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Brandos costumes?

Quadro de Almada pintado para decorar as paredes do Bristol Club, lugar de coabitação dos brandos costumes nacionais nos anos 20

fundação Calouste Gulbenkian

O moralismo português do século XX provém de um caldo ideológico para o qual tanto contribuíram a esquerda como a direita. Salazar e o Estado Novo agradeceram

Está por fazer a história do moralismo em Portugal no século XX. Sem ela, arriscamo-nos a não conseguir compreender o caldo ideológico que está nas origens do salazarismo e do Estado Novo. Por moralismo entendo os apelos a um comportamento dito normalizado. E o caso do “Ballet Rose”, em 1967, com caçadas a meninas menores de catorze anos, envolvendo um ministro de Salazar, talvez corresponda a um momento tardio desse tipo de história.

Por exemplo, em 1914, no jornal “Mundo Moral” — publicado em nome das Ligas Antialcoólica, Antitabagista e da Liga portuguesa da moralidade pública , considerava-se ser absolutamente necessário “desalojar desta terra os livros de aventuras, eróticos, banais e pornográficos” (redatores Luciano Silva e Eduardo Moreira, n.º 5, 1-3-1914, p. 2). Uma das maiores preocupações recaía sobre postais e fotografias pornográficos, expostos em montras para a rua.

Outros círculos, nomeadamente de republicanos, convergiam na mesma atitude. Augusto Casimiro denunciou as hesitações nos processos de decisão política em relação à participação dos portugueses na Grande Guerra. E procurou situar tais responsabilidades — ou a falta delas, no tempo de um Sidónio germanófilo e hesitante — num quadro caracterizado pela “indisciplina moral, a amoralidade, a intoxicação política, o abandalhado dos caracteres, que só nos dá a magoada impressão dos organismos que nada retemperará” (“Nas trincheiras da Flandres” (1917), 1919, p. 12).

Seria talvez fastidioso, mas necessário, compilar os apelos à normalidade, em livros e jornais da época. No final da década de 1920, ao falar das grandes mudanças, Raul Brandão elencou o fim da família, ao lado do egoísmo e da “febre de gozar”, tudo protagonizado pelas “grandes oligarquias políticas, económicas e financeiras”. Mais: que o jogo tomara “uma importância capital nesta sociedade que se dissolve”. E, às condenações da roleta, seguia-se a das práticas sexuais devassas — o grande barómetro da mesma dissolução. Por um lado, “o pecado sexual já não é pecado”. Por outro lado, Lisboa, apesar de ter sido sempre uma terra depravada, passara a ser “uma cloaca”. E a prová-lo estava o facto de, no passado Carnaval, ter havido “um grande baile de pederastas numa escola da Graça”. A ajudar à festa, publicavam-se “livros de versos dedicados a homens por homens, e entre os manifestos e folhetos espalhados figura a 'Sodoma Divinizada' (“Vale de Josafat”, Relógio d’Água, pp. 94-135).

Num tal discurso moralista, novos ricos, jogo, roleta, mulheres depravadas e homossexuais à solta caracterizavam a “cloaca” em que Lisboa se tinha transformado. Quando é que se iniciara tal processo ou, pelo menos, quando é que surgira a perceção moralista de que estava em curso uma dissolução dos costumes? Raul Brandão, por volta de 1928, sustentou que tudo começara há cerca de 20 anos. O que supunha recuar até à morte de D. Carlos (1908) e da subsequente implantação da República (1910). Trata-se de uma cronologia discutível, uma vez que sinais de uma degenerescência, cruzados com preocupações científicas ou religiosas, podem ser encontrados muito antes.

O médico Ferraz de Macedo — contemporâneo da discussão médico-legal do crime do Dr. Urbino de Freitas que, com amante em Lisboa, fora acusado de envenenar com uns bombons a família do Porto — publicou, em 1902, um pequeno livro intitulado “Os Devassos: concupiscentes e sodomitas, pathologia e crimes”.

Muitas outras perceções de degenerescência e decadência dos costumes poderiam ser apontadas. Porém, a periodização de Brandão funciona como uma hipótese destinada a fazer a história não só do discurso moralista relativo à dissolução dos costumes, mas também do processo que viu nascer uma modernidade, constituída por novas práticas, movimentos e instituições. Entre nós, José Augusto França, Irene Vaquinhas, José Barreto e Paulo Drumond Braga são, hoje, quem mais sabe acerca do processo onde modernidade e moralismo se confrontaram.

Em 1917, foi o crime de Serrazes, no solar dos Malafaias. Em 1918, Alfredo da Cunha, diretor do “Diário de Notícias”, acusou a mulher de loucura, por esta ter fugido para Santa Comba Dão com o motorista. Em 1923, a Liga de Ação dos Estudantes de Lisboa fez campanha contra a homossexualidade e um livro de António Botto. Este fora publicado pela editora Olisipo de Fernando Pessoa, em 1922, e em sua defesa saíra Raul Leal no referido panfleto, “Sodoma Divinizada”. Por sua vez, na década de 1920, multiplicaram-se, de Lisboa ao Estoril, os tais estabelecimentos noturnos, as grandes festas e a ideia de que estava em curso uma desbunda sexual.

Não estou seguro de que os factos acabados de referir — onde se misturam crimes, escândalos causados pela homossexualidade, pornografia e vida noturna lisboeta — se constituam numa série. Tão pouco considero que a linha divisória entre o bem e o mal — atribuindo a círculos católicos e conservadores uma espécie de monopólio por excelência do moralismo, como sucedeu no caso da condenação de António Botto — coincida com as divisões políticas que levaram à implantação do salazarismo e do Estado Novo. Neste quadro, as divisões parecem ser mais imprecisas. Tendo para isso contribuído a existência de solidariedades e cumplicidades da época, hoje difíceis de imaginar.

Valery Larbaud e De la Serna

A conferência sobre Maurice Scève, no Teatro de São Carlos em 20 de fevereiro de 1926, pelo escritor francês Valery Larbaud talvez ajude a compreender melhor o sentido do moralismo cuja história pretendo fazer. A organização do evento coube à União Intelectual, seguiu-se-lhe um banquete, com espetáculo de variedades e dancing no Bristol Club. Larbaud estava instalado no Avenida Palace. Foi nele que recebeu o erudito hispanista Marcel Bataillon, que ensinava e investigava em Portugal, ao mesmo tempo que se encarregava das relações culturais com a França.

Quase meio século decorrido, Bataillon ainda recordava a conversa que tinha tido no hotel com Larbaud. Este confessara-lhe a sua admiração pela erudição e o verdadeiro culto que sentia pelo trabalho de tradução, a ponto de lamentar não ter seguido a profissão de professor universitário. A disciplina académica ter-lhe-ia equilibrado os excessos de liberdade que a sua condição desafogada, de herdeiro das águas de Vichy, lhe permitiu (Bataillon pref., in Larbaud, Alfonso Reyes, “Correspondance 1923-1952”, 
pp. 11-12).

Larbaud visitou a Biblioteca Nacional, onde adquiriu o volume do “Guia de Portugal” sobre Lisboa, e ficou impressionado ao ver os Primitivos do Museu de Arte Antiga. Calcorreou as ruas da Baixa e do Chiado até ao Largo Camões. Considerou o Terreiro do Paço “a mais bela praça da Europa”. Foi ao teatro. Viajou até ao fim de todas as linhas de elétrico, para descobrir os arredores da cidade. Visitou o Jardim Zoológico. Porém, o seu principal encanto foram as varinas de pés descalços da Ribeira, com os seus corpos de estátua comparáveis ao da jovem república portuguesa.

Num desses passeios, encantou-se com o corpo esplendoroso de uma delas. Tal era a beleza da varina que chegou a pensar em lhe dar uma larga quantia em dinheiro — “privando-se de muitas coisas e renunciando à compra de livros” — para a poder ver nua. Conforme confessou — num registo marcado por um sexismo banal, muito comum nas referências às mulheres dos relatos de viagem escritos por homens —, sentia uma enorme necessidade da nudez feminina. Mais: entendia existir um paralelo entre o estudo do nu feminino e o que se aprendia nos livros ou com a música.

A sua descrição de Lisboa estabelece uma outra continuidade: entre a beleza do corpo nu de uma mulher do povo, ao alcance da sua bolsa e os brandos costumes portugueses. Larbaud pensou, mesmo, no agradável que era viver num pequeno país como Portugal: “Um país onde se é feliz e onde — acreditava — se pode viver agradavelmente.” Ou, numa outra formulação, porventura mais precisa: “A alegria portuguesa é uma lenda, mas a politesse portuguesa, a doçura dos costumes portugueses são uma realidade” (“Oeuvres complètes, vol. I”, 1950, p. 259).

Todos estes comentários acerca dos brandos costumes, proferidos por quem exigia requintes no trato e se assumia como um dandy ou um flanêur, correspondem, também, ao modo como Larbaud foi recebido no São Carlos — durante a sessão presidida por António Sérgio e com Ramón Gómez de la Serna na mesa — e no banquete que se lhe seguiu. Difícil será, mesmo, dizer o que provocou nele uma maior impressão: se foi a capacidade do público — que compreendia a língua francesa e mostrava um total à-vontade com a cultura francesa — para o acompanhar nas suas disquisições sobre um poeta quinhentista da cidade de Lyon, interessado no amor e no neoplatonismo; ou se foi o banquete, seguido de espetáculo, no Bristol Club.

Do Vendaval ao Bristol

Logo na abertura do banquete do Bristol, ainda se estava na degustação do consommé, já as dançarinas espanholas cercavam a mesa. Seguiram-se os fados, acompanhados por ilustres guitarristas e cantores. Caloroso foi também o acolhimento proporcionado a Larbaud por intelectuais e artistas dos mais diferentes quadrantes. É que, se a sessão no São Carlos fora presidida por António Sérgio, demo-republicano, ligado ao grupo da Biblioteca Nacional e à Seara Nova, a União Intelectual Portuguesa aglutinava gente de quadrantes opostos. A começar por João de Castro Osório, autor de um dos textos mais importantes do fascismo — A Revolução Nacionalista (1922).

No banquete em homenagem a Larbaud, estavam também: Almada Negreiros (que recitou o seu poema “Histoire du Portugal par Coeur”), Guilherme Felipe, pintor (que lhe ofereceu um quadro onde todos os convivas escreveram o seu nome), José Osório de Oliveira (autor do divertido menu, em que os nomes dos pratos evocavam os títulos dos seus livros), António Ferro (considerado detentor de uma fantasia análoga à de Joseph Delteil), o erudito Bataillon e Gómez de la Serna (que acabou por botar discurso). Tudo isto se passou num espaço, onde “o mobiliário, a decoração, os frescos” formavam um “conjunto totalmente moderno, e mesmo de extrema vanguarda” (idem, pp. 267-270).

Orgulhoso, Larbaud enviou a Gaston Gallimard o menu do banquete, onde figuravam os “Escalopes Nouvelle Revue Française”. Uma evocação da revista literária, publicada pela própria editora Gallimard, que era bem conhecida em Lisboa. Alguns dias depois, Larbaud ainda foi visitar o seu amigo Gómez de la Serna ao Estoril e, logo após, partiu para o Buçaco. Foi em busca do mesmo requinte, mas de uma maior tranquilidade, para poder escrever, conforme confessou a Paulhan, seu amigo e correspondente (Larbaud, Jean Paulhan, “Correspondance 1920-1957”, 2010, p. 42; Larbaud, Allen, 2016, p. 140). Um ano depois, Larbaud reuniu os textos relacionados com Portugal, entretanto publicados na imprensa, num Caderno, no qual incluiu oito gravuras da pintora nascida em Portugal de pais belgas Mily Possoz (1927), os mesmos foram também integrados no livro “Jaune, Bleu, Blanc” (1927).

Gómez de la Serna, que Larbaud acabou por visitar no Estoril, estava bem relacionado com os meios literários de Paris, incluindo neles Larbaud e Remy Gourmont. Em 1919, também ele fora agraciado com um banquete em sua honra, no Cercle Littéraire Internationale (“Automoribundia”, 1948, cap. 51). Acerca de Gourmont, Blaise Cendrars escreveu, mais tarde: “Ele não cria, liberta” (“‘J’écris. Écrivez-moi’ Correspondance Blaise Cendrars Jacques-Henry Lévesque 1924-1959”, p. 126). Aníbal Fernandes traduziu-o para português e Paula Mendes Coelho identificou-o como uma das leituras de Pessoa. Foram as suas cartas, reunidas no livro “Pensées d’une Amazone” (1919), com dezenas de edições, que, em parte, inspiraram Gómez de la Serna no tratamento do lesbianismo. E a insólita figura de Natalie Clifford Barney, destinatária de Gourmont, terá talvez servido de modelo para a Palmyra de Gómez de la Serna. Embora “Chez Palmyre” fosse também o “queer nightclub” da Place Blanche de Paris, que Colette frequentou e descreveu (Anna Klobucka, “Palmyra’s Secret Garden…”, Luso-Brazilian Review, 2013).

Desde 1915, que o grande escritor madrileno descobrira o Chiado e, depois, o Estoril, onde construiu um chalet, primeiro chamado “El Retiro”, depois “El Ventanal”, com dinheiro da herança paterna e de uma lotaria (“Automoribundia”, cap. 64). Carmen de Burgos, sua companheira, deixou uma descrição dessa mesma descoberta de Portugal em La Flor de la Playa, quando o lugar de eleição de ambos era ainda a Praia das Maçãs (1920). No Estoril, viveram ambos temporadas, desde Outubro de 1924. E, numa situação de aperto financeiro, em 1926, tiveram de vender a casa.

No prefácio à novela de António Ferro, “Leviana” (1929), Gómez de la Serna referiu-se à sua experiência portuguesa de isolamento e boémia nos seguintes termos: “tenho que pernoitar muito e talvez definitivamente na Pompeia viva dessa costa do Estoril e temos que salpicar, com os Colares guardados nas caves profundas, as comidas de um otimismo indiferente, solitário e refratário ao mundo inteiro” (“Obras completas, vol. XVI — Ensaios”, Círculo de Lectores, 2005, p. 986).

Na sua passagem por Portugal, Larbaud chegou a pensar em não perturbar o amigo no seu refúgio junto ao mar. Julgava que o espanhol trabalhava no duro, sozinho, sem parar. Comparou-o nisso a James Joyce, sobre o qual escrevia desde 1922 e cuja tradução do Ulisses veio a rever. Em francês, tinham saído duas traduções de Gómez de la Serna com prefácios de Larbaud: “Échantillons” (1923) e “La Veuve Blanche et Noire”, numa tradução de Jean Cassou (1924). Porém, Larbaud acabou por perceber que o amigo espanhol não vivia totalmente isolado, pois estava bem relacionado com os novos artistas e escritores portugueses que o acolhiam e admiravam nos cafés de Lisboa (“Oeuvres Complètes, vol. I”, pp. 263-4). Uma prova dessas relações estreitas, nos círculos literários de Lisboa, por onde circulavam muitos escritores estrangeiros, encontra-se nesse postal, enviado de Lisboa, em 1924, para Gómez de la Serna em Madrid, assinado por Jorge Luis Borges, o seu cunhado Guillermo de Torre, crítico literário e ensaísta, e António Ferro (Carlos García e Martín Greco, “Escribidores y Náufragos”, 2007, p. 66).

Gómez de la Serna publicara, em 1923, a novela “La Quinta de Palmyra” (edição de Carolyn Richmond, 1982; belo estudo de Anna Klobucka, “Palmyra’s Secret Garden…”). A esta obra, Larbaud chamou “sinfonia portuguesa”. A Quinta tinha no centro um palácio frente ao mar, perto de Lisboa. Nela vivia Palmyra Talares, uma solteira, bela e rica. Seduzida, primeiro, por Armando Vivar, que acabou por deixá-la, teve depois vários amantes: o primeiro foi o engenheiro Fausto, o segundo um judeu norte-americano chamado Samuel, ao qual se seguiu Félix, um pianista português, e o próprio narrador. Depois de ter convalescido do acidente que teve com um último amante, o capitão de marinha Bonaventura, Palmyra ficou na companhia de Lucinda, uma amiga lésbica, que foi viver para a sua Quinta. O último capítulo intitulado “Biombo final”, onde se alude ao facto de as duas amigas terem ficado juntas, impede que o leitor continue a praticar o voyeurismo que atravessa toda a novela, abrindo-lhe as portas à livre imaginação.

O ponto de união entre os novos escritores e artistas portugueses — incluindo Ferro, Sérgio, Almada, Guilherme Felipe e os filhos de Ana de Castro Osório, a que se poderiam acrescentar António Soares, Eduardo Viana e Leopoldo de Almeida, representados pelas suas obras — acabou por ser o Bristol Club. Sim, “o Bristol, que a Contemporânea incensava” (José Augusto França, “Os Anos Vinte em Portugal”, 1992, p. 164). O banquete e o subsequente espetáculo, que contou com a participação ativa de Larbaud e Gómez de la Serna, foram também um ponto alto para o seu proprietário Mário Freitas Ribeiro. Embora o Bristol tivesse acabado por ser associado ao mundo da prostituição e da cocaína da década de 1920, as intenções de Mário Ribeiro e o seu interesse pelas artes eram de um outro teor.
Almada em “O Nome de Guerra”, escrito em 1925 e publicado em 1938, também traçou um retrato da vida noturna lisboeta, onde jogo e clubes surgiam associados. E o seu retrato de Judite, por quem Antunes se apaixonou, inclui uma referência a um corpo “bastante viril e, sem por isso, ser masculino” (Ellen Sapega, “Ficções Modernistas”, 1992, pp. 97-117; França, “Os Anos Vinte em Portugal”, p. 145).

O Lux dos anos 20

Reinaldo Ferreira (pseudónimo: Repóter X), em “A Virgem do Bristol Club” (Emprêsa “O Primeiro de Janeiro”, 1930), conta a história de Palmira, órfã que foi entregue ao padrinho, Leopoldo Faustino. A mesma personagem — tal como se fosse uma recuperação da heroína de Gómez de la Serna — também é chamada Palmirinha. O padrinho era diretor do Banco Internacional Português, com muitas influências e interesses, nomeadamente no Teatro do Parque. No livro, há também referências tanto a uma rede de angariação de prostitutas, como à circulação de cocaína na noite de Lisboa, mas o Bristol aparece como um mundo à parte. A sua grande frequência era essencialmente burguesa, com uma mesa onde se juntavam pintores e jornalistas, camaradas de tertúlia, incluindo “o pintor, o Saraiva”. Leopoldo Faustino, quando a menina tinha 15 anos, tentou aproveitar-se da sua posição de tutor. Foi então que Palmira fugiu da casa do padrinho, para não se submeter aos seus intentos. Para sobreviver, trabalhou como corista no Teatro do Parque, até que Faustino, por vingança, fez com que a despedissem. Mas o certo é que Palmira voltou a arranjar um novo trabalho, desta feita como papillon no Bristol Club.

O livro — dedicado “A Mário Ribeiro, o fumador do sonho da nova pombalização de uma Lisboa Moderna e Europeia” — acaba por girar em torno da influência que Palmira exercia sobre os homens, ganhando muito dinheiro, sem se deixar corromper. O Bristol era um clube da moda, seleto, com acompanhantes, que não eram prostitutas, uma vez que ninguém as obrigava a sair do clube com os clientes. Uma das angariadoras de meninas também por lá andava. Num romance sobre o exercício da virtude em ambientes corrompidos, a virtuosa heroína acabou por enriquecer como acompanhante, pois recebia muito dinheiro e prendas, que utilizou para salvar meninas da prostituição. Devendo ainda sublimar-se que, se o Bristol era um espaço corrompido, as intenções de Mário Ribeiro, seu proprietário, eram bem modernas.

No final, tudo se conjuga. António Ferro e António Sérgio acabaram por conviver no mesmo banquete do Bristol, participar na mesma festa e fazer parte da mesma União Intelectual. Na sua caracterização da harmonia e dos brandos costumes lusitanos, Larbaud não errou. E uma história do moralismo da mesma época que não leve a sério os referidos brandos costumes — enquanto representação das elites e de estrangeiros, para justificar ou esconder profundas desigualdades de género e de classe — ficará incompleta.

Se os brandos costumes diluíram as visões demasiado moralistas, também ajudaram a criar uma espécie de consenso, feito de indefinições entre partes opostas. Foi o que aconteceu quando, já na década de 1930, Ladislau Batalha contou a história de um outro caso de enorme ambiguidade: a vida de Floriano que terminou com um final feliz. A sua homossexualidade, vivida inicialmente de forma encapotada, acabara num casamento por conveniência, com uma menina de boas famílias. Porém, não conseguindo consumar o casamento, chegou a pedir à mulher para se vestir de rapaz. Mas nem assim foi capaz de ter relações sexuais. No final, acabou por se divorciar e — tal como a heroína de Gómez de la Serna — libertou-se de uma vida considerada um logro, impossível de aceitar.

Será o Floriano de Ladislau Batalha o diagnóstico certeiro de uma patologia, como à primeira vista se apresenta, ou o testemunho de uma enorme permissibilidade relativa ao modo de espreitar a vida singular de quem se liberta? Não é uma pergunta de resposta fácil. Porquê? Talvez por os brandos costumes, já bem entrado o Estado Novo, estarem para ficar...