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António Barreto: “Eu não queria que a ‘geringonça’ funcionasse”

José carlos carvalho

A liberdade foi a condição que mais perseguiu. Lutou pela democracia. Chegou ao Governo. Crítico, passou a marcar a opinião de muitos portugueses. Estudou a sociedade de fio a pavio. E nunca deixou de lado o pensamento político

Alexandra Carita

Alexandra Carita

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Jornalista

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Foi secretário de Estado do Comércio e Turismo e ministro da Agricultura e Pescas entre 1975 e 1977. Fez a Lei da Reforma Agrária na mesma altura. Deixou a política definitivamente em 1991. Dedicou-se à carreira universitária na área da Sociologia e passou a ser um dos comentadores mais apreciados do país. Cético, pessimista, continua a ver um Portugal atrasado e recusa-se a aceitar a existência da atual maioria parlamentar. Autor de inúmeros livros, volta agora a editar “Nas Vésperas da Revolução, Reforma Agrária em Portugal, 1974-1976” (D. Quixote) e tem no prelo “Tempo de Escolhas” (Relógio D’Água). Conversa à volta de uma vida dedicada à militância e à análise.

A liberdade é uma condição que persegue ao longo da vida. Que conceito de liberdade defende exatamente?
A minha tendência é não a adjetivar. Não falo de liberdade política, de liberdade cultural, social, religiosa. Sei que pode haver essas liberdades todas e que se destinam a fundamentar as atividades humanas nos seus diversos sectores. Mas a minha liberdade é una. Prefiro uma noção clássica de liberdade, aquela de poder fazer o que preciso de fazer sem ferir os direitos dos outros e a liberdade de não ser atentado pelo Estado. Prefiro os conceitos de liberdade em que os indivíduos são responsáveis pelos seus atos, têm a sua esfera de escolhas e são responsáveis por elas. Não tenho simpatia por noções de liberdade que a fazem depender dos direitos coletivos e dos direitos sociais. É nos direitos e liberdades individuais que começa a verdadeira liberdade.

em busca dessa liberdade que começa a sua militância política muito cedo e com o país fechado numa ditadura?
Foi. Tinha, 15, 16, 17 anos quando tive impulsos democráticos, liberais, libertários, e rebeldia, que é o que se tem nessa idade, coincidindo com as visitas do general Humberto Delgado no país. Lembro-me de que, quando Humberto Delgado chegou a Vila Real, fiquei entusiasmadíssimo de o ver na rua, com meia dúzia de gatos-pingados. Eu também fui por ali a olhar a ousadia e a coragem do homem que estava a ser perseguido e vigiado por membros da PIDE e por dois ou três elementos da GNR. A coisa interessou-me e comecei a ir atrás da política até chegar à Universidade de Coimbra dois ou três anos depois. Comecei a frequentar o grupo de teatro, a associação académica, onde se tentava cultivar a liberdade de toda e qualquer maneira. Quem primeiro se aproximou de mim foi o Partido Comunista, isto é, os comunistas de Coimbra, porque naquela altura não se podia falar de partido como hoje o conhecemos. Não sabia praticamente nada, nem da história do movimento comunista nem do pensamento marxista-leninista. Isso veio depois. Nessa altura, o que contava era o impulso da liberdade e de lutar contra a ditadura.

Falou da ousadia e da coragem de Humberto Delgado. Também teve alguma para sair de casa e ir tirar um curso sem ajuda dos seus pais... Como é que decide que tem de sair de Vila Real?
Não posso dizer que seja coragem. Aqui, é desejo e ambição. Queria aprender, queria estudar, queria ser autónomo, independente. E percebia-se, já na altura, que, para que isso acontecesse, tinha de se ter um curso, uma profissão, estar sozinho e fora de casa.

Escolhe Direito.
Sim. Tive um professor de Filosofia no 6º ano, o dr. Proença, que nunca esquecerei. Ensinou-me várias coisas, entre elas o que era a Sociologia. Fiquei quase pedrado de tão atraído pela matéria. A partir dessa altura, quis fazer Sociologia, mas não havia e era proibido. O que havia de mais próximo era Direito, que dá para política, diplomacia, jornalismo, para tudo o que é social. Uma das ideias que estava subjacente na minha cabeça era precisamente a política como profissão, como vocação ou como militância. Mas chego a Coimbra e tenho uma enorme desilusão com o curso.

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O teatro foi por isso a sua principal atividade universitária?
O teatro e a vida das associações estudantis e até a militância política. Terei feito sete cadeiras do curso, se tanto.

Uma vontade de militância política que vai praticar muito cedo. Aos 33 anos já é ministro do VI Governo Provisório...
Fui secretário de Estado com 32 anos e com 33 era ministro, sim.

O que é que essa primeira aventura política lhe trouxe?
Não nego que, por um lado, estava lá a vontade de sempre de fazer política. Gostava e gosto muito da atividade política. É cuidar do bem comum e das relações entre as pessoas e o Estado. A vida política exige tudo de nós. Exige empenhamento, responsabilidade, dedicação, sentido cultural, sentido solidário e conhecimento do que são os mecanismos do poder. Não se está na política como se se fosse um amador, de vez em quando, às tardes e às noites. Está-se na política por inteiro.

Há um espírito de missão também?
Também. Mas talvez não seja muito a minha versão. Não quero para mim a ideia de estarmos a dar-nos a nós próprios um grande valor ao que de nós os outros pedem. Prefiro ser mais frio ou mais humilde nesse sentido. Há uma ambição. Queremos contribuir, fazer parte, ver e ser vistos, conhecer e ser conhecidos. A política exige isto tudo. Ela revela muito rapidamente as qualidades e os defeitos das pessoas. Revela a cultura e a incultura, os talentos e as deficiências. Antigamente, dizia-se que era à mesa do jogo que se viam as pessoas, eu acho que é na política. Aliás, a opinião pública não se engana. Muitas vezes, ao olhar para um político na televisão ou nos jornais ou na rua, rapidamente se percebe quando ele está a falar verdade ou mentira, quando está a dizer o que sente ou não.

Sempre foi assim?
Hoje em dia e nas últimas décadas, a política é muito construída, tanto em Portugal como no estrangeiro. O que o político está a dizer em qualquer altura está preparado, há encarregados de imagem, tudo.

Faz lembrar de imediato o discurso de Emmanuel Macron depois da vitória nas presidenciais francesas e a sua entrada no pátio do Louvre.
É exatamente isso. Eu não conhecia o Macron, sabia que tinha sido ministro da Economia de François Hollande, mas não sabia o que ele valia, nem tinha qualquer espécie de ideia sobre ele. Vamos ver se tem êxito ou não tem. Para já, teve. Ter derrotado toda aquela gente, incluindo partidos estabelecidos, e tanta gente mais conhecida do que ele, diz-nos que teve talento e êxito.

O facto de ele ter concorrido como independente dá-lhe mais valor?
É uma grande vitória dele e põe em causa a maneira como está organizada a política contemporânea. Agora, tudo o que vi de Macron, nomeadamente o último debate com Marine Le Pen — não tendo qualquer dúvida de que o prefiro a ele do que à senhora —, mostrava que a autenticidade estava mais do lado dela. O que ela dizia saía-lhe das tripas, do coração. Já Macron, do princípio ao fim, só disse frases feitas e preparadas, ou no papel ou na memória. Na tomada de posse, o seu discurso não teve qualquer tipo de alma e de improviso. Eu estava a ouvi-lo e a lembrar-me dos outros Presidentes franceses desde o De Gaulle. A maior parte deles não lia papéis. Falavam e diziam o que sentiam. Macron é artificial. Agora, o facto de ser artificial não quer dizer que vá falhar. Pode ser que tenha intelectual e politicamente um grande valor e que tudo o resto acabe por servir esse valor.

Mas não é nesse tipo de político que se revê...
Não. Entrei para o Parlamento português pela primeira vez em 1975. Nos primeiros grandes debates políticos quase nunca havia papel, as pessoas diziam o que tinham a dizer, não faziam grandes discursos para ficar na história, nos jornais e nos arquivos. O debate parlamentar era autêntico. Eu dizia quatro, cinco, seis frases que vinham a propósito, o outro respondia. O debate era muito mais vivo. Lembro-me de ter visto vários dirigentes políticos, a começar pelo Mário Soares, o Sá Carneiro, o Freitas do Amaral, o Marcelo Rebelo de Sousa, tantos, falarem de improviso e dizerem o que tinham a dizer. Estavam a pensar o que estavam a dizer. Isto com o tempo desapareceu. A vida política, porque está a ser observada por milhões de pessoas, porque está a ser escrutinada ao segundo, diretamente nas televisões, na internet, no streaming, na fotografia, no vídeo, agora nos telemóveis, por tudo quanto é sítio, obriga a que se esteja com um enorme cuidado, porque não se pode cometer gafes, é preciso dizer o que querem que se diga, não se pode dar a impressão de se estar a pensar ou a fraquejar, tem dar-se sempre a ideia de que se sabe a lição de cor e salteado. Isso tudo desvaloriza muito a política.

Diminui o debate político?
Sem dúvida. E está a dar origem a isto que vemos, que é personalidades caídas na política quase de paraquedas, independentes, como está a acontecer também nas presidências das Câmaras portuguesas, onde já há exemplos disso. O Presidente dos Estados Unidos saiu aos trambolhões do dinheiro e das loucuras dele. Em Inglaterra também há políticos que saíram não diretamente do sistema político consagrado, em Itália já aconteceu várias vezes. O que mostra uma espécie de política esclerosada. A política está enrijecida, e os políticos têm muita dificuldade em libertar-se desta armadura de proteção que criaram e aceitaram. As agências de informação, que são às dezenas e às centenas, as agências de estudos, as agências de comunicação social, são muitas as organizações cujo objetivo é preparar as pessoas para dizerem o que se espera que digam, fazerem o que se espera que façam.

A imagem do político é muito mais cuidada hoje em dia.
Mas é mal. Quando a imagem se sobrepõe ao conteúdo, é sempre sinal de que o conteúdo da política está em decadência.

Mas não é só por isso que existe decadência no conteúdo político.
Há muitas razões. Uma delas é a ascensão do poder económico. O poder económico tem vindo há 20, 30 anos a fortalecer-se a si próprio, os seus detentores a enriquecerem...

E a interferirem na política?
Eles interferem, mas mesmo se não interferirem os políticos chamam-nos. Os políticos começaram a perceber cada vez mais que a performance económica e o resultado económico é essencial e que se não mostram o desemprego a cair, o investimento a aumentar, o crescimento idem, a riqueza ibidem, se não mostram resultados, as pessoas votam noutros. Porque as pessoas querem viver melhor e dependem desse poder económico. O que diminui a amplitude, a criatividade e a responsabilidade do poder político, que depois se põe a fazer PPP [parcerias público-privadas]. Anda a fazer favores constantemente e fretes, para que o poder económico faça o que eles, os políticos, querem, que faça as obras e os investimentos que eles querem, para depois mostrarem publicamente esse crescimento.

É com paixão que fala da política, que abandonou tão cedo da primeira vez. Terá sido por causa da ‘Lei Barreto’ e da controvérsia que ela gerou?
A controvérsia até me atraiu. Mas as sequelas da Lei da Reforma Agrária foram tais que me afastei durante uns anos.

Houve um ressentimento? Não gostou que a partir de um determinado momento o Partido Socialista e Mário Soares, em particular, o tenham deixado sozinho?
No final de 1977 descobri que uma parte importante do PS não acreditava naquilo que tinha feito, que tinha feito comigo: a reforma agrária que nós fizemos contra a reforma agrária dos comunistas. Mário Soares, em particular, percebeu que precisava de votos do PC ou do PPD para se manter no poder, pois só tínhamos 30% dos votos. Para passar o orçamento e o plano para o ano seguinte era preciso os votos deles. O PC disse que queria negociar, e houve negociações entre o PS e o PC para o PS ceder a reforma agrária que tinha feito e que tinha vencido.

Sentiu-se abandonado, de alguma forma?
Um bocadinho. Mário Soares ainda me convidou para ir para o Governo a seguir, que foi feito com o CDS, mas não me convidou para ir para a pasta da Agricultura, que era a maneira de dizer: “Não quero que tu venhas.” Fiquei aborrecido, triste, com pena, zangado mesmo. Fiquei com a clara noção de que há causas, lutas e objetivos na vida que servem para tudo e para nada, que se pode trocar tudo por tudo em qualquer altura. Para se ficar no Governo mais um ano ou dois vende-se o que se comprou ou compra-se o que se vendeu. Mas foi bom, porque aprendi a melhor estar na política, a melhor conhecer as regras da vida política.

Volta ao Parlamento como independente em 1985, mas depressa passa a deputado pelo PS. Porquê?
Entro como deputado por Évora.

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Foi uma tentativa de apaziguar tudo o que se tinha passado com a reforma agrária?
Sim. Era uma forma de fazermos as pazes. Quando dei a entender que queria aproximar-me de novo, Mário Soares perguntou-me: “Mas quer que eu lhe peça desculpa?” Disse-lhe que não, mas que se pedisse também não se perdia nada. Dois dias depois mandou-me um recado pelo Mário Cardia: “Olha, queríamos convidar-te a seres cabeça de lista pelo PS por Évora.” Hesitei por um segundo. Vim de Vila Real, vivo em Lisboa, o que é que vou fazer para Évora? Ele depois acrescentou: “É que assim o sinal está dado.”

Falemos da emigração, aquela que agora volta a estar na ordem do dia e que se diz está a levar a juventude. Como olha para ela?
O meu primeiro livro é sobre emigração. Nele, não sou muito crítico ou muito duro com o fenómeno da emigração em si. Sou crítico em relação às causas. Prendiam-se com a falta de investimento, de desenvolvimento, de crescimento económico... Era o que era. Mas sempre tive, talvez por eu próprio ter vivido fora do país durante 12 anos, uma espécie de ternura pela emigração. Acho que quem emigra uns anos enriquece a sua vida. Já vi emigrantes que ao fim de uns anos estão tristes, acabrunhados e querem voltar, mas a maior parte dos que já conheci, e já conheci milhares, são pessoas orgulhosas de terem emigrado, orgulhosas do que fizeram e do que ganharam com isso: conhecimentos, riqueza, bem-estar, filhos nas escolas, escolas para os filhos, viagens, casa mais confortável, aquecimento, férias, segurança social, melhores reformas... Hoje em dia, haverá outra vez causas que levam as pessoas a emigrar, causas económicas...

O problema do desemprego é uma das grandes causas.
É possível que haja uma desatenção ao investimento privado e público, a uma política económica que não está mais orientada para facilitar e criar esse investimento. Mas em todo o mundo está a haver problemas muito sérios de crescimento económico e de desemprego. Os portugueses que conseguem emigrar e que conseguem um lugar e que alcançam sucesso têm uma vida mais razoável, com muito mais conhecimento.

Quando saiu de Portugal para a Suíça ia a fugir à tropa, não queria participar na Guerra do Ultramar. Também foi um exílio enriquecedor?
Para mim, foi. O tempo que estive fora foi dos melhores anos da minha vida. Formei-me, licenciei-me, viajei, aprendi, conheci finalmente o que era a liberdade, visitei metade do mundo. Andava à boleia no meio da rua, porque não tinha dinheiro para viajar de outra forma. Esse período pôs tudo o que eu era à prova. Estava sozinho, não vivia do nome da família, do nome da aldeia ou do nome da cidade. Estava sozinho perante o mundo e tinha de saber, estudar e trabalhar. Isso foi muito bom.

Ao fim destes anos todos e do abandono definitivo da política, em 1991, sente que Portugal o desiludiu?
De todo. Quando abandonei definitivamente a vida política, saí menos zangado do que em 1977. Na década de 70 saí com a clara noção de ter perdido uma luta, um combate, uma causa... Nos anos 90 saí com a consciência de que tudo tem um princípio, um meio e um fim. Foi a constatação de que era tempo perdido, de que estava a dar inteligência e esforço, mas que os chefes do partido não queriam as ideias, queriam outras coisas.

Nessa altura, a vida académica sobrepôs-se? Havia necessidade de voltar à Universidade?
Sim. E foi aí que comecei a preparar dois grandes volumes sobre a situação social em Portugal. E estava também com vontade de ir fazer televisão, que acabei por fazer durante uns anos como comentador e como interveniente no debate no “Terça à Noite”, na SIC, com o Pacheco Pereira e o Miguel Sousa Tavares.

Qual é o prazer do comentador?
Ser ouvido, ser visto. Quem disser que não é isso está a enganar. Mas depois também o preparar-se, ou seja, eu tive de falar sobre a caça, de que não sabia nada, falar sobre investimento... Perdia semanas a preparar-me, a telefonar para quem sabia, para ter uma opinião bem fundamentada.

Tem uma vontade de conhecimento além da opinião que dá?
Acima de tudo. Se tivesse de resumir o essencial dos meus objetivos de vida, acho que à cabeça poria o conhecimento.

Como comentador, as pessoas olhavam-no como um homem muito pessimista. É assim?
É estranho, porque sou um otimista. Acho sempre que tenho lugar para estacionar o carro, acho sempre que há mesa no restaurante e que não é preciso reservar, acho sempre que há lugar no avião quando é preciso comprar um bilhete, lugar na ópera à ultima da hora... E a maioria das vezes isso é verdade. Para mim, sou muito, muito otimista, e acho que nunca vou ter doenças, que tudo vai correr bem, que vou ter sempre sorte, que o mundo me ajuda e tudo o mais. Em relação ao meu país, sou pessimista, sou cético. Tenho o sentimento de que Portugal está sempre atrasado. Sempre. Fundou a democracia com 40 ou 50 anos de atraso em relação aos outros países, acabou com a guerra com 15 anos de atraso, fez uma revolução socialista meio comunista com 50 anos de atraso — e julgavam que estavam a fazer a mais avançada do mundo, mas estavam a fazer a mais atrasada. Com a revolução perdemos 20 anos, depois a nacionalização, depois a reprivatização. Fizemos uma Constituição errada do princípio ao fim, peixe com carne, trigo com milho, milho com centeio. Fizeram-se as asneiras todas, que demoraram dez anos a corrigir. A primeira correção, porque ainda hoje a Constituição está cheia de tolices. Mas foram dez anos para acabar com o domínio das Forças Armadas sobre a democracia portuguesa. Tudo isto foi atrasado, atrasado, atrasado. Comecei a lutar pela instauração do referendo nacional em 1975, na Constituinte. Fui tratado de tudo: sidonista, fascista... Acabou por se fazer, mas demorou 30 anos.

Hoje continuamos atrasados?
Continuo com essa impressão de que estamos atrasados, sim. Em relação à justiça, estamos atrasados. Há muita coisa que já podia ter sido alterada na legislação, na rapidez, na prática. O sistema eleitoral está a fechar-se. Estas explosões de independentes lá fora estão muito mais avançadas do que cá, até no mau sentido. Estão a pôr em causa os sistemas políticos. Nós cá tivemos uma sorte muito grande. Tivemos dois ou três anos de populismo do pior que há, que é o populismo revolucionário. Ficámos vacinados. Hoje, o populismo, quer de direita quer de esquerda, tem tido muito pouca expressão. Mas tivemos uma descolonização mal feita, com 700 mil retornados que voltaram para Portugal com uma mão à frente e outra atrás. Hoje não temos esses fenómenos. Hoje, o Partido Comunista — que é um partido obsoleto, fora do tempo, de há 50 anos — mantém um bocadinho da reserva reivindicativa, rebelde, que quase que evita que o populismo vá por aí fora. Mas nós não estamos a tratar do nosso sistema democrático. Estamos novamente a tratá-lo com atraso.

Como por exemplo?
A questão da banca. Há dez anos que se sabia, e ninguém fez nada. Andavam por aí a dizer que a banca portuguesa era muito boa, saudável e seguríssima. Os bancos portugueses eram maravilhosos. Veja-se o BPN. O BES então nem se fala. As coisas que diziam destes bancos! Vejam o estado em que estavam nessa altura e em que estão hoje. Há dez anos que se sabe das PPP, com as quais Portugal perdeu milhares de milhões de euros, com aqueles preços descomunais que agora estão a ser abatidos. E ninguém se queixa. As empresas estão a receber mil milhões a menos e não se queixam. O que quer dizer que estavam a ganhar o que não era devido que ganhassem, era a mais. Há um único sector que eu acho que está hoje com algum estremecimento.

E qual é?
Sinto alguma alegria pelo sector da saúde, que acho que se desenvolveu melhor do que tudo o resto. Na educação temos sempre dicas, opiniões, eu acho, eu acho, eu acho... Muitas opiniões que são mudadas, ou por religiões, ou pelos partidos, ou por filosofias, pelo que for. O resultado é esta espécie de bagunça que dura há 40 anos. Não há maneira de estabilizar, a educação. E não falo de a fixar. Quero é que a educação tenha um quadro e que a partir dele possa ser flexível, possa mudar e adaptar-se aos tempos constantemente. Já a saúde está dominada pelo raciocínio científico e pela cultura científica. Ali não se brinca em serviço. Uma dor de cabeça cura-se com aspirina, uma catarata com uma intervenção cirúrgica. A cultura científica é universal, o que se faz cá é o que se faz nos EUA, na França, em Pequim ou em Moscovo. Pode haver ou não meios, mas é o que se faz e é conhecido. Aí não há eu acho que... Quando se vai ali ao Parlamento, não há deputado que não ache qualquer coisa sobre a educação; sobre a saúde, é o achas!

Sente o mesmo estremecimento em relação ao Governo e à aliança que o suporta, PCP, BE e PS?
Eu não queria que a ‘geringonça’ funcionasse. Eu não quero que um Governo democrático tenha o apoio do Bloco e do PCP, sobretudo do Partido Comunista. Queria que um Governo democrático de esquerda fosse capaz de encontrar soluções, ou sozinho ou com o centro, neste caso, o social-democrata, para organizar um Governo maioritário, com apoio parlamentar, sem ter de pedir apoio a partidos que têm três ou quatro conceções fundamentalmente contra a democracia assim como eu a entendo.

Que são?...
A integração europeia, com as suas consequências, e elas significam pertencer à UE e ao euro. O PC é contra tudo isto. O PC é contra a NATO, contra a Aliança de Defesa Militar Ocidental, de que fazem parte alguns dos países europeus mais importantes e os EUA. O PC é contra as grandes empresas capitalistas europeias e multinacionais. Se puder derrotá-las e derrubá-las e erradicá-las de Portugal, fá-lo-á. Se puder fazer protecionismo económico à produção portuguesa agrícola e industrial, também o fará. O PC quer renacionalizar a banca, já o disse. Sou contra tudo isto.

Serão possíveis duas legislaturas com o mesmo acordo? Esta chegará ao fim?
Não sei. Devo dizer que até agora têm havido algumas boas notícias, e estou contente com elas, apesar de não alterarem o meu pessimismo. Vi que o crescimento económico melhorou um bocadinho. Muito bem. Vi que o desemprego baixou um bocadinho. Muito bem. Vi que talvez o investimento possa aumentar, que ainda não é seguro. Muito bem, se for verdade. Vi que o endividamento ainda não aumentou. Vi que o poder de compra das classes mais desfavorecidas e dos pensionistas aumentou um bocadinho. O que há disto tudo que ainda dure daqui a seis meses, um ano, não sei. Estranho que tenha sido possível com menos investimento público, por exemplo. Se os resultados forem bons e assim se mantiverem, fico encantado. Mas continuo a ser adversário de um Governo em que o PC antidemocrático participa e colabora. Dito isto, será que o PC quer renunciar às suas crenças mais importantes? Não acredito.

Então, o que vamos ter?
O certo é que no dia em que o PS não precisar do BE e do PC e tenha os votos que cheguem para ter a maioria dá-lhes um piparote. E o PC vai e o Bloco vai. O PS não é dessa família, nunca foi. O PS pode ter devaneios soviéticos, pode ter devaneios autoritários, tem-nos, tenho a certeza, para guardar o poder tem tudo. Mas, na hora da verdade, o PS está sempre do lado da liberdade e da democracia. No dia em que sentir que pode dispensar o contributo, a chantagem e os ultimados que o PC e o BE lhe fazem sistematicamente dispensa-os de piparote.

Acha que o PC e o BE ainda não perceberam isso?
O PC já percebeu isso, sim. E o Bloco também. Portanto, agora entrámos naquela fase interessantíssima do jogo que é ver quem é o primeiro a romper. Eu quero romper ou quero que tu rompas comigo? De que forma vou ganhar mais? Cada um dos três está a pensar nisto. É a teoria dos jogos. E está a pensar nisto de manhã até à noite. Vamos ver se continua até às eleições. A ‘geringonça’ é isto. A ‘geringonça’ não é dá cá um votinho para esta lei, toma lá outro para aquela. Isso é relativamente fácil e simples. A verdadeira ‘geringonça’ consiste em saber quando é que nós vamos romper ou quando é que vou abdicar do que pensei até hoje. O PC sempre disse ao PS: muda de ideias que nós vamos convosco. O PS não pode passar na história como o partido que mudou de ideias e que abdicou da liberdade e da democracia, da UE e de tudo isso para ir com o PC.

Há alguma coisa que o assuste nesta era da globalização?
A globalização foi até hoje uma enorme vantagem para talvez um bilião de pessoas que morriam de fome e agora não morrem. Na Europa esquecemo-nos de que existem chineses, africanos e indianos a quem a globalização deu emprego, trabalho, em péssimas condições, sim senhor, com a criação de novas escravaturas, também. Mas o seu poder de compra e de sobrevivência, a esperança de vida de centenas e centenas de milhões de pessoas aumentaram razoavelmente devido à globalização. Que ela trouxe costumes jamais vistos, religiões, culturas... é verdade, e só ganhamos todos com isso. Trouxe todas as vantagens de que acabei de falar, e são muitas: eficiência, conhecimento, deslocação, vivência, mais liberdade, sobrevivência e muito mais democracia. Hoje pode lutar-se contra a escravatura, contra a excisão, contra a pancadaria nas mulheres, contra a exploração dos menores, contra a droga e a pedofilia. Há pessoas que acham que é preciso voltar a fazer algum protecionismo na Europa porque há falta de emprego. Eu só me pergunto como é que é possível? Os países europeus só podem é pensar no que devem fazer para tratar das sequelas do lado negativo da globalização.

Sobre a sua vida, diz que vive “de passagens”... O que quer dizer ao certo?
Escrevi isso no meu livro de fotografia. Para o fazer, tive de ver todas as fotografias que fiz durante 40 ou 50 anos. São muitos milhares de imagens, e uma grande parte foi vista cronologicamente. À medida que ia vendo, percebi que havia muitas coisas que ficam na memória que me formaram, que me fizeram. Umas coisas fui eu que fiz, outras fizeram-me a mim. O resultado sou eu. Mas houve muitas coisas que fiz, passei por elas e passei à frente. Dei conta de que andei a maior parte do tempo de passagem, que tinha passado de sítio em sítio e que não arrastava comigo nada. Não arrastei comigo uma religião, não arrastei nenhum partido político. Estar de passagem significa não ficar preso e poder avançar ou recuar ou ir para os lados mas guardar a minha liberdade de movimentos.