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Sociedade

O Papa-amor que cala e faz cantar multidões

Lenços brancos marcaram a cerimónia em Fátima

Tiago Miranda

Chegou sério, parecia cansado, mas a energia de mais de quinhentas mil pessoas fê-lo sorrir. Francisco, recebido em Fátima como se estivesse em casa, trouxe dois santos e deixou saudade

Francisco manteve meio milhão de pessoas silenciosas durante quase três horas de emoções vividas com grande intensidade. O Papa chegou mesmo a sublinhar "a eloquência da presença silenciosa dos fiéis", afinal, a manhã deste sábado foi o ponto alto da visita do Sumo Pontífice, que se deslocou a Fátima para canonizar duas crianças."Trouxe-nos dois santos, dois pequenitos", disse o bispo de Liria-Fátima, António Marto. E foi aí, já depois da missa, que as pessoas explodiram, finalmente, em aplausos e vivas aos "muitos pequenitos" presentes no santuário a quem o Papa mandou uma "benção especial, cheia de ternura".

Durante toda a cerimónia, marcada pela pompa da liturgia católica, Francisco manteve-se com a expressão fechada. Notava-se-lhe o cansaço, evidente quando descia as escadas ou se sentava, mas quando ouviu os agradecimentos à sua presença em Portugal, feitos com clara emoção pelo bispo, relaxou. Deixou-se ir na emoção dos peregrinos.

Outro ponto alto foi quando as vozes do Movimento Eu Acredito, que juntou em Fátima cerca de três mil jovens de Lisboa e Porto, se fez ouvir com força. Primeiro, gritaram "Papa, Papa", para, depois, assumirem: "Esta é a juventude do Papa". Ele gostou.

"Todos têm os olhos fixos no Papa Francisco, uma voz claramente audível, num panorama mundial de perigos e medos", sublinhando que ele era "a voz dos que não têm voz". Apesar da concentração de atenções, notava-se a cada ruído inesperado e no constante sobrevoo das aeronaves militares, que a tensão era constante, embora oprimida.

Francisco durante a homilia desta manhã

Francisco durante a homilia desta manhã

Tiago Miranda

Concentração de emoções

A cerimónia foi longa, marcada pela presença das relíquias de Jacinta e Francisco, uma mecha de cabelo da primeira e um fragmento ósseo do segundo, no altar, aos pés da imagem da Virgem.

Quando chegou ao altar, perto das dez, Francisco não estava sozinho. Ao seu lado encontravam-se 135 bispos, dos quais 47 pertencem à Conferência Episcopal Portuguesa, oito cardeais (três portugueses) e cerca de dois mil sacerdotes a concelebrar. Também lá estava Joaquim Cunha, o mais idoso sacerdote português, com 104 anos, a quem o Papa cumprimentou, antes de iniciar a missa.

Imediatamente ao lado do Sumo Pontífice, estavam o cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e o bispo de Leiria-Fátima, o responsável por iniciar o rito da canonização. Depois de recordar a biografia das duas crianças, foi pedida a autorização ao Papa para que as inscrevesse no Catálogo dos Santos, exigido para sejam oficialmente elevados a esta categoria.

Logo a seguir à homilia, durante o cortejo do ofertório, o Papa abraçou e beijou os pequenos Francisco e Jacinta, dois irmãos, filhos de um casal argentino, que foram assim batizados em homenagem aos pastores.

Não foram, contudo, as únicas crianças que estiveram bem perto do Pontífice: na colunata norte da basílica, no lugar destinado aos 350 doentes reunidos para receber uma bênção do Papa, eram vários os casos de meninos e meninas, trazidos pelos pais, em busca de esperança.

A audiência mostrou especial emoção quando Francisco se aproximou dos doentes, elevando-lhes o Santíssimo. E, mais uma vez, exortou o seu povo a reagir: "Não vos considereis apenas recetores de solidariedade caritativa, mas participantes na vida da Igreja."

Antes ainda, a praça central parou para que os sacerdotes de branco levassem a comunhão aos fiéis. Espalharam-se em fileiras e distribuíram-se pelas grades que continham os peregrinos, armados de chapéus de chuva brancos, parecendo mergulhar na multidão num momento forte da cerimónia.

Assunção Cristas e o marido com Marcelo Rebelo de Sousa e Antonio Costa com a mulher e filha

Assunção Cristas e o marido com Marcelo Rebelo de Sousa e Antonio Costa com a mulher e filha

Campiso Rocha

VIP e lenços brancos

A acompanhar tudo, várias personalidades públicas, como a dupla Marcelo-Costa, sempre prontos a comentar qualquer episódio, o general Ramalho Eanes e a mulher, vários ministros, como o dos Negócios Estrangeiros, Justiça, Segurança Interna, Ambiente, entre outros. Um destaque especial veio da voz forte da filha mais nova da deputada do CDS Assunção Cristas. Sem travões, gritava a plenos pulmões "Papa Francisco!". Também se viu o cantor Marco Paulo ou D. Duarte

Chegada a hora de partir, D. António Marto pediu aos peregrinos que rezassem pela saúde de Francisco e anunciou que o Papa partiria, no seu carro aberto, pelo meio da multidão. Foi um êxtase. Francisco disse então, junto às mais de 500 mil pessoas presentes, adeus à imagem da Virgem, abanando sem parar o seu lenço branco. Entrou, a seguir, no papamóvel e, sorrindo, despediu-se dos fiéis, olhando-os nos olhos, como se conhecesse cada um, individualmente. O peregrino partiu, como se estivesse a sair de casa, com vontade de um dia voltar.

Banho de multidão na saída do Santuário

Banho de multidão na saída do Santuário

Tiago Miranda

Do lado de fora, confusão

Do lado de fora da praça central, em redor do santuário, os fiéis gritavam nas ruas "vivópapa", "o Papa é fixe", enquanto passava o carro do Santo Padre, em baixa velocidade em direção à Casa Nossa Senhora do Carmo, situado numa das pontas do Santuário.

Havia pessoas penduradas nas árvores, crianças sentadas às cavalitas dos pais, grupos com paus de selfie a tentar tirar uma foto ao Papa Francisco. Bandeiras de Itália, Argentina, Portugal agitadas no ar. Foram 55 os países presentes à cerimónia. Palmas, assobios, gritos, mãos no ar, cotoveladas, tropeções, sinos a rebate, ruído dos helicópteros que sobrevoavam o recinto.

A confusão era grande nos minutos de despedida. E havia quem se emocionasse, não evitando tirar um lenço do bolso para disfarçar as lágrimas.

Os carros de emergência e as carrinhas da GNR mal tinham espaço para passar entre a moldura humana, compacta como uma rocha, que se despedia. "Adeus, Francisco", gritava uma mulher de meia idade de cachecol enrolado na cabeça. A chuva teimava em voltar, depois de umas boas horas de tréguas. Mas ninguém parecia querer saber disso.