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Sindicato da PSP defende detetores de metais em todos os concertos em Portugal

O controlo policial em festivais de rock e concertos em grandes salas de espetáculo “melhorou bastante” mas “ainda não é o ideal e deveria ser reforçado”, defendem várias fontes policiais

Foto Rui Duarte Silva

Entradas com detetores de metais, revistas mais eficazes, várias barreiras de segurança, maior dispositivo policial. Este é o cenário que muitos defendem à entrada dos festivais e grandes salas de concerto em Portugal para prevenir ataques como os de Manchester. Helena Fazenda, secretária-geral do Sistema de Segurança Interna, revela ao Expresso que “todos os eventos que aqui decorrem estão sempre sujeitos a avaliação de ameaça”

À entrada do último festival de música de Vilar de Mouros, em Caminha, as filas de pessoas exasperavam os que queriam assistir aos primeiros concertos da noite. As autoridades revistavam malas, bolsas e mochilas e proibiam a entrada de garrafas de água ou latas de cerveja. Algo não muito diferente do que se passou nas últimas edições do Alive, em Algés, ou do Rock in Rio, em Lisboa.

Segundo várias fontes policiais contactadas pelo Expresso, o controlo policial em festivais de rock e concertos em grandes salas de espetáculo “melhorou bastante” nos últimos anos mas “ainda não é o ideal e deveria ser reforçado”, principalmente depois dos ataques terroristas na Arena de Manchester, num concerto de Ariana Grande, e no Bataclan, durante a atuação dos Eagles of Death Metal, em novembro de 2015 - atentados que mataram mais de 100 pessoas.

“Devíamos ter revistas mais eficazes, detetores de metais à entrada, colocar mais do que uma barreira policial e um maior dispositivo policial nos festivais e grandes concertos”, sintetiza Peixoto Rodrigues, presidente do Sindicato Unificado da Polícia, da PSP.

Para o dirigente, as promotoras destes eventos tentam contratar o menor número possível de polícias, ao contrário do que acontece com a segurança privada, em geral em maior número. “Mas sempre que acontece um problema têm depois de chamar a polícia. Não faz sentido”, critica. Peixoto Rodrigues defende por isso que o Governo tem de repensar este tipo de medidas, principalmente à luz do que aconteceu esta semana no Reino Unido. “A perceção de risco nestes espetáculos tem de ser reavaliada já que também existem fatores externos a ter em conta”, acrescenta.

Controlo no Super Rock, quando ainda era organizado no Meco

Controlo no Super Rock, quando ainda era organizado no Meco

Foto Nuno Fox

Helena Fazenda, secretária-geral do Sistema de Segurança Interna, revela ao Expresso que “independentemente do grau de ameaça que impenda sobre o território nacional, todos os eventos que aqui decorrem estão sempre sujeitos a avaliação de ameaça”. E acrescenta: “Com base nesta avaliação é, então, definido o grau de ameaça a atribuir a esse evento em concreto e consequentemente são adotadas as medidas de segurança consideradas necessárias e adequadas”. E conclui: “Portugal não tem alterado o grau de ameaça, mantendo-o em moderado”.

Colaboração entre segurança privada e polícia

Do lado da segurança privada, é Mário Lavrador, coordenador de eventos na área da segurança da PROSEGUR, que aponta problemas na forma como as forças de segurança se coordenam. “A lei portuguesa não permite que os ARE (assistentes de recintos de espetáculo) possam fazer revistas por apalpação ou verificar sacos”, ao contrário do que acontece com os assistentes de recintos desportivos, “que têm a mesma formação” e podem fazer as revistas: “Para os ARE ainda não há essa legislação, mas só o nome é que difere”. Segundo a lei nº 34/2013 de 16 de maio, que estabelece o regime do exercício de atividade de segurança privada, tanto os “assistentes de recinto desportivo” como os “assistentes de portos ou aeroportos” têm autorização para “efetuar revistas pessoais de prevenção e segurança”.

Rui Duarte Silva

“Há eventos em que não há dispositivo para isso e nós temos de ter mesas onde as pessoas colocam os sacos, de pedir para retirarem as coisas e espreitar lá para dentro”, critica Mário Lavrador. “Mais do que nunca a polícia e a segurança privada têm de colaborar, mas continua a haver fronteiras. É preciso criar leis que agilizem e clarifiquem estes processos.” E dá exemplos: “A segurança é obrigada a prestar auxílio sempre que a polícia o exija, mesmo que esteja à paisana; mas nestes casos é preciso que o comandante da polícia tenha de assinar um papel, para que essa ajuda fique legitimada, senão chega a fiscalização e somos autuados”.

Promotores portugueses rejeitam alarmismos

A comparação não demorou a surgir: para muitos, o facto de o ataque em Manchester ter acontecido à saída do concerto de Ariana Grande recuperou as memórias dos atentados que tiveram como palco principal a sala de espetáculos Bataclan, onde decorria na altura o concerto dos Eagles of Death Metal.

No entanto, e depois de vários ataques se terem sucedido na Europa recorrendo a métodos diferentes – em Nice, em Berlim, em Westminster e recentemente em Estocolmo os atacantes conduziam camiões, que usaram para abalroar as vítimas –, os principais promotores de espetáculos musicais em Portugal vêm lembrar que o problema pode não estar na segurança que é feita dentro destes recintos e salas, pelo que o ataque de Manchester não deve representar uma preocupação acrescida a quem quer assistir a concertos e festivais de verão.

“O ataque aconteceu fora do recinto do espetáculo, na via pública”, recorda ao Expresso Álvaro Covões, diretor da Everything is New, que organiza eventos de grandes dimensões, como o Alive, e aproveita para comparar o incidente de Manchester a um dos focos dos ataques de Paris – não o Bataclan, mas fora do Stade de France. “Nos espetáculos já existe uma segurança há muitos anos e não tem que ver com estes ataques, mas com impedir as pessoas de levarem objetos contundentes para dentro dos recintos. É um procedimento que só chegou mais tarde ao futebol.”

Para mais, “os eventos estão sempre coordenados com as autoridades”, lembra o responsável. Afinal, a a portaria n.º 102/2014, que regula a segurança nos recintos, especifica que a organização é obrigada a criar um sistema que defina um plano de prevenção e a presença de seguranças no recinto, incluindo o número mínimo de agentes que devem estar presentes no recinto e o parecer das forças de segurança, dos serviços de emergência médica e dos serviços de proteção civil e bombeiros.

Rui Duarte Silva

“Temos de confiar nas autoridades e temos de continuar a viver. Caso contrário, não podemos andar num shopping, ir ao supermercado, sair de casa…”, defende Álvaro Covões. “Em Portugal ainda temos níveis de segurança muito aceitáveis. Os grandes espetáculos e festivais têm um controlo de segurança muito superior a outro tipo de ajuntamentos.”

“Não estou muito preocupado”, confirma Paulo Dias, diretor da promotora UAU, a responsável por trazer a Portugal espetáculos como os do Cirque du Soleil ou dos Voca People. “As pessoas têm de manter a tranquilidade, para não cairmos no risco de já não fazermos nada – a vida tem de continuar.”

Em dúvida depois do ataque de Manchester ficou a presença de Ariana Grande em Portugal, uma vez que a cantora norte-americana tem um concerto que faz parte da sua digressão europeia agendado para 11 de junho no Meo Arena, com a organização da Everything is New. Embora recorde que a cantora tem apenas 23 anos e é “evidente” que o incidente poderá ter deixado marcas psicológicas, ao Expresso Álvaro Covões confirma que por agora “continua tudo como está agendado”: “Não temos informação em contrário”.