ..” (Cap.IV)

Este último texto indica que o Almirante esteve envolvido como corsário na Guerra de Aragão (1460-72), opondo D. Pedro, Condestável de Portugal, e depois Renato de Anjou (rei Reynel) contra D. João II de Aragão e seu filho Fernando (futuro rei católico) na luta pela coroa de Aragão, isto numa altura em que, de acordo com os dois documentos de Génova de 1472, o Colombo Genovês ainda era tecelão em Itália (F. Branco6).

Em síntese, os dois últimos documentos referidos sobre o tecelão, inviabilizam o facto de o Colombo Genovês ser a mesma pessoa que foi o Almirante, quer por este ter começado a navegar com 14 anos, quer por já ser corsário, capitão de navios, pelo menos em 1472, ano em que os referidos documentos mostram Colombo genovês ainda trabalhava como tecelão.

3. Os Estudos Universitários em Pavia

LT: “Invenção de Don Hernando parece ser também a afirmação de que seu progenitor fizera estudos em Pavia, prestigioso centro cultural, onde o imperador Carlos IV instituíra em 1361 um Studium Generale, a que o papa Bonifácio IX reconhecera os mesmos direitos e privilégios das universidades”.

Discussão: Chama-se a atenção de LT sobre o conteúdo dos textos que referem Pavia, que podem não ser uma invenção, já que:

Hernando Colon7: “…y diré que siendo de pocos años aprendió las letras y estudió en Pavia” (cap.III).

Las Casas10:“"Estudió en Pavia los primeros rudimentos de las letras, mayormente la gramática, y quedó bien experto en la lengua latina, y desto lo loa la dicha Historia portuguesa...".(...)

Os textos, ao contrário do que sugere LT, indicam que Pavia foi o lugar onde o Almirante aprendeu, em joven, a ler e não o local onde andou na Universidade. Nota-se que “Pavias”, com um convento do séc. XV, onde os frades ensinassem latim, há diversas, inclusivé em Portugal (junto a Viseu) (F. Branco6). A ligação destes textos a uma Universidade não tem cabimento, apesar de ser provável que o Almirante também tenha andado mais tarde na Universidade pois tal é referido:

Hernando Colon7: “en una carta que escribió a los Reyes Católicos el año de 1501, a los cuales no podría contar sino aquello que fuese verdad, dice las palabras siguientes….En la marinería me hizo abundoso; de Astrología me dio lo que abastaba, y así de Geometría y Aritmética, e ingenio en el ánima y manos para debujar esta espera.”

Ou em Las Casas10: “"Estudió en Pavia los primeros rudimentos de las letras, mayormente la gramática, y quedó bien experto en la lengua latina, y desto lo loa la dicha Historia portuguesa diciendo, que era elocuente y buen latino...".(...) " Consiguió la medula y substancia necesaria de las otras ciencias, conviene a saber de la geometría, geografia, cosmografia, astrologia ou astronomía y marinería" .

No séc. XV, estas matérias de geometría, geografia, cosmografia, astrologia ou astronomía y marinería, eram de facto ensinadas apenas nas Universidades.

Nota-se ainda o pormenor do texto de Las Casas que diz que o “seu latim é louvado pela História Portuguesa” em relação a alguém que aprendeu o latim em pequeno. (Las Casas10 cita como referência a “História Portuguesa” a que teve acesso e que se desconhece exactamente o que é. .....”parece conveniente cosa referir las gracias que se le añidieron adquisitas y los ejercicios en que ocupó la vida que vivió antes que á España viniese, según se puede colegir de cartas que escribió á los Reyes y á otras personas y otros á él, y de otros sus escritos, y también por la Historia portuguesa y no menos por las obras que hizo.”)

Com base nestes elementos acha-se muito estranho que LT considere normal que um tecelão, que ainda o era aos 21 anos (1472), tenha andado a aprender latim em jovem e depois tenha andado a aprender matérias que eram ensinadas nas universidades (nomeadamente na Univ. de Lisboa). Qualquer análise séria considerará estar-se a falar de uma pessoa com um nível social diferente do de tecelão (na Idade Média a taxa de alfabetização nos não nobres/religiosos era quase zero), em que o Almirante teria de ter alguma fidalguia para ter a educação que os documentos indicam.

Note-se que sobre esta provável fidalguia, Hernando Colon7 refere ainda sobre o seu pai:

- “…siendo sus antecesores de la sangre Real de Jerusalén”;

- “…Almirante fue hombre de letras y de grande experiencia, y que no gastó el tiempo en cosas manuales, ni en arte mecánica”;

"…Yo no soy el primer Almirante de mi familia”.

Aspectos que obviamente são perfeitamente incompatíveis com o tecelão genovês, não sendo infelizmente citados por LT, que discute apenas a pequena nobreza da mulher do Almirante, Filipa Moniz.

Recorda-se no entanto que apesar da pequena nobreza defendida por LT para Filipa Moniz, esta era “comendadora” da Ordem de Santiago cujo mestre, D. João II deveria autorizar seu casamento. Filipa Moniz era ainda tia do Mordomo-mor de D. João II, D. Pedro de Noronha, pai do D. Martinho de Noronha que foi buscar o Almirante ao Restelo na sua chegada da 1ª viagem ás Índias. Era também tia da Marquesa de Montemor, da Condessa de Abrantes e da Condessa de Penamancor, ou seja um ambiente familiar que não estaria muito ligado ao casamento com plebeus (M. Rosa12).

4. O Documento Assereto

LT: “Foi para se justificar perante Lodisio ou Ludovico Centurione acerca de um carregamento de açúcar da Madeira que não chegou ao seu destino que, em 1479, Colombo fez uma derradeira visita a Génova, após o que regressou a Portugal”

- Ato notarial de Génova, 25 de agosto de 1479, Atti del notaro Gerolamo Ventimiglia, filza 2, n.º 266; este documento, em que Colombo se declara cidadão de Génova de cerca de 27 anos de idade.

Discussão: O documento Assereto é um conjunto de folhas de características diferentes (algumas são folhas soltas) e com caligrafias diferentes, sem assinaturas, o que levanta algumas suspeitas sobre a sua autenticidade. Além disso Cristóvão Colombo é aqui apenas referenciado como cidadão de Génova, não sendo indicada a sua família (identidade), o que gera dúvidas se é o tecelão. O seu nome aparece no documento escrito com diversas grafias, o que justifica ter o documento sido feito por várias pessoas (C. Calado1). Mas enquanto não se esclarece a autenticidade do documento, analise-se o seu conteúdo.

O documento, se se considerar verdadeiro, indica que um Cristóvão Colombo (que, eventualmente, pela idade, será o tecelão) era agente comercial para a compra de açúcar na ilha da Madeira, que trabalhava nesse negócio para comerciantes genoveses Di Negro e Centurione e que estava de partida para Lisboa em Agosto de 1479. O texto permitiu ainda saber que este Colombo foi à Madeira em 1478, comprar açúcar, mas era um mero passageiro do barco, capitaneado pelo português Fernandes Palêncio. Ora este personagem, mero agente comercial, que não capitaneava navios em 1478, tem uma vida incompatível com a vida do Almirante descrita pelo seu filho (H. Colon7):

- c. 1472 - Capitaneava um barco de corsários na guerra de Aragão;

- c. 1476 - Participou como combatente na batalha de S. Vicente ao lado do corsário francês Culon (Colombo);

- c. 1477 - Refere ter participado numa viagem ao mar do Norte (provável expedição luso dinamarquesa).

Além disso este Colombo, agora agente comercial, casa-se, com Filipa Moniz (c. 1479) e nos restantes 5 anos em que está em Portugal, de repente, torna-se capitão de navios, aprende toda a arte de navegar, vai aos Açores, costa de África, Cabo Verde, Mina, etc.

O documento Assereto parece assim ser uma das melhores provas que o tecelão, agora agente comercial, Cristóvão Colombo, de Génova, não tem nada a ver com o Almirante.

5. O Testamento de 1498

LT: “A ligação de Colombo a Génova ressalta igualmente do instrumento notarial de 22 de fevereiro de 1498, por que institui na família um morgadio, em que, após explicitamente se afirmar genovês, dispõe:

Item, mando al dicho Don Diego, mi hijo, o a la persona que heredare el dicho mayorazgo, que tenga e sostenga siempre en la ciudad de Génoba una persona de nuestro linaje, que tenga alli cassa e mujer, e le ordene renta com que se pueda bibir honestamente, como persona llegada a nusestro linaje, y haga pie e raiz en la dicha ciudad como d’ella, porque podrá haver de la dicha ciudad ayuda e favor en las cosas de menester suyo, pues de aí salí y en ella nazí.[…]

Item, mando al dicho Don Diego, o a quien poseyere el dicho mayorazgo, que procure y se trabaje siempre por la onra y bien y acrecentamiento de la ciudad de Génoa, y ponga todas sus fuerças e bienes en defender y aumentar el bien e honra de la república d’ella, no yendo contra el servicio de la Iglesia de Dios e alto estado del Rey o de la Reina, nuestros Señores, e de sus sucesores60.”

Discussão: Em relação ao documento citado por LT refere-se o seguinte, já largamente conhecido e debatido, mas que LT parece não conhecer (M. Rosa11):

- O documento tem na capa a indicação “Treslado de outro testamento sacado del original que fue hecho por don Xpoval Colon…”, o que comprova que se trata de uma cópia;

- O documento está datado de 22 de Fevereiro de 1498, embora o 4 esteja rasurado (aparenta ter um 5 por baixo);

- O documento não tem referência a quaisquer testemunhas do acto, nem ao escrivão que o certifica, como ocorreu por exemplo no aditamento ao testamento de 1506;

- O documento está assinado apenas por “El Almirante”, sendo natural que um testamento fosse assinado pelo nome da pessoa;

- A assinatura e o texto foram objecto de uma perícia caligráfica por um especialista forense Espanhol (J. Lorenzo9) que concluiu que o texto e a assinatura foram feitas pela mesma pessoa e que a caligrafia nada tem a ver com a letra de Colon, pelo que se trata de uma falsificação (aliás nem é preciso ser-se perito, já que basta comparar a assinatura com a de uma carta de Colon para se ver a total diferença).

O documento tem ainda os seguintes erros que confirmam a sua falsificação (M. Rosa12):

- O documento apresenta uma súplica aos reis e ao príncipe D. Juan, primogénito real, que tinha morrido quatro meses antes da data do testamento, aspecto que decerto o Almirante saberia;

- Indica a compra de Logos (acções) no banco de San Jorge em Génova pois rendiam um juro de 6%. No entanto, este banco esteve fechado ao público de 1445 a 1530 (só tinha movimentos com o estado, accionistas e cobradores de impostos, o que se saiba, não corresponde nem ao Almirante, nem ao seu herdeiro);

- É referido um Almirante Don Enrique de Castela, que não existiu, pois o almirante da altura chamava-se Don Fradique. É pouco natural que o Almirante não soubesse o nome do Almirante de Castela e o tenha tratado pelo apelido o que não era o tratamento habitual entre nobres;

- Aparece uma referência à linha do tratado de Tordesilhas a 100 milhas de Cabo Verde quando na realidade seriam 370 milhas, o que o Almirante por certo saberia;

Recorda-se ainda que em 25 de Agosto de 1505, C. Colon redige em privado um conjunto de disposições testamentárias que deveriam funcionar como acrescento (ou seja, codicilho) a um seu testamento anteriormente realizado em escrivão público, em que diz:

«Cuando partí de España el año de quinientos é dos, yo fize una ordenanza é mayorazgo de mis bienes, é de lo que estonces me pareció que cumplía á mi ánima é al servicio de Dios eterno, é Honra mía é de mis sucesores….”

Esse anterior testamento de 1502 que está desaparecido, aparenta ser o único que o Almirante realmente escreveu, já que não refere a existência de outro (de 1498).

Em súmula, é pena que LT defenda a sua teoria com base em factos retirados de um documento claramente falsificado, cujo original nunca apareceu, e em que esta cópia apareceu pela mão de um italiano, associada ao processo judicial da herança dos Colon, que apenas queria receber a herança.

Isto só mostra que a ligação do Almirante ao Colombo Genovês é tão válida como esta falsificação, já que os italianos precisam forjar documentos para fazer a ligação do Almirante a Génova.

6. A assinatura do almirante

LT: “No entanto, embora o sintagma Christumferens seja correto, Xpoferens representa uma adaptação um tanto canhestra do étimo grego do nome, Christophoros, «portador de Cristo», cuja latinização mais correcta seria Christifer.

O nome devia ser particularmente caro a Colombo, que se julgava predestinado para apóstolo dos índios, e isso explica o simbolismo místico de que cerca a sua assinatura”

Discussão: Concorda-se com LT, mas chama-se a atenção de dois pormenores:

- A assinatura tinha habitualmente no fim o símbolo de pontuação colon/semi-colon, ficando assim o seu nome completo e não apenas com o nome próprio “Cristóvão”. Tal mostra adicionalmente que ele assinava de facto Colon.

- É de estranhar que a assinatura, sendo uma só palavra, tenha uma segunda parte FERENS, separada, e com todas as letras em latinas maiúsculas. Talvez uma análise dos anagramas desta palavra ajudem a compreender uma razão escondida (F. Branco6).

7. Em Portugal chamava-se Colombo

LT: “Ora tudo leva a crer que na época em que viveu em Portugal o futuro descobridor da América ainda se denominava Colombo; é certamente por isso que ambos os cronistas de D. João II, Rui de Pina (que por sinal foi um dos negociadores de Tordesilhas) e Garcia de Resende o chamam assim”

Discussão: LT esquece-se de citar D. João II que o conheceu bem em Portugal e que o trata numa carta, escrita em português, de Março de 1488, por:

“A Christovam Collon noso espicial amigo em Sevilha.

Christoval Colon nos Dom Joham per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves...”

Lembra-se que os textos de Rui de Pina e de Garcia de Resende foram escritos no reinado de D. Manuel, provavelmente já depois de C. Colon ter morrido, pelo que podem aí ter adoptado o nome que ele entretanto viria a adquirir em vários países inclusive em Portugal, por influência da tradução do seu nome para italiano. Mas como exemplo adicional já João de Barros o trata por Cristóvão Colom.

A verdade é que este nome aparece escrito de diversas maneiras (Colon, Colom, Colomo, Colombo) e portanto é especulativo dizer-se que em Portugal era conhecido por Colombo. Tal acontece aliás com outras pessoas, tais como o famoso corsário e Vice Almirante francês com quem Colon conviveu, que se chamava Coulon, e que tem o seu nome escrito de diversas formas: "Coulomp", "Couloux", "Coulon", "Coulaux", "Coulpe" (F. Branco6). O seu adjunto “Coulon o jovem” aparece também com o seu nome escrito como Colombo ou Colon.

8. Nunca Assinou Colon

LT: “Há que notar que não se conhecem documentos originais por ele firmados durante a sua estada em Portugal, e que dos que firmou em Espanha nenhum é assinado com o seu nome em vernáculo: ou assina el Almirante ou com o seu nome em latim, XpoFERENS”

Comentário: É verdade o que LT diz, mas podia acrescentar que há inúmeras cartas, nomeadamente escritas pelos Reis Católicos e pelo Papa em que é tratado por Colon, pelo que não se pode por em dúvida que o seu nome em Castela era efectivamente Colon. Além disso há ainda várias cartas que o Almirante escreveu ao filho onde está escrito “Diego Colon” (M. Rosa12)

Tal, mais uma vez, não permite de modo nenhum inferir que o seu verdadeiro nome era Colombo em Portugal.

9. O Nome Original era Colombo

LT: “Segundo Hernando Colón apesar de ter mudado de apelido, seu pai não deixou, porém, de continuar a merecer o nome de Colombo:

[…] diremo che veramente fu colombo, in quanto portò la grazia dello Spirito Santo a quel novo mondo che egli scoprì, mostrando, secondo che nel battesimo di San Giovanni Battista lo Spirito Santo in figura di colomba mostrò qual era il figliuolo diletto di Dio che ivi non si conosceva […]”

Discussão: A verdade é que o próprio Hernando Colon7 não sabia a origem do seu pai como o indica claramente:

“...que su patria y origen fuesen menos ciertos y conocidos…”;

“…de tal nombre y apellido no fue sin misterio…”;

Assim não se pode discutir o verdadeiro nome do pai nem a sua origen com base nos textos de Hernando Colon.

Desconhece-se qualquer registo, identificado em Portugal, do Almirante antes de ir para Castela, o que pode ser explicado pelo facto de ele efectivamente ter tido nessa altura outro nome. Note-se que não há registos de Colon ou Colombo, mas há registos de um corsário portugués Culon ou Culão, que podem fácilmente gerar o nome Colon em castelhano.

10. Os pagamentos dos Reis Católicos

LT: “Numa relação de pagamentos feitos por ordem dos Reis Católicos entre 1485 e 1489, conservada no Archivo Real de Simancas, o futuro descobridor é por quatro vezes designado por Colomo:

En dicho día [5 de Maio de 1487] di a Cristóbal Colomo, extranjero, tres mil maravedís, que está aquí faciendo algunas cosas complideras al servicio de Sus Altezas, por cédula de Alonso de Quintanilla con mandamiento del obispo [de Plasencia].

A mesma forma ocorre no registo dos pagamentos feitos a 27 de agosto, a 15 de Outubro de 1487 e a 16 de junho de 1488”.

Discussão: É pena que LT não transcreva os restantes registos de pagamentos, pois não apoiam a sua hipótese de um Colombo Genovês em Espanha. Para esclarecimento da verdade aqui se transcrevem todos os registos. Após a recepção pelos Reis em Córdova, por indicação da Rainha Isabel, Quintanilha fica de lhe pagar uma tença enquanto o Conselho de eruditos se pronuncia.

1487-05-05 – “En dicho día di a Cristóbal Colomo, extrangero, tres mil maravedís, que está aqui [em Córdova]”

1487-10-15 – “El dicho día di a Cristóbal Colomo cuatro mil maravedís, que Sus Altezas le mandaron dar para ayuda de su costa, por cédula del obispo.” (Libro de cuentas del tesorero Francisco González de Sevilla)

1487-10-18 – “Dj mas a ….., portugues, este dia treynta doblas castellanas, que Su Altesa le mando dar presente el dotor Rodrigo Maldonado de Talauera; dioselas por mj Alonso de Qujntanjlla; este es el portogues que estaua en el Real; esto fue a la partida de Linares, et su altesa me lo mando en persona …” (Libro de los maravedís que rescibió Pedro de Toledo, de las penas de cámara et del gasto dellos)

1488-06-16 – “En 16 de junio de 1488, di a Cristóbal Colom tres mil maravedís por cédula de Sus Altezas.” (Libro de cuentas del tesorero Francisco González de Sevilla).

LT mantém a sua hipótese, não documentada, procurando provar que Colon era conhecido em Portugal como Colombo. No entanto vê-se uma vez mais que no último texto o Almirante é tratado por Colom, inviabilizando a sua argumentação. É assim especulativo referir-se ter havido uma transição de Colombo para Colon, justificada pelo nome Colomo. Nota-se ainda que segundo Consuelo Varela3 o nome “Colomo” em espanhol de forma nenhuma dava Colombo em italiano.

No entanto, mais importante que o nome de Colombo é a seguinte análise que LT não fez sobre os pagamentos:

- Quando aparece o nome Cristóbal Colomo ou está indicada a palavra estrangeiro ou não está indicado nada sobre a sua nacionalidade. Tal mostra pelo menos que ele não era Castelhano, nem Aragonês (Catalão), já que os dois reinos estavam unidos naquela altura.

A referência à nacionalidade portuguesa aparece no pagamento de Outubro de 1487 em que aparece um espaço em branco seguido da palavra português. Este último pagamento parece ser o mais relevante, pois tem os seguintes três aspectos que o ligam ao Almirante:

- Três dias depois de ser feito um pagamento ao Almirante o registo diz “Dei mais a …”, o que permite pôr a hipótese de o ligar ao pagamento anterior;

- O pagamento foi mandado fazer pelo Doutor Talavera, que era precisamente o presidente do Conselho de Eruditos, que estava a analisar a viagem do Almirante;

- É referido que nessa data “o português” estava na corte (no Real) e o Almirante estava de facto na corte (pelo menos três dias antes estava, como mostra o pagamento anterior).

O pagamento de 18/10/87 é assim um forte indício de o Almirante ser considerado português em Castela nesta altura.

11. O Irmão Diego

LT: “Sabemos, igualmente, que seu irmão Giacomo ao mudar‑se para Espanha — onde, por carta régia de 8 de fevereiro de 1504, registada no Sello de Corte do Real Arquivo de Simancas, foi feito natural destos nuestros reinos de Castilla e de León — se passara a chamar Diego. A sua identidade resulta bem clara de um documento exarado em Savona em 1500, pelo qual Cristóvão e Diego são citados para responderem por uma dívida de seu pai, entretanto falecido:

[…] executioni mandari dictum instrumentum contra dictos Christophorum et Iacobum, dictum Dieghum, etc.”

Discussão: Ao contrário do que LT diz, o irmão do Almirante em Espanha sempre se chamou Diego e o seu nome é referido em cartas dos Reis pelo menos desde 5/5/1495 (e não 1504).

Assim parece que em Génova (em 1500) tiveram de corrigir o nome de Iacobum que era o nome original do irmão do Colombo genovês para ficar a bater certo com o do irmão do Almirante. Quem falsifica um testamento também facilmente faz uma mudança de nome, se é que o documento de Savona é verdadeiro.

Sobre Diego acrescente-se ainda (M. Rosa12) que em Setembro de 2002, investigadores desenterraram em Sevilha os ossos do irmão mais novo de D. Cristóvão Colon, D. Diego Colon, que morreu em 1515. A 2 de Junho de 2003, os investigadores recolheram da Catedral de Sevilha os ossos que se pensa serem de D. Cristóvão Colon e também os restos mortais do filho D. Hernando Colon. Os testes forenses e de ADN foram realizados na Universidade de Granada e noutros laboratórios espalhados pelo mundo, sob a orientação do Professor José A. Lorente.

Os resultados mostraram que D. Diego Colon, D. Cristóvão Colon e D. Hernando Colon eram parentes. No entanto os ossos de D. Diego Colon, irmão mais novo do Almirante, mostraram ser de um homem que morreu com uns 60 anos, ou seja dez anos mais do que teria aquele tecelão italiano, Giacomo Colombo, morrendo em 1515.

12. O Desembarque em Santa Maria

LT: “Em Santa Maria chegou a ser preso pelo capitão da ilha em exercício, João de Castanheda, que afirmou fazê‑lo por mando d’El‑Rei168 — o que corresponde exactamente à ordem de D. João II para que o prendessem em qualquer porto português em que fundeasse, referida por Las Casas, como há pouco vimos.”

Discussão: LT apresenta nesta referência uma incorrecção e uma falta de informação, já que o capitão se chamava João da Castanheira e omitiu o facto de que este conhecia muito bem o Almirante. Vejam-se o texto de Hernando Colon7:

“ ….Martes, 19 de febrero

Después del sol puesto, vinieron a la ribera tres hombres de la isla y llamaron. Envióles la barca, en la cual vinieron y trajeron gallinas y pan fresco, y era día de Carnestolendas, y trajeron otras cosas que enviaba el capitán de la isla, que se llamaba João da Castanheira, diciendo que lo conocía muy bien y que por ser noche no venía a verlo;…”

O capitão entra depois em contacto com o Almirante na nau, pretendendo prendê-lo, ao que este argumenta não haver razão para tal pois os dois países não estavam em guerra e ele trazia cartas de recomendação dos reis de Espanha;

Anotações ao Livro Terceiro “Saudades da Terra”, de Gaspar Frutuoso, identificam o capitão: «João da Castanheira veio para a ilha de Santa Maria antes de 1472, no tempo do segundo capitão donatário João Soares de Albergaria. Foi loco-tenente do capitão João Soares em Santa Maria, e nesta ilha estava em desempenho de funções, quando, em Fevereiro de 1472, passou por aqui Cristóvão Colombo, vindo da descoberta das Antilhas.”

Percebe-se do texto que havia algum problema contra o Almirante, pois só isso justificaria a tentativa da sua prisão, situação que só foi clarificada com o mostrar das cartas de recomendação dos Reis de Castela.

Ao contrário do referido por LT, o problema existente com o Almirante não deve estar associado à descoberta das Índias pois se J. Castanheira soubesse dessa viagem também saberia que ela estava a ser feita com o apoio dos Reis de Castela e portanto não mudava o seu comportamento pelo facto de ver a carta de recomendação destes Reis. Aliás os Castelhanos estavam apenas proibidos pelo Tratado de Alcáçovas-Toledo de navegar para o Sul das Canárias e não para Ocidente, pelo que Colon estava legal.

Talvez o problema conhecido por João da Castanheira estivesse antes associado ao “problema” referido na carta conhecida de D. João II para C. Colon, problema que aparentemente só foi ultrapassado com essa carta de 1488, pormenor que não devia ser do conhecimento do Capitão da ilha. Tal justifica que J. Castanheira só aceitou o Almirante quando este lhe mostrou que tinha de facto a protecção dos reis de Castela.

Neste episódio há no entanto um pormenor relevante que é o facto de o Almirante citar que o João da Castanheira disse que o conhecia muito bem.

Uma análise do nome deste Capitão mostra que, como era habitual naqueles tempos, ele tinha um nome associado à sua terra de origem, ou seja este Capitão era o João da povoação da Castanheira.

Castanheira do Ribatejo era a terra dos Ataíde. Em 1493 o Senhor de Castanheira era D. Álvaro de Ataíde, que tinha fugido para Castela dado o seu envolvimento na conjura contra D. João II, tendo o Almirante mantido contactos com D. Álvaro em Castela como está documentado.

C. Cólon não precisava por no diário de bordo, nem o nome do capitão da pequena ilha (que provavelmente nem seria nobre), nem o facto de este o conhecer bem (Hernando Colon7 nem refere este pormenor). O Almirante, ao fazê-lo no diário de bordo, está claramente a querer deixar um indício relevante sobre a sua história (F. Branco6)

13. A Língua de Colombo

LT: “Tem‑se insistido em particular sobre o aspecto linguístico, aduzindo em especial o facto de não só a seu irmão Bartolomeu, que o acompanhou nas Antilhas a partir de 1494, mas também à Banca San Giorgio de Génova escrever em castelhano. Não é, porém, exacto afirmar, como faz Mascarenhas Barreto, que não soubesse falar italiano, pois são redigidos nesse idioma pelo menos dois escólios que apôs ao Livro das Profecias e à História Natural de Plínio; se, de facto, parecem conter erros, é porque a língua materna de Colombo não era o italiano literário, ou seja, o toscano, mas o dialecto lígure falado em Génova. É também verdade que a língua de Colombo contém mais lusismos que italianismos — com alguns dos quais, como Y greca em vez de Y griega, e Spañola em vez de Española e, num texto em latim, totta em vez de tota, topámos nós acima. De qualquer modo, se pensarmos que passou cerca de dez anos em Portugal (1476–86) e que em Portugal se casou, uma vez que entre o português e o castelhano é possível a intercomunicabilidade, é muito natural que ao ir para Espanha se fizesse, pelo menos de começo, entender aí em portinhol.”

Discussão: Sobre a sua língua recorda-se que o Colombo genovês aprendeu a ler em jovem, falava muito bem Latim e esteve em Itália até aos 21 anos (não se sabe se e quando aprendeu as matérias universitárias).

Ora o Almirante, mesmo quando escrevia para o banco de Genova, não o fazia nem em Italiano, nem no dialecto local (língua ligure), mas em Castelhano. Só se conhecem dois pequenos textos do Almirante em que este tenta escrever italiano, mas os textos estão cheios de palavras portuguesas e castelhanas, isto para quem sempre falou italiano até aos 21 anos e apenas aprendeu português durante 9 anos. Além disso sobre a sua língua falada há os seguintes comentários (F. Branco1):

Garcia Hernadez: “… el dicho Don Cristobal Colon, é viéndole disposición de otra terra é reino ageno en su lengua le preguntó que quién era, é donde venia…” . (Referente à chegada a Castela vindo de Portugal, o que indicia estar a falar Portugês)

Las Casas10: “…Y en esto y en otras cosas que hay en sus itimerarios, parece ser natural de outra lengua, porque no penetra del todo la significación de los vocablos de la lengua castellana, ni del modo de hablar della..”

Com estes documentos é muito difícil aceitar que a lingua mãe do Almirante fosse o Italiano (lingua ligure) que ele falou durante 21 anos e aprendeu a ler e escrever em Pavia, tal como o latim. Uma língua mãe com que anos depois já não consegue escrever um pequeno texto sem colocar diversa palavras em portugués e castelhano, nem quando quer escrever em lingua Ligure para Genova. Nota-se ainda que todos os três irmãos escreviam entre si em castelhano com palavras portuguesas e nunca escreveram uma só frase em Italiano (M. Rosa1).

14. Chegada a Lisboa em 1476

LT: Seja como for, precedido ou não de seu irmão, é seguro que Cristóvão Colombo se estabeleceu em Lisboa em 1476. Não rompeu, contudo, os seus laços com Génova, uma vez que ficou trabalhando como agente da casa comercial Centurione e de seus sócios, a Casa Spínola e Paolo di Negro, a cujo serviço fizera anteriormente uma viagem à ilha de Xio ou Quios, no Mar Egeu, possessão genovesa desde 1363. Foi para se justificar perante Lodisio ou Ludovico Centurione acerca de um carregamento de açúcar da Madeira que não chegou ao seu destino que, em 1479, Colombo fez uma derradeira visita a Génova, após o que regressou a Portugal

Discussão: Hernando Colon7 começa logo por discordar de LT se se considerar que Bartolomeu Colon já estava em Lisboa, quando o Almirante aí chegou:

“…La primera falsedad, pues, es que el Almirante fue a Lisboa a aprender la Cosmografía de un hermano suyo que allí tenia, lo cual es al contrario, porque residía él (C. Colon) en la dicha ciudad antes, y enseñó él al hermano lo que supo…”

Um texto de Las Casas10 deixa também muitas dúvidas se o Almirante efectivamente só chegou a Portugal em 1476:

“.. Fui a aportar a Portugal, a donde el Rey de alli entendia en el descobrir mas que outro, el le atajo la vista, oido y todos los sentidos, que en catorce anos no le pude hacer entender lo que yo dije”

Este texto conduz a que pelo menos desde cerca 1471 (1485-14) o Almirante andava por Portugal tentando convencer o rei do seu “Projecto de Descoberta das Indias”, ora em 1472 o Colombo tecelão ainda estava a tecer em Itália.

Note-se também que este texto é contraditório com a chegada do Almirante a Portugal na batalha de S. Vicente em 1476, o que aliás se reforça a seguir na descrição desta batalha.

15. A Participação na Batalha de S. Vicente

LT: “Frei Bartolomeu de las Casas designa‑o por «Columbo Junior» e Fernando Colombo, filho e biógrafo do navegador, por «Colombo giovane», dando‑o como parente e companheiro de seu progenitor na batalha do Cabo S. Vicente, em que a frota genovesa em que navegavam foi atacada por corsários franceses, o que obrigou o futuro Almirante das Índias a salvar‑se a nado e refugiar‑se em Lisboa, onde sabia residir uma próspera colónia genovesa e onde se encontraria talvez já seu irmão Bartolomeu. D. Fernando parece no entanto confundir a batalha naval de 13 de agosto de 1476 com a que se travou nove anos mais tarde, a 21 do mesmo mês, em que o tal «Colombo o Moço» ou Jorge Bissipat tomou parte, mas ao serviço da França, atacando quatro galeaças venezianas que regressavam da Flandres; mas isso pouco significa pró ou contra a identificação proposta.”

Discussão: Parece existir um grande desconhecimento por parte de LT do que de facto aconteceu na Batalha de S. Vicente, em 1476, em frente a Lagos, pelo que passo a recordá-lo simplificadamente (a batalha é descrita por Rui de Pina13, Charles Ronciére2, Hernando Colon7, Las Casas10 e outros) (F. Branco6).

Colombo Jovem (cujo nome era George Bissipat, também conhecido por George le Grec, por ser um nobre grego), tinha este nome pois navegava numa armada francesa com o Almirante Guillaume Caseneuve (conhecido pelo corsário Coulon ou Culon le Vieux). Georges Bissipat tornou-se capitão da armada francesa a partir de 1475.

Uma frota francesa, com os dois capitães, dirigiu-se a Portugal em Maio/Junho de 1476, por ordem de Luis XI para apoiar Portugal na guerra que estava a ocorrer com Castela. Em Agosto, um dos dois capitães franceses, eventualmente George le Grec, com Pedro Ataide, comandante português a quem foi dado o comando da nau francesa Lupienne, foram libertar Ceuta do cerco que esta cidade estava a sofrer por castelhanos e mouros. No regresso de Ceuta juntaram-se com a restante frota luso-francesa em Lagos, onde entretanto chegara D. Afonso V de partida para França.

É por estes dias que ocorre o ataque corsário de barcos da frota luso-francesa, comandados por Culon o Velho (e em que o Jovem naturalmente também participou) e ainda Pedro Ataíde ao comando da referida nau francesa, ataque a uma frota de barcos comerciais genoveses e a um da flandres (país que justificou o ataque, já que Génova era aliada de França). É nesta batalha que morre muita gente com incêndios de barcos e de que o Almirante diz que se salvou a nado e chegou a Portugal.

Como se vê o Coulon Jovem era capitão da frota francesa, pelo que não podia vir nos barcos genoveses, e se o Almirante navegava com ele (de quem era parente, segundo H. Colon7) também estava do lado luso-francês e não do lado genovês. Aliás nunca foi encontrado o nome do Almirante entre as listas dos passageiros dos barcos genoveses/flandres que se encontram documentadas.

Este facto mostra que ao contrário do que LT diz:

- O Almirante não chegou a Portugal nesta batalha, pois até já vinha numa frota luso-francesa e não na genovesa. Tal confirma o texto de Las Casas referido no ponto 14.;

- O tecelão genovês dificilmente poderá ser parente de Georges Bissipat que era um nobre de origem Grega (família dos Paleólogos).

16. Conclusões

Com todos os argumentos, documentados, apresentados nesta discussão, considera-se que a hipótese do tecelão genovês Cristoforo Colombo ser o Almirante das Índias é muito pouco sustentável, devendo-se abrir uma discussão ampla sobre outras hipótese relativas à origem do Almirante. Recordam-se, a concluir, os aspectos documentados que inviabilizam a hipótese Genovesa:

1. C. Colombo nasceu em 1451; Há indícios fortes que o Almirante nasceu antes de 1447;

2. C. Colombo tinha como irmãos Bartolomeu e Giacomo (tinha ainda uma irmã que nunca foi referida em documentos do Almirante); O Almirante tinha como irmãos Bartolomeu e Diego;

3. C. Colombo era de uma família de tecelões; Segundo Hernando Colon o Almirante estava ligado familiarmente aos Reis de Jerusalém, a uma família de Almirantes, aprendeu a ler e estudou latim enquanto jovem, eventualmente estudou ciências náuticas na universidade, casou com uma senhora de alguma nobreza, era familiar de Georges Bissipat, ou seja tudo indicia que era uma pessoa com alguma fidalguia;

4. C. Colombo era ainda tecelão em 1472 com 21 anos; Hernando Cólon diz sobre o seu pai “no gastó el tiempo en cosas manuales, ni en arte mecánica”. O Almirante começou a navegar com 14 anos. Antes de 1472 comandava um navio corsário contra uma nau Fernandina na guerra de Aragão.

5. C. Colombo estava ainda em Génova com 21 anos, pelo que falaria bem a língua ligure; O Almirante não sabia escrever em italiano e não usava a lingua ligure nem quando escrevia para o banco de Génova, nem quando se escrevia com os irmãos.

6. C. Colombo, em 1479, negociava em açúcar com a Madeira, estando de partida para Lisboa (era apenas agente comercial); O Almirante em 1472 é corsário na guerra de Aragão, em 1476 participa num combate contra naus genovesas, em 1477 refere participar numa viagem ao Atlântico Norte e em 1479 está em Lisboa e casa com Filipa Moniz.

7. C. Colombo só pode ter aprendido a navegar entre 1479-1484, depois de ser agente comercial; O Almirante começou a navegar aos 14 anos e visitou as zonas descobertas de África até ao forte da Mina e tinha grandes conhecimentos de navegação.

Agradecimentos

O autor desta discussão agradece à Associação Cristóvão Colon e em particular a Manuel Rosa o apoio dado na obtenção de parte da informação documental apresentada.

Referências

(1) Carlos Calado – Colombo no documento Assereto. Boletim ACC nº84, Palestra na Academis de História, Boletim ACC, Abril 2017.

(2) Charles de la Roncière - Histoire de la Marine Française. 3ieme ed., tome 2, Plon, Paris. (Page 333 et suivantes : "Le vice amiral Coulon"), 1899.

(3) Consuelo Varela - Cristóbal Colón y la construcción de un mundo nuevo. Estudios 1983-2008. Archivo General de la Nación, Editora Búho, Santo Domingo, República Dominicana,2010.

(4) Consuelo Varela - Cristóbal Colon. Textos y documentos completos. Nuevas cartas. Edición de Juan Gil. 2 edición ampliada. Madrid: Alianza Universidad, 1997.

(5) Cristovão Colombo - Lettera Rarissima Di Cristoforo Colombo. Nabu Press, 2010

(6) Fernando Branco – Cristóvão Colon, Nobre Português. Chiado Editora, 2012.

(7) Hernando Colon – História del Almirante. Madrid, 1984.

(8) Henry Harrisse - Christophe Colomb : son origine, sa vie, ses voyages, sa famille & ses descendants d'après des documents inédits tirés des archives de Gênes, de Savone, de Séville et de Madrid : études d'histoire critique. Paris, 1884

(9) Jesus Lorenzo – Cristobal Colon, su origen y vida investigados con técnicas policiales del siglo XX. Ed. Bubok. 2013.

(10) Frey Bartolomé de Las Casas – Historia de las Indias. Madrid, 1875

(11) Manuel Rosa - A will without a way. A critical review of how the Christopher Columbus Mayorazgo of 1498 continues to perpetrate a fraud against historians and history. e-Spanish Legal History Review, N.º 21 Junio 2015

(12) Manuel Rosa – Colombo Português. Ed.Ésquilo, 2009

(13) Rui de Pina - Crónica de El-rei D. Afonso V. Ed. Escriptorio, 1901.

Fernando Branco