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A ordem de prisão do médico de Hitler está em Portugal

A ordem de prisão de Karl Brandt é confidencial e elenca os dados pessoais do médico de Hitler, além de enumerar os seus crimes

Foto Cortesia do Museu da Farmácia

O Museu da Farmácia adquiriu sete documentos do Tribunal de Nuremberga, referentes ao programa de eutanásia do III Reich. E vai mostrá-los pela primeira vez por ocasião de uma conferência que decorre esta terça-feira, em Lisboa

Tudo começou por um telefonema de João Neto a Esther Muzcnik. O diretor do Museu da Farmácia queria contar à presidente da Memoshoá uma grande novidade: o organismo de que é responsável havia adquirido em novembro as ordens de prisão de grande parte dos arguidos nos julgamentos de Nuremberga referentes ao programa Aktion T4.

Eram sete documentos comprados num leilão em Inglaterra, entre os quais estão os referentes a nazis de topo, como Karl Brandt — o médico pessoal de Hitler que teve a seu cargo, a partir de 1933, o desígnio de ‘higienização da raça ariana’.

Na mesma ocasião, Esther Mucznik relatou-lhe o seminário de formação que 25 professores portugueses da Memoshoá tinham feito no Castelo de Hartheim, em Linz (Áustria), em finais de fevereiro. Este local — junto a Grafeneck, Brandenburg, Bernburg, Sonnenstein e Hadamar — era um dos seis eixos da operação T4. Uma coisa levou à outra, e a conversa desembocou numa ideia: a de realizar uma conferência sob a chancela conjunta do Museu e da Memoshoá em torno desta temática, onde as ordens de prisão, todas datadas de 1945, fossem mostradas pela primeira vez. “Desumanidade e Justiça: as experiências médicas durante o período nazi (1933-1945)” foi o título encontrado para o colóquio que terá lugar esta terça-feira, às 17h30, no Museu da Farmácia, em Lisboa, e dia 20, às 16h, no Museu da Farmácia do Porto. Com abertura do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, participam os próprios João Neto e Esther Mucznik, a juíza Margarida Blasco e a historiadora Cláudia Ninhos.

Uma secção para a II Guerra

“Como diretor de um museu da história do homem, mais do que de um museu da farmácia, quis trazer para a esfera pública os grandes problemas que a nossa civilização enfrentou. A II Guerra Mundial é um dos que nos está mais próximo e que já tem um passado nesta casa com a aquisição de duas mochilas utilizadas no desembarque da Normandia. É preciso ter os símbolos aqui para poder falar-se sobre os acontecimentos”, afirma João neto. A partir desse momento, a investigação sobre o Holocausto foi uma constante e o diretor da casa anfitriã da conferência passou a perseguir o objetivo de criar uma secção museológica dedicada “ao mais sinistro acontecimento da história”.

A recente aquisição destas ordens de prisão tornam possível que a inaugure já no próximo anos. João Neto multiplicou-se em contactos para conseguir mais elementos ligados à II Guerra Mundial e, ao fim de consolidada uma amizade com um soldado americano do 3º Exército que, em abril de 1945, libertara o campo de Buchenwald, tomou conhecimento mais pormenorizado das atrocidades nazis no domínio da investigação médica e das práticas experimentais em seres humanos. “Queria absolutamente ter um objeto relacionado com a operação T4 para poder aqui falar de tudo o que se passou nos laboratórios criados pelos nazis.”

A oportunidade surge agora. E as provas apontam nomes como Karl Brandt, Herman Schmitz, Fritz Meer, presidente e diretor do consórcio químico I.G. Farben, respetivamente, Fritz Tyssen, médico, e dos financiadores de alguns dos projetos levados a cabo pela operação T4, como Edmund Freiherr von Thermann, Hjalmar Schnacht e Herman Rocling. “Os documentos significam que estas pessoas já eram procuradas por crime. São as figuras de topo que compõem a estrutura que estava ligada àquelas experiências médicas e que procurava resultados para o universo da medicina e da indústria farmacêutica numa perspetiva também económica, mas sobretudo de limpeza e higienização primeiro da grande Alemanhã, depois para o aperfeiçoamento da raça ariana”, explica João Neto.

Encarregado de desenvolver esse programa desde o primeiro momento, Karl Brandt, médico e “sombra” de Adolf Hitler resume a operação com uma frase que o diretor do Museu da Farmácia volta a citar: “Porque é que a Alemanha há de sustentar os deficientes físicos e mentais que não produzem nada para a sociedade? Todos eles devem ser aniquilados”.

Antes da Solução Final

E o que era o T4? Isso mesmo. “Era um programa de esterilização e extermínio dos deficientes, dos doentes e das ‘vidas que não mereciam ser vividas’, usando uma expressão nazi”, explica Esther Mucznik. Para esta socióloga e especialista no Holocausto, a operação T4 iniciada em 1933 — assim denominada em alusão à sua sede, situada na Tiergartenßtrasse nº4 — tem de ser entendida como precursora do extermínio massivo, e sobretudo judaico, que mais tarde viria a ser posto em prática. Conhecer o funcionamento do Castelo de Hartheim permitiu-lhe ficar com a “convicção clara de que os deficientes são as últimas das vítimas, as mais indefesas de todas, as que não puderam reagir de forma alguma e as que não tiveram porta-voz”.

Para Mucznik, a forma como a sociedade europeia lidou com a memória da II Guerra assim o demonstra: “Logo a seguir à guerra, as primeiras vítimas a serem recordadas foram os resistentes. Não só porque a memória não consegue digerir tudo ao mesmo tempo, mas porque era preciso começar-se por algo de positivo”. Mais tarde, a memória europeia resgatou a situação dos países e povos ocupados — não sem alguma vitimização e ainda negligenciando o seu próprio envolvimento. A França, diz Esther, “só em 1995 pediu desculpas pela rusga do Vélodrome d’Hiver, que aprisionou milhares de judeus em trânsito para Drancy e para Auschwitz”. Em terceiro lugar está o reconhecimento do assassínio dos judeus europeus, em quarto o dos ciganos e dos homossexuais, e só em quinto — mais recentemente — o dos deficientes e restantes alvos da loucura eugênica do III Reich.

O Castelo de Hartheim, cuja história e características serão abordadas por Esther Mucznik na conferência, manteve-se em atividade entre 1939 e 1941. Estava situado numa aldeia e os seus moradores podiam testemunhar a chegada de pessoas. “Chegavam e evaporavam-se lá dentro, e a população começou a suspeitar. Essa pressão e a ação conjunta das igrejas católica e protestante, que denunciaram o que lá se passava, determinaram o seu encerramento”, remata a presidente da Memoshoá.