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O princípio de Daniel

A fotografia de Daniel Rodrigues, vencedora do 1ºPrémio no World Press Photo, na categoria Vida Quotidiana

Daniel Rodrigues

Em 2013, um prémio no World Press Photo resgatou Daniel Rodrigues para o fotojornalismo. Agora, acaba de ser considerado o Fotógrafo Ibero-Americano do Ano. Recorde o perfil publicado na Revista do Expresso aquando do lançamento do seu primeiro livro

13 de maio de 2013, o passado e o futuro do fotojornalismo português estiveram sentados lado a lado na Praça do Município, em Lisboa: à direita, Eduardo Gageiro, verdadeira lenda entre os fotógrafos, então com 78 anos; à esquerda, Daniel Rodrigues, um jovem de 26 anos que, três meses antes daquele encontro improvisado para uma câmara de TV, estava desempregado. Entretanto, saltara para a fama ao vencer na categoria "Daily Life" do World Press Photo (WPP), com a imagem de crianças a jogar futebol num descampado em África. Era o quarto português distinguido no mais prestigiado concurso de fotojornalismo, mas penas o segundo a conquistar um primeiro prémio - Carlos Guarita conseguira-o em 1994.

Estavam ali para a inauguração da exposição "As Freguesias de Lisboa: Passado e Futuro", que a autarquia encomendara a Rodrigues. A jornalista quis saber o que pensava Gageiro - o primeiro português distinguido no WPP, um 2º lugar na categoria de Retrato, em 1974 - do trabalho do jovem talento. O mestre foi tímido nos elogios: o rapaz era novo, o futuro diria se tinha mesmo talento, mas talvez aquela exposição não fosse a melhor amostra do seu trabalho. Ao lado, Rodrigues foi rasgando sorrisos amarelos.

Até que Gageiro questionou a escolha de um fotógrafo que residia fora de Lisboa (Daniel Rodrigues vive nos arredores do Porto) para realizar aquele trabalho. "Desculpe, mas isso não! É sempre a mesma conversa, já enjoa!", disparou, sem aviso. Depois, levantou-se e deixou a lenda a falar sozinha.

A primeira vez que ouvi falar do Daniel Rodrigues foi em 2012, quase um ano antes da distinção que lhe mudou a vida. Uma amiga comum mostrou-me algumas fotos que ele tinha tirado numa missão à Guiné-Bissau, para a qual ele se voluntariara, porque sempre tivera o sonho de ir a África. Eram rostos de crianças e anciãos, putos a jogar à bola descalços, mulheres a amamentar. O Daniel estava naquela altura a dar os primeiros passos na profissão.

Nascido numa família de emigrantes portugueses em França, foi viver aos 10 anos para casa de uma avó em Riba D'Ave, a 40 quilómetros do Porto. Mais tarde, entrou em Física na Universidade do Minho, "só para provar que conseguia". Ficou dez dias, o sonho era outro. Concluiu o curso profissional do Instituto Português de Fotografia, estagiou no "Correio da Manhã" e começou a colaborar com a Global Imagens, a agência responsável pela fotografia de publicações como o "Jornal de Notícias", "Diário de Notícias", "O Jogo", "Evasões" e "Volta ao Mundo". Fazia um pouco de tudo, "de jogos de futebol a acidentes e julgamentos", mas sentia falta da grande reportagem. "Tenho de ser honesto: antes do WPP, não tinha trabalho decente para apresentar."

Só voltei a ouvir falar dele quando a tal amiga me ligou meses depois, em setembro de 2012, aos soluços, a voz entrecortada pelo desespero. O Daniel tinha sido forçado a vender todo o material fotográfico. Quase não tinha trabalho. Recebia 40 euros por serviço, que, muitas vezes, mal cobriam as despesas. "Doeu muito, fiquei revoltado, mas não conseguia pagar as contas. Não ganhava sequer para o gasóleo", contou-me quando, após o anúncio do prémio, a sua luta foi tornada pública.

Houve quem dissesse que a distinção foi um tiro de sorte. Como se a sorte decidisse algo entre 103.481 fotografias de 5666 profissionais de 124 países. Também não foi por falta de sorte que, antes do WPP, o Daniel não conseguiu publicar aquela foto que o resgatou para o fotojornalismo. Houve editores que acharam que o trabalho não se enquadrava na publicação. Ou que o timing não era o ideal. Ou que imagens a preto e branco de miúdos a jogar à bola em África eram coisa já vista. Enganaram-se.

Podiam ter decidido o destino do Daniel, mas o Daniel venceu-os. A sorte não tem nada a ver com isto.

Nunca lhe passou pela cabeça que poderia ganhar. Se não fosse a namorada da altura, não teria sequer concorrido. "Só me caiu a ficha na cerimónia, em Amesterdão, quando estavam a passar as fotos dos premiados". Segundos antes de projetarem a sua foto, começou a tocar uma das suas músicas favoritas, "Nuvole Bianchi", do pianista Ludovico Einaudi. "Na véspera de receber a notícia, tive um dia muito complicado, então pus-me a ouvir aquela música. E, passados três meses, estava ali, a ouvi-la outra vez. Olhei para a direita, olhei para a esquerda, e estava entre os melhores fotógrafos do mundo. Até estou arrepiado só de contar isto."

Depois do prémio, Daniel voltou a Dulombi (ainda sonha atravessar África de jipe) e passou três semanas entre a tribo Awá, uma das comunidades mais ameaçadas da Amazónia, trabalho publicado na "Visão" em setembro. Para o Expresso, esteve 15 dias em Banguecoque a retratar a realidade dos ladyboys, foi ao Brasil ver os preparativos para o Mundial de futebol e fotografou refugiados sírios na Turquia. Colabora regularmente com o diário mais prestigiado do mundo, o "New York Times", e publicou em meios como o "Courrier Internacional", "El País", "Folha de São Paulo", "Die Welt", "Daily Mail", CNN e BBC. Só em 2015, já conquistou 13 distinções em prémios internacionais.

"O Princípio", que reúne 100 imagens de 10 projetos, é mais do que um livro de fotografia. É uma prova de resistência e uma lição de vida. "Podem chamar-me arrogante, convencido ou até louco, mas quero ser o melhor fotógrafo do mundo. E não vou desistir. Já o fiz uma vez, não volto a fazê-lo".

Artigo originalmente publicado na revista E do Expresso a 31 de outubro de 2015