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Como Nossa Senhora apareceu na Malveira

Para assinalar a visita do Papa e o centenário de Fátima, um grupo de católicos gravou numa encosta uma imagem de Maria, com mais de uma centena de metros de altura. O Expresso mostra os bastidores do trabalho

Às portas de Lisboa, bem visível por quem passa na autoestrada para a Ericeira, há uma Nossa Senhora pintada num monte, junto à Malveira.

Para assinalar o centenário das aparições de Fátima e a visita do Papa Francisco, um grupo de católicos da localidade e arredores meteu mãos à obra para fazer crescer no meio da Natureza uma imagem de Maria com cerca de 120 metros de altura.

Em pouco mais de um mês, a paisagem do Cabeço do Cerro foi-se modificando.

Desapareceu parte da vegetação, dando lugar a um desenho em que domina o branco do manto, com pinceladas a imitar o dourado, uma espécie de salmão-rosa a puxar a cor da pele e uns pequenos círculos em azul diamante.

Esta espécie de arte sacra campestre está agora, assim, à vista de todos. No entanto, com uma nitidez à mercê dos humores de São Pedro. As chuvadas deste maio (irregulares, mas por vezes fortes) têm deixado desmaiada a pintura, que já teve de ser reavivada com alguns sacos de cal.

Nos bastidores da obra

Mas escondido de quem apenas contempla a imagem há um segredo que só é do conhecimento de quem subiu a serra nas últimas semanas (como foi o caso do Expresso, que fez o percurso meia dezena de vezes, ao longo das várias fases da empreitada). Não há qualquer milagre na aparição do Cabeço do Cerro: só o trabalho árduo, planificado meticulosamente, fez surgir a imagem.

João Quinto, de 64 anos, é a alma do projeto. Tratou-se de um trabalho de equipa, recrutada com base no voluntariado, mas entre todos foi Quinto, armeiro de profissão, quem mais deu o corpo ao manifesto. E ele está habituado a subir à serra: ainda em 2014, por exemplo, lá colocou o símbolo do Benfica, acabado de sagrar-se campeão nacional.

A poucos dias da chegada do Papa, passadas já as horas de maior canseira, João Quinto faz de cicerone pelas várias fases da aventura. Um trabalho extenuante, só vencido com suplementos de força de vontade, temperada com muita fé.

Uma tarefa pesada à medida de adultos resistentes, mas que não assustou gente de palmo e meio, com idade a caber nos dedos de uma mão.

No Cabeço do Cerro, monte que se eleva a 400 metros de altitude, basta uma manhã de trabalho para esgotar as energias. Lá em cima, com um horizonte que vai da Serra de Sintra à Serra de Montejunto, estar ao ar livre nem sempre é coisa agradável. Pode ser o vento frio que sopra da costa atlântica a infernizar a vida. Ou o sol, por vezes escaldante, a escamar a pele.

Para combater as agruras, há um dia em que o almoço é servido no cume. Uma espécie de piquenicão em habitat pecuário, ou não fossem aquelas encostas espaço reservado ao gado bovino, algum dele bravo, de Manuel Pontes Dias, o dono dos terrenos.

Mas mais do que os contratempos do contexto ecológico, importava era aconchegar o estômago, para enfrentar mais meia jornada de labuta.

Cumprida a missão dos peregrinos do Cabeço do Cerro, ficam os balanços da romaria. Ela pode ser medida pelos números.

Seis toneladas de cal branca e de pó de pedra forram acarretadas serra acima (o declive é uma dura prova, e a diferença de altitude obriga por vezes na ascensão inicial a uma paragem para melhor controlo da respiração).

Já as estacas de aço - para espetar no chão e assim fixar os pontos que, marcados por GPS, permitiram passar do desenho em papel à imagem agora cravada na encosta - foram cerca de 800.

A área limpa à enxada é de meio hectare, superior a meio campo de futebol - com diferença de que não é plana, mas muito inclinada.

Mas da subida ao monte ficam também alguns postais para ilustrar esse dia a dia. Por um lado, mostram bem a azáfama, quase sempre muito dura (embora uma máquina tenha ajudado no transporte, nas últimas centenas de metros de percurso o material foi sempre levado às costas). Por outro lado, os instantâneos apenas se limitam a captar alguns cantinhos da Natureza.

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No final - recolhidas as estacas de ferro, as enxadas, as forquilhas e os ancinhos; guardados os baldes e as roçadoras; e sacudidos os pós de cal e de pedra, e a poeira da terra negra cavada (finíssima, virgem, pois ali nunca chegou a agricultura), que a um leve vento se entranha nos olhos e no nariz -, só há um lamento entre os promotores da iniciativa.

Um brilho às escuras

O projeto previa a iluminação da imagem de Nossa Senhora de Fátima (se não fosse possível na totalidade, pelo menos do crucifixo e da inscrição "Avé Maria, 1917 - 2017"), que deveria ser ligada na noite de 12 para 13 de maio. Só que para custear isso seriam precisos apoios (financeiros, para o gerador e as LED) que nunca chegaram.

João Quinto lança farpas à Câmara de Mafra, concelho a que pertence a Malveira, dizendo que se fosse "para a bola seria capaz de haver muito dinheiro". E remata de novo: "A serra não ganha votos, o que ganha votos é a bola". Reconhece que em reunião havida na sede do município, este estava "disponível para dar alguns sacos de cal (só que a cal já nós tínhamos), mas que não havia dinheiro".

A autarquia, contactada pelo Expresso, justifica a decisão tomada: "É uma iniciativa privada, do mesmo grupo de pessoas que coloca no monte o símbolo do Benfica. A Câmara respeita isso, mas não faz nada (nem contra, nem a favor)".

O único auxílio dado por uma instituição pública saiu da Junta de Freguesia da Malveira, que atribuiu 500 euros, conta Quinto.

Cabeço do Cerro, visto do largo onde se realiza a centenária Feira da Malveira

Cabeço do Cerro, visto do largo onde se realiza a centenária Feira da Malveira

João Quinto diz que o projeto de dar luz à imagem de Nossa Senhora "nem era caro". Nas suas contas, "três mil euros seriam suficientes. E com a serra iluminada a Santa ficava espetacular".