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Onde iria aterrar o Papa e haverá festa do Benfica? Uma história do Pedro e do lobo

Paulo Cunha/Lusa

Fim de semana alucinante, sábado épico, jornada inédita. Muito se tem chamado a este 13 de maio, dia de Fátima, do Santo Padre, do anjo Vitória e do arcanjo Sobral. As notícias, as reportagens, os diretos. O frenesim tem sido imenso. Aliás já começou há uns dias. Amanhã, depois do nascer do sol, era bom que houvesse alguma reflexão sobre o que se passou. Será que tanta agitação na Comunicação Social ajuda a torná-la imprescindível ou banaliza-a e tira-lhe valor?

Diz-nos a experiência dos últimos tempos que não eram precisos tanto eventos para garantir tamanha animação. Viu-se com o Benfica-Porto, e confirmou-se com o Sporting-Benfica, que um só jogo é bastante para alimentar horas de emissão, páginas de jornais e da internet. Para termos um sábado com os televisores aos gritos e as equipas de online reforçadas era suficiente o possível desfecho antecipado do campeonato. Ou o centenário das aparições. Ou a presença do Papa. Até o festival da canção. Não era preciso tanta coisa no mesmo dia.

Foi um desperdício de acontecimentos. Cada um deles renderia, só por si, um arraial. Motivos de falatório e razões para diretos não faltariam. Que maravilha, haver tantos eventos com horários não coincidentes e que permitem uma combinação perfeita.

Após fim de semana tão favorável, será que segunda-feira, nas bolsas, as empresas de comunicação estarão com as cotações em alta? E as vendas e audiências vão recuperar? Ou estará tudo na mesma? Ou vão continuar em queda?

Repare-se como passámos a manhã de sexta suspensos na dúvida sobre onde aterraria o avião que trazia o Papa Francisco: se em Monte Real, se em Figo Maduro. Primeiro seria em Leiria, depois em Lisboa, depois retomou o programa inicial, que o mau tempo dissipara-se.

Esta informação, que mais não seria do que um pormenor, tornou-se ela própria notícia de primeira importância a alimentar expectativas. Com a avalancha da informação, com a necessidade e espaço para se contar tudo, qualquer nota de pé de página ganha estatuto de notícia. O que, há poucos anos, era noticiado num parágrafo secundário, apenas dado para mostrar que se estava atento a tudo o que se passava, e que a informação era dada na totalidade, é hoje título difundido com grandes letras e muitos decibéis.

Isto não desvaloriza a informação? A história do Pedro e do lobo vem a despropósito?

Pode dizer-se que televisões, rádios e jornais divulgam o que as pessoas querem saber. É parcialmente verdade. Se não houvesse quem quisesse ver, ouvir ou ler onde pousaria o Papa, não haveria quem se obstinasse a atualizar o destino ao minuto. Mas também é verdade que cabe aos órgãos de comunicação social divulgarem as informações de acordo com a sua importância relativa. Não é sério querer passar a ética para o lado do consumidor.

Como atua a Comunicação Social determina a importância que acaba por ser dada a cada acontecimento. Um exemplo? O Caso Maddie: quantas crianças desaparecem e quantas tiveram (e têm) aquela cobertura mediática? Há milhares e nenhuma outra a teve. A menina inglesa chegou aos placards dos estádios de futebol.

Jornais, rádios , televisões e net pegam num tema, começam a gritá-lo e, de repente, o que era um caso local transforma-se numa questão nacional. Mas afinal onde acabaria por aterrar o Papa? E será que Luisão vai ultrapassar Eusébio e Coluna em títulos? E Néne? E porque será que “Salvador não tem planos para depois”? Pobre Salvador Sobral, que aparenta querer ser comedido e não o deixam.

Se é preciso valorizar o assunto, a receita é conhecida: fazer umas tantas reportagens sobre temas relacionados (por exemplo: ainda há pastores em Fátima?) e organizar mesas redondas com comentadores conhecidos. Uns novos ângulos de análise alternativa e a coisa torna-se empolgante. Já houve quem teorizasse que o poder da comunicação social vem mais da escolha que faz sobre o que publica e não publica – e do destaque que lhe atribui – do que do conteúdo e orientação que dá à informação (Alain de Botton: As notícias, manual de utilização).

Vemos as notícias porque tememos que alguma coisa importante esteja a acontecer sem que o saibamos. Mas quando o que têm para nos dizer é onde vai aterrar o Papa por causa dos ventos ou que o nosso Salvador ainda não tem projetos caso vença – então é a desilusão. E que dizer do interesse dos inúmeros “inquéritos de rua”, em que se pergunta a incautos transeuntes o que pensam do Papa, de Fátima, do ponta-de-lança do Benfica, do guarda-redes do Guimarães ou mesmo da letra do “Amor pelos dois”?

- Vem de onde? E diga-nos lá: este é o Papa de que o mundo precisa? Este é o treinador que o Benfica deve ter? Esta é a canção que nos representa?

- Bom, eu… - o que disser não interessa nada, o importante é que o espaço está preenchido.

Uma vez mais: que tem a história do Pedro e do lobo com os órgãos de informação? Um não foi salvo quando precisava; os outros tanto se banalizam que estão a caminho de nos deixarem indiferentes.