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“Um orgulho enorme e um privilégio”: o salvamento de 34 náufragos de um bote em chamas contado pelo piloto do avião

A Força Aérea tem ao seu serviço uma frota de 12 aeronaves C-295M, sete para transporte aéreo tático e as restantes cinco para vigilância marítima

2Sar Barbosa

“É um marco na nossa história pessoal, na história da Esquadra 502, na história da Força Aérea. Nunca esqueceremos esta missão”, afirma em entrevista ao Expresso o capitão piloto-aviador Diogo Bento, que este domingo seguia aos comandos do C-295 que salvou 34 náufragos de um bote em chamas no Mediterrâneo

Carlos Abreu

Jornalista

O vídeo do salvamento de 34 migrantes num bote em chamas, este domingo, no Mediterrâneo, já correu mundo. A filmagem foi feita pela tripulação de um C-259 da Força Aérea Portuguesa ao serviço da operação Índalo, da Frontex, a agência da União Europeia responsável pelo controlo das suas fronteiras externas.

Aos comandos da aeronave que descolou pela manhã da Base Aérea de Málaga, sul de Espanha, estava o capitão piloto-aviador Diogo Bento, que se estreou em missões no Mediterrâneo em 2011, ainda como copiloto, na operação Triton, a partir da Sardenha. Haveria de regressar a Itália no ano passado, já como piloto-comandante, e cumprir mais dois destacamentos para a Frontex.

Em entrevista ao Expresso, este oficial da Força Aérea com cerca de 1300 horas de voo no C-295 conta como tudo aconteceu no domingo. E garante que jamais esquecerá esta missão.

Qual era o principal objetivo desta missão?
Era uma missão de rotina como muitas outras que cumprimos durante o destacamento durante a qual vigiamos as águas do Mediterrâneo na área que nos está atribuída da 'Operação Índalo' [da Agência Frontex] com o objetivo primário de detetar embarcações com possíveis migrantes ilegais a fazer a travessia de África para a Europa e outros objetivos secundários como por exemplo identificar algumas embarcações a praticar atividades ilícitas.

A que horas descolaram de Málaga?
Descolámos a meio da manhã, para uma missão que tinha uma duração prevista de cinco horas.

Durante a missão detetaram esta embarcação e estariam a fazer o seu seguimento quando tudo aconteceu, certo?
Sim. Recorrendo aos sensores, entre outro equipamento que temos a bordo da aeronave, o operador tático e o operador de sistemas [dois dos militares que integram a tripulação] detetaram esta embarcação à distância. Pareceu-lhes suspeita e aproximámo-nos para investigar. Ao chegar mais perto confirmámos visualmente que se tratava de um barco com migrantes ilegais. Era um barco de borracha, como já deve ter visto nas imagens e nós, quando o vimos, calculámos que estariam a bordo 30 a 40 pessoas. A partir daí mantivemo-nos na área e estávamos a fazer o report desse contacto para o centro de coordenação da Frontex, em Madrid.

A partir daí, deveria ter sido Madrid a enviar socorro?
Normalmente, informamos os centros de coordenação, que depois passam a informação recebida aos centros de coordenação de busca e salvamento marítimo. São estes organismos que estão encarregues de encaminhar meios de socorro para a embarcação em dificuldades.

Este domingo, seguiam a bordo do C-295M da Força Aérea ao serviço da Frontex seis militares: piloto-comandante, copiloto, um operador tático, um operador de sistemas e dois operadores de cabina

Este domingo, seguiam a bordo do C-295M da Força Aérea ao serviço da Frontex seis militares: piloto-comandante, copiloto, um operador tático, um operador de sistemas e dois operadores de cabina

Foto Força Aérea

Este domingo, de um momento para o outro a embarcação incendiou-se. Como é que tudo se passou a bordo da aeronave quando se aperceberam dessa situação?
Quando identificámos a embarcação ela ainda se encontrava em perfeitas condições. Ia a navegar com motor e permanecia estável. Pouco depois de termos feito o report para o centro de coordenação [Madrid], enquanto estávamos a acompanhar a embarcação, à espera de ordens, é que o incêndio ocorreu.

Assim que vimos a embarcação em chamas e as pessoas a saltarem para o mar, reportámos a situação às entidades competentes, neste caso o centro de coordenação da Frontex, em Madrid, o centro de coordenação de busca e salvamento marítimo, em Almeria [Sul de Espanha], e para o Comando Aéreo [da Força Aérea Portuguesa], em Lisboa, a informar da situação e a pedir diretivas. As diretivas foram de acordo com o que estávamos à espera, tendo em conta que tínhamos um barco em chamas e 30 a 40 pessoas na água. Parecia-nos claro que teríamos de enviar algum tipo de auxílio.

O centro de coordenação de busca e salvamento marítimo, em Almeria, imediatamente lançou o alerta para todos os meios navais que estavam na área, solicitando-lhes que se dirigissem para o local o naufrágio. Depois de lançar este alerta falou connosco e pediu-nos para confirmamos se tínhamos, ou não, algum equipamento de sobrevivência a bordo que pudéssemos lançar. Pela tipologia das missões que realizamos aqui, ainda que se trate de vigilância marítima, também vimos sempre equipados para fazer busca e salvamento. Assim que confirmámos ao centro de Almeria que tínhamos essa capacidade, solicitaram-nos, de imediato, que fizéssemos o lançamento do kit de sobrevivência.

Como é que é lançado este kit de sobrevivência?
Identificamos as condições meteorológicas e o tipo de embarcação, porque a forma como abordamos a embarcação e lançamos o kit varia em função do tipo de embarcação. Fazemos uma primeira passagem junto ao nosso alvo, onde lançamos uma marca de fumo que nos dará depois uma referência visual. Damos a volta e fazemos então a passagem final. Depois, à ordem do piloto comandante, que é apoiado pelo copiloto, os operadores de cabine atuam o sistema na rampa [porta na retaguarda da aeronave] que é aberta até ficar na horizontal para que o kit, que está dentro de uma gaiola, seja largado. Quando a ordem é dada, os operadores de cabine acionam uma manivela que faz com que a gaiola se abra e, por gravidade, o kit sai para o exterior na aeronave que nesse momento voa a baixa altitude.

Que kit é este? É um bote salva-vidas ou têm mais algum equipamento adicional?
O kit é composto por quatro partes. Tem dois barcos salva-vidas e tem dois kits de sobrevivência. Ao largarmos um kit, lançamos estas quatro coisas em simultâneo, porque estão presas entre si por um cabo de 120 metros.

Quantas pessoas cabem neste dois barcos?
Dez pessoas em cada um.

O C-295M configurado para vigilância marítima está equipado com um radar suplementar que permite detetar "barcos, manchas de poluição, bidons a boiar, e até golfinhos", conta o o capitão piloto-aviador Diogo Bento

O C-295M configurado para vigilância marítima está equipado com um radar suplementar que permite detetar "barcos, manchas de poluição, bidons a boiar, e até golfinhos", conta o o capitão piloto-aviador Diogo Bento

Foto Força Aérea

Pode falar-me um pouco do C-295M VIMAR, isto é, de vigilância marítima? Que tipo de sensores equipam esta aeronave?
Temos capacidade de fazer vídeo em modo normal ou infravermelhos. Esta aeronave está equipada, como tantas outras, com um radar meteorológico, mas tratando-se de uma aeronave militar tem mais algumas funcionalidades. Mas para além do radar meteorológico, temos um segundo radar que permite uma deteção ainda mais precisa de contactos marítimos. O nosso é muito bom: deteta barcos, manchas de poluição, bidons a boiar e até golfinhos.

Este destacamento em Málaga termina no final do mês. Pode avançar alguns números que permitam caracterizar o trabalho já feito e que ainda têm pela frente?
A operação Índalo decorre durante todo o ano. A participação da Força Aérea é feita de acordo com as solicitações da Frontex versus a nossa disponibilidade operacional. Fazemos muitas coisas em simultâneo. A Esquadra 502 está constantemente a trabalhar em várias frentes. Este destacamento na Frontex é mantido em simultâneo com o alerta que temos na BA6 [Montijo], com os destacamentos na ilha de Porto Santo [Madeira] e na ilha Terceira [Açores], além de todas as outras missões operacionais que vamos cumprindo a nível nacional e internacional Aqui na Frontex, não participamos sempre na mesma operação. Neste momento estamos a participar na Índalo mas este ano também já estivemos na Triton, que decorre em Itália. No passado, também participámos na operação Poseidon, na Grécia e também já estivemos destacados em Dacar [capital do Senegal]. O local dos destacamentos varia de acordo com as necessidades e solicitações da Frontex à Força Aérea. Por cada mês de permanência nestas operações a Frontex pede-nos uma participação com 100 horas de voo. Desta vez estaremos durante cerca de dois meses na operação Índalo.

Quantos militares integram este destacamento em Málaga?
Este destacamento é constituído por cerca de 15 militares. Além dos tripulantes que seguem a bordo da aeronave também temos pessoal de manutenção, comunicações e de suporte à missão. Além disso, também temos um inspetor do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e um elemento da Guarda Civil espanhola, que funciona como oficial de ligação com as autoridades do país hospedeiro.

No domingo, depois de aterrar, havia motivos para comemorar?
Claro que sim. Muitos motivos para comemorar. Um orgulho enorme. Já tive oportunidade de falar com algumas pessoas e para mim foi um orgulho, mas acima de tudo um privilégio. Desde que estamos a operar com esta frota de C-295, foi a primeira vez que foi realizado um lançamento de um kit numa missão real. Nunca tinha havido a necessidade real de lançar o kit para socorrer náufragos. Isto traz logo um sabor diferente. Correu bem, e quando assim é, ficamos excecionalmente agradados. E sinto-me privilegiado por dois motivos. Em primeiro lugar por fazer parte desta equipa. Esta missão correu bem porque foi executada por uma equipa excelente onde todos os militares tiveram um desempenho excecional. Em segundo lugar, por ter tido a oportunidade de estar eu a comandá-la. É um marco na nossa história pessoal, na história da Esquadra 502, na história da Força Aérea. Nunca esqueceremos esta missão.