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Aura Miguel: “O Papa Francisco prefere ver a Igreja em convulsão do que a cheirar a mofo”

luís barra

No currículo já conta com 92 visitas papais, 17 das quais com Francisco, e uma entrevista exclusiva para a Rádio Renascença que pediu diretamente a este Papa, “por ele ser tão próximo, como se fosse um pai”. O livro “Conversas em Altos Voos – Encontros e Entrevista com o Papa Francisco”, da vaticanista Aura Miguel, é agora relançado em versão braille e áudio e revela tudo o que a jornalista viveu com “o Papa do abraço e do beijo”

Começou a acompanhar a atividade do Papa e da Santa Sé em 1986, com João Paulo II, que considera um Papa “muito rigoroso e de grande coragem”. Nunca mais parou: hoje, depois de ter acompanhado o pontificado de Bento XVI, o Papa que queria “aprofundar a inteligência da fé”, e de ter conseguido entrevistar o Papa Francisco, o Sumo Pontífice “do abraço e do beijo”, Aura Miguel é a única vaticanista portuguesa que integra habitualmente a comitiva de jornalistas que viajam no avião papal.

Só falhou duas viagens desde que Francisco foi eleito, e sobre essas experiências escreveu “Conversas em Altos Voos - Encontros e Entrevista com o Papa Francisco”, com prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa. Sobre a obra, que relança esta quarta-feira em versão braille e áudio, foi o próprio Bergoglio que gracejou no avião a caminho de Fátima, na semana passada: “Antes de eu vir a Fátima ela escreveu um livro. Agora vai escrever dez!.

Nuno Botelho

Como é que recorda o primeiro encontro que teve com o Papa Francisco? Lembra-se do que disseram um ao outro?
A primeira vez que conheci pessoalmente o Papa Francisco foi na primeira viagem que ele fez fora de Itália, ao Brasil [para as Jornadas Mundiais da Juventude, no Rio de Janeiro], em 2013, pouco depois de ser eleito. Ele não conhecia a maioria dos jornalistas, e fomos apresentados um a um. Foi divertido, porque eu já conhecia a maior parte das Jornadas Mundiais da Juventude, exceto a da Argentina. Ele disse que com ele era ao contrário: “Eu não fiz nenhuma, exceto a da Argentina!.” Ele tem sentido de humor e aproveita qualquer frase ou reação nossa, tem sempre uma resposta na ponta da língua. Nessa ocasião eu disse-lhe que em Portugal era só eu que regularmente viajava com o Papa e que me pediam muito para fazer conferências sobre o Papa, e ele pediu que pedisse que rezassem por ele em Portugal. No voo que fez até ao Cairo, antes de vir a Fátima, eu ofereci-lhe este livro. E disse: “Santo Padre, é um presente que tenho para si para ajudar a preparar a sua visita a Portugal.” Quando vínhamos para Fátima, eu disse-lhe: “Finalmente o senhor vem a Fátima!.” Ele apontou para mim com cara de gozo e disse: “Antes de eu vir ela escreveu um livro, agora vai escrever dez!”.

Já acompanhou os pontificados de três Papas. O que é que é único e distingue Francisco?
Os três têm personalidades e estilos completamente diferentes, todos eles fascinantes. João Paulo II era muito rigoroso e muito jovem, com 58 anos, e foi ele que introduziu o hábito de furar o protocolo, de se aproximar das pessoas. Acompanhei-o também na doença, e foi um grande exemplo de coragem e com grande atratividade, mas por motivos diferentes, pela maneira como enfrentava com a doença. A ligação dele a Fátima é incontornável; foi um pontificado muito rico e com muitas facetas. No caso de Ratzinger, conheci-o antes e entrevistei-o quando era cardeal. Ele tinha a preocupação de aprofundar a inteligência da fé, que ele acha que falta no mundo católico – e é verdade. Como a maioria das pessoas cada vez lê menos, o pontificado passou bastante despercebido, a não ser nos sectores mais intelectuais. Agora temos o oposto, um Papa latino-americano, mais afetivo, do abraço e do beijo. Não é grande erudito ou teólogo – nem sequer acabou o doutoramento – porque ele gosta é de estar próximo das pessoas, no terreno.

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Rui Duarte Silva

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Tiago Miranda

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josé carlos carvalho

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tiago miranda

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tiago miranda

Como é que se deu a oportunidade – ou como é que a conquistou – de entrevistar Francisco?
Eu ia a bordo de um avião com 70 jornalistas, e não há nenhum que não quisesse entrevistá-lo. Arrisquei pedir-lhe uma entrevista por ele ser tão próximo, como se fosse um pai. Ele aceitou, e isso foi desarmante para mim. Pediu-me que contasse a nossa conversa a um dos seus secretários e estive cinco meses à espera de resposta, e eu achei compreensível que ele não tivesse tempo - a bordo do avião vai a CNN, a Reuters, o Le Figaro… Fiz o pedido em janeiro de 2015, e em junho de 2015 ele cruzou-se comigo e disse: “Desculpe, estou em falta para consigo. Devo-lhe uma entrevista.” Foi-se embora, não combinou nada. Voltei a escrever e o secretário voltou a não responder.

Na viagem seguinte, à América Latina, estava preparada e tinha ensaiado um discurso para quando ele chegasse ao pé de mim. Para meu espanto, quando ele chega tira do bolso um envelope e lá dentro estava a minha carta para o secretário, devolvida e escrita à mão com a data e a hora da entrevista, que ficou para 8 de setembro. Só não achei que era um sonho porque estava com a carta na mão! Era suposto a entrevista durar no máximo 40 minutos, mas foi uma hora, com ele sempre bem disposto. Os outros ficaram cheios de dor de cotovelo (risos).

Quantas viagens já fez com ele? Há algum momento que recorde em particular que traduza a personalidade de Francisco?
Fiz 17 viagens com ele, só faltei a duas; e no total, com os três Papas fiz 92. O Papa Francisco põe os discursos que estão preparados de lado e deixa-se confrontar com as circunstâncias reais que tem pela frente, sobretudo em contextos de sofrimento… Recordo-me quando fomos a uma ilha nas Filipinas totalmente devastada por um ciclone e com a ameaça de novo ciclone. Ele pôs-se debaixo da chuva com as pessoas, todo encharcado, pôs a homilia de lado e disse: “Estou aqui para fazer-vos companhia no vosso sofrimento e há certas coisas em que não sei o que dizer.” Também nas Filipinas, com um grupo de jovens que tinha histórias de grande sofrimento, uma deficiente começou a chorar e perguntou porque é que Deus permite o sofrimento das crianças. E ele disse: “Ela fez a pergunta mais difícil de todas, a que eu não sei responder.” Ele não evita as perguntas difíceis. Ele está certo que Deus tem a resposta do amor; mas não sabe qual é, só sabe fazer companhia às pessoas. Ele diz que gostava muito de encarar a igreja como um hospital de campanha em tempo de guerra, onde as pessoas feridas podem procurar a cura.

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Tiago Miranda

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Tiago Miranda

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Luis Barra

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Tiago Miranda

Como descreve a interação dele com os jornalistas? A impressão de ser um homem afável e simpático também passa nesses momentos?
Há de tudo! Os jornalistas sentem-se acolhidos, à vontade para lhe levar as coisas mais incríveis; já levaram “empanadas de carne”, uns pastéis de carne conhecidos na América Latina; uma jornalista já lhe levou sapatos ortopédicos; muitos tiram selfies, um jornalista fez um vídeo com uma coreografia dos filhos em honra do papa.

Também lhe leva alguma coisa?
Eu levo-lhe livros, uma vez levei uma moldura com uma imagem de Nossa Senhora de que ele gosta muito. E imensa gente pede que lhe entregue coisas. Na última viagem, a pastelaria Aloma queria fazer-lhe chegar um saco cheio de pastéis de nata em Fátima. Eu fiz-lhe chegar. Uma senhora também me mandou uns paninhos bordados para celebrar a missa.

Há alguma coisa que nunca lhe tenha dito e gostasse de lhe dizer? Depois da entrevista, sente que ficou com alguma pergunta por fazer ou hoje acrescentaria alguma à lista?
Sabe como é que são os jornalistas: se me deixassem ainda hoje estava a fazer perguntas. Mas faço-as em função das coisas que vão acontecendo, porque tenho a sorte de o acompanhar sempre - e se precisar pergunto-lhe. A minha agenda é a agenda dele. A próxima viagem é à Colômbia, em setembro.

Qual diria que é até agora o principal legado do Papa Francisco à Igreja Católica? Há muita gente que fala de uma revolução do Papa Francisco na Igreja. Concorda com essa descrição?
Não acho que revolução seja a expressão certa. O problema é que a Igreja fica estagnada e acomoda-se. Ele vem despentear a Igreja. Prefere vê-la em convulsão do que a cheirar a mofo. A revolução remete muito para coisas violentas. E ele não é violento; gosta é de uma igreja desinstalada.

Há alguma coisa que nunca lhe tenha dito e gostasse de lhe dizer? Depois da entrevista, sente que ficou com alguma pergunta por fazer ou hoje acrescentaria alguma à lista?
Sabe como é que são os jornalistas: se me deixassem ainda hoje estava a fazer perguntas. Mas faço-as em função das coisas que vão acontecendo, porque tenho a sorte de o acompanhar sempre e se precisar pergunto-lhe. A minha agenda é a agenda dele. A próxima viagem é à Colômbia, em setembro.

Qual diria que é até agora o principal legado do Papa Francisco à Igreja Católica? Há muita gente que fala de uma revolução do Papa Francisco na Igreja. Concorda com essa descrição?
Não acho que revolução seja a expressão certa. O problema é que a Igreja fica estagnada e acomoda-se. Ele vem despentear a Igreja. Prefere vê-la em convulsão do que a cheirar a mofo. A revolução remete muito para coisas violentas. E ele não é violento; gosta é de uma igreja desinstalada.