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Não, o Walt Mossberg não vai deixar de escrever. Não consegue

Walt Mossberg, à esquerda da imagem, discute com Steve Jobs os pormenores do iPad – que acabava de ser lançado. Mossberg sempre foi um dos jornalistas preferidos de Steve Jobs

getty

Testemunhou a massificação do computador pessoal e da Internet. Teve acesso privilegiado à revolução provocada pelo iPhone ao tornar-se um dos jornalistas preferidos de Steve Jobs. Durante 47 anos, o Walt Mossberg escreveu sobre o presente, mas projetando-o sempre no futuro. O futuro da tecnologia e, em última análise, os efeitos que tem sobre nós. Teve como preocupação essencial, escrever de maneira a que todos o pudessem compreender. Independentemente dos conhecimentos técnicos de cada um. Foi, e é, um crítico severo de toda a tecnologia de grande consumo produzida sem ter em conta o utilizador final.

Na passada quinta-feira, Mossberg assinou o seu último artigo no Recode – o site que fundou aos 67 anos, depois de sair do Wall Street Journal, com Kara Swischer (também ela jornalista especializada em tecnologia) e que 18 meses depois de ter começado a funcionar foi adquirido pela Vox por um valor que terá andado perto dos 20 milhões de dólares.

Desde 1991 que Mossberg assinava colunas semanais em vários media. Nos últimos anos, quase em exclusivo no The Verge (onde era editor executivo) e no já referido Recode. Mas fê-lo para o Wall Street Journal, para o All Things Digital (marca que criou como consequência das conferências “D” feitas por ele para o Wall Street Journal) e, entre outros, para a CNBC. Sim, Mossberg é um jornalista que respirou tanto ar de Silicon Valley que se transformou em empreendedor.

Entrevistou os mais importantes da Tecnologia. Aliás, era reconhecida a simpatia que Steve Jobs nutria por ele dando-lhe acesso exclusivo aos maiores projetos da empresa (sim, Jobs quis mesmo fazer um televisor e telefone a Mossber a pedir o seu conselho (veja AQUI) e, claro, a entrevistas bastante intimistas. Aliás, Mossberg e Swischer conseguiram juntar à mesma mesa Steve Jobs e Bill Gates (o que só aconteceu por duas vezes, a outra ocorreu numa entrevista para a Fortune). Foi em 2007 na conferência organizada pelo All Things Digital. E aconselho vivamente a que a reveja AQUI.

Numa prova de adaptação às novas formas de comunicação, Mossberg criou podcasts, gravou vídeos a explicar tecnologias e fez análise a produtos. Usou, e usa, as redes sociais e, claro há centenas de vídeos no Youtube onde podemos testemunhar a sua grande capacidade de análise (e de comunicação). E esta é, em minha opinião, a sua grande mais-valia. Sim, é verdade que Mossberg é um privilegiado. Afinal, esteve no epicentro da revolução do computador pessoal. A sua presença na Califórnia (quando Silicon Valley dava os primeiros passos) com acesso direto à Microsoft, à Apple, à HP, à Oracle, à IBM… deu-lhe a possibilidade de testemunhar a história da tecnologia ali, em direto! Anos mais tarde, com a massificação da Internet, acompanhou a Google e, claro, mais recentemente, a explosão da Facebook.

O cognome de “fazedor de reis”, com o qual a revista Wired o alcunhou num título em 2004, mostra bem a capacidade de influência que ele chegou a ter na indústria. Aliás, Mossberg é, claramente, ainda hoje, jornalista “da tecnologia” mais reconhecido mundialmente. Um feito assente numa carreira de 26 anos.

Para um jornalista, como eu, que escrevo sobre tecnologia há 20 anos, é impossível não invejar a forma como Mossberg conseguiu, sempre, ter acesso a todas estas pessoas. E a sua capacidade de análise (e de memória) é excelente. Quem leu os seus artigos ao longo dos anos, como eu li, tem de reconhecer as análises certeiras a possíveis cenários e desenvolvimentos. Aliás, o último artigo que escreve para o Recode é de leitura obrigatória a todos os que querem saber (e perceber) quais as principais tecnologias que vão marcar o mundo nos próximos anos. Não é que se seja particularmente surpreendente, mas o estilo de escrita de Mossberg mantém-se fiel ao seu propósito inicial que é o de ser acessível a todos os leitores. Algo que me influenciou desde que comecei também eu a escrever sobre tecnologia. E se sempre gostei da sua capacidade de interpretar a realidade, nunca fiquei muito convencido sobre a sua análise a dispositivos. Ele é um confesso “gadget-lover” (aliás, volta a admiti-lo no último parágrafo do artigo de despedida), mas as suas reviews a produtos sempre me pareceram pouco suportadas em testes rigorosos, ficando reféns da subjetividade. Aliás, não me recordo de lhe ler ou ouvir críticas muito rigorosas ao iPhone ou ao iPad, por exemplo. No entanto, reconheço que a sua voz era muito ouvida (mesmo nestas análises a dispositivos) e acredito que terão sido muitas as empresas que melhoraram os seus produtos tendo em conta os comentários feitos por Mossberg.

Não podia deixar passar este momento, sem deixar um agradecimento público a um dos poucos especialistas que li, quase religiosamente, nos últimos 20 anos. Obrigado, Walt Mossberg. Vou continuar a encontrar-te algures num podcast ou num qualquer vídeo. Porque não acredito que a tua paixão pelo futuro se tenha rendido à imposição da reforma. Pessoas como tu não se retiram quando querem. Só quando são obrigadas a isso. Por isso, mesmo que queiras abrandar, não vais conseguir deixar de comunicar. Mesmo tendo em consideração que, como escreves, o futuro seja mais sobre experiências e não sobre a tecnologia que as motoriza.