Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Precisamos de mais 47 mil pessoas por ano para ainda sermos 10 milhões em 2060

Gonçalo Rosa da Silva

Atrair imigrantes e evitar saídas permanentes é o que Portugal precisa para assegurar a sustentabilidade da sua população. Um estudo divulgado esta quinta-feira quantifica o número de habitantes que seriam necessários em Portugal e prova que mais entradas do que saídas todos os anos até 2060 teriam efeitos positivos na economia e na Segurança Social. Mesmo assim, as migrações só por si não chegam para resolver os problemas demográficos

Portugal precisa de ter mais gente a entrar do que a sair do país todos os anos durante as próximas décadas. Não é novo, mas sabe-se agora que, em concreto, o país precisaria que entrassem por ano mais 47 mil pessoas do que aquelas que saem para conseguir assegurar que em 2060 o país teria os mesmos 10,4 milhões de habitantes de hoje.

Mesmo assim, nem todos os problemas estariam resolvidos, porque esse valor não seria suficiente, por exemplo, para manter a mesma população em idade ativa que temos hoje e, muito menos, para 'inverter' o envelhecimento da população. As conclusões surgem no estudo “Migrações de substituição e sustentabilidade demográfica: perspetivas de evolução da sociedade e economia portuguesas”, conhecido esta quinta-feira, feito por uma equipa de investigadores da Universidade de Lisboa (ISEG e IGOT), ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, Universidade de Aveiro e Instituto Politécnico de Castelo Branco, coordenado pelo sociólogo João Peixoto e financiado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS).

Um cenário em que anualmente entrem mais 47 mil pessoas do que aquelas que saem é considerado “plausível” pelos autores do estudo, tendo em conta que esse já foi o valor registado nos finais da década de 90 e os primeiros anos do novo século em Portugal.

Contudo, está distante daquilo que se regista agora. Segundo os dados do INE, saíram mais 10.481 pessoas do que aquelas que entraram no país em 2015, uma tendência que se tem verificado nos últimos anos. Em 2012, por exemplo, o saldo migratório atingiu o pico mais baixo: saíram mais 37.352 pessoas do que as que entraram.

Alberto Frias

O estudo mostra também o que seria o retrato demográfico de Portugal, caso não houvesse qualquer entrada ou saída de pessoas e a evolução da população estivesse apenas dependente do número de nascimentos e de mortes. Assim, se fechássemos as fronteiras, Portugal passaria a ter 7,8 milhões de habitantes em 2060. “Este declínio seria acompanhado pelo prolongamento do acentuado processo de envelhecimento, tanto no topo como na base da pirâmide etária”, resume o estudo. Passaríamos a ter menos 650 mil jovens e mais 820 mil idosos.

Para além de quantificar quantos imigrantes seriam necessários para manter a população no valor atual, o estudo quantificou também quantas pessoas seriam necessárias para que a população em idade ativa não se alterasse. E, nesse caso, seria preciso que todos os anos, até 2060, entrassem mais 75 mil pessoas, o que, concluem os autores, já são valores “irrealistas”.

Quem cá está não chegará para o mercado de trabalho

O coordenador do estudo, João Peixoto, destaca uma primeira conclusão desta análise aprofundada. “O saldo migratório positivo é essencial para manter a sustentabilidade demográfica, embora não seja suficiente para travar o envelhecimento.”

Para além da parte demográfica, o estudo debruça-se ainda sobre o impacto das migrações na economia portuguesa e na Segurança Social. Traçando alguns cenários para a evolução da economia nas próximas década, o estudo conclui que em todos os casos, com intensidades diferentes, vai haver necessidade de mais pessoas para dar resposta às necessidades de mão de obra.

“O que concluímos é que quem cá está não chega para suprir as necessidades de mão-de-obra para as necessidades de emprego”, afirma Jorge Macaísta Malheiros, professor e investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT), também autor do estudo.

E embora os dados de 2015 mostrem que por enquanto ainda não é criado “emprego suficiente” para dar resposta à procura de trabalho, o panorama irá mudar. “À medida que entrarmos em 2020, entramos em défice e precisamos de mais pessoas”, conclui.” “Se as pessoas não vierem, não é possível ter esta evolução económica esperada, porque não vamos conseguir dar resposta”.

Em particular, as necessidades vão centrar-se em trabalhadores qualificados, o que não é uma “completa surpresa”, diz João Peixoto. “Isso significa que temos de manter a aposta no ensino superior, não podemos deixar sair licenciados e temos de atrair licenciados.”

Já no que toca aos cálculos feitos quanto ao impacto da Segurança Social, a análise focou-se apenas no subsistema de pensões de velhice. Jorge Malheiros esclarece que a ideia não é atrair pessoas para Portugal para garantir a sustentabilidade da Segurança Social, mas o que os dados mostram é que “se tivermos um saldo migratório positivo, o défice do subsistema de pensões da Segurança Social é menos negativo”.

Migrações, a única solução?

Para além de uma maior atração de imigrantes e de uma tentativa de evitar que as pessoas saiam permanentemente do país, tem de haver outras soluções. “As migrações não são a única solução, nem para a demografia, a economia ou sustentabilidade da Segurança Social”, sublinha Jorge Malheiros.

E isso é mais verdade ainda quando se conclui que em nenhum dos cenários – seja fazer com quem entrem mais 47 mil ou 75 mil pessoas do que aquelas que saem – o envelhecimento não é invertido e apenas “atenuado”. Assim sendo, adianta o investigador do IGOT, outras soluções podem passar por “acréscimos de produtividade e redistribuição de riqueza, novos cálculos sobre as contribuições para a Segurança Social ou o reajustamento da transição do trabalho para a situação de pós-trabalho.

“A produtividade prende-se com a aposta clara na qualificação das pessoas”, explica Jorge Malheiros, lembrando que tudo deverá ser complementado com uma política “mais amiga da natalidade”.

“Se tudo for pior do que aquilo que, de forma técnica, sustentamos, espera-se que tenhamos um país mais empobrecido, com menos qualidade de vida, que vai ficando cada vez mais desiludido, menos crente em si próprio. Um país onde a inovação, a criatividade e a disponibilidade para o risco serão menores”, resume, falando ainda da perda de mão-de-obra disponível e de competitividade em relação aos restantes países europeus. “Do ponto de vista demográfico, social ou económico, não teremos condições para ter um país feliz. Será mais triste e desapontado.”