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Guia para uma educação feliz

ILUSTRAÇÃOALEX GOZBLAU

Desde que o bebé nasce, até ao fim da adolescência, os pais vão ter de fazer um difícil equilíbrio entre amor e disciplina. E de uma forma permanente. A parentalidade não tem botão de ligar e desligar

Carolina Reis (texto), ALEX GOZBLAU (ilustração)

A princípio era a rigidez. Nela se baseava a relação entre pais e filhos. As crianças cresciam ensinadas a obedecer, num mundo de regras sem exceção. Foi assim até ao fim da II Guerra Mundial. Depois, veio o instinto. Benjamin Spock, pediatra americano, tornou-se famoso ao romper com os cânones de rigor, incentivando os progenitores a confiar nos seus instintos. “Confie em si mesmo. Sabe mais do que acha que sabe”, lê-se nas primeiras páginas do livro “The Common Sense Book of Baby and Child Care”, lançado em 1946. Uma obra que vendeu 50 milhões de exemplares, tornando-se um best seller do século XX. Nascia um método de educação mais flexível — visto por muitos como mais permissivo — que aconselhava a ouvir a criança e a tratar cada uma como um indivíduo.

A seguir veio o amor. T. Berry Brazelton, outro pediatra americano, veio defender que o que as crianças precisam é, afinal, de amor e disciplina. Nada mais do que isso. “É uma nova forma de ver o mundo. É a importância dos afetos, paixão, emoção, da aprendizagem”, diz João Gomes Pedro, pediatra e presidente da Fundação Brazelton Gomes Pedro.

Educar sempre foi um desafio. Agora, tornou-se mais difícil ter a certeza do caminho certo. Nas livrarias, multiplicam-se os livros e as teorias. Desde “Idle Parenting”, de Tom Hodgkinson, que defende apenas três regras para as crianças: deixá-las sozinhas; deixá-las sozinhas; deixá-las sozinhas; à “Maneira Dinamarquesa de Educar”, de Jessica Alexander e Iben Sandahl, com uma fórmula baseada na felicidade; ao slow parenting de Carl Honoré, que propõe menos atividades. Há, contudo, quem defenda que se volte ao passado e se instale uma ditadura dos pais, como defende o pediatra líbio Aldo Naouri. Já Javier Urra, psicólogo espanhol e especialista em comportamento infantil, acredita que os filhos são uns pequenos tiranos e são já eles que mandam nos pais (“O Pequeno Ditador” e “O Pequeno Ditador Cresceu”).

É compreensível que as dúvidas dos pais sejam muitas. Até que ponto devem ser impostas as regras? Quando se aplica um castigo? Abre-se uma exceção para, durante uma noite de medo, deixar dormir a criança na cama dos pais? Dá-se uma palmada em caso de birra? Ou ignora-se e deixa-se a criança a chorar e espernear? Com que idade se deixa ir sozinho para a escola? E sair à noite? E se o adolescente quiser começar a fumar? Com que idade se fala de sexo? Puxam os pais o assunto ou pedem ajuda a tios e amigos? No fundo, como se equilibra o amor com a disciplina?

Variam as respostas, mas o objetivo é sempre o mesmo. Criar um ser humano feliz e capaz de sobreviver (e viver) sozinho fora do ninho. Na secreta expectativa de que saiba sempre o caminho de volta.

Esse objetivo obriga a um percurso, que começa cedo. Ainda com o bebé na barriga, nos dias finais da vida intrauterina, os pais pensam na educação que vão dar aos filhos. É aí que acontece o primeiro contacto com o pediatra que irá acompanhar a saúde e a evolução comportamental do bebé até chegar, pelo menos, à adolescência. “É muito sinal dos tempos, há 20 anos ninguém se lembraria de perguntar sobre educação aos pediatras. As perguntas tinham a ver com doença. O pediatra era um médico que tratava doenças e que aconselhava situações de saúde, hoje funciona como um autêntico guru e isso vai deslocalizar o que é essencial”, diz Gonçalo Cordeiro Ferreira, pediatra e diretor clínico do Hospital da Estefânia.

Os pediatras são hoje guias para uma educação de sucesso, acreditam os pais. O objetivo é criar crianças felizes, dizem os médicos. Escrevem livros, dão palestras, vão a programas de televisão, são seguidos por pais ansiosos com todas as dúvidas e mais algumas. Mário Cordeiro, um dos mais mediáticos e conceituados em Portugal, acredita que existem, pelo menos, “1333 perguntas para fazer aos pediatras”, como titulou num dos seus livros. “Aparecem escondidas nas gavetas do quotidiano, debaixo dos móveis das rotinas, por entre as árvores da enorme floresta que é o percurso de vida de um filho. E aproveitam-se, também, dos medos, receios e mitos que povoam a nossa mente e, no fundo, a história antropológica da Humanidade. Se descobrirem uma mãe ou um pai sem dúvidas, será um caso urgente, seja de médico ou de polícia”, escreve no livro. Autor de três bíblias (“O Grande Livro do Bebé dos 0 aos 12 meses”; “O Livro da Criança, do 1 aos 5 anos”; “O Grande Livro do Adolescente, dos 10 aos 18 anos”) desvenda o segredo do sucesso da educação: está no amor e no respeito. São essas as bases de toda a vida, independentemente da idade.

O bebé, um ser inseguro

Os bebés nascem inseguros. Num mundo ideal, só deveriam nascer depois dos 18/20 meses de gestação. “Os primeiros meses são uma incubadora cá fora. Nas primeiras semanas chora, desalmadamente, quando tem fome, mas depois começa a perceber que a comida afinal chega”, explica Mário Cordeiro. Nesta fase, as dúvidas são quase ao nível de sobrevivência. Como se dá banho ao recém-nascido? Como se combate a febre? Quais são as regras para o sono? Dar biberão é mesmo melhor do que dar de mamar?

Os primeiros dias de vida são de grande proximidade entre mãe e bebé. É uma necessidade biológica, mas que não afasta o papel do pai. “Durante os primeiros três meses, o bebé precisa muito do contacto com a mãe, de estar muito junto da mãe”, frisa Gonçalo Cordeiro Ferreira. A partir daí, pouco a pouco, começa a fazer os seus próprios horários e “tê-lo demasiado ao pé da mãe também já está a perturbar a autonomia que revela”.

Leonor Levy, pediatra e especialista em aleitamento materno, alerta que é essencial que as famílias saibam se o hospital onde o bebé vai nascer cumpre as 10 regras amigas do bebé (ajudar as mães a iniciarem o aleitamento materno na primeira meia hora após o nascimento e não dar tetinas nem chupetas às crianças amamentadas ao peito, até que esteja bem estabelecida a amamentação são algumas delas). “Está provado que deve ser a alimentação exclusiva do bebé durante os primeiros seis meses. Tem benefícios para a mãe e para o bebé, mas a nossa função é ajudar, neste caso, as mães. E há mães que não vão ter possibilidade de dar de mamar (às vezes por causa do trabalho) e não podem ser crucificadas por isso”, defende. No seu “Manual de Aleitamento Materno”, estabelece que “a intervenção em pediatria corresponde a atuar nos períodos críticos ou melhores períodos da vida humana (...) através da promoção de práticas saudáveis, e neste contexto tem especial relevância a prática de aleitamento materno”. Neste caso, os pontos de viragem dividem-se entre o 3º trimestre de gestação, para falar com o pediatra sobre o regime alimentar do bebé; o estabelecimento da lactação; e os primeiros 15 dias depois da alta, altura em que se estabelece a amamentação.

São dias de muita ansiedade, ainda para mais quando se trata do primeiro filho, levando os pais a ceder a todas as teorias. “Quando o bebé nasce está aflito, porque pensa que vai morrer de fome. É conveniente, sem criar desamparos, dizer-lhe calma, a mãe está a aqui. Conversar com o bebé, dizendo-lhe espera, estou aqui, confia em mim”, sublinha Mário Cordeiro.

É uma forma de estabelecer algumas regras e rotinas, importantes desde o início. O que também é um ato de amor. Os bebés — que aprendem às três semanas a desenvolver a arma de sedução que é o sorriso — alteram a vida dos pais mas não podem ser eles a ditá-la. “Não há amor sem educação e sem disciplina. Um amor que permite tudo não é amor. Amor é estabelecer uma relação com o outro com uma enorme educação bidirecional”, destaca Mário Cordeiro.

As regras não se interiorizam à primeira, requerem repetição. E para isso é preciso paciência e tempo, duas fundamentais armas da educação. Ser pai e mãe não permite ligar e desligar. “O amor exige dar e receber. Amar e ser amado. O amor exige comprar limites e guerra”, continua Mário Cordeiro.

Definir fronteiras e impor regras são desafios constantes ao longo da parentalidade, apenas mudam as situações. O sono é uma das principais e primeiras preocupações. “Os miúdos precisam de rotinas, há saltos de desenvolvimento em que acham que dormir é uma perda de tempo. Por exemplo, aos nove meses quando estão a começar a andar”, conta Leonor Levy. Nesta matéria, os pediatras têm muitas dúvidas. Porém, há algumas regras essenciais, como brincar só antes do jantar e ler uma história antes de dormir. “Se acordarem durante a noite, não vamos ao primeiro choro. Vamos se chorar muito, mas não pegamos, não fazemos contacto visual, damos um brinquedo e dizemos ‘tu és capaz’”, aconselha a médica. Os pais estão cansados, o bebé chora, tentam tudo e mais alguma coisa. É normal que queiram ceder à tentação de o levar para a cama, no entanto, aí a criança percebe que aquele comportamento compensa.

Com o gatinhar e os primeiros passos, a criança vai desenvolvendo um processo de sinais emitidos com os progenitores. “Ao primeiro ano de vida começa a deslocar-se, de um sistema da base segura para um sistema de exploração. A mãe é usada como base segura, por exemplo, a criança vai-se a aproximar da ficha elétrica e olha para a mãe para ver se ela a reprime”, explica Leonor Levy. Há pais que deixam os filhos magoarem-se para aprenderem a não mexer, outros que nem os deixam aproximar-se.

O prazo de garantia acaba no dia do primeiro aniversário. A partir daí, cada criança será diferente, consoante as suas características. Nem melhor, nem pior que os outros. Mas estes primeiros 12 meses são cruciais no estabelecimento e relacionamento entre pais e filhos. “Antigamente, os bebés nasciam, na maternidade, e eram levados para longe para a mãe descansar. Às vezes, só voltavam a estar juntos 12 horas depois. Os profissionais mudaram, acreditam agora em coisas que não estão só relacionadas com o biológico. E mudaram também os pais, hoje centrados na descoberta, na paixão, na emoção, na relação com os filhos”, frisa João Gomes Pedro.

A criança, o ser que 
descobre a frustração

Nascem os primeiros dentes, dão os primeiros passos, experimentam a comida dos adultos. O bebé caminha na direção de ser criança. E habitua-se a ser aplaudido, com os que o rodeiam a pedir para repetir as proezas. O bebé é um artista. “Por volta dos 15 meses, dá-se o apogeu do quero tudo já, revelando um narcisismo e egocentrismo que é normal. Pensa: ‘Sou fantástico e maravilhoso, consigo coisas que não conseguia ontem’”, explica Mário Cordeiro.

O bebé olha o mundo a partir de si, todo o mundo existe a partir dele, numa teoria egocêntrica. O mundo existe para o servir. E é aqui que acontece uma das mais importantes fases do desenvolvimento. “Se houver — e espero que haja — limites, sendo que físicos há sempre, faz-se uma barreira. E, afinal de contas, isto não é como eu [bebé] quero. Um bebé ou uma criança têm expectativas, só que, às vezes, estão muito elevadas. E se há coisas que se conseguem, outras coisas geram enorme frustração e desilusão. A partir dos 15/18 meses, a criança começa a perceber essa ‘triste’ realidade”, frisa o pediatra. E, afinal, o bebé não é o dono disto tudo. É a primeira pancada na vida, o que leva a reações. O muro que fica entre realidade e as expectativas falsas é um muro intransponível e a pessoa sente-se desesperada e reage. E é aí que a educação começa.

São anos das birras, de largar hábitos como as chuchas, de descobrir a sexualidade e o prazer (é a altura em que descobrem a masturbação), de aprender a lavar as mãos e os dentes. É a altura em que o cérebro se desenvolve consoante o meio envolvente, em que a autonomia ganha espaço para crescer. “A criança tem uma grande plasticidade. A educação funciona como uma espécie de guião para a autonomia. Há alturas em que precisa de mais autonomia e outras em que precisa de mais segurança”, afirma Gonçalo Cordeiro Ferreira.
Com a construção do caminho da autonomia, os pais vão ter de aprender a dar espaço à criança, mantendo uma certa segurança, ainda que tenham medo. Vão ter de a deixar dar os primeiros passos e cair, mesmo que estejam sempre por perto. Vão-lhe dar um pedaço de côdea para ele comer e ficar com o coração nas mãos com medo que se engasgue, mas sabem que não podem ficar a vida inteira sem lhe dar.

O desafio da autonomia vai variar consoante a idade, mas “há sempre um momento em que tem de ser tomada, depende da maturidade dos nossos filhos”, diz Mário Cordeiro. Aí, vai funcionar o instinto e conhecimento dos pais sobre os filhos, num processo que se repetirá o resto da vida, como quando começar a querer ir para a escola sozinho, a ficar sozinho em casa, a sair à noite ou, antes disso, a começar a comer. Quando a criança começa a querer pegar na colher para comer sozinha (porque é isso que vê os outros a fazer) qual é o primeiro instinto dos pais? É tirarem-lhe o objeto das mãos e serem eles a dar a comida. Sabem que se a criança quiser fazê-lo sozinha vai ficar tudo sujo. “É um sinal de autonomia. Vai fazer uma data de porcaria, mas se a vamos contrariar vai ficar muito dependente. Quer imitar, quer ser ela”, sublinha Gonçalo Cordeiro Ferreira.

Aos 3 anos — os terrible 3 como dizem os britânicos —, novo pico de crescimento, a chamada fase das birras. Novo surto de autonomia e afirmação da identidade. “A vida faz-se de quatro vertentes: oposição, porque o contraponto identifica-se a nós; azar ou sorte e a vertigem, o chegar ao limite, testar o limite das coisas. As crianças fazem a sua vida nestas quatro vertentes, nesses picos de desenvolvimento usam essas vertentes”, define Mário Cordeiro. A educação tem de compreender que crianças são seres que têm menos sabedoria que os adultos. Há que dar-lhes informação e conhecimento, algo que obriga, novamente, a ter tempo.

Nesta fase, contrariada, quando os pais explicam que não pode ter e fazer o que quer, é normal que a criança se atire para o chão a espernear e a exigir. A resposta adequada a este comportamento tem sido estudada por pedagogos e especialistas e, recentemente, tem-se vindo a reforçar a necessidade de dizer não. Mas o problema não é dizê-lo, pontualmente, é dizer não continuadamente. “O problema é manter essa coerência do não”, diz o diretor do Hospital da Estefânia. Nos momentos de crise — em que a criança está aos gritos no meio da rua ou a chamar nomes aos pais — o melhor é ignorar. “Se for a meio da rua é que é pior, porque pode passar um carro. A birra também é uma arma, é preciso desarmá-la”, reforça Gonçalo Cordeiro Ferreira. São momentos em que são aceitáveis as palmadas, “se for no rabo, com fralda, não magoa, é mais pela surpresa, tem de ser feito de forma a surpreender a criança”.

A palmada vale para marcar o momento. Não foi ‘feita’ para magoar. Da mesma forma como as palavras também não foram feitas para magoar. “Bater, seja com o que for, é errado e pode ser considerado um maltrato. Do mesmo modo, humilhar, denegrir, esmagar, são maneiras erradas de educar. A questão é muito simples: se os pais amam a criança não podem agredi-la, seja por palavras ou por atos. Se a amam, mesmo que tenham de vincar a sua autoridade, não podem fazê-lo de um modo que se traduza por rejeição”, Mário Cordeiro in “O Livro da Criança”.

Daí que para este pediatra os castigos devam ser antecedidos de amor. Antes de implementar o castigo, deve dizer-se à criança que ela é querida, que é amada, mas aquele comportamento não é admissível. E é isso que está a ser castigado, não a pessoa.

Para muitas crianças, é também por volta dos 3 anos que se dá a entrada na escola. “Antes disso brincam consigo próprios e não têm a coisa de brincar com os outros. As crianças precisam é de ir para o chão brincar com os pais. Ir ao jardim e subir às árvores”, aconselha Leonor Levy.

Brincar é um verbo chave da infância. E é um brincar sem horas ou atividades marcadas. Não é o estar a jogar jogos nos tablets (um estudo da ERC e da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, revelado pelo Expresso em janeiro, mostrava que as crianças são donas de 63% dos tablets) ou a correr de atividade em atividade. “Hoje em dia, há pouco tempo de brincadeira na rua, pouco tempo para exercício físico não estruturado que é o mais importante que a criança pode ter. Não é bom para a criança ficar agarrada a coisas estereotipadas e com pouca possibilidade, além da escola, de brincar com outras crianças. Quando se tem tempo para brincar esse tempo é mal utilizado”, sublinha Gonçalo Cordeiro Ferreira. A brincadeira tem a ver com a construção de personagens que passam pelo desenvolvimento da imaginação.

Valem mais momentos a brincar com os pais e avós do que brinquedos. Os pais vivem preocupados em dar tudo aos filhos e compram-lhes demasiadas coisas, acabando por desvalorizá-las. “Têm de dar tudo o que podem e, se não podem, não dão”, sublinha Mário Cordeiro. Para os mais pequenos, só as coisas adquiridas com esforço é que têm valor. E é isso que deve ser incentivado. “As crianças habituaram-se a um conforto que está relacionado com bens materiais, foram relegando para segundo lugar os chamados bens espirituais, no sentido do que nos preenche naturalmente”, defende Mário Cordeiro.

O ser humano, como animal que é, tem uma parte endrofínica, relacionada com o bem-estar e o lazer, e outra adrenalínica, que faz mexer, agir, procurar comida, atacar, fugir. A tecnologia veio tornar as coisas mais rápidas e, por isso, deveria ter-nos libertado tempo para o lazer, mas tal não aconteceu. “O tempo do lazer está a ser utilizado em mais do mesmo, em mais atividade. E esse excesso adrenalínico está a desequilibrar o nosso corpo e a fazer com que essa parte, por ser tão fácil, se transforme e leve a uma intensidade de stresse. As hormonas adrenalínicas consomem imensa energia e, quando isso acontece, ficamos carentes de energia e cansados”, continua o pediatra. Na prática, os pais não estão a ensinar aos filhos que são precisos momentos de estar e contemplar. E o lazer é tão necessário quanto as regras.

É nos primeiros anos que o ser humano aprende valores estruturais como o respeito e a honestidade. E é aqui que a criança combate o medo de ser descartada. “Sentindo-se útil, realizada, necessária, única e insubstituível. Desenvolvendo os seus talentos e apreciando-os numa comparação com os outros, admirando-se a si própria. É o autoconceito”, Mário Cordeiro em “O Livro do Bebé”. Isto não é sinónimo de fazê-la sentir que é a melhor do mundo ou que não tem nada a corrigir. É o desenvolvimento da autoestima.

A adolescência, a idade das tentações

O caminho da autonomia dá um salto no fim da infância e princípio da adolescência (10 a 13 anos). Os adolescentes são seres cheios de vontade e opiniões próprias, afastam-se dos pais, e querem explorar sozinhos um mundo cheio de problemas. Onde veem liberdade, os pais veem droga, o sexo, o álcool e o tabaco. Parece que é a mais difícil época da vida. Mas este é o grupo etário mais saudável em Portugal, tanto a nível físico como mental.

O sentimento de pertença transfere-se para o grupo de amigos e colegas. Os pais são as primeiras pessoas contra quem os adolescentes se revoltam. A puberdade — que nas raparigas ocorre entre os 9 e os 14 e nos rapazes entre os 11 e os 16 — transforma-lhes o corpo. Chegam os pelos púbicos, a barba e a menstruação, deixando os pais embaraçados em falar com os filhos. É comum que se tenha uma conversa para explicar as implicações práticas daquelas mudanças. Porém, não é com uma conversa como ritual de passagem que se fornece a melhor informação. “As coisas não se resolvem com conversas, mas com abertura. O que os miúdos devem saber é que têm no pai e na mãe pessoas que são capazes de estar lá quando eles tiverem necessidade de dizer ou de perguntar alguma coisa. Não é preciso marcar conversas para isto”, frisa Gonçalo Cordeiro Ferreira.

Outro erro é considerar que a sexualidade começa na adolescência, o ser humano por si só é um ser sexual. “A crise dos 40 é capaz de ter consequências tão ou mais graves do que a dos 15, mas as defesas são diferentes e a maturidade para resolver as questões substancialmente maior”, Mário Cordeiro em “O Grande Livro do Adolescente”. É também a época da beleza, em que as borbulhas despertam na pele, e da vaidade. “Passados os 12 anos, em média, os pais devem meter-se pouco nestas coisas da vaidade e reservar o contacto com os filhos (que já é tão escasso) para assuntos bem mais importantes”, Mário Cordeiro, em “O Grande Livro do Adolescente”.

Nesta altura, os pais têm tendência a sobrevalorizar os primeiros namoros e caem na tentação de querer decidir pelos filhos, que, afinal, ainda ontem eram bebés. No “Grande Livro do Adolescente” — em que alguns capítulos contêm informação para ser lida pelo próprio adolescente —, há algumas dicas para a melhor maneira de conversar sobre estes temas: “A informação tem de ser objetiva, coordenada, para que não haja mensagens trocadas entre o que dizem os pais, os professores e outros agentes de informação; séria e cientificamente rigorosa; integral e contemplando as diversas vertentes; dada de modo eticamente correto.”

O adolescente tem o curto prazo como limite. Não adianta dizer para não fumar por causa do cancro do pulmão. É melhor dizer-lhe que se fumar vai ficar a cheirar a tabaco e terá menos sex appeal. O segredo é dar informação verdadeira adaptada à idade. E é diferente dizê-lo com ou sem cigarro na mão.

Há um medo de que os filhos se exponham a situações perigosas e de que os exponham também, principalmente, quando fenómenos como o bullying e o cyberbullying parecem crescer. A atenção é a melhor arma. Convém lembrar aos pais que, pode não parecer, mas o adolescente não é um ser que lhes caiu de repente em casa. É o filho deles, o que criaram, a quem passaram valores, e que conhecem. Se os pais lhes ensinaram a não serem violentos e a respeitar a consideração pelos outros e pelos bens dos outros não é na adolescência que vão perder esses valores. Mas se o adolescente cresceu a ver os pais envolvidos em violência — seja entre eles ou com terceiros — é natural que tenha uma visão diferente de posse. É o mesmo que dizer aos filhos para dar o lugar aos idosos nos transportes públicos, mas depois nunca o fazer. Eles ouvem um discurso, porém veem outra realidade. “O pai/mãe funciona como um role model. Se for bom, é bom. E se for mau a escola vai ser importante”, frisa Gonçalo Cordeiro Ferreira.

O amor, o respeito, os limites e a ética que os pais transmitem aos filhos em criança sobressaem na adolescência. Depois do afastamento, da revolta, o adolescente/jovem adulto volta ao ninho com uma admiração mais profunda pelos pais. Quando chegar a sua vez de educar, irá fazer as mesmas perguntas. É que o equilíbrio entre amor e disciplina não tem fórmula matemática.