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Crianças comem 20 pacotes de açúcar por dia 

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No dia em que um estudo elaborado para a Organização Mundial da Saúde dá conta que um em cada dez rapazes portugueses de 11 anos tem obesidade e que os adolescentes estão a consumir menos fruta e vegetais, o Expresso republica um trabalho dado à estampa em dezembro de 2014, que revelava a obesidade infantil era das mais elevadas na Europa. Nessa publicação, baseada num estudo da Direção-Geral da Saúde, afirmava-se que apesar das escolas terem dietas equilibradas as crianças em idade pré-escolar eram então as mais vulneráveis: 65% consumiam bolos e doces uma vez por dia

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

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A novidade é dada com cautela: "Aparentemente, há uma paragem no crescimento da obesidade infantil em Portugal." Quem o diz é o diretor da estratégia nacional para a alimentação saudável, Pedro Graça, que acrescenta ser "ainda cedo para cantar vitória", pois "continuamos a ter das prevalências mais elevadas da Europa". O resultado é amargo, mas tem razões doces.

"Cada criança ingere 20 pacotes de açúcar por dia, sem contar com o resto", alerta Júlia Galhardo, responsável pela consulta de obesidade no Hospital Dona Estefânia, Lisboa.

Os leves sinais de que Portugal está a reduzir a carga na balança infantil, divulgados num estudo da Direção-Geral da Saúde (DGS) publicado na quinta-feira, ainda não têm explicação científica. "Há quem diga que é por ter-se crescido o que era para crescer, mas acho que houve uma mudança de paradigma, com os pais a deixarem de considerar a gordura como formosura.

Também pode ser pela oferta alimentar regulada nas escolas", explica Pedro Graça, diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, da DGS, e responsável pelo estudo. Salienta, ainda assim, que os resultados não refletem a crise.

"Estamos preocupados com o impacto que a atual situação económica vai ter e que só conseguiremos refletir no relatório de 2016." Em causa está a relação entre os maus hábitos alimentares e a falta de recursos. "Há um gradiente social na obesidade, sendo mais elevada nas pessoas desfavorecidas e com menos escolaridade." Isto é, há mais obesidade entre as pessoas com menos rendimentos e instrução.

Segundo a análise da DGS, entre 2012 e 2013 mais famílias manifestaram preocupação em conseguir comprar os alimentos que querem, com o Algarve em pior situação. No geral, 24% dos agregados admitiram nem sempre "comer o suficiente" por falta de dinheiro. E quando assim é, as "famílias tendem a consumir alimentos mais baratos, muito calóricos e que sabem bem, como bolachas, bebidas açucaradas...", salienta Conceição Calhau, professora de bioquímica e nutrição na Faculdade de Medicina do Porto. Os resultados da DGS comprovam: o país tem metade da população com demasiado peso - 3,5 milhões com quilos a mais e um milhão com obesidade - e nem as crianças mais pequenas nem os idosos 'mantêm a linha'. São, aliás, considerados "mais vulneráveis" à "distorção do padrão alimentar" que os peritos afirmam existir entre os portugueses.

Iogurtes magros?

Em idade pré-escolar, sobretudo até aos 4 anos, 65% consomem bolos e doces diariamente, enquanto pizas, hambúrgueres, e batatas fritas entram na dieta até quatro vezes por semana. Metade destas crianças bebe diariamente refrigerantes e néctares.

"É uma barbaridade", resume Pedro Graça. O doce serve, muitas vezes, para compensar outras falhas: "Portugal é o país da OCDE onde as mães estão menos tempo com os filhos e, por isso, não passam informação sobre os alimentos saudáveis." Mesmo quando há preocupação em ter uma dieta saudável as opções nem sempre são as acertadas. "A maior parte dos iogurtes magros, por exemplo, não tem gordura, mas chegam a ter o equivalente a três pacotes de açúcar", alerta a pediatra da Estefânia Júlia Galhardo. "Os pais não fazem a menor ideia dos alimentos que dão aos filhos, porque não leem os rótulos." Há também "algum comodismo".

Por exemplo, no relatório da DGS é referido que durante a semana 98,37% das crianças em idade escolar toma o pequeno-almoço, a maioria em casa, mas ao fim de semana, quando até há mais tempo, a percentagem diminui para 97%. E a presença dos avós nem sempre é uma ajuda positiva. "Os avós transmitem o amor e o carinho pela boca, com o docinho, porque viveram numa época de privação, que já não existe", salienta a médica.

Na população idosa a balança também não dá boas notícias. Metade é obesa e, ainda assim, 32% vivem em risco de desnutrição e 15% estão já desnutridos - sem a massa muscular ou a hidratação necessárias. "Pela primeira vez temos esta realidade que só conhecíamos nos norte-americanos: pessoas aparentemente saudáveis mas mal nutridas", afirma Pedro Graça.

As consequências do peso em excesso não se resumem à estética. "Os hábitos alimentares inadequados em Portugal foram responsáveis por 12% do total de anos de vida prematuramente perdidos no sexo feminino (à frente da hipertensão arterial) e por 15% no sexo masculino (mais do que o fumo do tabaco)", lê-se no estudo.

O ano passado, 16.620 portugueses morreram devido a doenças associadas ao excesso de peso ou à obesidade, como a diabetes ou alguns tipos de cancro, quando em 2011 o balanço não tinha chegado às 13 mil vítimas.

Esta realidade não passa despercebida aos profissionais. Entre os utentes inscritos nos centros de saúde, os médicos registaram mais 51% com risco de obesidade ou já obesos, com quase um milhão de pessoas com demasiado peso. A ajuda não é fácil. "É extremamente difícil, porque a maior parte dos centros de saúde não tem nutricionistas", defende o presidente do Colégio de Endocrinologia e Nutrição da Ordem dos Médicos, Mário Mascarenhas.

"Nos dois últimos anos o número de nutricionistas no SNS tem diminuído", critica a bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Alexandra Bento. Assim, diz ser ainda mais difícil "'alimentar' a literacia da população para saber fazer escolhas saudáveis e baratas, como ovos ou leguminosas secas", precisamente alimentos que a DGS diz estarem cada vez menos no prato dos portugueses.

A falta de resposta nas unidades públicas leva ao aumento da procura no privado, para quem pode pagar.

"Tenho uma grande procura, a lista de espera é de dois meses", revela Isabel do Carmo, antiga responsável pela endocrinologia do Hospital de Santa Maria e há um ano no SAMS. Os hospitais Lusíadas Saúde "registaram um aumento de 15% no último ano" e "as unidades Cuf já realizaram 3816 consultas" só em 2014, revelam os respetivos responsáveis.

No SNS, Júlia Galhordas está a preparar uma resposta na área do Hospital Dona Estefânia. A partir de janeiro, centros de saúde, coletividades ou associações deverão funcionar em rede para responder aos casos menos complexos, evitando o encaminhamento para a lista de espera do hospital.

O cenário global da obesidade em Portugal não é bom, mas podia ser pior. Entre os sinais de esperança, a DGS refere, por exemplo, o elevado consumo diário de fruta e de sopa, embora com sal a mais.

RETRATO NACIONAL

26% foi o aumento registado, pela primeira vez, no consumo de carne de animais de capoeira face a uma redução de 5,6% na ingestão de carne vermelha e de 4% de porco.

O consumo de hortícolas cresceu 5,8% por pessoa, mas ainda aquém dos valores recomendados

52% das crianças até aos quatro anos bebem refrigerantes e néctares todos os dias e 73% consome piza, hambúrguer, batatas fritas e outros snacks de pacote uma a quatro vezes por semana

934 mil e 938 utentes inscritos nos centros de saúde no ano passado tinham excesso de peso ou sofriam de obesidade. O valor traduz um aumento de 51% face aos registos feitos pelos médicos de família em 2011. No mesmo período há uma evolução alarmante: as mortes por anorexia aumentaram 152%, de 161 para 407 vítimas