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“Mas vais para padre? Como é que és tão feliz com isso?”

Tiago Miranda

Luís ainda não sabe se vai ser padre – por agora frequenta o pré-seminário, onde rapazes da sua idade discutem temas como a sexualidade e recebem orientação espiritual. Na escola ouve bocas, mas tenta ignorar: “Quanto mais pesada fica a cruz, mais gosto dá carregar”

Nem todos os dias na escola são fáceis para Luís. Afinal, este rapaz aloirado e vivaço pode estudar na Escola de Comércio de Lisboa, num curso profissional equivalente ao 11º ano, mas quando sai dali tem outro destino, que nem sempre é compreendido pelos colegas: o pré-seminário, onde discute temas que ficam fora da paróquia e recebe direção espiritual desde dezembro passado.

Falamos de pré-seminário porque Luís, que se não é o mais crente é seguramente o mais praticante da família (vive com a mãe e um irmão), conta ainda 17 anos – idade que não basta para ingressar no seminário, uma decisão que só tomará no 12º ano, quando acabar este “ano de amadurecimento da vocação”: “No pré-seminário aprendo que não passa muito pelo nosso querer, mas pelo de Deus. Aprendemos a querer o que Deus quer, sabendo que é o melhor para nós”.

É lá que, fora da paróquia onde é “muito ativo”, segue “uma dinâmica de encontros mensais de um fim de semana onde se exploram alguns horizontes da fé, vocação e Igreja”. Exemplos? “A sexualidade e o que ela significa”. Pela agenda passam ainda retiros de silêncio anuais que duram de três dias, onde refletem sobre os “chamamentos” que recebem, ou conversas regulares com sacerdotes que servem para lhes dar orientação espiritual – tem sido a parte preferida de Luís porque ali, ao contrário das confissões, há uma explicação sobre, por exemplo, o que é o pecado ou a vocação.

O Papa e as “bocas”

Falador e entusiasmado, Luís acaba de chegar a Fátima num grupo de 60 pessoas, entre colegas e seminaristas. Fizeram os últimos vinte quilómetros, a partir de Porto de Mós, a pé. As dores, esquece-as assim que avista o Santuário: “Vê-lo assim cheio de pessoas é brutal. Eu nunca vi este Papa, estou mesmo emocionado”.

O momento é especial porque a curta idade, a mesma que não chega para o seminário, não lhe permite lembrar-se de ver outro Papa “percebendo o que está a acontecer”. Mas não só: “É um Papa que nos faz olhar diretamente ao interior da outra pessoa, aceitando-a. A parte que me marca mais neste Papa é o facto de, tal como Jesus, ensinar mais pelos gestos do que pela doutrina”. Para mais, Fátima é sempre especial: “Dá para sentir o quentinho no coração que por vezes é crucial para encarar a cruz que somos chamados a carregar no dia-a-dia”.

Se aqui está rodeado de amigos e colegas, nem sempre na escola que frequenta, na zona dos Olivais, se sente compreendido: “É difícil por vezes conciliar uma vida na fé com os meus colegas que a consideram uma perda de tempo.”. É preciso “muita paciência”, mas Luís responde às perguntas que começou a receber diariamente – “Mas vais para padre?” ou “Mas como é que és tão feliz com isso?”. “É preciso respeitar a fé, ou a não fé, das pessoas, porque é uma coisa que não se pressiona. Costumamos dizer que as coisas devem ser feitas com progressividade, não é fé forjada à força”, explica.

Às bocas que ouve na escola tenta não dar muita atenção: “São mesmo coisas de quem nunca parou para pensar”. E admite: “Às vezes é complicado, mas quanto mais pesada fica a cruz, mais gosto de a carregar”.