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Peregrinos em Fátima: “Estou num hotel de cinco estrelas ao ar livre”

Luis Barra

No Santuário de Fátima, não há chuva pesada que demova os peregrinos que chegaram com antecedência e guardam lugar – noite e dia – para verem o Papa bem de perto. Armados de tudo um pouco, de cabeças de leitão a roupa impermeável, mantêm a boa disposição: “Somos todos apaixonados pelo Papa Francisco”

A visão é quase digna de um qualquer festival de verão, não fosse a presença imponente do novo presbitério, ali mesmo em frente. O kit do peregrino que quer reservar lugar nas primeiras filas, para seguir as cerimónias que vão marcar a visita do Papa Francisco bem de perto, varia: de guarda-chuvas a sacos de plástico que tapam as cabeças, sacos-cama improvisados ou coletes refletores usados como bandeiras (“peregrinos de Gondomar”, escreveu um grupo ausente mas otimista no tecido fluorescente), tudo serve para facilitar as horas ou os dias que vão passar à chuva e ao frio.

Nada que assuste uma veterana como Isaura Oliveira, de 63 anos, sentada num banco de campismo logo junto às primeiras grades e que conserva a boa disposição apesar dos primeiros pingos de chuva pesada. Afinal, esta não está nem perto de ser a sua estreia – já fez o caminho que liga Espinho, de onde vem, a Fátima por 40 vezes, com grupos diferentes.

Desta vez, são 318 os peregrinos que chegam de Espinho, e que como ela se distribuem como podem nos alojamentos improvisados. “Eu estou numa barraquinha de campismo, onde só caibo eu e as minhas malas”, graceja. “Se a minha vizinha deitar um olho às minhas coisas, ainda vou dormir à barraquinha esta noite. Senão, durmo já aqui”.

Luis Barra

A vizinha é Maria Alice, também de 63 anos, vinda da Nazaré, e logo ao lado está Antónia, de 50 anos, que é angolana e vive em Cascais. As três parecem formar um grupo, mas esclarecem que só se conheceram já no Santuário, todas adiantadas para guardar lugar. Quando lhe perguntamos onde está alojada, Maria Alice dá uma gargalhada bem disposta. “Estou num hotel de cinco estrelas ao ar livre”, brinca. O “hotel” está bem recheado, com desde línguas de gato a papel higiénico a encher a despensa que é, na verdade, uma mochila.

“Até estou arrepiada”, admite Isaura, antevendo a visão próxima que vai ter do Papa já esta sexta-feira. “É que ele é um Papa diferente. Está do lado de toda a gente”. As comparsas entram na conversa: “Ele não é vaidoso, é simples, não anda com grandes aparatos. Espero que mude muitas coisas…”, declara Maria Alice. “Já está a mudar”, assegura Isaura. “Relativamente à orientação sexual das pessoas… Na Igreja não podem fazer essas diferenças. Somos todos humanos”. Quando uma das companheiras aponta que “nem todos os padres” seguem as palavras do Papa, responde prontamente: “Então não é o Vaticano que manda?”.

Cabeças de leitão, dormidas improvisadas e conversas sérias

Ali perto, outros grupos começam a formar-se, por força das horas de espera partilhadas, suportando as gotas de chuva grossa e o vento. Ao lado de um homem solitário que dorme sentado, encostado a um guarda-chuva mas bem prevenido – aos pés atou dois sacos de plástico, para não se molhar – duas vizinhas que vieram de Vizela sem se conheceram montaram, por coincidência, os acampamentos no mesmo lugar.

Luis Barra

“Estou alojada no meu carro”, explica Ana Oliveira, de 45 anos, uma das vizinhas de Vizela. “Mas agora já não durmo mais no carro. Fico aqui até sábado”. Enquanto conversa, alguém exclama com alegria: “Olhem! Hoje o Pingo Doce está aberto até à meia-noite, amanhã fica até às três da manhã!”.

O folheto passa de mão em mão enquanto Glória, de 50 anos, nos conta que já está bem aprovisionada: “Tenho uma cabeça de leitão, um tupperware com sopa, presunto e chouriço na mochila”. Só lhe falta um sítio para descansar, ao fim das horas em pé: “Não tenho onde dormir. Vai ser aqui mesmo, onde estamos, sentada ou em pé”.

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Fernanda e Fátima, de 55 e 58 anos, estão por agora sentadas, mas só enquanto os verdadeiros donos daquelas cadeiras não voltarem: “O nosso alojamento está atrás de nós”. São sacos-cama e sacos de plástico. “As cadeiras onde estamos nem sequer são nossas”.

A curiosidade fá-las rir, numa boa disposição que parece comum às pessoas que já levam muitas horas de espera mas anteveem com alegria a chegada do Papa. “Ele era aquilo de que a Igreja precisava agora. É revolucionário, mas por isso também é muito aceite pelos jovens. Eu acho que ele podia deixar os padres casar-se, até porque, se calhar, o facto de não poderem afasta jovens que até têm vocação da Igreja”.

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Luis Barra

Antes de abandonarmos as fileiras de peregrinos teimosos, a conversa das recém-amigas Maria Alice, Antónia e Isaura chama a atenção. Também elas afirmam convictamente que o que falta à Igreja Católica é modernizar-se – e deixar que os padres se casem. “Deviam ter essa liberdade de escolha. Quem quiser casa-se, quem não quiser não se casa”. Até porque, garantem com indignação, nos sítios onde vivem bem conhecem os vários casos de padres que já foram pais…

“Tenho a oração e a comida, não preciso de mais nada”

Enquanto os peregrinos se juntam para garantir uma melhor visão do Papa quando este chegar ao Santuário, pelas 18h15 desta sexta-feira, também o Santuário se encontra em preparações: dos dois lados da Basílica estão colocadas as imagens que representam os dois pastorinhos, Francisco e Jacinta, que serão canonizados na manhã de sábado. Os ecrãs gigantes já se distribuem pelo recinto, para os peregrinos que chegarem mais tarde que Glória, Maria Alice, Antónia e tantos outros, e quiserem ver o Papa mais de longe.

Luis Barra

Espera-se cerca de um milhão de pessoas para a visita do Papa a Fátima, que vai durar pouco menos de 24 horas (do fim da tarde de sexta-feira ao início da tarde de sábado). Os que já estão no recinto suportam a chuva pesada sem desistir – Aurora Henriques, que veio do Montijo com o filho, já dormiu esta noite num saco- cama apesar das previsões de chuva, abrigando-se também na Capelinha das Aparições. “Tenho a oração e a comida, não preciso de mais nada”, explica simplesmente. “Somos todos apaixonados pelo Papa”.