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Portugueses lideram criação de vacina inovadora com 80% de eficácia contra a malária

Paula Bronstein/GETTY

Ensaio clínico a voluntários começa a 6 de junho na Holanda. A doença matou 429 mil pessoas em 2015, na sua maioria crianças africanas

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

Conseguir produzir uma vacina contra a malária com uma eficácia de pelo menos 80% durante mais de um ano na pessoa que é vacinada, é o objetivo de uma equipa internacional de cientistas de Portugal, Holanda e EUA, liderada pelo Instituto de Medicina Molecular (iMM) da Universidade de Lisboa, um dos principais centros de investigação nacionais nas ciências da vida.

O primeiro ensaio clínico em voluntários saudáveis "vai decorrer a 6 de junho nas cidades de Roterdão e Nijmegen, na Holanda", revelou ao Expresso Miguel Prudêncio, dirigente do laboratório com o seu nome no iMM, o Prudêncio Antimalarial Strategies Lab. "Neste ensaio clínico vamos usar uma versão da malária responsável pela infeção de roedores, conhecida como Plasmodium berghei, com o objetivo de induzir proteção contra a doença em seres humanos", explica o coordenador do projeto.

Há outros grupos de investigação internacionais a desenvolver vacinas contra a malária com o mesmo nível de eficácia (pelo menos 80%), mas a equipa internacional liderada pelo iMM apostou numa abordagem absolutamente inovadora: usou processos de engenharia genética e conseguiu inserir no genoma do parasita de roedores o gene que codifica a proteína do parasita muito mais agressivo e responsável pela infeção em seres humanos, o Plasmodium falciparum.

"A vacina é um parasita de roedores geneticamente modificado para expressar um antigénio do parasita humano", esclarece Miguel Prudêncio. Ou seja, o parasita de de roedores - o Plasmodium berghei - foi mascarado de Plasmodium falciparum. O ensaio clínico a realizar na Holanda foi baseado em dados previamente obtidos pela equipa do iMM em estudos animais feitos em ratinhos, coelhos e macacos. O coelho foi o modelo animal mais usado.

Voluntários expostos a picadas de mosquitos infetados

Durante a primeira fase do ensaio na Holanda, dezoito adultos saudáveis serão recrutados e expostos a diferentes números de picadas de mosquitos infectados com a versão genéticamente modificada do parasita. Se tudo correr bem, os voluntários passarão para uma segunda fase do ensaio onde será testado o efeito protector da vacina, conhecida como Pb(PfCS@UIS4).

"Oficialmente, não existe nenhuma vacina contra a malária, uma doença que matou 429,000 pessoas em 2015, na sua maioria crianças africanas", sublinha Miguel Prudêncio. O candidato mais avançado a uma potencial vacina será testado em três países africanos no início de 2018, mas a comunidade cíentifica ainda está a tentar desenvolver uma vacina que tenha níveis de eficácia superiores para poder ser usada em campanhas de erradicação.

A Pb(PfCS@UIS4) é considerada uma abordagem mais robusta no desenvolvimento de uma vacina contra a malária "pois permite uma resposta imune eficiente", considera o investigador. O grande objectivo da comunidade científica que estuda malária é conseguir produzir uma vacina com uma eficácia de pelo menos 80% para conseguir assim eliminar e eventualmente erradicar a doença.

Uma ideia "revolucionária"

"A ideia de que uma vacina animal possa imunizar humanos é revolucionária", destaca Miguel Prudêncio, "e por isso tivémos de fazer um conjunto de procedimentos que nunca tinham sido feitos antes por outros cientistas", como manipular geneticamente um parasita animal seguro, que não causa danos em seres humanos, mascarando-o de parasita humano.

O desenvolvimento da nova vacina pelo iMM, onde a maior parte do trabalho experimental coube ao biólogo António Mendes, foi feito em colaboração com a MVI - Malaria Vaccine Initiative, nos EUA, e o Centro Médico da Universidade de Radboud, na Holanda. A MVI financia o ensaio clínico e os parceiros científicos e é apoiada principalmente pela Fundação Bill & Melinda Gates, que já financiou projetos da equipa de Miguel Prudêncio no valor global de 1,34 milhões de euros.

"O ensaio que agora se vai iniciar exige um orçamento de cerca de 1,5 milhões de euros", refere o investigador. "A coordenação clínica do ensaio cabe aos holandeses mas depois a avaliação dos resultados será feita pelo iMM". Mas esta é apenas a primeira fase do processo, que envolve apenas dezenas de voluntários. As fases seguintes vão mobilizar centenas e depois milhares de pessoas e será necessário fazer ensaios da nova vacina em populações específicas, como mulheres grávidas e crianças. "Até chegar ao mercado, o desenvolvimento da nossa vacina pode demorar dez anos ou mais", admite Miguel Prudêncio. "E nesta fase do processo ainda não sabemos se vamos conseguir chegar a um nível de eficácia de pelo menos 80%."