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Epidemia de sarampo acaba para a semana

A epidemia será considerada extinta na quinta-feira, 7 de junho, 25 dias depois do último caso ter sido notificado

Foi a 14 de maio que o vírus do sarampo foi detetado pela última vez em Portugal. Aconteceu em Lisboa num doente com 25 anos e desde esse dia não há registo da sua presença. Perante a ausência da infeção, os peritos da Direção-Geral da Saúde (DGS) estão prontos para declarar o fim da maior epidemia de sarampo dos últimos 20 anos, com 28 doentes e a morte de uma adolescente.

Sem novos registos, a cadeia de transmissão do vírus do sarampo será considera extinta na próxima quinta-feira. Terão passado os 25 dias em que a infeção pode propagar-se. Ou seja, quando estão terminados os períodos de incubação, sete a 21 dias, e de contágio, quatro dias antes ou até quatro dias depois do aparecimento das manchas vermelhas na pele.

A derrota do vírus na região de Lisboa segue-se à vitória no Algarve, a 5 de maio, depois de o último doente, uma mulher de 23 anos, ter sido comunicado às autoridades de Saúde, a 10 de abril. Sem combates na capital e no sul, a guerra ao sarampo está ganha, mas com danos colaterais. Portugal já não pode dizer que o vírus não circula desde 2004, só tendo casos importados, nem ostentar o reconhecimento da Organização Mundial da Saúde como um país que em 2015 eliminou o sarampo.

O inquérito epidemiológico para saber como tudo aconteceu ainda não tem todas as respostas, mas já tem uma certeza: o vírus veio de fora. Entrou pelo Algarve, no início de fevereiro, a partir de um bebé de dez meses. A criança é portuguesa, filha de portugueses e não viajou, pelo que os peritos admitem ter sido infetada por um turista ou imigrante (caso primário, que introduz o vírus). Como, está por saber.

Esta criança é o ponto de partida da cadeia de transmissão, mas só foi descoberto no início de maio. A sua identidade surgiu quando os peritos investigavam o primeiro doente (caso índice) notificado à DGS, a 31 de março: também um rapaz de dez meses.

A epidemia no Algarve fez sete doentes, quatro com menos de um ano, ou seja, ainda sem os 12 meses de vida necessários para receberem a primeira das duas doses da vacina, aos 12 meses e aos cinco anos. O vírus propagou-se em unidades médicas, escolas e por relações familiares. Dois profissionais de Saúde adoeceram, sem gravidade, por estarem vacinados.

Dias depois de o Algarve já estar exposto ao sarampo, foi a vez de o alarme soar na região da capital. A 6 de abril, a DGS recebeu o caso de um bebé de 13 meses que estivera no Hospital de Cascais e que não estava vacinado. A investigação epidemiológica concluiu que o bebé (caso índice em Lisboa, o primeiro notificado) foi infetado por uma mulher de 44 anos cuja doença só chegou ao conhecimento das autoridades no final de abril.

A mulher é o ponto de partida da transmissão em Lisboa e também neste caso está por desvendar como é que ela própria foi infetada. Os peritos da DGS têm por certo que nenhum dos doentes do Algarve veio a Lisboa mas ainda não sabem se alguém da capital esteve no Sul. Até ao momento, está confirmado que a mulher de 44 anos infetou o bebé de 13 meses e que este propagou a doença por seis pessoas, entre elas a adolescente de 17 anos que viria a morrer e que infetou a irmã mais nova.

Vírus circulou pelos serviços de saúde

A transmissão aconteceu sobretudo entre desconhecidos que utilizaram os serviços de Saúde, onde um número elevado de profissionais adoeceu. E em Lisboa, com 21 doentes, há mais mistérios. Um segundo foco, com quatro casos confirmados, está identificado e os investigadores dizem que não está ligado a Cascais. Pensam que terá origem no mesmo caso inicial que contagiou a mulher de 44 anos, que por sua vez infetou o menino de 13 meses, que depois espalhou o vírus.

Segundo os elementos do Centro de Emergências em Pública da DGS, a ligação entre as duas redes faz parte dos 20% de perguntas ainda não respondidas. Os investigadores tentam agora encontrar nos telefonemas da Saúde 24 doentes que não tenham ido ao médico — por exemplo, tendo propagado o vírus no café, no autocarro, na escola ... — ou que tendo sido observados num hospital não foram corretamente diagnosticados.

Há ainda registo de um doente em Viana do Castelo, isolado. Trata-se de um rapaz de 20 meses, venezuelano e não vacinado, que viajou com a família e fez escala na Turquia, onde terá sido infetado. Foi conhecido da DGS a 7 de março e não teve casos secundários.

Feitas as contas, por cada um dos 29 doentes confirmados, os investigadores avaliaram 100 contactos e cerca de 30 por cada um dos 155 casos notificados. Portanto, mais de 7000 mil pessoas estiveram sob avaliação e medidas preventivas, desde logo a vacinação. Ao Expresso, a equipa adianta que apenas um ou dois casos não aceitaram a vacina mesmo sabendo que tinham estado na presença do vírus.

É preciso recuar mais de duas décadas para ter em Portugal tantos casos de sarampo e uma vítima mortal. O diretor-geral da Saúde, Francisco George, tem uma explicação: “Perante os sintomas e os sinais, os médicos não colocaram o sarampo como primeira hipótese de diagnóstico porque estava eliminado desde 2015.”

Portugal tem das taxas de vacinação mais elevadas na Europa (mais de 95% para as duas doses nos nascidos, pelo menos, desde 1996), mas a morte da adolescente de 17 anos, não imunizada, levou as autoridades a reforçarem os apelos. Esta semana, o Governo anunciou que está a estudar medidas como um termo de responsabilidade para os pais que optam por não vacinarem os filhos ou a possibilidade de as escolas acederem à base de dados da Saúde para saberem quem não está protegido.