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Sociedade

A mexicana tranquila

Tiago Miranda

Elena Reygadas ganhou o prémio Veuve Clicquot de melhor chef feminino da América Latina em 2014. Num universo marcadamente masculino e muito competitivo, a chef mexicana demonstrou que é possível ter tudo - família e carreira. Falámos com ela esta semana durante a sua primeira visita a Portugal

Elena é uma mulher simples, de olhar frontal porém meigo. Em casa, esta mexicana tem um restaurante reconhecido internacionalmente - Rosetta, que abriu em 2010 -, uma padaria que é um sucesso estrondoso (desde 2012) e um restaurante mais simples, "Lardo", aberto em 2015. Noventa pessoas trabalham para ela. Apesar disto, a chef tem duas filhas, de 8 e 9 anos, contrariando o habitual universo da alta gastronomia, em que há muito poucas mulheres - e as que existem não têm, em regra, descendência. Os horários exigentes colidem quase sempre com uma vida familiar sã e ao fim de anos isso massacra muitas delas.

Contudo, Elena não tem "um segredo". A vida dela foi acontecendo sem que fizesse muitos planos ou se preocupasse de antemão. Ela, que se licenciou em Literatura Inglesa, nunca sonhou que viesse a ser proprietária de restaurantes, de uma padaria, chef aclamada - e mãe. Mas tudo isso aconteceu. Hoje tem uma perna numa ementa mais tradicional, "que encolhe cada vez mais", e outra numa mais experimental, que está sempre a crescer. E os seus espaços na cidade do México estão sempre cheios.

No início esteve sempre a cozinha. As duas avós de Elena estavam sempre lá e ela cedo se lhes juntou. A mãe organizava as festas e os convívios, a comida estava presente em todos os momentos. "Olhei sempre para a comida como uma forma de encontro, algo para chegar ao outro", conta, à sombra de uma amoreira no pátio do Hotel Vila Galé, em Paço de Arcos. Mas nunca pensou fazer disso profissão. "A cozinha era apenas algo que existe e se transmite, não algo que se aprende na faculdade."

Por isso, quando chegou a hora de escolher um curso, a opção recaiu em Literatura Inglesa. Mas nos verões, quando as aulas terminavam, Elena regressava às cozinhas de restaurantes, onde adorava trabalhar. Foi só quando o irmão mais velho lhe pediu que assegurasse o 'catering' de um filme que ia rodar (o irmão de Elena é cineasta) que ela percebeu que era aquilo que queria fazer para sempre. "Era aquilo que me fazia feliz. Foi quase uma epifania."

Elena Reygadas conversa com um colega na cozinha do Eleven, em Lisboa. Foi a primeira vez que veio a Portugal

Elena Reygadas conversa com um colega na cozinha do Eleven, em Lisboa. Foi a primeira vez que veio a Portugal

Tiago Miranda

MADONNA SAÍA PELAS TRASEIRAS

Aos 25 anos, rumou então para Manhattan, em Nova Iorque, onde estudou intensamente durante um ano, no French Culinary Institute. "Foi uma altura de muita aprendizagem. Aprendi a fazer todos os clássicos, a fazer pão", que se tornaria num dos seus produtos de assinatura. Um ano mais tarde, já casada com o namorado da juventude, arquitecto, estava em Londres. Ele dava aulas, ela trabalhava em restaurantes - primeiro num espanhol, depois num italiano, que apostava em gastronomia de produto. "Vivíamos com muito pouco dinheiro mas éramos muito felizes."

Esse restaurante não era apenas "um restaurante italiano". Era o Locanda Locatelli, espaço que tinha uma estrela Michelin e visita regular de muitas celebridades. "Madonna almoçava çá todos os dias e saía pela cozinha, para não ser fotografada pelos paparazzi. A Rainha chegou a comer lá uma vez. O Príncipe Carlos ia lá muito, com Camilla Parker-Bowles. Tony Blair. A Stella McCartney foi lá uma vez também. Na cozinha gritava-se 'ela é vegan, limpem muito bem as bancadas'." Esta adrenalina alimentava Elena, apaixonada "pela simplicidade daquela gastronomia". "Aprendi a matar enguias, que chegavam vivas, a desmanchar um porco, que vinha inteiro..."

Até que... descobriu que estava grávida. A princípio ficou em choque. "Soube desde logo que as longuíssimas horas que a profissão de chef exigia seriam muito difíceis de conciliar com a maternidade." Então tomou uma decisão: voltaram ao México, onde tinham apoio familiar. Lá, devagar, começou de novo, primeiro com restaurantes pop-up, dando jantares 3 vezes por semana. Comprou um forno de pão, fez muitas provas e experiências, acompanhou a infância da filha. E aí engravidou de novo. Nessa altura, percebeu que tinha de tomar decisões. E decidiu dar o passo em grande: abrir o seu próprio restaurante.

Em 2010, depois de seis meses de obras, inaugurava o "Rosetta", no bairro Colonia Roma, da Cidade do México. O público de Elena aguardava com expectativa. E nos primeiros três anos encheu-se a casa diariamente. De início, apostou na gastronomia italiana, depois, pouco a pouco, foi-lhe adicionando toques de mexicano. É nesse ano de 2014 que a Veuve Clicquot lhe atribui o prémio de Melhor Chef Feminino da América Latina, uma surpresa total para ela, mas também um "shot de energia" e força para continuar. "Sim", afirma, "é complicado ser mulher na cozinha - essencialmente por causa da conciliação com a vida familiar", assume. No seu caso, o apoio familiar que recebeu, da mãe e do marido, foram fundamentais. E tem uma "nana" em full-time, "sem a qual seria impossível" fazer o que faz.

Elena vive muito perto dos seus locais de trabalho - que entretanto passaram de um para três restaurantes. Nunca sofreu de sentimentos de culpa por passar muito tempo longe das filhas, garante, e considera "muito saudável as mulheres trabalharem". "A minha filha mais velha, Lea, adora comer e adora cozinhar. Aos sábados vai ao restaurante ajudar. Adora fazer bolos, especialmente cupcakes. E já percebe que a cozinha demora..."

Do que Elena mais gosta, na gastronomia, é de "partilhar e poder transmitir emoção". Ou de "encontrar um ingrediente mal amado e torná-lo especial", como fez com a "hoja santa", uma erva mexicana que se usa tradicionalmente com feijão e peixe e que ela gosta de usar em gelados e molhos. Uma coisa é clara para ela: cozinhar é um ato de amor.