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Cardeal opositor do Papa esteve em Fátima

Raymond Burke não celebrou missa com Francisco e só subiu ao altar, onde rezou o terço durante a homilia, depois de o Papa abandonar Fátima

António Marujo

Burke, sentado à direita, a rezar o terço na missa de domingo fotografado por um padre

Burke, sentado à direita, a rezar o terço na missa de domingo fotografado por um padre

DR

O cardeal norte-americano Raymond Burke, um dos principais opositores públicos do Papa Francisco, esteve em Fátima no dia 13 de maio, mas não concelebrou a missa da canonização, ficando no meio da multidão.

Já no domingo, o cardeal esteve no altar do recinto a concelebrar a missa presidida pelo bispo de Leiria-Fátima, juntamente com mais algumas dezenas de padres e bispos. Mas durante a homilia de D. António Marto, Raymond Burke passou o tempo a rezar o terço. O gesto foi notado pelos outros padres concelebrantes em redor. Estas atitudes contrariam o que é habitual nas celebrações presididas pelo Papa e são consideradas “graves” por alguns padres que testemunharam ambos os episódios.

Contactado pelo Expresso, o bispo de Bragança-Miranda, especialista em liturgia, diz que “o normal” é qualquer clérigo concelebrar com outro quando estão presentes na mesma missa. Embora, “no caso das celebrações com o Papa, no Vaticano, só sejam chamados a concelebrar os que estiverem” destinados a tal.

Na visita a Fátima, alguns clérigos não conseguiram a acreditação de celebrantes, pelo que tiveram de ficar no meio dos peregrinos, diz ainda o bispo de Bragança. D. José Cordeiro admite que possa ter sido esta a situação de Raymond Burke, pelo que não entende que o seu comportamento seja “grave”, como outros os padre que falaram do caso ao Expresso.

Houve, no entanto, várias situações de padres que, não tendo pedido a credencial a tempo para celebrar com o Papa, conseguiram-na ainda à última hora, de acordo com a porta-voz do Santuário, Carmo Rodeia, que confirma também que o bispo de Leiria-Fátima só soube da presença do cardeal no domingo, quando ele se apresentou para concelebrar a missa da manhã.

Raymond Burke chegara a Fátima na tarde de dia 12, vindo de Roma. Veio acompanhar um grupo dos Estados Unidos, que ficou instalado num hotel do centro da cidade, e que chegou a Fátima pouco depois dele.

Sendo cardeal e estando em Roma, diz outro padre, é normal que Burke tenha passaporte diplomático, o que lhe permitiria aceder, sem grandes dificuldades, à credencial necessária para celebrar com o Papa no dia seguinte.

O Expresso tentou, ao longo da semana, falar com o cardeal Burke para esclarecer as razões destes procedimentos, mas não obteve resposta.

Já o facto de rezar o terço durante uma missa, considera o bispo de Bragança-Miranda, contraria o critério de uma participação “ativa, consciente e frutuosa” que cada crente deve ter, como recomenda a constituição Sacrossactum Concilium, do II Concílio do Vaticano (1962-65), o mais importante texto da Igreja sobre a liturgia. Essa situação é ainda mais grave, quando se trata de um ministro ordenado, como é o caso de um padre, bispo ou cardeal, considera José Cordeiro.

O Papa presidiu à missa da canonização dos videntes de Fátima, a 13 de maio, que foi concelebrada por oito cardeais, 71 bispos e mais de 2000 padres. Entre os cardeais estavam os portugueses Manuel Clemente, José Saraiva Martins e Monteiro de Castro, bem como dois homens de confiança do Papa: o arcebispo de Boston, Sean O’Malley, e o secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin.
O Expresso falou com várias testemunhas, que viram o cardeal em Fátima. Além disso, há várias fotos de Burke na sua página pessoal e em outras páginas de grupos católicos na rede social Facebook.

“Grave desorientação”

Raymond Burke é um dos quatro cardeais que escreveram uma carta ao Papa Francisco a pedir explicações sobre a exortação “Amoris Laetitia” (“A Alegria do Amor”), onde Francisco aborda a doutrina sobre a família.

Na carta dos cardeais, os alemães Joachim Meisner e Walter Brandmuller e o italiano Carlo Caffarra, além do próprio Burke, acusam o Papa de criar, com as suas propostas, “grave desorientação e confusão entre os fiéis”. Fazem, ainda, cinco perguntas sobre pontos concretos do documento que, em sua opinião, contrariam a Bíblia e o ensinamento dos anteriores Papas. Em causa está, sobretudo, a possibilidade de abertura dos sacramentos da reconciliação (confissão) e eucaristia aos recasados.

Burke gosta de celebrar a missa muitas vezes segundo o antigo rito de São Pio X, que é permitido pela Santa Sé como exceção. Neste rito, a missa é rezada em latim e o celebrante está de costas voltadas para os fiéis, utilizando normalmente paramentos faustosos, já em desuso na Igreja.

Várias fotos publicadas nas redes sociais mostram Raymond Burke exatamente em situações desse género, com comentários que lhe fazem grandes elogios (ver caixa). Uma das indumentárias usadas por Burke é a capa magna, uma grande veste com uma cauda, que é depois segurada por outro oficiante. Trata-se de paramentos tradicionalistas, no que é “muitas vezes instrumentalizado por uns, para o ridicularizar e por questões ideológicas, e por outros para fazer propaganda tradicionalista”.

O cardeal Raymond Burke, diz quem com ele já trabalhou, é um homem de “grande fé, íntegro, honesto e sincero nas suas convicções”, de uma “afabilidade e bondade única”. Tem sofrido “as consequências do modo de viver o seu catolicismo e a sua fé, mas sempre com muito amor à Igreja e mantendo o bom humor”.

Enquanto decorria a peregrinação de Francisco a Fátima, um responsável do Vaticano, muito próximo do Papa, desabafava com um responsável da Igreja em Portugal: “Isto está a ser muito difícil”, referindo-se à oposição interna às reformas.
“Nem sempre os sacerdotes correspondem à vontade dos bispos”, disse o alto responsável da Santa Sé. “O santo padre gostava que eles fossem todos santos e entregues à causa do evangelho, mas isso também não tem sido muito fácil de conseguir”, acrescentou, segundo o interlocutor português que referiu o diálogo ao Expresso.