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Site português ensina automedicação

Em Portugal há 1230 espaços dedicados à venda de remédios sem receita

Tiago Miranda

“Medicamento Certo” tem o apoio de Bruxelas, mas bastonário dos médicos diz que é “publicidade descarada”

As autoridades de Saúde permitem que os portugueses tratem de si próprios em 66 situações clínicas sem gravidade. Os sintomas ligeiros que podem ser automedicados estão descritos desde 2007 e há pouco mais de um mês fazem parte de uma plataforma online para ajudar o doente a saber o que tem e o que deve tomar.

A ferramenta, “Medicamento Certo”, identifica cerca de 50 dos 66 problemas de saúde ligeiros passíveis de automedicação e ‘prescreve’ apenas medicamentos não sujeitos a receita médica, dos 984 à venda relativos a 302 substâncias ativas. O utilizador acede à plataforma e a uma lista de sintomas, assinala as queixas que tem, introduz os seus dados — como sexo, idade, peso ou doenças crónicas — e recebe a indicação sobre o remédio certo para tratar-se.

O aconselhamento é válido para três dias e acompanhado por uma breve explicação sobre a maleita em causa. Nas situações em que os sintomas indicam um problema de saúde com alguma gravidade, o utilizador é alertado para consultar um profissional de saúde.

“Não podemos acreditar na utopia de que as pessoas não tomam medicamentos não receitados pelo médico. Com a consulta à nossa página, permitimos que o façam de forma consciente e informada”, explica a diretora técnica do projeto, Cristina Silva. A literacia é outro dos objetivos. “Queremos também fazer promoção da saúde porque mesmo entre os profissionais há muitos mitos e muitas ideias erradas.”

Para o bastonário dos médicos, os objetivos da plataforma são outros: “A forma como está organizada a sequência de perguntas e respostas não permite distinguir claramente os doentes que devem consultar um médico ou ter a opinião de um farmacêutico, daqueles que podem fazer automedicação direta, na medida em que permite saltar etapas”. Para Miguel Guimarães, a iniciativa “é claramente mais prejudicial do que benéfica”.

Além da eventual falta de segurança — “o utilizador não deveria poder avançar quando surge um sinal de alarme”, Miguel Guimarães refere ainda que “o resultado final é abusivo, pois orienta de forma clara e direta para um determinado medicamento de marca, que aparece sempre primeiro”. O bastonário afirma que se a prioridade das marcas “for aplicada a todos os sintomas (experimentei dois), estamos perante publicidade descarada”.

A acusação não melindra os autores do projeto: quatro farmacêuticos, entre eles uma professora da Faculdade de Farmácia do Porto, e um engenheiro informático. “Os critérios de ordenação da lista de medicamentos, todos com imagem, são os mais vendidos no mercado e depois por ordem alfabética e temos marcas e genéricos”, diz a diretora, Cristina Silva. “Neste momento não temos patrocínios mas se viermos a fazer publicidade vamos identificar claramente quais são os medicamentos que estamos a publicitar para esclarecer totalmente as pessoas. No limite, a publicidade descarada não é uma crítica, é algo positivo.”

Os autores do projeto reconhecem que há aperfeiçoamentos que podem ser feitos e garantem que tem sido esse o papel dos médicos e farmacêuticos que validam os conteúdos. Por exemplo, passou a ser possível o utilizador organizar a lista como quer, por genérico, por fórmula líquida, etc.

A plataforma foi financiada por fundos comunitários. Obteve o quinto lugar entre 500 candidatos como sendo um projeto inovador em tecnologias da saúde e com potencial de internacionalização. Os fundadores vão voltar a concorrer para agora obterem financiamento para levar o “Medicamento Certo” para Espanha e para a Alemanha. Por cá, continuam à espera de respostas das entidades oficiais.

“A Ordem dos Farmacêuticos já conhece o projeto. Na Ordem dos Médicos estamos à espera de audiência e do Infarmed há um ano que não temos resposta ao pedido para apresentar a plataforma”, afirma Cristina Silva. E ao Expresso também não fizeram comentários.