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“É necessário fazer um trabalho de prevenção com os jovens, no sentido de não serem cidadãos passivos. Fazem falta aulas de civismo”

No vídeo de que tanto se fala – o do alegado abuso sexual num autocarro – é também notório o entusiasmo e euforia dos jovens que assistem. Ouvem-se aplausos e gargalhadas. Ninguém diz a ninguém que se pode tratar de abuso. Ninguém se afasta. Ninguém pede ajuda. E há quem filme, num tipo de comportamento que a psicologia tem analisado

“É uma falta de consciência moral. Sempre que uma pessoa deixa de ter sentido moral – nem falo de compaixão ou solidariedade – perde a capacidade de perceber o que pode e não pode fazer ou deixar fazer.” Afirma-o a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos a propósito do vídeo em que uma jovem é alegadamente vítima de abusos sexuais num autocarro no Porto, um caso que foi notícia esta semana. Os outros jovens presentes, que a tudo assistem, reagem apenas com manifestações de euforia, sem questionar. Uma atitude que a especialista justifica pela excitação, sensação que provoca no cérebro uma reação primária, traduzida em atitudes de domínio - algo que pode provocado pelo álcool ou drogas.

O fenómeno de assistir a situações de violência e não reagir em defesa da vítima tem sido estudado na psicologia. Os números mostram que 60% das pessoas envolvidas não reagem por medo, ficando à espera que outros tomem uma atitude. “É necessário fazer um trabalho de prevenção com os jovens, no sentido de não serem cidadãos passivos. Fazem falta aulas de civismo. Os alunos estão na escola e precisam de um adulto de referência com quem gerir estas situações”, defende Margarida Gaspar de Matos, psicóloga.

Já o psicólogo Luís Fernandes – autor de "Cyberbullying, Um Guia para Pais e Educadores" – considera a reação dos jovens, enquanto espectadores, semelhante ao fenómeno do bullying. “Se estivessem sozinhos não teriam a mesma reação. É o chamado ‘efeito em manada’, nem sequer há uma reflexão. Nas suas cabeças dilui-se a responsabilidade.” É como se não fossem suas as ações, mas dos outros.

Este tipo de reação não é exclusivo dos jovens, ainda que seja mais comum em pessoas mais novas. “Os jovens não têm desenvolvido os mecanismos de inibição comportamental que têm as pessoas com mais idade”, diz o pisquiatra Marques Teixeira, da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental.

No caso em questão, em que os envolvidos já são estudantes universitários, Luís Fernandes considera que o comportamento é fruto de uma imaturidade, que é cada vez mais comum em idades mais avançadas. “A fusão grupal vai crescendo, o conteúdo e espectáculo faz libertar uma série de mecanismos muito primitivos”, explica Marques Teixeira. No fundo, é o mesmo que está em causa em rixas de gangues.