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Merci, Lisboa! Porto, je t’aime...

Na véspera de o novo Presidente francês tomar posse, uma visita guiada pelo que há de melhor da França em Lisboa e no Porto

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

(Lisboa)

Jornalista

Isabel Paulo

Isabel Paulo

(Porto)

Jornalista

Bistrô de petiscos franceses L´Anisette, com especialidades da região de Nice servidos na Rua de São Bento, em Lisboa

Bistrô de petiscos franceses L´Anisette, com especialidades da região de Nice servidos na Rua de São Bento, em Lisboa

FOTO antónio bernardo

Amália trauteava o fado “Lisboa não sejas francesa, tu és portuguesa, tu és só pra nós”, nos tempos em que se achava que tudo o que vinha de França é que era ‘chique’ e ‘do bom’. Esses tempos já lá vão. A verdade é que Lisboa e o Porto tornaram-se nos últimos anos cidades mais cosmopolitas e mais procuradas por estrangeiros, mantendo a tradição, mas sabendo misturar-se com as culturas e gentes de todo o mundo. Um dos fenómenos mais recentes é o crescente número de franceses a abrirem lojas, pastelarias, restaurantes e outros serviços na capital e na Invicta. Estima-se que vivam atualmente em Portugal cerca de 50 mil franceses. “O clima aqui é muito parecido com o de Nice, tem muitos dias de sol, boa temperatura, a cidade é tranquila, as pessoas são simpáticas. Gosto de viver em Lisboa. Em França está muita confusão.” Quem o diz é Christian Calmeau, que vivia com a mulher, Nataly Renau, e os três filhos em Nice, onde já tinham um restaurante de tapas. Decidiram mudar de país em busca de outra calma que não encontravam em França e apostaram no negócio das tapas francesas e nas especialidades da região de Nice. O espaço não nos leva a engano, remetendo-nos para o imaginário do bistrô francês, decorado em tons de madeira, com croissants e pains au chocolat na montra, e onde Brigitte Bardot e Piaff têm destaque numa das paredes. A salada niçoise (€8,50) é um dos cartões de visita da carta (com cebolas, tomate, ovos, aipo, atum, manjericão, pimentões, azeitonas, rabanete e anchovas), assim como a socca (€3), um primo da panqueca que se serve como entrada, chega ao prato cortado aos pedaços e se come com as mãos, temperado com pimenta. Uma comida tradicionalmente de pescadores. O Pan Bagnat (€7) é outra iguaria a destacar, que no fundo é a salada niçoise servida no pão. Para acompanhar há vinhos franceses e champanhe. O estabelecimento encerra à segunda, e aos fins de semana o brunch é uma tentação por €15 ou €22 (versão buffet).

Foi com a mesma vontade de escapar aos tempos nebulosos franceses que Annie e Jean-Luc decidiram aproveitar a reforma e trocar a Bretanha por Lisboa. Como Jean-Luc é desde há muito conhecedor de vinhos e Annie grande apreciadora, decidiram abrir há três anos no bairro de Campo de Ourique a loja La Petillante (Rua da Infantaria 16, 89), uma garrafeira e loja de produtos gourmet exclusivamente franceses, importados diretamente dos produtores, a preços mais baixos, onde o champanhe é a estrela. Três sugestões: Experimente o champanhe Arnau Marlé (€29), castas de Chardonnay e Pinot Noir; para um vinho tinto diferente dos portugueses escolha o Santenay (€28), um belo vinho da região de onde eles vieram, e ainda o vinho branco “Domaine la Provenquiére” (€7) — encerra à segunda.

Pormenor de La Petillante, garrafeira e loja de produtos gourmet exclusivamente franceses em Portugal, onde o champanhe é a grande estrela.

Pormenor de La Petillante, garrafeira e loja de produtos gourmet exclusivamente franceses em Portugal, onde o champanhe é a grande estrela.

fotografia mário joão

No mesmo bairro encontra a única galeria de arte francesa no país, é a Caroline Pagès (Rua Tenente Ferreira Durão, 12, 1º dto), que tem o nome da sua galerista e proprietária. De portas abertas há 10 anos, dá palco a artistas consagrados e emergentes de França, Portugal e Norte de África. Como é o caso de Mattia Denisse e da portuguesa Manuela Marques. “Faço sempre a pergunta: Porque é que apresento este artista neste contexto, nesta cidade? As obras que apresento na galeria têm sempre uma razão, um propósito.” De momento, é possível visitar além do acervo a exposição “Footnote”, da portuguesa Teresa Henriques (aberto das 15h às 20h, de terça a sábado, por marcação).

Como disse Natália Correia “ó subalimentados do sonho!, a poesia é para comer”. E quem diz a poesia, diz a prosa. Os livros como alimento do espírito e da cabeça. Na “Nouvelle Librairie Française” (Rua Pinheiro Chagas, 50-B) não se encontram apenas títulos de autores franceses, mas sim literatura de todo o mundo, com milhares de títulos traduzidos em francês. A visita é obrigatória para todos aqueles que gostem de ler em francês ou estejam interessados em encontrar títulos que não se encontram no mercado português. Peça ajuda a Frederico Duarte, o simpático dono deste espaço, filho de pai português e mãe francesa, confesso apaixonado por literatura, que o pode guiar para os livros que procura ou surpreender com obras que nem sabia que existiam por cá. Comece a visita pela mesa e estante dos livros de bolso. Os preços são em conta e há histórias que vêm de várias zonas do globo. Há livros de autores turcos, americanos, polacos, russos, húngaros, argelinos e, claro, franceses. Como o “Soumission”, do escritor e ensaísta Michel Houllebecq, que nos remete para Paris futurista, em 2022, com os problemas atuais, a convidar a uma reflexão sobre o convívio e conflito entre culturas e religiões, sobre a relação entre Ocidente e Oriente, sobre a relação entre cidadãos e instituições. Das obras mais atuais e pertinentes perante a atual realidade social francesa. Ao lado dele está o “Le Consul”, do argelino Salim Bachi, que conta a vida do cônsul português Aristides de Sousa Mendes que salvou 30 mil vidas do horror do Holocausto. “Neste caso é um argelino francófono que escreve sobre um português. O que me interessa é apresentar aqui a grande diversidade e riqueza das edições de bolso em França e restante literatura francófona estrangeira. O mundo lusófono e a literatura portuguesa é outra aposta minha.” Destaque para as estantes de livros de ilustração, BD e artes gráficas dos melhores criadores franceses e não só.

Um doce exemplo das variadíssimas iguarias do L’Éclair

Um doce exemplo das variadíssimas iguarias do L’Éclair

fotografia mário joão

Impossível irmos a todas neste texto, mas não podíamos deixar de destacar ainda a pastelaria L’Éclair (Avenida Duque de Ávila, 44) que serve pecado em forma de deliciosos éclairs de todo o género de sabores. Doces e salgados. Este ex-líbris da pastelaria francesa é a aposta de De Matthieu Croiger e João Henriques, os dois lusodescendentes. “O éclair estava a ficar na moda e desafiei o João [pasteleiro de formação] a abrirmos este conceito em Portugal.” Por dia confecionam 500 éclairs e, entre tanta variedade, destaque para o lima/limão, o caramelo manteiga salgada e o babá ao rum. Complicado é ficar apenas por um...

Neste périplo por França sem sair de Portugal vale a pena marcar mesa no restaurante bistrô La Parisienne (Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 18), assim como na Lisboéte (Calçada Marquês de Abrantes, 94) ou no Comptoir Parisien (Rua Vieira Portuense, 44, Belém), todos com o melhor da gastronomia francesa.

Porto, não sejas francês

No Porto, velho aliado inglês, a influência francófona atual é ténue, apesar da nova invasão francesa, agora ordeira, não parar de crescer desde que a cidade foi nomeada, em 2012, Melhor Destino Europeu. A seguir aos espanhóis, são os turistas que mais visitam a Invicta, mas chegam em busca do genuinamente tripeiro. Mesmo assim, aqui e ali vão despontando espaços de ADN gaulês, sobretudo no apetecível sector da gastronomia. A mais recente pâtisserie a abrir portas foi Mademoiselle, do casal Carole e Yannic, que no verão passado trocou a Bretanha natal pela Foz, cansados da tensão de um “país à beira da explosão social”. De visita a Portugal, o Porto foi coup de foudre, tão forte que encerram a sua pastelaria em Vannes para se instalarem na Avenida do Brasil, onde vingam as baguettes e croissants, simples ou recheados com caramelo de manteiga salgada, típico da Bretanha. Éclairs, chaussons au pommes e kouign-amann são outras das iguarias da casa, confecionadas com farinha importada de França, “menos refinados”. Nos salgados, recomendam-se o croque-monsieur, progenitor da francesinha, e as tartes.

Tela “Implosion”, do artista argelino Driss Ouadahi, nascido em Casablanca, Marrocos, exposta na galeria Caroline Pagès

Tela “Implosion”, do artista argelino Driss Ouadahi, nascido em Casablanca, Marrocos, exposta na galeria Caroline Pagès

d.r.

Na vizinha Rua de Gondarém, mora a La Bombarde, creperia artesanal à moda da Bretanha. A fada da casa é Luísa Cabral, que aprendeu os truques das galettes (os crepes salgados), feitas de trigo sarraceno, na terra do marido, o bretão Franck Desormeaux. Ainda na Foz, o parisiense Paul Miranda, filho de emigrantes, gere a mercearia e espaço de degustação Tempero Boémio, recheada de queijos, charcutaria e vinhos franceses. Em Leça da Palmeira, o restaurante O Charme capricha nos jantares de cuisine française, com destaque para o foie gras, magret de pato ou entrecôte de corte francês, pelas mãos de Paul Fardilha e Patricia, ele retornado, ela gaulesa de gema, chefe há 25 anos.

De influência francesa, na Rua Galeria de Paris, assim batizada nos idos de 1900 por ter sido projetada para receber cobertura envidraçada similar às galerias parisienses, popularizou-se o restaurante-bar Galeria de Paris, conhecido pelo filet de dourada e o entrecôte Café de Paris. No Comme Ça, na Rua José Falcão, o forte é a cozinha mediterrânica, com toque de nouvelle cuisine.

Imune ao sinal dos tempos, na moda, Paris é sempre Paris, ideal que levou Luísa e Bárbara a abrir a La Petite Coquette, na trendy Rua Cândido dos Reis, no coração do Porto. Na loja de peças de coleção em segunda mão de alta costura, outrora morada dos armazéns Pompadour, quem pode e não dispensa o luxo aqui encontra acessórios Cartier, malas Céline, carteiras Saint Laurent, relógios Hermès, e peças prêt-à-porter. Para eles, o destino é o Atelier des Créateurs, empresa que a revista francesa “The Good Life” considerou “a mais cara de Portugal”, pertença do espanhol José Gonzalez e do tunisino Gilles Zeiton, ambos naturalizados franceses. Situada na Baixa, produz 35 fatos por dia, feitos à mão e gizados à medida do cliente final. O melhor da moda parisiense no Porto. Oh là là!