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Lisboa espera vir a seguir as pisadas de Oslo e “ganhar não à terceira, mas à segunda”

O presidente da câmara de Oslo exibe o troféu ao lado dos autarcas vencidos, dos anfitriões de Essen e do comissário europeu

D.R.

Lisboa perdeu para a congénere norueguesa a eleição de capital verde da Europa 2019. Se Oslo ganhou à terceira tentativa, Lisboa espera poder içar o galardão na próxima corrida. Ainda não foi desta que uma capital do Sul ganhou, mas o próprio comissário europeu do Ambiente, Karmenu Vella, admitiu ter sido uma competição “muito renhida”

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Lisboa não ganhou, mas para o vereador Jose Sá Fernandes “termos chegado à final já é um grande reconhecimento do trabalho que Lisboa tem feito”. É a primeira vez que uma capital do Sul chega à final e isso é “fantástico”.

“Reconhecemos que Oslo é em muitos parâmetros melhor que Lisboa”, admite ao Expresso Sá Fernandes, sublinhando o facto de os “parâmetros de Lisboa - sobre tratamento de águas, reciclagem ou espaços verdes, por exemplo - terem evoluído exponencialmente”.

Apesar de não levar o galardão para casa, o vereador alfacinha garante que “Lisboa vai continuar este caminho e provavelmente voltamos a concorrer”. Sá Fernandes lembra que “as cidades do sul têm problemas diferentes das do norte relacionados com ondas de calor, chuvas torrenciais” e que “a história de cada uma também é diferente”. E agora espera que “não seja à terceira, mas à segunda [ida à final] que Lisboa vença”.

O vereador dos espaços verdes da Câmara de Lisboa lembra que nos corredores do teatro onde foi atribuído o prémio, no centro de Essen, se falava que “nunca houve uma competição tão renhida e o júri levou muito mais horas do que o habitual a debater quem seria o vencedor”.

Fonte da Comissão Europeia admitiu ao Expresso que “foi uma corrida muito dura e percebemos que as cidades têm muita dificuldade em ganhar na primeira volta”, referindo-se ao facto de ser a segunda vez que Lisboa concorre, mas a primeira vez que chega à final, enquanto Oslo é a terceira vez que chega à final. O mesmo aconteceu com outras eleitas em anos anteriores, como Essen ou Liubliana, que também não ganharam à primeira.

“Lisboa fez um grande trabalho num tempo muito curto de apenas dez anos”, defende fonte do staff comunitário, que prefere não ser identificada. “O presidente da câmara de Lisboa teve de tomar decisões difíceis, apesar da crise financeira, e isso é digno de nota”, acrescenta ao Expresso.

Para o presidente da Câmara de Oslo “foi um momento muito emocionante saber que à terceira” foram eleitos. Em declarações ao Expresso, Raymond Johansen diz que o prémio representa “um reconhecimento de todo o trabalho já feito e dos planos que aí vêm”. Agora, com o galardão nas mãos tem também novas obrigações: “temos de ser inovadores e criativos para mostrar que estamos empenhados”. Até 2020 vão tornar Oslo uma “cidade livre de carros e ter um sistema de incineração de lixo com menos emissões”. Também querem reforçar os programas de educação ambiental, uma vez que consideram que “se levarmos as crianças a perceber como é importante cuidar e preservar a natureza, elas vão fazê-lo”.

No seu discurso disse que “se os autarcas governassem o mundo, o mundo seria um sítio melhor”. Em conversa com o Expresso reafirma a ideia e faz um elogio a Lisboa: “em muitas cidades, incluindo Lisboa, há líderes progressistas que veem o impacto das alterações climáticas e sabem que é preciso agir. Assim, quando Países como os EUA decidem que nada devem fazer, as cidades podem e devem avançar com medidas”. Para o autarca norueguês “os autarcas podem fazer muito nos setores do trafego automóvel, transportes, construção ou preservação de recursos como a água para combater as alterações climáticas”. E, admitindo que a competição foi renhida, aconselha: “Lisboa deve continuar a concorrer”.

Recados para Trump

Não faltaram recados para Trump nesta cerimónia. O comissário europeu do Ambiente, Karmenu Vella, sublinhou a importância do prémio - que, este ano teve “uma competição renhida com finalistas vindas dos quatro cantos da Europa, do Norte, Sul, Leste e Oeste”. E aproveitou para criticar a decisão dos EUA saírem do Acordo de Paris, anunciada por Donald Trump. “Ontem à noite todos fomos dormir zangados e desapontados, mas esta manhã a Europa acordou mais unida do que nunca. O acordo de Paris está de pé e é para perdurar”, garantiu.

Na mesma linha discursou o vereador José Sá Fernandes. “Ontem o mundo deu um passo atrás, mas hoje temos oportunidade de dizer ao mundo que vamos dar um passo à frente”, afirmou o vereador português antes do anúncio do prémio. Aliás, as palavras de Sá Fernandes foram das mais aplaudidas pela plateia, sobretudo quando citou o ex-'Mayor' de Nova Iorque, Michael Bloomberg: “O que acontece nas cidades pode mudar o mundo”. E fez soar uma gargalhada na plateia ao teatralizar os jeitos de Trump ao dizer: “Let's make the world green again!”

Os trunfos de Lisboa

As cinco cidades finalistas tinham esgrimido os seus argumentos junto do júri dois dias antes. Lisboa competiu com Gante (Bélgica), Lahti (Finlândia), Talin (Estónia) e Oslo (Noruega), desde logo a que se apresentou mais confiante na vitória. Os que chegaram à shortlist tiveram de convencer o júri que estão comprometidos com políticas ambientalmente sustentáveis para o futuro, que as suas estratégias se refletem no comportamento dos cidadãos que nela vivem e que a cidade tem capacidade para agir como modelo inspirador para outras.

Foi o que fez Fernando Medina perante o júri na quarta-feira, ao sublinhar que o “master plan” para devolver a cidade de Lisboa às pessoas começou a ser concebido apelo anterior presidente da Câmara e atual primeiro ministro António Costa, em 2007. Medina reforçou a ideia de que as mudanças “têm sido rápidas”, que apesar de ser uma cidade consolidada decidiram alargar os espaços verdes e esperam acrescentar mais 250 hectares de jardins e corredores verdes até 2020, permitindo espaços mais silenciosos na cidade, reduzir a poluição e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. “As pessoas apropriam-se destes espaços verdes novos como seus e como se lá estivessem desde sempre”, explicou.

Projetando imagens da requalificação do Cais do Sodré e do eixo central, o presidente da câmara de Lisboa apresentou mais números da evolução: 16 em 30 praças concluídas até 2017; 763 árvores plantadas no eixo central; redução de 23% no consumo de energia por comparação ao registado em 2002, duplicação de ciclovia entre 2013 e 2017, registando agora 90 km de vias cicláveis e pretendendo acrescentar-lhes mais 150 km até 2020. No campo do combate às alterações climáticas, Lisboa pretende reduzir as emissões 50% nos próximos 15 anos e está a investir 170 milhões no projeto de drenagem de águas residuais como medida de adaptação a fenómenos extremos como inundações.

Medina também jogou o trunfo de Lisboa poder ser uma montra para o mundo, içando a bandeira de capital verde da Europa, lembrando as ligações ancestrais e atuais a África, América do Sul ou Ásia e reforçando esta ideia de mostra, também por receber cada vez mais turistas, assim como eventos internacionais como a web Summitt ou a Conferência Europeia de adaptação às alterações climáticas, que terá lugar em 2019.

Oslo, por seu lado apresentou estatísticas imbatíveis: 3/4 da população visitam a floresta frequentemente, 98% vivem a 300 metros de uma área verde, 37% usam transportes públicos e a cidade recicla 40% do lixo urbano.

A capital norueguesa também demonstrou a sua ambição em cortar as emissões de gases de efeito de estufa em 95% até 2030, com medidas como a proibição de circulação de automóveis no centro da cidade a partir de 2020 e a obrigatoriedade de 30% dos carros vendidos na cidade serem elétricos, indo ao encontro das metas de combate às alterações climáticas.

O prémio, criado em 2008 pela Comissão Europeia, já foi atribuído a Estocolmo(Suécia), Hamburgo (Alemanha) Vitoria-Gasteiz (Espanha), Nantes (França), Copenhaga (Dinamarca), Bristol (Reino Unido), Liubliana (Eslovénia), Essen (Alemanha) e Nimega (Holanda) que vai erguer a bandeira verde em 2018.

De cidade cinzenta a capital verde

Essen, a cidade alemã anfitriã da cerimónia de atribuição do prémio à eleita para 2019, também só ganhou o galardão de capital verde da Europa após várias tentativas. Há perto de dois anos foi eleita pelo júri pelos seus “esforços assinaláveis” ao ter-se reinventado. A cidade com um passado industrial e cinzento, ligado à produção de carvão e aço, transformou-se numa cidade mais verde cuja economia assenta no sector financeiro e de serviços.

“Passámos de uma cidade do carvão e do aço para uma cidadade apostada em melhorar o tratamento de água e no crescimento de espaços verdes”, salienta Simone Raskob, a vereadora de Essen que liderou a candidatura da cidade a Capital Verde 2017.

Entre os pontos fortes destaca a criação de “mais 100 km de autoestradas cicláveis na região”, que integram 376 km de ciclovia, “a criação de três novos parques verdes, e a aposta na mobilidade elétrica e nas energias renováveis”.

A nona cidade mais populosa da Alemanha, localizada na Renânia do Norte-vestfalia, estende-se por um território de 210 km2. À primeira vista, a zona central da cidade parece um centro comercial ao ar livre, com lojas por todo o lado em largas ruas pedestres, onde abunda lixo pelo chão. Mas avançando um ou dois quilómetros para sul ou norte, surgem grandes parques e jardins públicos ao lado de bairros de moradias com jardins e hortas.

A norte, onde em tempos se concentraram as indústrias do aço e do carvão, proliferam moradias e pequenas hortas urbanas, onde as pessoas de Essen cultivam para autossubsistência e chegam a vender em pequenos mercados de rua. A sul, “a área mais rica”, surgem as grandes quintas onde se cultivam cereais, pomares ou vinhas. É nesta zona mais rica que se erguem as grandes mansões em redor do lago, entre as quais a da família Thyssen Krupp, o maior industrial de Essen que fornecia as armas para o terceiro Reich durante a segunda guerra mundial.