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Colombo genovês – Uma história de ideias feitas

Carlos Calado*, Presidente da Direcção da Assicociação Cristóvão Colon

Um recente texto do Expresso, incluído na secção História e assinado pelo jornalista Virgílio Azevedo destacava que o historiador Luís Filipe Thomaz reabre o debate sobre a origem do navegador num artigo publicado pela Universidade Nova em que o citado reafirma que Colombo não era português nem espião de João II.

O texto começa por fazer referência ao Centro Cristóvão Colon na vila de Cuba, informando que o mesmo foi criado em 2011 pela Câmara Municipal e pela Associação Cristóvão Colon, e insere ainda uma fotografia da estátua de bronze do descobridor, legendada erradamente como sendo do “Almirante Cristóvão Colombo”, quando, de facto, a mesma está no local claramente identificada como sendo de Cristóvão Colon – descobridor das Américas”.

O texto do Expresso segue depois com as opiniões do historiador Luís Filipe Thomaz e com partes do artigo deste.

Para que não haja dúvidas, esclarecemos que a Associação Cristóvão Colon (ACC), citada no texto, é uma organização cultural sem fins lucrativos e tem como objecto social «Defender por todos os meios legítimos, a nível mundial, a Portugalidade do navegador Cristóvão Colon, promovendo a divulgação dos respectivos factos históricos»

Quanto ao texto, a ACC felicita o Expresso por disponibilizar as suas páginas à reabertura do debate sobre a origem do navegador e congratula o Prof. Doutor Luís Filipe Thomaz pelo extenso artigo de 60 páginas nos “Anais de História de Além-Mar”.

Este estudo vem efectivamente ao encontro das posições que temos defendido junto das Universidades e das várias Academias (Academia Portuguesa da História, Academia de Marinha, Comissão Portuguesa de História Militar, Sociedade de Geografia de Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa) que temos contactado e onde já realizámos diversas conferências, onde sempre destacamos a necessidade de se aprofundar o estudo sobre tão enigmático personagem da História, e que os historiadores profissionais muito contribuiriam para tal, se nisso se envolvessem, colmatando as naturais insuficiências da maioria de nós, que nos dedicamos a esse estudo com entusiasmo amador.

Quer o texto no jornal quer o estudo nos Anais abordam extensivamente a questão da toponímia
atribuída por Colon nas Antilhas, o que é um tópico a debater, mas entendemos que, num tema tão vasto e abrangente como é tudo o que se relaciona com o Almirante, devemos começar pelo princípio.

E o princípio é, naturalmente, a origem do navegador. Quanto a isto, o argumento em destaque no jornal diz que “Cristóvão Colombo não nasceu na vila de Cuba, mas em Génova, sendo filho de mercadores com algumas posses …”.

Esta afirmação baseia-se, certamente, no conteúdo de algumas das actas notariais genovesas referentes ao tecelão Domenico Colombo e ao seu filho Cristoforo Colombo. Não temos dúvidas que este Cristoforo Colombo teria nascido algures em Génova nem que Domenico era tecelão de lãs, também o foi de panos de seda, foi guarda da porta de Olivella e também taberneiro e queijeiro. Se isso o qualifica como mercador, tendo o mesmo sentido da palavra que qualificava os grandes homens de negócios da época, oferece dúvidas. Não passaria de um pequeno produtor-vendedor. Mais dúvidas se nos oferecem que fosse um “mercador com algumas posses” pois algumas outras actas notariais não incluídas no estudo dos Anais nos desvendam um homem frequentemente atormentado por dívidas, obrigado a mudar de residência e de actividade profissional.

Mas, na realidade, toda a documentação relativa ao Cristoforo Colombo italiano de pouco nos serve para a história do Almirante Cristóvão Colon. Serve apenas para demonstrar que não poderiam ter sido a mesma pessoa!

O estudo menciona também que Colombo veio para Portugal em 1476, baseando-se num relato
efectuado por Don Hernando Colón (não sabemos por que motivo o historiador utiliza o nome
Fernando Colombo para esta figura histórica de Espanha que sempre se chamou Hernando Colón), embora admita que este se confundiu ao trocar as batalhas navais de 1476 e de 1485. Talvez aprofundando um pouco o estudo pudesse concluir que a descrição se ajusta à batalha de 1485. O problema para quem aceite a descrição é que em 1485 já Cristóvão Colon estava em Castela, ido de Portugal.

Portanto, adoptou-se a data d 1476 que não corresponde à descrição porque a data que corresponde é contrariada pelos factos!

Mas enfim, no estudo afirma-se que “é seguro que Colombo se estabeleceu em Lisboa em 1476. Não rompeu, contudo, os seus laços com Génova, uma vez que ficou trabalhando como agente da casa comercial Centurione …”Foi para se justificar perante Lodisio ou Ludovico Centurione acerca de um carregamento de açúcar da Madeira que não chegou ao destino que, em 1479, Colombo fez uma derradeira visita a Génova, após o que regressou a Portugal”, invocando um Acto notarial de Génova de 25 de Agosto de 1479, conhecido por “documento Assereto”.

De facto, um Acto notarial seria prova mais que evidente daquilo que se descreve. O problema é que este documento Assereto enferma de diversos e graves falhas para que possa ser aceite como fidedigno, um dos quais é o de se tratar de algumas falhas soltas, com várias caligrafias diferentes e sem quaisquer assinaturas. Nesse pretenso Acto notarial Cristoforo Colombo não foi a Génova para se justificar perante Centurione mas sim para servir de testemunha num processo deste contra Paulo de Nigro (uma análise bastante completa deste documento foi por nós efectuada no mês de Março em conferência realizada na Academia Portuguesa da História)

Mas, caso se entenda aceitar este documento apesar das suas deficiências, então o que se pode concluir é que este Cristoforo Colombo não era um navegador e não passava de um simples moço de fretes sem estatuto social para casar com Filipa Moniz Perestrelo.

Nos argumentos do texto também merece destaque a questão do nome, afirmando-se que “Na época em que viveu em Portugal ainda se denominava Colombo, mas quando se mudou para Castela modificou o nome para Colón” como conta o seu filho e biógrafo Hernando Colón.

Ora, se falamos do Almirante, o facto é que não se conhece nenhum documento que demonstre qual era o seu nome em Portugal. E, se ao longo do estudo se rejeita tantas vezes o que conta Hernando Colón, qual será o critério para aceitar como boas algumas outras que não têm qualquer outra comprovação? (A «Historie» de Hernando Colón é considerada uma fonte pouco credível pois a obra foi publicada pela primeira vez em italiano apenas em 1571 e o seu original manuscrito desapareceu). O que está documentado é que o nome que o Rei D. João II lhe dá numa carta que lhe escreveu em 1488: Cristovam Collon / Cristoval Colon.

Merece-nos também atenção a afirmação de que o Almirante, no regresso da sua viagem de descoberta teve de enfrentar uma série de tempestades e quando chegou perto da costa portuguesa viu-se obrigado a encontrar refúgio no porto de Lisboa.

O que revela não ter sido efectuada a confrontação entre a carta de Colon destinada aos Reis Católicos e os registos do Diário. Uma leitura atenta permite concluir que Colon já estava perto de Cascais quando aconteceu a tempestade. Colon veio a Lisboa porque quis!

No estudo é também mencionado o documento de instituição de morgadio de 1498, também ele um rascunho de qualquer coisa, talvez de um treslado, não confirmado pelo notário e exibindo uma falsa assinatura do Almirante. Frágil demais para servir como prova principal.

Os contratos e os privilégios negociados entre Cristóvão Colon e os Reis Católicos foram
exaustivamente estudados por Rumeu de Armas na sua obra «Nueva luz sobre las Capitulaciones de Santa Fe de 1492» e por Anunciada Colón de Carvajal e José Manuel Pérez-Prendes na vasta obra «La herencia de Cristóbal Colón» e todos concluem que se tratou de uma negociação entre iguais, o que não é propriamente o mesmo que uma relação entre os Soberanos e um tecelão.

Nas conferências que a ACC tem efectuado nas diversas academias, ilustres académicos têm
frequentemente afirmado que Colon / Colombo é uma questão em aberto!

Certamente motivos para que, antes de se dedicarem a expor falhas ou insuficiências de outras
hipóteses para que apontam os indícios, os acontecimentos, os factos, as circunstâncias e a conjuntura, embora falte um documento final inquestionável, os historiadores profissionais se disponham a estudar criteriosamente as fontes que invocam na opção pelo Colombo genovês.

*Presidente da Direcção da Assicociação Cristóvão Colon
Engº Electrotécnico – Telecomunicações
Académico Honorário da Academia Portuguesa da História
Membro do Centro de Investigação Prof. Doutor Joaquim Veríssimo Serrão