Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

A pátria de Camus

michael gottschalk/getty images

Na sequência do atentado desta segunda-feira em Manchester, já reivindicado pelo Daesh, o Expresso republica um ensaio de Henrique Raposo sobre a pátria cosmopolita como defesa contra multiculturalismos, nacionalismos e islamismos

Entre 1954 e 1962, a guerra civil da Argélia foi marcada por três grandes narrativas: a infâmia de Jean-Paul Sartre, a frieza de Raymond Aron, a decência de Albert Camus. Comecemos pelo nauseante pântano de Sartre. Defensor do gulag e da pureza purgante de qualquer adaga revolucionária, Sartre legitimou o terrorismo argelino. A partir do conforto burguês de Paris e em nome de chavões como Revolução ou Humanidade, Sartre defendeu o assassínio dos compatriotas que viviam do outro lado do Mediterrâneo. Como sempre, palavras abstratas legitimaram o desprezo por seres humanos concretos. Em nome do anticolonialismo, Sartre simplesmente não quis saber do destino de um milhão de franceses. Os pied-noirs eram colonos reacionários e, por isso, desprezíveis, descartáveis, espezinháveis.

Para Sartre e, posteriormente, para toda a escola pós-colonial, relativista e multiculturalista centrada em Edward Said, o convívio entre franceses e muçulmanos era inaceitável, os europeus tinham de ser derrotados e expulsos para o mar. Para Aron, a questão não se colocava ao nível da moral, mas no campo da exequibilidade. Na perspetiva aroniana, uma Argélia com presença francesa era inviável, porque os ventos da história exigiam as independências dos povos colonizados; depois de perder a Indochina, a França perderia a Argélia e, nesse sentido, a melhor solução era a retirada organizada dos pied-noirs. Além disso, Aron argumentava com dois pontos-extra. Primeiro, a colonização não trazia qualquer tipo de lucro; com ou sem guerra, a Argélia era um encargo financeiro descartável. Segundo, a coabitação cultural entre franceses e argelinos era impossível, estávamos a falar de dois sistemas de valores incompatíveis. Mas não seria possível aculturar os argelinos aos valores franceses? A resposta de Aron era negativa, até porque a bomba demográfica argelina era incontrolável. Em 1962, já depois do fim da guerra e da fuga apressada e ruinosa de um milhão de retornados franceses, percebeu-se que Raymond Aron teve sempre a razão analítica do seu lado. Contudo, há uma diferença entre razão analítica e decência moral. Na frieza de Aron estava escondida uma desistência perante a grande questão: como alcançar a coabitação cosmopolita entre duas culturas, entre duas etnias, entre duas religiões? Se já era uma questão relevante em 1960 no contexto do colonialismo, em 2016 esta é a questão mais importante de uma Europa marcada pela turbulência das suas comunidades muçulmanas.

Recusando a imoralidade de Sartre e uma certa amoralidade de Aron, Camus não evitou a questão, até porque ele próprio era pied-noir. Odiado pela esquerda sartreana e pelos islamitas argelinos e visto como um ingénuo por Aron, Albert Camus defendia uma Argélia pluralista que permitisse o convívio democrático entre franceses e argelinos; respeitando o mesmo chão comum patriótico, franceses da França, franceses da Argélia, argelinos e mestiços podiam viver juntos. Quando a guerra civil rebentou, o autor de “A Peste” criticou os dois lados. Contra os nacionalistas argelinos, Camus argumentou que a luta contra a submissão não se fazia com ataques terroristas que chacinavam populações civis. Ao contrário de Sartre, Camus via a Humanidade em seres humanos concretos e não em palavras abstratas. Além de mais, não fazia sentido lançar uma purga sobre a presença francesa; o sonho de um ano zero que limpasse século e meio de colonização europeia era uma utopia que acabaria num mar de cinzas sem Fénix à vista. Contra os colonos franceses, Camus criticou o absurdo que era o silenciamento de nove milhões de árabes e magrebinos. Um milhão de colonos brancos não podia governar nove milhões de muçulmanos sem consentimento institucional. Por esta razão, Camus defendeu reformas políticas que canalizassem para o interior do sistema o descontentamento local. O objetivo era a construção de um centro democrático entre a xenofobia branca e o terrorismo árabe; a meta era uma pátria partilhada por democratas franceses e democratas argelinos, uma Argélia autónoma mas integrada na soberania da França, uma Argélia reformada em democracia contra a reação dos colonos radicais e contra a revolução da aliança entre Sartre e islamitas. Como muitas vezes sucede na história, a solução mais decente não teve hipótese. O centro político desejado por Camus transformou-se numa terra de ninguém entre as duas trincheiras da batalha de Argel.

Meio século depois, a batalha de Argel começa a ser transposta para este lado do Mediterrâneo. A sucessão de ataques terroristas levados a cabo por muçulmanos em solo europeu está a criar um clima de tensão quase insuperável entre a maioria branca e a minoria muçulmana. Se revirmos o filme “A Batalha de Argel” (1966), de Gillo Pontecorvo, percebemos que aquele ciclo de violência já foi acionado entre nós: o radicalismo islamita torna impossível o dia a dia, pois a intenção dos terroristas é mesmo essa — levar as autoridades e os cidadãos brancos até ao ponto sem retorno, isto é, o ponto em que qualquer civil muçulmano passa a ser encarado como um potencial inimigo; este medo gera a desconfiança mútua que corrói por completo os laços cívicos entre brancos e castanhos; no final, resta às autoridades a imposição de um estado de emergência que, com o tempo, evolui para uma longa guerra civil. Em 1962, essa guerra civil determinou a derrota da pátria de Camus. Em 2016, não temos esse luxo. Desta vez, Camus não pode perder. O que está em causa não é uma colónia ou província distante, mas sim a própria natureza das democracias europeias, a começar na francesa. A aliança entre democratas europeus e democratas muçulmanos não pode ser uma miragem. Quem acredita na democracia, na liberdade e no pluralismo cosmopolita tem o dever de fazer tudo para construir essa aliança. Por outras palavras, tem o dever de lutar ao mesmo tempo contra islamitas, nacionalistas de direita e multiculturalistas de esquerda, os herdeiros do terceiro-mundismo de Sartre.

A aliança entre esquerda e islamismo radical

Na construção desta aliança, o problema começa logo na dignificação dos reformistas ou liberais muçulmanos, que encontram pouco tempo de antena no nosso espaço público. A direita do choque de civilizações não está disposta a encontrar diferentes matizes nas comunidades muçulmanas; esta direita concebeu um homem de palha, o muçulmano, que é visto como um homem inconciliável com o homem ocidental. Desta forma, Le Pen e a Fox News só estão interessados em ouvir os islamitas radicais, pois esta narrativa nacionalista exige a fusão das palavras muçulmano e fanático. Curiosamente, a esquerda do politicamente correto multiculturalista (que é hegemónica no espaço público) atua da mesma maneira, transformando o radicalismo islamita e antiocidental na única versão visível do islão. É uma das grandes fraudes intelectuais do nosso tempo: em nome da retórica antiocidental à maneira de Said, herdeira do anticolonialismo de Sartre, a esquerda está sempre disposta a defender um movimento cultural e político que só pode ser visto como fascista ou reacionário — o islamismo radical. Seyran Ates (“Der Multikulti-Irrtum”), feminista alemã de origem turca que luta há anos contra esta aliança entre o multiculturalismo ocidental e o islamismo radical, resumiu bem a questão:

“As feministas de esquerda alemãs são paternalistas. Fazem manifestações contra a Igreja Católica, mas insistem em tolerar os véus nas mulheres turcas, porque afirmam que isso permite à mulher turca preservar a sua cultura. Mas o véu não é mais do que uma expressão de opressão.”

Esta fraude intelectual e moral é a própria essência do ar do tempo, e encontra o seu zénite nesta questão feminina. Perante o choque entre uma rapariga muçulmana que quer viver como uma europeia normal e a sua família tradicionalista que quer impor um casamento forçado, os ideólogos da esquerda multiculturalista defendem a tradição representada pela família e não a liberdade de escolha da rapariga. Como diz Nick Cohen, os reformadores e reformadoras muçulmanas são profundamente desconfortáveis para a esquerda:

“Intelectuais de esquerda tratam estes muçulmanos como uma espécie de Uncle Tom, só porque estão disponíveis para trabalhar com o Governo para evitar que jovens se juntem ao Estado Islâmico. E, se estes muçulmanos são criticados, o politicamente correto raramente critica os clérigos radicais que legitimam a violência religiosa”.

Repare-se na perversão que domina o nosso debate: os muçulmanos que procuram harmonizar o islão com a democracia são ridiculizados pela esquerda; são descritos através da caricatura (Uncle Tom) do sujeito que não tem consciência de já foi mentalmente colonizado pelo eurocentrismo. Os marxistas diziam que o proletariado não votava nos partidos comunistas porque estava alienado em relação à sua consciência de classe. Estes pós-marxistas do multiculturalismo repetem a fórmula, dizendo que o muçulmano liberal é um ser alienado em relação à sua consciência cultural. Um traidor, no fundo; não menos do que um vendido. Se estes muçulmanos liberais são ridicularizados, os islamitas são respeitados e legitimados, pois são heróis da luta contra o “imperialismo eurocêntrico”. A fraude até seria cómica se estivesse nas margens do ar do tempo; como está bem no centro da narrativa vigente, é mesmo uma tragédia: de manhã, a esquerda defende os direitos dos gays e das mulheres; à tarde, apoia pela ação ou pela inação o movimento mais homofóbico e misógino, o radicalismo islamita.

O efeito desta aliança entre esquerda e islamismo radical é o silenciamento das muçulmanos e muçulmanas que tentam reformar e democratizar o islão. Nesta atmosfera, nomes como Maajid Nawaz, Irshad Manji ou Seyran Ates não têm nem metade do espaço que merecem. Estas e outras figuras arriscam literalmente a vida para tentar reformar o islão, pelo menos o islão dos muçulmanos a viver no Ocidente, mas são traídos pela esquerda em geral. Aliás, a forma como esta esquerda pós-marxista está a trair os democratas muçulmanos faz lembrar o desprezo que Sartre e afins devotavam aos dissidentes da URSS e de outros regimes comunistas como Sakharov ou Milocz.

É importante perceber que esta forma de pensar, o multiculturalismo, não tem apenas uma dimensão discursiva ou intelectual (também conhecida por “politicamente correto”). O multiculturalismo é em si mesmo uma política de Estado, é um dos braços do Estado social de vários países e cidades europeias. O caso de Birmingham, a segunda cidade do Reino Unido, é um bom exemplo. Em 1985, uma onda de motins rebentou na cidade. Na resposta, as autoridades criaram nove conselhos comunitários para nove comunidades distintas, que passaram a ter assento político na câmara municipal (exs.: African and Caribbean People’s Movement, Council of Black-Led Churches ou Bangladeshi Islamic Projects Consultive Committee). A perversão culturalista desta medida criou dois problemas, um moral e um político. O problema moral está na efetiva anulação do conceito de “indivíduo” e a elevação do conceito de “comunidade”; o indivíduo deixa de ser independente, deixa de ter um livre arbítrio capaz de transcender a sua origem. Por outras palavras, a esquerda pós-utopia marxista encontrou o seu refúgio numa forma de pensar idêntica à do romantismo reacionário do século XIX e início do século XX. Nesta narrativa que detém a hegemonia gramsciana, o muçulmano europeu é prisioneiro de uma única identidade, a religiosa. Nunca se assume que um muçulmano tem capacidade ou interesse em ser conservador, liberal, reacionário, fascista, revolucionário, socialista, ambientalista, feminista, etc. Assume-se que o muçulmano só pode ser muçulmano. É por isso que o termo “muçulmano moderado” é perverso, representando bem o racismo escondido do politicamente correto: o muçulmano é visto como alguém que só consegue pensar através da religião, restando-lhe apenas uma variante: ser pouco fanático (os tais “moderados”) ou ser muito fanático (os radicais).

O problema político é evidente: as comunidades passaram a lutar entre si pelos recursos do orçamento municipal; o convívio cosmopolita entre pessoas de diferentes etnias e religiões não só é negado do ponto de vista filosófico e moral como é estimulado politicamente. A identidade de cada indivíduo, seja ele negro, castanho ou branco, deixa de ser republicana, constitucional e patriota e passa a ser culturalista, tribal e pós ou antipatriota. Não há cidadãos, apenas muçulmanos do Bangladesh, muçulmanos do Paquistão, negros das Antilhas, chineses, etc. Os direitos (quer os civis quer os sociais) deixam de depender de um conceito de cidadania universal e passam a depender de uma fidelidade rácica e tribal, numa espécie de apartheid financiado pelo Estado social. Como defende Kenan Malik (“Multiculturalism and its Discontents”), é neste ponto que começa a perversão da retórica antirracismo que tutela o politicamente correto: a igualdade deixa de ser uma luta pela paridade legal de todos os indivíduos independentemente da sua raça ou religião e passa a ser a defesa de direitos culturais ligados a uma determinada raça ou religião; cada comunidade passa a ter o seu conjunto específico de direitos e deveres completamente distinto dos restantes. Em consequência, perde-se o centro vital, o chão comum partilhado por todos, a pátria cívica. Os efeitos práticos desta viragem da cidadania patriota e cosmopolita para uma pertença comunitária e fechada foram desastrosos. Em 1985, os motins tiveram de facto origem na pobreza: negros, muçulmanos e brancos juntaram-se para protestar contra os problemas económicos e urbanísticos da cidade de Birmingham. Em 2005, motins surgiram novamente, mas desta vez a luta ocorreu entre negros e muçulmanos.

Na teoria, o republicanismo francês é diferente deste multiculturalismo britânico, alemão, holandês, belga, mas na prática a França encarou os muçulmanos de forma multicultural, como uma comunidade homogénea e separada do grosso da sociedade. Os jovens magrebinos de segunda geração ficam assim presos numa terra de ninguém sem ligação à cultura francesa e sem ligação às tradições dos seus pais. Como diz Olivier Roy, este espaço vazio é aproveitado todos os dias pelo islamismo radical, que fornece uma identidade absoluta a jovens que crescem sem qualquer identidade.

Em resumo, a conversa sobre o “fracasso das políticas de integração” é em si mesma um equívoco, porque nunca existiu uma política de integração na Europa. O multiculturalismo procurou a desintegração; o muçulmano não integrado na pérfida cultura eurocêntrica era o muçulmano que interessava projetar. Os resultados estão à vista.

Cosmopolitismo versus Multiculturalismo

Portanto, é urgente separar as águas entre dois conceitos: multiculturalismo não é cosmopolitismo; o multiculturalismo é uma hidra de diversos nacionalismos, é o exato oposto de uma cidade aberta, plural e cosmopolita. Se um cosmopolita defende a diversidade e a miscigenação no mesmo chão comum baseado na herança do direito natural (os direitos inalienáveis de qualquer indivíduo independentemente da sua origem geográfica, étnica ou religiosa), o multiculturalista defende a diversidade sem mistura, porque recusa a ideia de chão comum, recusa a ideia de que possa existir uma lei universal para cristãos e muçulmanos. Se o cosmopolitismo pugna pela igualdade perante a lei de todos os indivíduos independentemente da sua origem, o multiculturalismo luta pela desigualdade legal das comunidades. Tal como o nacionalismo de Le Pen, Farage, Wildeers e Trump, o multiculturalismo assenta a sua base filosófica no choque das civilizações, na ideia de que raças e religiões não podem conviver no mesmo espaço político. A extrema-direita usa deste pessimismo culturalista para defender a expulsão do “outro”, alegando que o muçulmano é demasiado bárbaro para compreender conceitos como Estado de direito, direito natural ou Direitos Humanos. A esquerda multiculturalista usa este pessimismo para defender a segregação através do Estado social, impedindo que o “outro” estabeleça contacto com as leis e costumes da maioria branca, alegando que o direito natural e o Estado de direito são manifestações eurocêntricas. Para usar os termos clássicos de Ferdinand Tönnies, a extrema-direita, a esquerda multiculturalista e o islamismo radical apostam na romântica e potencialmente fascista Gemeinschaft (comunidade de laços de sangue) contra a Gesellschaft (sociedade de acordos contratuais entre pessoas de diferentes origens); apostam na barbárie do direito de sangue contra a civilização do direito de solo. Contra estas três pulsões que ganharam raízes na Europa, só nos resta um caminho: a defesa da aliança cosmopolita de Camus entre democratas europeus e democratas muçulmanos.

Nos intervalos da enésima legitimação do terrorismo, os herdeiros de Sartre criticarão esta aliança da mesma forma que Said criticou Camus, isto é, considerarão que se trata de um vil produto da velha mente colonizadora que insiste em viciar o muçulmano no ópio ocidental. É uma posição moralmente inaceitável. Por sua vez, grande parte da direita, quer com base no liberalismo aroniano quer com base no radicalismo de Le Pen, dirá que esta aliança é uma ingenuidade. Os liberais aronianos dirão que a mistura cosmopolita entre europeus e muçulmanos até pode ser desejável mas é impossível na prática, os radicais da Frente Nacional dirão que essa mistura é indesejável. A preposição dos radicais é moralmente inaceitável; a desistência intrínseca da preposição aroniana torna-se insustentável a partir do momento em que há milhões de muçulmanos a viver nas cidades europeias.

É verdade que Aron pode voltar a ter razão (e ele costumava ter razão). É verdade que o nosso futuro poderá ser marcado por uma longa guerra civil não declarada. É verdade que o choque de civilizações até poderá ser inevitável. Mas também é verdade que, por enquanto, temos o dever moral de tentar evitar esse choque, temos o dever de procurar o cosmopolitismo de Camus. Se Camus não vencer desta vez, se o cosmopolitismo entre europeus e muçulmanos aculturados à essência do direito natural não passar de uma quimera, se a frieza de Aron vencer de novo a decência de Camus, então o sangue e o pó da história voltarão às cidades europeias.

Pátria

Como Camus bem sabia, não há cosmopolitismo sem raízes, não há ética cosmopolita sem pátria. Um bom cosmopolita é um bom anfitrião que domina as artes da hospitalidade. Ser cosmopolita é tratar bem aqueles que visitam a nossa casa. A jusante, só podemos ser bons cosmopolitas se mantivermos a montante uma enorme estima pela nossa própria casa; só podemos amar a Humanidade se amarmos o vizinho do 4º esquerdo, só podemos ver a Humanidade num estrangeiro se amarmos a nossa rua, a nossa cidade, a nossa pátria. Ora, durante as últimas décadas, o multiculturalismo representou na prática a destruição organizada da nossa própria casa, a erradicação das narrativas nacionais com centenas de anos, a diabolização das nossas religiões (judaísmo e cristianismo) com milhares de anos. Como é que podemos agora reconstruir uma noção de pátria que nos liberte do multiculturalismo e que, ao mesmo tempo, evite o nacionalismo? Isso já é assunto para outra conversa. Por agora, convém apenas frisar que a pátria é mesmo aquilo que andamos a pedir, mesmo quando não temos essa noção. A esquerda celebra a liberalização dos costumes e da moral, celebra até a morte da família, mas reclama contra a liberalização da economia, globalização e desregulamentação da economia que, por exemplo, extinguiu a fábrica como grande centro de comunhão social e os sindicatos como grandes corpos intermédios. A direita celebra a liberalização da economia, mas critica a liberalização dos costumes, sentindo-se perdida numa sociedade que despreza os laços religiosas e familiares. Apesar das diferenças, esquerda e direita estão a pedir a mesma coisa: a pátria, esse espaço onde sindicatos, empresas, igrejas, famílias, associações e clubes se juntam numa lealdade de fundo ao mesmo chão comum. Como diz Robert Putman desde 2000, andamos a jogar bowling sozinhos. Se queremos evitar uma longa guerra civil com islamitas e se queremos manter a essência das nossas democracia abertas, temos de reaprender a jogar bowling juntos, temos de reaprender a articular a palavra pátria, temos de voltar à decência de Albert Camus.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 27 agosto 2016