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Como a tecnologia salvou a indústria da música

Drake em palco no iHeartRadio Music Festival de 2016

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O mercado da música digital passou, pela primeira vez, o da música em formato físico (veja AQUI http://leitor.exameinformatica.pt/#library/exameinformatica/06-05-2017/edicao-18/reportagem/a-playlist-e-quem-mais-ordena) . Ou seja, vendeu-se mais música em 0s e 1s do que em CD (que na génese também está em digital, mas isso é outra conversa). Em Portugal, o mercado da música digital já vale 20 milhões de euros e só não passou a venda de CD porque os portugueses se apaixonaram pelo vinil (pode ver quanto AQUI ), vá-se lá saber porquê.

Lembro-me dos primórdios da música digital e do seu grande imperador, o MP3. Estávamos na década de 90 e serviços como o Napster mostraram às editoras discográficas que o seu reinado absolutista estava prestes a terminar. Os tempos em que os artistas se sujeitavam à vontade dos editores acabava (com exceção, claro, para as grandes estrelas que sempre fizeram, fazem, o que querem) e iniciava-se um ciclo em que a gravação de um disco serve, apenas, para justificar a digressão que se lhe sucede.

Nesses primeiros tempos, a música circulou livremente (e ilegalmente) pela Internet. Utilizadores partilhavam, impunemente, os discos que tinham comprado, numa vasta rede que contribuía, em última análise, para uma violenta sangria na venda de discos. Se é verdade que os discos ainda tinham alguma saída, não era menos verdade que a maioria deixava de os comprar porque os podia descarregar à borla. Esta pirataria não mais terminou… até hoje.

No entanto, as editoras discográficas sobreviveram e voltam a ter razões para sorrir. Não que tenham feito muito para mudar a sua situação (além da pressão que fizeram, e bem, sobre as autoridades que conseguem controlar o roubo digital de obras protegidas pelo direito de autor). Quem lhe estendeu a mão foi a tecnologia. Como na natureza, foi preciso usar o veneno que estava a matar o mercado da música para poder fabricar o seu antídoto. Neste caso, foram empresas como a Apple, a Google, a Microsoft e a Spotify as responsáveis por perceber como tornar a Internet numa loja de discos legal – daquelas em que adoramos passar os dias a degustar música à espera de descobrir o achado que nos vai encher as medidas e que vamos poder partilhar com os amigos: “Já ouviste isto? Tens de ouvir!”

Depois de um modelo de negócio em que o grande trunfo era a comercialização do download (pagar para descarregar e ter o privilégio de poder guardar a música em dispositivos), o mercado passou para a opção streaming. Ou seja, hoje os utilizadores preferem pagar para ouvir. Uma transformação muito motivada pelas novas gerações (a Y e a Z), que privilegiam a experiência em detrimento da posse. Em 2016, as receitas provenientes do streaming cresceram 60% (segundo a mesma fonte citada no artigo já partilhado) e haverá 100 milhões de subscritores de serviços deste tipo. Alguns pagam na condição de receber publicidade.

Outros optam por pagar uma mensalidade. É o meu caso. O que me leva a pagar por aquilo que poderia ter à borla (ouvindo a tal publicidade)? A qualidade e a personalização.
A música digital trouxe muitos benefícios. Sendo, para mim, a desmaterialização do suporte físico e a qualidade do som as mais evidentes. Sim, não sou daqueles que embarcam no regresso do vinil. Hoje, ter um disco daquele tamanho, com aquela fragilidade e todas as condicionantes de utilização (guardar bem os discos, limpá-los, mudar de lado para continuar a ouvir, ter cuidado com a agulha, ouvir a “batata frita”… enfim!) é, para mim, totalmente anacrónico - e não vejo, mesmo, qualquer vantagem nesse suporte físico (até a qualidade de som, superior, não me convence). Nem no CD, quanto mais no “monstruoso” vinil.

No entanto, o que me leva a pagar uma mensalidade para ouvir música é a qualidade de som que o serviço em causa me garante e a possibilidade de guardar as minhas playlists para ouvir em qualquer dispositivo sem ser necessário ter uma ligação de dados ativa (ou seja, posso descarregá-los para o telefone, por exemplo).

Quanto à qualidade, é verdade que o vinil é excelente, mas posso obter essa experiência a partir de formatos de áudio disponíveis em alguns serviços de música que disponibilizam os ficheiros sem compressão. E, sejamos francos, depois de décadas a ouvir MP3 (que tem uma qualidade muito baixa), há toda uma geração que não consegue discernir o que é áudio com qualidade, de “coisas” onde se ouve uma amálgama de sons. Não consegue, nem percebe a importância. Porque há muitas variáveis a ter em conta. O tipo de música que se está a ouvir é determinante. Tenho acesso a muitas demonstrações de sistemas de áudio de topo. Nunca, mas nunca, ouvi uma faixa de eletrónica ou uma “popalhada”. Invariavelmente, é o jazz, a ópera, a música acústica e os grandes concertos ao vivo (lá estão quase sempre os Pink Floyd)… que servem de banda sonora para estas experiências auditivas. E são grandes experiências! Daquelas em que temos tanta espacialidade no som que parece que os músicos estão ali, na sala de audição. Esta é a qualidade de som que os melómanos almejam. Mas estes são o nicho. Para a grande maioria, o que interessa é ouvir as faixas - a qualidade não é a prioridade. Tem dúvidas? Quantas pessoas conhece que ouvem música a partir do YouTube? Exato!

O que interessa reter é que a indústria da música encontrou um novo caminho sob a batuta da tecnologia.